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A paisagem atual das igrejas se caracteriza pelo desenvolvimento de grupos e redes que põem em marcha ás margens ou no centro das paróquias e dos movimentos, formas flexíveis e movediças de sociabilidade, fundadas em afinidades espirituais, sociais e culturais dos indivíduos que estão implicadas nelas (HERVIEU-LÉGER, 2008, p. 159).
Com exceção do entrevistado M. R. S., todos os outros tentaram de alguma forma se manter dentro da igreja, para tanto tentaram migrar ou criar uma outra comunidade de fé.
O interlocutor J. M. G. S., juntamente com outros colegas do curso de teologia, que provavelmente também estavam descontentes com a igreja, criou uma comunidade de fé: “nós
87 chegamos a montar um ministério voltado mais para às prática sociais, não tendo preocupação com formalidades, sem preocupação com filosofia de ministério x, y ou z”.
Esta nova igreja procura ter uma identidade distinta daquela à qual este interlocutor participava, ele explica como foi esta experiência e porque desistiu dela, para definitivamente não ter mais pertença a uma igreja evangélica:
Num primeiro momento foi uma experiência boa, funcionou direito. As pessoas não estavam preocupadas com arrecadação, com o titulo de ser chamado de pastor. Nós tínhamos as visitações, as distribuições de sextas básicas, corte de cabelo, é... confecção de currículo, encaminhamento para emprego, treinamentos para novos profissionais, tínhamos sessões de psicologia, aula de música, inglês. Nós estávamos sempre atendendo uma sociedade carente, por que a igreja ficava em um bairro carente, muitos se beneficiavam disto. Só que em determinado momento eu percebi que a comunidade estava ganhando os mesmos contornos das igrejas tradicionais por onde eu tinha passado, então apenas eu me afastei, pedi desligamento (J. M. G. S.).
Os interlocutores A. C. e K. C. também tentaram ter uma igreja: “quando nós saímos, nós montamos um trabalho. Muitas pessoas acharam bom nos abrirmos um trabalho, algumas pessoas nos visitaram, então de início nós não ficamos sem igreja. Nós saímos da Assembleia e montamos um trabalho” (K. C.).
O participante da pesquisa L. C. V., não tentou criar uma igreja, mas manteve um grupo informal que se reunia periodicamente na sua casa, em sua narrativa ele afirma: “Até pouco tempo atrás eu tinha um grupo de convivência, cerca de seis meses atrás95. Um grupo ao qual eu chamo de igreja orgânica, a gente compartilhava da fé e mantinha todos os parâmetros que há numa igreja comum, como ceia, cânticos ao Senhor etc. e tal” (L. C. V.).
Assim como os outros participantes, também para L. C. V. não foi possível manter este grupo. “Até deste grupo para este momento da minha vida tive que me afastar de fato, por causa dos traumas, dos desgastes psicológicos” (L. C. V.).
K. C. S. M. não tentou criar uma igreja ou um grupo informal, porém tentou fazer parte de outras igrejas evangélicas: “os dois primeiros anos foi mais complicado porque a gente ainda tentava encontrar um lugar, tentamos várias outras igrejas, várias outras denominações, muito show, não deu” (K. C. S. M.).
Apesar de não conseguir pertencer a uma igreja, esta interlocutora tem como um dos meios para cultivar a sua espiritualidade, frequentar uma missão evangélica que cuida de travestis, homossexuais, drogados, mendigos e outras pessoas em situação de vulnerabilidade.
88 ... a gente frequenta na verdade a missão Sal. É aos domingos de manhã, tem uma reunião, que é uma comunidade, que a gente conversa, canta, houve uma palavra, e esta é a nossa igreja, mas na verdade lá, eles não são uma igreja, eles tem todo um trabalho durante a semana, que eu agora, por estar trabalhando não estou envolvida, mas, não é aquela coisa que você tem a obrigação, de estar, sabe, se eu não for no domingo, o pastor vai me ligar, me cobrar, porque eu não fui. É um momento gostoso, que a gente ri, conversa, fala besteira, ora também, canta, e é o que a gente frequenta hoje, é isto, que não é uma igreja (K. C. S. M.).
K. C. S. M. construiu novos elos sociorreligioso, mas, estes são não institucionais. Além da missão Sal, em outra narrativa, ela afirma: “eu sempre falo comentando com os amigos, eu tenho uma igreja aqui no prédio, eu acabei conhecendo pessoas, que precisam da minha ajuda, e que vem aqui e a gente, conversa, a gente ora, eu vou lá, a gente chora, conversa, fala alguma coisa, acabamos nos tornando uma igreja sem querer” (K. C. S. M.).
A interlocutora M. P., após alguns anos sem fazer parte de nenhuma igreja, passou a frequentar uma. “Eu tentei uma outra igreja, há um tempo atrás, comecei frequentar, ia nas reuniões de oração durante a semana, ia no domingo, “vou ficar por aqui”, porque eu comecei a sentir falta, mas, o pessoal ficou todo animado, “olha ela esta indo na igreja de novo”, mas depois eu parei” (M. P.). Em outro momento da sua narrativa ela expõe o porquê da desistência desta igreja:
... até pensei em me tornar membro, mas teve um culto de aniversário, que veio um pastor... essa igreja é uma igreja filha da igreja Quadrangular, e ai foi um pastor lá pregar, e ele falava “levanta, senta”, como se fosse marionete, como se Deus não quer meu culto racional e sim como marionete, e ai eu vi o que a igreja queria ser, ah o que eles querem ser eu não quero. Eu estava sim animadinha, mas eu não quero (M. P.).
C. E. N. S. ao deixar de pertencer à denominação que ele tinha feito parte desde criança, durante o curso de teologia, opta por um grupo informal, com características distintas da experiência evangélica que ele possuía.
... frequento até hoje, algumas reuniões do grupo, não é uma igreja constituída, não é uma instituição, não tem esta conotação de instituição, é mais um grupo de amigos que se reúnem para... com um pensamento totalmente diferente daquilo que a gente tinha vivido, então minha adaptação foi fácil, pessoas que já vieram regressas da igreja, muitas, não, todas elas são regressas de comunidades da igreja, na verdade optaram por não voltar à instituição e se organizaram de certa forma, de uma maneira um pouco mais informal, então é esta comunidade que a gente está hoje (C. E. N. S.).
89 Através destes relatos é possível inferir que os alunos ou ex-alunos de teologia, quando decidem deixar o meio evangélico enfrentam uma crise, que no caso especifico dos participantes desta pesquisa, tenta-se solucioná-la, criando outro grupo religioso ou tentando a inserção em um grupo existente que se aproxime mais das convicções religiosas que eles possuem.