Era uma questão botânica. Aquele monte de escombros estava nu e calvo, pedra bruta, paredes recém-quebradas empilhadas desordenadamente, e ferros sobressaindo, quase sem um traço de ferrugem: em lugar algum crescia capim, enquanto em outros locais já cresciam árvores, graciosas arvorezinhas em dormitórios e cozinhas.5
Assim descrevera Hans, o narrador O Anjo Silencioso de Heinrich Böll, o espaço dias após um bombardeio aéreo, durante a Segunda Guerra Mundial - como um fenômeno de proliferação da vida natural.
O ressurgimento da fauna e da flora já não comovia; pelo contrário, a absoluta nudez do fenômeno afrontava, e ainda afronta. Nada aí parece nos dizer respeito - e se então reaparecesse ali, subitamente, um crocodilo, ninguém ousaria dizer que se trata do escritor em mais um passeio de campo. Um crocodilo, se repousasse o corpo - léxico - naquele rio, estaria repousando em nada mais que fósforo, enxofre e monóxido de carbono - as profundezas escuras e tranquilas do rio já não espelhavam o sofrimento humano, naquele tempo, exposto a descoberto no espesso
sangue escuro, que forma coágulos pegajosos e jorra entre espasmos pela boca da moribunda, se derrama sobre seus seios, manchando o lençol e escorrendo pela borda da cama até pingar no chão e ali formar uma poça que cresce com rapidez, esse sangue retinto, muito preto, como Böll expressamente salienta.67.
A “graciosa arvorezinha” tornara-se então, aos nossos olhos entremeio aos escombros da ciência, “raros documentos da vida em meio a destruição”8. Ali, a árvore tornara-se, então,
uma questão botânica; mas também, outro fato puramente biológico era seu aspecto gracioso, que naquele instante, aparecia como um fenômeno autônomo, sem qualquer reverberação no espírito humano, incapaz de sentir-se, acompanhando os movimentos da flora, igualmente em estado de graça - como sentiriam os antigos após o maremoto. A bomba também havia explodido uma intimidade entre a vida da biosfera e a outra, da noosfera9 - a vida havia
migrado para a história natural.
“Como deveria ter começado uma história natural da destruição?”10Assim pergunta
5 BETERELI, Carolina. História Natural da Destruição: Narração e Informação em W.G. Sebald. Curitiba, 16/09/ 2014. Comunicação proferida no 15º congresso da Associação Latino-americana de Estudos Germanísticos (ALEG). 6 Ibidem.
7 SEBALD, W. G., cit. por BETERELI, op.cit. 8 Ibidem.
9 Do grego νους (nous: “mente”) - “esfera do pensamento humano”. O termo foi concebido pelo geógrafo russo Vladimir Vernadsky, cuja teoria será analisada mais detalhadamente na parte dedicada ao estudo de Através e as meninas. 10 BETERELI, op. cit.
o escritor W.G. Sebald no seu livro Guerra Aérea e Literatura, onde procura refletir sobre os problemas narrativos e, em última instância, perceptivos, na relação possível entre arte, bombardeio e observação. Em seu ensaio “História Natural da Destruição: Narração e Informação em W.G. Sebald”, Carolina Betereli aponta para a necessidade, em Sebald, em armar a questão da percepção da catástrofe no espaço:
Para Sebald, o problema espacial não diz respeito tão somente àqueles que presenciaram de frente, de viés ou de longe os ataques aéreos, mas também aqueles que não estavam nem podiam estar lá para ver – assim como ele próprio. O evento em si – o bombardeamento aéreo de bairros ou cidades inteiras – fornece limites precisos à percepção humana.11
Através do espaço, é possível perceber não apenas a natureza absolutamente fragmentária das respostas perceptivas ao evento do bombardeio; como também, notar francas divergências entre os fragmentos, tornando impossível vislumbrar uma correlação direta.
Por exemplo, aquele que lograra escapar vivo da frontalidade dos ataques aéreos restara, quando não literalmente cego, certamente vítima de amnésia. Já aqueles que, próximos demais, porém, distantes o suficientes para conservarem certa porção do sensível, só lograram, entretanto, observar o fenômeno de desaparição completa de um bairro vizinho, por exemplo, de maneira enviesada. E quando podiam ser vistos, logo após os ataques,
tomando café nas varandas e assando bolos. (...) conta-se de uma mulher limpando as janelas de sua casa, que permanecera intacta em meio aos escombros; e de crianças limpando e arando o que, horas atrás, teria sido um belo jardim12,
a sensação que se tem é a de que a esfera do sentido havia perdido qualquer conexão direta com a realidade geográfica, restando apenas, a cada um, o recurso ao bom senso preservado autônomo, que “é o que resta quando já não é mais possível preservar, sequer, os sentidos”13.
Já a alguns quilômetros de distância, podia-se ver - e o que se via era outra coisa, bastante diferente: um espetáculo de cores irrepresentável... assim descrevia o Sr. Harald Hollestein:
o amarelo e o vermelho das chamas se misturavam sobre o cenário do escuro céu noturno para depois se separarem novamente.[...]nunca vi, nem mais tarde, um amarelo tão limpo e luminoso, um vermelho tão vibrante, um laranja tão irradiante. [...]Nunca mais voltei a ver cores tão saturadas e luminosas, nem em pinturas. E ainda que eu mesmo tivesse me tornado um pintor, [...] teria que passar minha vida
11 Ibidem. 12 Ibidem. 13 Ibidem.
inteira atrás dessas cores puras.14
E mesmo aquele que se encontre a distância no tempo, quando já não há mais risco algum para as faculdades sensoriais, como é o caso do próprio Sebald, nascido em 1944, haverá sempre o desafio da imaginação. E se ele quiser apurar o que de fato restou para contar a história, esse não cessará de se surpreender com um novo fenômeno: a proliferação de signos de toda sorte que sumariamente ignoram os limites impostos à percepção causados pela bomba.
Inapreensível em sua extrema contingência, a realidade da destruição total esmorece atrás de fórmulas fixas como “um pasto de chamas’, “noite fatídica’, “labaredas ao céu”, “o diabo estava à solta”, “o inferno diante de nossos olhos”, “o terrível destino das cidades alemãs” e tantas outras parecidas. Sua função é esconder e neutralizar os acontecimentos que extrapolam a capacidade de compreensão.15
Em muitos casos, porém, dir-se-ia que não se trata apenas de um recurso a uma defesa natural da consciência ante as dificuldades enfrentadas. Para manter intacta as energias construtivas do capitalismo - já expresso pelo desejo de “reconstruir seu país ainda maior e mais poderoso do que fora no passado”16 - nota-se uma busca obstinada pela supressão de todo ponto vazio,
dessarte, de uma própria possibilidade de intelecção do evento:
Entrementes já lendária e, de certo ponto de vista, de fato admirável, a reconstrução alemã equivaleu, após as devastações causadas pelos inimigos de guerra, a uma segunda aniquilação, realizada em fases sucessivas, de sua própria história anterior.17 Sebald fala, então, da necessidade de se conceber um “olhar sinótico, artificial” como uma tentativa de adentrar perímetro inobservável da bomba, e complementar, assim, o que forçosamente faltará sempre em toda descrição humana do evento...
(...) solo e açoitou as pessoas em fuga como se fossem tochas vivas. Por trás de fachadas que desmoronavam, as chamas atingiam a altura dos prédios, rolando pelas ruas como uma torrente numa velocidade superior a 150 km/h, e rodopiando em ritmos bizarros pelos espaços abertos, como cilindros de fogo. Em alguns canais a água incandescia. Nos vagões dos bondes, as janelas de vidro derretiam; o estoque de açúcar fervia nos porões das confeitarias. Os que fugiam de seus abrigos caíam
14 SEBALD, W. G., cit. por BETERELI, op. cit.
15 SEBALD, W. G. Guerra Aérea e Literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.30. 16 Ibidem, p.16.
em contorções grotescas no asfalto dissolvido, que rompia em volumosas bolhas18. E ao contrário daquele que, outrora, ao se deparar com um campo de guerra, julgara estar diante de um “mar de sangue” no qual, refletidas a “lua e a estrela”, previa-se a fundação de um povo novo19; um homem que perambulasse pela “zona da morte” criada pela bomba não
poderia, senão, recorrer ao mesmo olho científico para reconhecer, nas deformadas formas de cores diversas, um indício qualquer de corpo humano...
Em alguns ainda tremeluziam as chamas azuladas do fósforo, outros, assados, apresentavam uma cor marrom ou púrpura e tinham minguado a um terço de seu tamanho natural. Jaziam encolhidos nas poças de sua própria gordura já parcialmente resfriada. Em agosto, depois do arrefecimento dos escombros, quando as brigadas de prisioneiros e internos dos campos de concentração puderam dar início aos trabalhos de desobstrução no interior da zona da morte - decretada área interditada logo nos dias seguintes ao ataque -, foram encontradas pessoas que, arrebatadas pelo monóxido de carbono, ainda se encontravam sentadas à mesa ou apoiadas na parede; em outros lugares, havia pedaços de carne e ossos ou montes inteiros de corpos escaldados pela água fervente lançada pelas caldeiras que explodiram.20 Um limite para observação:
“Até onde se pode enxergar” é a expressão que marca a distância entre o observador
e o núcleo da catástrofe. A princípio, esse núcleo é um ponto vazio, inobservável; um lugar em que ninguém pode estar. Diante dele, mesmo o olhar artificial fica a dever.21 Tal é o desafio espacial de se observar uma catástrofe gerada pela ciência - Até onde se pode perceber... Se dizia, então, que a diferença da Segunda Guerra Mundial das demais era que o front não estava nos campos de batalha, no embate entre homens viris; mas se tornara “a porta de casa”. Ora, com a guerra aérea, podemos dizer que o limite do front não era, exatamente, o limite da casa, mas o espaço natural integral, isto é, o próprio céu e a terra - pois somente uma visão escatológica poderia dar conta para aquele que vivia debaixo da possibilidade de que sua cidade pudesse desaparecer em menos de 15 segundos, não restando nenhuma “porta de casa” para contar história, quando nem mesmo a figura humana restaria reconhecível nos montes disformes de cores aberrantes que lograria formar. De um lado,
18 Ibidem, p.32.
19 Assim remonta a lenda da bandeira da Turquia: “Mustafa Kemal Atatürk, o fundador da República turca, caminhava pelo campo na noite seguinte ao combate vitorioso durante a Guerra de Independência Turca, e percebeu o reflexo da lua crescente e da estrela sobre um vasto fundo de sangue no terreno de uma colina de Sakarya”. (WIKIPEDIA. Bandeira da Turquia. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Bandeira_da_Turquia. Acesso em: 01/09/2014.)
20 SEBALD, op. cit., p.33. 21 BETERELI, op. cit.
a própria impossibilidade de se usar os sentidos dado a velocidade e intensidades sem precedentes que uma bomba gera; de outro, a desconfiança de que se ainda possa perceber qualquer coisa de humano no interior das formas naturais da graciosa arvorezinha, ou ainda, naquela janela conservada intacta como pedra bruta, uma vez que o front, nelas também, traçara a linha de sua ciência.
As catástrofes expõem, inexoravelmente, o desafio da observação na sociedade contemporânea. Já não mais estamos no lado positivo das possibilidades - buscando uma forma de torná-las apreensíveis e manipuláveis, o exercício contínuo da intuição de seus platôs e riscos, sua transformação em ferramenta promotora de justiça -; mas em um ponto vazio, onde a catástrofe destruiu não apenas a matéria, mas também, toda manipulação possível. Não mais uma terceira margem; mas a ausência do rio - ausência que, para muito além das formas “prosaicas” da bomba, tendem a se reproduzir em toda parte:
E, se há três dimensões na matéria — massa, energia e informação, então depois das longas séries de acidentes relacionados com a matéria e a energia do século passado, o tempo ao alcance da mão no presente é o do acidente lógico — e mesmo o acidente biológico, à medida em que observamos a pesquisa teratológica da engenharia genética.22
Procurar, então, por uma forma de tratar a catástrofe “digna do homem, um modo que apela para as suas qualidades combativas”23 e, também, para as suas intensidades perceptivas
- eis o desafio. Encontrar “fazer germinar nesse ponto vazio - ali, justamente onde a vida se fez impossível - uma forma de apresentação vital da catástrofe”, isto é, apresentá-la de uma forma que divirta, ou melhor, que retome, ainda que por um novo viés, a diversão através de seu atemporal.
O norte-americano de hoje não tem mais medo da cascavel. Ele a mata. De qualquer maneira, ele não a idolatra. Ela agora defronta-se com o extermínio. O relâmpago aprisionado em cabo – eletricidade capturada – produziu uma cultura que não tem necessidade do paganismo. O que o substituiu? As forças naturais não têm mais modos antropomórficos ou biomórficos; são antes ondas infinitas obedientes ao toque humano. Com essas ondas, a cultura da era da máquina destrói o que as ciências naturais, nascidas do mito, tão arduamente conquistaram: o espaço para devoção, que envolvia, a seu turno, um espaço requerido para a reflexão.24
22 VIRILIO, Paul. Unknown Quantity. New York: Thames & Hudson/Fondation Cartier pour l art contemporain, 2002.
23 BRECHT, Bertolt. As Cinco Dificuldades para Escrever a Verdade. Trad. Ernesto Sampaio. Diário de Lisboa, 25/04/82. Disponível em: http://www.piratininga.org.br/artigos/2004/03/brecht-verdade.html. Acesso em: 01/09/2014. 24 WARBURG, Aby. Imagens da Região dos Índios Pueblo. Revista Concinnitas. Rio de Janeiro: UFRJ, ano 6, volume 1, número 8, 07/2005, p.29.
O historiador natural, ao constatar o rompimento completo das “ondas infinitas obedientes”; e, em seu rastro, do seu próprio saber de crocodilo ou de serpente; terá, então, de procurar reconstruir um espaço de reflexão, mas também, de devoção. Nesse caso, deverá proceder recolhendo dos escombro alguns estilhaços de matéria restante em suas três formas: de massa (o fósforo, o carbono; a pedra bruta, a areia e o pó; e também, as árvores e as ratazanas); de energia (seja nos projetos de máquina e estratégias de guerra “automatizadas”; mas também, as energias psíquicas, como a amnésia ou o acedia cordis25; e também, uma energia social,
como o bom senso mantido pelas vítimas, e a estranha energia emanada pela reconstrução em tempo recorde da alemanha); e, por fim, estilhaços de informação (signos vazios, clichês, descrições sinóptico-científicas; literatura, pintura, fotografia; ou ainda, documentos históricos, como pinturas como as de Carl Friedrich Philipp von Martius para o Rio São Francisco; etc). O historiador natural buscará compor, com tais estilhaços, uma topografia - e, talvez, uma topologia - que permita a ele perambular por entre os elementos, buscando não apenas refleti-los, mas sobretudo, desejando encontrar a formação de um elemento residual de vida que permitirá, enfim, restaurar a “distância desfeita pela conexão elétrica instantânea”26, isto é, reconstruir os “elos espirituais entre a humanidade e o mundo que a rodeia, moldando a distância no espaço requerido pela devoção e reflexão”27 a partir da
diversão vital e da sedução do desconhecido.
Um breve exame da literatura de Sebald revela que o escritor procura por fazer da literatura uma espécie de campo de investigação do historiador natural. Assim, é bastante natural que seus protagonistas sejam, em geral, viajantes, andarilhos, passeadores. Eles constroem a história a medida que caminham, recolhendo fragmentos e estilhaços – signos que se dão a ver nos veios de uma folha seca, em recortes de jornal, em cartas e bilhetes, nas biografias dos poetas, nos olhos dos animais -, e forjando, para cada um desses elementos, seu próprio enigma, assim como teria feito os primeiros cientistas naturais, para quem a astronomia e a astrologia possuíam uma relação estreita (tal tradição mantem-se em Warburg, por exemplo). Carolina Betereli aponta para uma curiosa passagem de Os Anéis de Saturno, narrativa de Sebald datada de 1995, no qual o fluxo de consciência do narrador passa da fisiologia peculiar de um peixe até chegar ao campo de extermínio de Bergel-Bensel:
Para o narrador que peregrina pela costa norte da Inglaterra em Os Anéis de Saturno, a luz também é fundamental. Vemos, por exemplo, no trecho denominado “história natural do arenque” alguns fatos sobre as características fisiológicas do peixe: “Quando a vida abandona o arenque, suas cores mudam. O dorso fica azul, faces e guelras ficam vermelhas, injetadas de sangue. (...) seu corpo morto começa
25 “Sangue retinto (...) é a alegoria da acedia cordis que se volta contra a vontade de sobreviver, aquela depressão pá- lida, já sem remédio, em que os alemães deveriam ter caído diante de um final como esse.” (SEBALD, op.cit., p.19) 26 Ibidem.