1.3. İŞ-AİLE ÇATIŞMASININ NEDENLERİ
1.3.1. Bireysel Nedenler
Como disse anteriormente, a Compagnia Laboratorio di Pontedera em 2009, ano que acompanhei parte do processo de criação do espetáculo
165 era composta por sete atores jovens que realizavam o espetáculo Amleto -
Nella Carne Il Silenzio, eram eles: Alessandro Porcu, Andrea Fiorentini, Debora
Matiello, Francesco Puleo, Luigi Petrolini, Serena Gatti e Tazio Torrini. O espetáculo contou com a assistência de direção de Savino Paparella, ator que desenvolveu juntamente com Tazio Torrini, o espetáculo seguinte, Mutando
Riposa. Ambos os espetáculos contaram com a direção de Roberto Bacci e
dramaturgia de Stefano Geraci.
Os atores que realizaram os dois espetáculos são de diferentes regiões da Itália, mas se encontram para processos de criação, ensaios, cursos, laboratórios e seminários. O que permitiu que isso tivesse acontecido é que a Fondazione Pontedera Teatro possui um alojamento onde os atores que não moram na cidade de Pontedera podem permanecer o tempo que for necessário.
A Compagnia Laboratorio surgiu em 1986, sob direção de Roberto Bacci, e tem vinte e seis anos de história. A análise que realizo agora é, portanto, um recorte muito específico dentro desse período. É específico porque, em primeiro lugar, quando trato de processos de criação, refiro-me com muito mais propriedade à criação de Mutando Riposa. Em segundo lugar porque, mesmo nesse processo, não estive presente desde seu início. Assim, os vídeos dos primeiros seminários e experimentos, as entrevistas, questionários e conversas com os atores foram as fontes que me permitiram discorrer sobre como vejo a Compagnia Laboratorio nesse momento (2009).
Mediada por essas especificidades, entendo que a Compagnia
Laboratorio hoje é um espaço onde diretor e atores compreendem o
experimento artístico como prática pedagógica. Portanto, tudo aquilo que
favorece o crescimento do ator é permitido, inclusive “o erro é uma ferramenta
de uma aprendizagem ampla”. Isso acontece porque o mais importante “é como se faz e não necessariamente o que se faz”.
Os processos de criação passam a ser mais interessantes que o próprio espetáculo, pois são compreendidos como prática pedagógica em si, ou
166
diretor, por sua vez, “assiste e observa tranquilamente”, como o espectador de
profissão descrito por Grotowski.
Observo que Roberto Bacci confia nas potencialidades do ator, também porque sabe que neste modo de criar não existe um caminho certo e outro errado, mas sim um caminho. Vejo que Roberto Bacci não sente a necessidade de impor o seu ponto de vista aos demais, mas constrói a sua visão do espetáculo a partir da visão do ator e daquilo que eles lhe despertam.
A imagem do rizoma elucida bem esse processo de criação que tal qual a planta (rizoma) não possui uma raiz central mais importante que as demais, mas cresce, multiplica-se e se regenera a partir dos textos, dos símbolos encontrados pelos atores e trazidos pelo diretor; pelos microtemas e microhistórias de cada um dos envolvidos no processo. Ou seja, esses elementos são as perguntas que movem, aquilo que implica cada um dos artistas no processo de criação. A esse conglomerado de símbolos, pequenas histórias, memórias, perguntas que suscitam o ator nomeei de “Perguntas
Fundamentais”, de acordo com uma terminologia de Roberto Bacci.
Percebo que em meio esta multiplicidade de subtemas que conduzem o processo de criação, muitas vezes ocorre, conforme relatou o ator
Torrini “do ator explicar ao diretor a natureza daquilo que fez”. Quando sucede
o contrário, porém, e o ator solicita do diretor um retorno o diretor resiste à sedução de dar uma resposta, apontar um caminho. Roberto Bacci se restringe
a observar se o ator “buscou” ou “não buscou” e se aquilo que o ator propõe “funciona”, estabelece contato, ou “não funciona”, permanecendo somente
dentro do ator. A partir daí, o ator busca o que falta e o que é preciso melhorar, continuamente.
Roberto Bacci “afina e limpa as propostas do ator, ele é hábil em criar ambientes, o esqueleto em que o trabalho do ator se desenvolve”, mas ele
nega-se a instruir. Não há razão para a instrução, pois o que o ator busca nesse processo é justamente aprender a aprender, é a autonomia.
Os atores da Compagnia Laboratorio são empíricos, improvisam, trabalham sobre tentativa e erro, utilizam-se da intuição e da repetição. As
167
de risco” compreendem elementos simbólicos e perguntas fundamentais e são
para ele uma ferramenta de superação. Ele parece seguir as cinco lições da emancipação trazidas por Jacques Rancière no livro O mestre ignorante. São elas: a repetição, o envolvimento, a veracidade, a crença e a poética.
A repetição é ver e comparar o que se vê, “ver novamente e repetir o exercício de ver”. O envolvimento é dar significação, ou seja, refazer intencionalmente o que o acaso produziu. A veracidade é “a relação com a
verdade que coloca o sujeito em seu caminho, em sua órbita de pesquisador”. O ator, nesse contexto, busca não fingir para si mesmo, ao contrário, busca fugir do conforto e ir ao extremo de suas possibilidades, pois sabe que esse processo exige dele, antes de mais nada, veracidade consigo.
A última das lições é a crença na própria potência: “o ser racional é o ser que conhece a sua potência e que jamais mente a este respeito”, o trabalho
surge, assim, do seu mais íntimo e, portanto, é repleto de uma verdade. Os atores da Compagnia Laboratorio sentem-se evocadores de outra dimensão,
interventores do mundo cotidiano e corporificadores de uma “essência superior”
porque, ao meu ver, sentem-se capazes de comunicar poeticamente a sua verdade. Não uma verdade acabada, mas uma verdade incompleta como o símbolo que requer do público o encontro com suas próprias perguntas fundamentais.
As palavras dos atores da Compagnia Laboratorio sobre o que é um ator ideal, um ator generoso e o motivo pelo qual escolheram ser atores soam quase religiosas. Noções como humildade, renúncia a si mesmo, instrumento de algo, doar-se, oferecer-se, fazer intuir a presença do divino, mediar entre os homens o sentido e os significados possíveis de transformação, evocação, beiram um linguajar cristão.
Mas, é menos no linguajar e mais na crença, que observo que estes atores buscam nas potencialidades da história subverter a própria ordem, com processos de criação de liberdade. A própria figura de Roberto Bacci assume uma importância fundamental, ele é mais do que o mantenedor das zonas de risco do ator: é o guardião de um espaço de liberdade e resistência, assim como os atores também o são.
168 Vejo a Compagnia Laboratorio como um lugar de obstinação de uma prática de liberdade sobre a corda bamba. Ela não é um grupo, mas os atores reconhecem nela valores como união, igualdade e liberdade. Os envolvidos no processo não são pagos igualitariamente, mas os processos de criação buscam igualdade nas relações. Os atores são responsáveis pela qualidade do processo de criação e do espetáculo, mas não tem autonomia no que diz respeito à organização e à produção da Compagnia que está atrelada à figura de Roberto Bacci e da Fondazione Pontedera Teatro.
Essas tensões constroem um lugar de suspensão onde ocorrem os processos criativos e, assim, são também elementos de risco. Os atores são
sujeitos capazes de transitar entre o “mundo dos vivos” e o “mundo dos mortos”, entre uma sociedade cristã e ateia, entre os interesses de uma
instituição que se tornou grande e os antigos valores de liberdade de um
Picollo Teatro, entre uma cidade de província e uma capital do teatro
mundialmente conhecida, entre Brasil e Itália, entre ser nativo e tornar-se estrangeiro.
169