2.2 İLGİLİ ARAŞTIRMALAR
2.2.3 Çevrimiçi İşbirliği, Bulut Bilişim ve Google Drive İle İlgili Araştırmalar
Um exame rápido da cultura contemporânea mostra, facilmente, a permanência do problema da empatia hoje, porém, com uma sutil alteração. Onde, antigamente, se veria a ‘natureza do mundo’, atualmente deve-se ver ‘mude o mundo’.
A convergência na unidade do ‘o’ homem hoje resiste através de uma série de permutas no espaço e no tempo: substituição do natural pelo possível, isto é, do passado pelo futuro; a substituição do ‘o’ homem para ‘o’ cara - isto é, pelo indivíduo produtor; troca do solo pelo ar (reino pelo transnacional); do sol pela luz, etc. O paradoxo da empatia (ser uma função do passado imemorial em pleno funcionamento na sociedade do futuro veloz), porém, ainda persiste, e ela não cessa de pregar peças - seja na constatação do fato de Hitler ser hoje um inegável best-seller; ou ainda, nas paradas de sucesso, como na canção de Kanye West, “Lost In The World” (2012), onde o rapper intercala sua poesia com um sample de outra música
contemporânea - “Woods”, de Bon Iver (em colchetes):
[Estou no alto da floresta,]
Eu estou perdido no mundo,
[estou no fundo da minha mente]
Eu estou no fundo da minha mente.
[Eu estou construindo uma cabana...]
Sou novo na cidade
[para retardar o tempo]
E vou cair na noite.
Contraposição da experiência do tempo lento com o do futuro? Um retorno à natureza contraposto à vida perdida no cosmopolitismo? Pouco importa: o importante é manter, intocado, o indivíduo como senhor do espaço e manipulador do tempo; e intocado, também, o mito fundador que assegura sua senhoria sobre a terra - construa sua própria cabana, diz aquele da montanha; “Vamos cair fora dessa festa de cuzão, vamos transformá-la em uma noite clássica”79, diz o citadino...
Por conta da superexposição de seu logo, a Vuitton [marca de roupas de luxo] está no meio de um plano de mudança de imagem. Toda vez que uma grande marca precisa selecionar seu público, ela recorre a seu mito fundador e a palavras como herança e tradição. É como se a marca gritasse: ei, vocês podem ter o dinheiro, mas isso não é suficiente pra ser um “verdadeiro” consumidor dessa marca. O “mito Vuitton” tem a ver com a origem da marca, criada em 1854 como loja especializada em malas de viagem. Suas campanhas mais importantes tentam destacar essa figura do viajante. (...) Da moça jet-setter ao aventureiro. Nesse contexto, as bolsas aparecem como objetos mágicos, coisas que completam a cena, portadores de algo importante que está sendo carregado por esses desbravadores do mundo. (...) O “homem de Davos” é um passo à frente nesse movimento. Os “homens Vuitton” viajam o mundo, mas não saem de casa à toa. São conquistadores. E estão avançando nos terrenos minados da política, do comando econômico e da ciência. Tudo à moda do último grito do capitalismo contemporâneo.80
A unidade, hoje, é conservada sagrada e intocável, porém, não para justificar uma cultura que “domina a natureza”, mas como uma “energia” que alimenta as performances que, agora, já não mais buscam a verdade eterna do homem, mas, tão somente, o aumento ilimitado do poder - e dessa forma, muito naturalmente, os especuladores passam, um a um,
79 WEST, Kanye. Lost in The World. In: My Beautiful Dark Twisted Fantasy. Havaí, Califórnia, Nova Iorque: Roc-A- Fella, Def Jam, 2010.
80 WHITEMAN, Vivi. A Louis Vuitton e o “homem de Davos”. CartaCapital, 26/04/2014. Disponível em: http:// www.cartacapital.com.br/sociedade/a-louis-vuitton-e-o-201chomem-de-davos201d-7938.html. Acesso em: 01/09/2014.
a se chamarem de “lobos de wall street”81.
A competição generalizada cria a energia indispensável pelo movimento contínuo de expansão do sistema mundial. Por isso também, no horizonte do sistema, não há nenhuma possibilidade de paz ou de estabilidade perpétua. O sistema interestatal capitalista se estabiliza através de sua própria expansão contínua e, portanto, em última instância, através das guerras. E se o sistema parasse de se expandir, tampouco haveria paz perpétua. Haveria entropia e desordem, pois sua ordem nasce de seu movimento.
O espectador deseja usufruir de sensações bem determinadas, tal como uma criança, por exemplo, quando monta num cavalo de madeira de um carrossel: a sensação de orgulho por saber andar a cavalo, o prazer de se deixar levar e de passar junto a outras crianças, o sonho cheio de ventura de estar sendo seguida ou de estar ela próprio a seguir os outros, etc. A semelhança entre o veículo de madeira e um cavalo não contribui grandemente para que a criança experimente estas sensações; nem a aborrece, tampouco, o fato de a cavalgada se limitar a um pequeno círculo. Por sua vez, ao frequentador do teatro o que lhe interessa é poder substituir um mundo contraditório por um mundo harmonioso, um mundo que mal conhece por um mundo onírico.82
Outro exame rápido dos parques de diversões, hoje, permite ver que, precisamente, a criança é um sujeito constantemente aborrecida com as limitações do instrumento de diversão. Em uma sociedade que levou o culto à energia até o limite das possibilidades virtuais da ciência, não se exige nada menos que a promoção da loucura: uhuuuuuu!
E o que consistiria o ato de observar, hoje? Justamente, conservar a unidade - “a” energia - como ponto inobservável. A empatia não mais busca que o espectador convirja na unidade das sensações humanas mais profundas; pelo contrário, ela quer que ele convirja consigo mesmo, “no fundo de sua mente” - aí onde surge a faísca que o capitalismo inflama, te colocando no jogo inesgotável das multiplicidades de consumo de prazer. O jogo está bem estabelecido: o logos deve suspender-se por um instante no interior de nossa mente, como um estágio anterior ou posterior à ação, mantendo-a - a energia psicoativa - intocada. Em Spring Breakers (Harmony Korine, 2013), quatro jovens - garotas que aparentam ter 13 anos, isto é, o cerne do interesse do capital, conforme teoriza Tiqqun83 - partem para Los Angeles
curtir as férias de primavera. Entremeio a assaltos, baladas loucas, cocaína, pegação, prisão, há sempre uma pausa na qual se deseja “que este momento durasse para sempre” - a referência
81 WOLF of Wall Street. Martin Scorsese [Diretor]. EUA: Paramount Pictures (presents), Red Granite Pictures (presents), Appian Way, e outras, 2013. Longa-metragem, colorido, 180 minutos.
82 BRECHT, op.cit., p.111.
83 TIQQUN. Preliminary Materials for a Theory of the Young-Girl. Trad.: Ariana Reines. in: Intervention Series (Book 12). Nova Iorque: Semiotext(e), 2012.
às fotos de Instagram é inevitável. Esses ciclos prosseguem incessantemente até que, no final, se alcança a suspensão máxima do logos, que consiste em torná-lo, ele próprio, o espaço para o acontecimento do pathos: as meninas, então, saem a assassinar homens armados a descoberto, sem que nada as atinja, como se estivessem num videogame...
O observador permanece suficientemente atarefado para se dar conta que, ainda que seja levado a ter infinitas experiências as mais diversas, em arte ou em design, a vida, a imanente vida, dela já não resta senso algum - restando a existência, tão somente, suportada, é fato, pelo recurso constante à farmacologia. Se aquele dizia de uma vida líquida; digamos, ao contrário, que não há nada de líquido na Política dos sólidos, cuja superfície move-se da maneira mais truncada possível, com suas pausas, quedas, aborrecimentos...
Por outro lado, o observador também está ciente que observar a unidade do poder contemporâneo é, enfim, contemplar a tragédia da vida no limite em que ela tem sido levada pela filanóia84...
I got the diamonds, scrapin’ Sidin’, wastin’ my life
In altered states dem Back it up I got the fever [x4]
(...)
By any means necesserated Blade cut me
Sewer drain grated Bubonic plague Spreaded faceless Lurking in the deadest spaces
(...)
Diamonds scrapin’ the marrow, out my core85
Em relação ao saber, uma clivagem similar impede que ele saia de um mundo das
84 “Filanóia” significa “amor pela loucura”, um termo que Paul Virilio concebeu para capturar uma inversão em jogo na contemporaneidade: “a ponto que a antiga filosofia é seguida pelo absurdo de uma filanóia, responsável por destruir o conhecimento acumulado através dos séculos... ‘O poder humano, aumentado excessivamente, transforma-se então em causa de ruína’” (VIRILIO, Paul. Unknown Quantity. New York: Thames & Hudson/Fondation Cartier pour l art contemporain, 2002.)
Uma das estratégias mais interessantes do capitalismo atual tem sido explorar a Filanóia ao promover uma confusão entre pornografia, drug culture e moda. My Beautiful Dark Twisted Fantasy, disco premiadíssimo de Kanye West, tem uma posição emblemática nesse turno arriscado - afinal, expor a filanóia é uma manobra perigosa: ela pode fazer ressurgir a filosofia...
85 Música “The Fever [Aye Aye]” do grupo de rap contemporâneo Death Grips - supostamente sobre um traficante viciado e consumista, e sua luta contra a loucura. Tradução aproximada: “Eu tenho os Diamantes, raspando / cobrindo (?), desperdiçando a minha vida / em estados alterados então / Segure essa / Eu tenho a febre / (...) “necesserado” por todos os lados / lâmina corta-me / tampa de esgoto / praga bubônica / espalhada sem rosto / à espreita nos espaços mortais (...) / diamantes raspando a medula para fora do meu núcleo.” (DEATH Grips. The Fever [Aye Aye]. In: The Money Store. Sacramento: Epic, 2012.
aparências (conhecer o mais fundo das almas) e recaia como função consciente em um mundo das multiplicidades (observação das complexidades como paradigma da produção de equidade). Se as aparências, em toda sua contradição, ainda conservava uma grande intuição para o saber; hoje,
a clivagem pertinente a seu respeito deixa de ser saber/ignorância para se tornar como no caso da moeda, “conhecimentos de pagamento/conhecimentos de investimento”, ou seja: conhecimentos trocados no quadro da manutenção da vida cotidiana (reconstituição da força de trabalho, “sobrevivência”) versus créditos de conhecimentos com vistas a otimizar as performances de um programa.86
Novamente, o saber também deve circular em torno da unidade do aumento de poder, confiscando qualquer espaço para seu cultivo desinteressado. Se, antigamente, o saber numa sociedade das aparências, era responsável por produzir bárbaros ao seu redor (aqueles incapazes de controlar, culturalmente, o essência animal do ‘o’ homem); hoje, o saber precisa gerar “androides”, isto é, aqueles impossibilitados pela falta ou pelo acesso fragmentado ao saber, de ter qualquer função ativa no domínio da elite produtiva:
O Terceiro Mundo tem uma crescente população. A maioria se transforma em uma espécie de “androides”, quase sempre analfabetos e com escassa especialização para o trabalho. Isso acontece aqui nas favelas do Rio, São Paulo e do Nordeste do país.E em toda a periferia da civilização. Esses androides são mais baratos que o robô operário fabricado em Alemanha e Japão. Mas revelam alguns “defeitos” inatos, como criar, pensar, dançar, sonhar; são defeitos muito perigoso para o Patrão Primeiro Mundo. Aos olhos dele, nós, quando praticamos essas coisas por aqui, somos “androides” COM DEFEITO DE FABRICAÇÃO.Pensar sempre será uma afronta. Ter ideias, compor, por exemplo, é ousar. No umbral da História, o projeto de juntar fibras vegetais e criar a arte de tecer foi uma grande ousadia. Pensar sempre será.87