2.2 İLGİLİ ARAŞTIRMALAR
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Na política dos sólidos, é importante reforçar, onde for, o “enquadramento” da arte e conservá-la atada a um certo paradigma de produção de identidades claras, onde for.
Arte não é política devido às mensagens e sentimentos que ela carrega acerca do estado das questões sociais e políticas. Ela não é política devido à forma com que ela representa estruturas sociais. Ela é política ao passo que ela enquadra um espaço- tempo sensorial específico, ao passo que redefine nesse estágio o poder do discurso ou as coordenadas da percepção, desloca os lugares do ator e do espectador, etc.59
A estética possuiria três políticas “dar forma à novas formas de vida, preservar o poder da heterogeneidade sensível e permutar os signos da arte com os signos da vida”60.
Dar forma; preservar o poder; permutar os signos: a política da estética seria, portanto, a da pura ontologia da existência. Dir-se-ia que a arte não cessa de produzir a existência que lhe interessa - tal qual um útero, que preserva a heterogeneidade genética, dá forma ao bebê durante a gestação e, logo ao nascer, lhe atribui um nome e um lar - isto é, um ponto fixo nas relações culturais.
[intervalo de leitura]
Abriu a geografia para estudar a lição; mas não conseguu aprender os nomes dos lugares na América. Ainda por cima todos eles eram lugares diferentes que tinham nomes diferentes. Estavam todos em diferentes países, os países estavam nos continentes, os continentes estavam no mundo e o mundo estava no universo. Virou a aba da geografia e olho o que tinha escrito, ele próprio, do lado de dentro: o seu nome e onde estava:
Stephen Dedalus / Classe Elementar / Colégio Clonglowes Wood / Sallins / Condado de Kildare / Irlanda / Europa / Mundo / Universo.
Isso com a sua caligrafia; e Fleming, certa noite, por um bolinho, tinha escrito na página oposta. Stephen Dedalus é o meu nome,
Irlanda é o meu pais,
Em Clongowes tenho a minha residência, Mas só no céu eu espero ser feliz.
Leu os versos de trás para diante mas já não eram mais poesia. Depois leu a folha antes do frontispício vindo de baixo para cima até chegar ao seu próprio nome. Sim, era ele. E tornou a ler a página até embaixo, outra vez. Que é que haveria depois do universo? Nada. (...) Tentou imaginar que enorme pensamento deveria ser esse, mas só conseguiu pensar em Deus. Deus era o nome de Deus, assim
59 RANCIÈRE, Jacques. Aesthetics and Politics: Rethinking the Link. Berkeley, 2002. Seminário na University of California.
como o nome dele era Stephen.61
[fim do intervalo]
Aliás, será mesmo pertinente a metáfora de um útero? Ou seria melhor falar de uma prancheta de projetos?
Em 1897 Mallarmé escreveu seu Um Lance de Dados e ele quis que a disposição das linhas e tamanhos dos caracteres da página impressa correspondessem à forma da ideia. Alguns anos mais tarde, Peter Behrens desenhou lâmpadas e chaleiras, marcas registradas da German General Company of Electricity. O que ambos tem em comum? Eu diria: uma certa ideia de design. (...) Ele [Behrens] considera a si próprio um artista na medida em que tenta criar uma cultura da vida cotidiana, ajustando o progresso da produção indústrial ao design artístico ao invés da rotina de comércio de consumo da pequena-burguesia. Seus tipos são símbolos da vida cotidiana. E também o são os tipos de Mallarmé. São parte de uma tentativa de construir, acima da economia monetária, um nível de economia simbólica (...) Por mais distantes que possam parecer um poeta simbolista e um engenheiro funcionalista, eles compartilham uma de formas de arte como formas de educação coletivas. Ambas a produção indústrial e a criação artística estão comprometidas a criar algo além do que elas são, a criar não apenas objetos mas um novo sensorium, uma nova partição do perceptível. Não há conflito entre pureza e politização.
É na prancheta do poeta ou do engenheiro que nasce o espectador.
Como, então, haveria de adentrar um espectador concreto, singular - dir-se-ia, já nascido ou já desenhado (designed) - no território da estética? A menos que você seja um poeta ou um engenheiro, não parece haver outra saída senão: ler a poesia e comprar a chaleira. Resignar-se a ver dançar, na sua frente, as formas das chaleiras e as formas da poesia. Mas você mesmo não está dançando, está?
Quer dizer: ou você se torna capaz de produzir arte ou qualquer coisa, entretanto, limitando-se a marcar, nesse campo, a relação entre coisas que você estabelece e a marca individual de sua tradução; ou você se limita a produzir uma exegese interpretativa da unidade desse produto-livro, quando muito, se permite passear entre diversas propostas pedagógicas de artistas e/ou engenheiros “ignorantes”62. A posição do artista-engenheiro, ou
61 JOYCE, James. Retrato de Um Artista Quando Jovem. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 2004 p.19 62 “Animais falantes são animais distantes que tentam se comunicar através da floresta de signos. É este senso de distância que o “mestre ignorante” – o mestre que ignora a desigualdade – está ensinando. A distância não é um mal que deve ser abolido. É a condição normal da comunicação. Não é uma lacuna que demanda um especialista na arte de suprimi-la. A distância que a pessoa “ignorante” precisa atravessar não é a lacuna entre sua ignorância e o conhecimento do mestre; é a distância entre o que ela já conhece e o que ela ainda não conhece, mas pode aprender pelo mesmo processo. Para ajudar seu aluno a atravessar esta distância, o “mestre ignorante” não precisa ser ignorante. Ele só precisa dissociar seu conhecimento do seu domínio.” (RANCIÈRE, op. cit.)
a base das coisas que ele produz, por sua vez, permanecem absolutamente intocadas. Vê-se bem, enfim, o que é um espectador “comum” - aquele que faltara ao modernismo de Brecht ou Artaud -: são meros “símbolos da vida cotidiana”, isto é, aquilo que, numa sociedade, é passível de ser calculado e manipulado livremente pelo produtor; aquilo que aceita ser gerado, passivamente, pela ação produtiva.
Já em 1969, Lygia Clark escrevia:
No próprio momento em que digere o objeto, o artista é digerido pela sociedade que já encontrou para ele um título e uma ocupação burocrática: ele será o engenheiro dos lazeres do futuro, atividade que em nada afeta o equilíbrio das estruturas sociais63.
Uma intuição profunda acerca dos desdobramentos que a sociedade capitalista e de controle não cessa de nos confrontar hoje. Se o artista - e alguns observadores - digerem o objeto no um oceano base mais profundo, a vida divertida, onde se gostaria então de inserir-se; ao mesmo tempo digere-lhe a sociedade, o Sistema, que extrai, das formas e traços provisórios que o artista deixa para trás, uma apologia da existência individual passível de ser julgada.
Mas o sistema não devora apenas o artista; o artista é um acessório nos seus prazeres deglutidores. Para ficarmos num único exemplo, tomemos, por exemplo, a Universidade Draper de Heróis - escola de administração e empreendedorismo fundada por Tim Draper, um grande investidor americano, alegadamente inspirada pelas narrativas de Harry Potter e a escola de Hogwarts e a academia para mutantes do X-Men64. O slogan é claro: “Experimente o vale do silício. Mude o mundo.”65. A pedagogia, cristalina: “Os alunos vem com a faísca, nós apenas a inflamamos (...) O que nós fazemos aqui é bastante diferente do que se vê em qualquer escola por aí. Nós somos a única no planeta que ensina o futuro ao invés de história.”66. O objetivo, límpido: “Eu irei promover liberdade a qualquer custo!”67, repetem
os alunos no primeiro dia de aula. “Super-heróis são melhores que heróis reais porque são heróis imaginários. Quando você aprende a imaginar para além do que conhece, tudo se torna possível”68. Em resumo: a Universidade Draper de Heróis não quer que você aprenda
economia; ela quer que você entre em contato com as pessoas que manipulam a economia (aquelas que não confundem o que sabem com o meio); ela quer que você extraia desses pequenos fragmentos o futuro, que só poderá surgir na medida em que você imagine, que você traduza todo o conhecimento numa coisa nova; ela quer que você tombe o mundo ao
63 CLARK. Cit. por ROLNIK, Suely. Memória do Corpo Contamina Museu. European Institute For Progressive Cultural Policies, 01/2007. Disponível em: http://eipcp.net/transversal/0507/rolnik/pt/. Acesso em: 01/09/2014.
64 CARROLL, Rory. Tim Draper: The Bitcoin Auction Winner Who Wants to Split California in Six. The Guardian, 04/04/2014. Disponível em: http://www.theguardian.com/technology/2014/jul/04/tim-draper-bitcoin-auction-sillicon- valley-california. Acesso em: 01/09/2014. [Tradução do autor]
65 UNIVERSITY Draper of Heroes. Disponível em: http://draperuniversity.com/. Acesso em: 01/09/2014. [Tradução do autor]
66 CARROLL, op.cit. [Tradução do autor] 67 Ibidem.
indivíduo! A Universidade Draper, sem nenhum prejuízo de sentido, é efetivamente uma pedagogia emancipadora gerida por mestres ignorantes.69