3. SİPARİŞ İÇİN MÜHENDİSLİK SEKTÖRÜNÜN
4.3 Üretim Çizelgeleme ve ETO Sektöründe Uygulanabilirliği
“história que eles se contam sobre si mesmos” (Clifford Geertz).
Optei pelo anonimato, onde eu não tenho título, não tenho igreja, eu apenas me comporto me vejo como cristão, e não me preocupo com o que os outros pensam que eu sou ateu, agnóstico ou cristão, não tenho esta pretensão de ter um título, um cargo, uma função, eu hoje me vejo gente que gosta de gente, que pode atender a quem precisa e que não tem a pretensão de nada em troca (J. M. G. S.).
Tanto no meio protestante histórico, como no pentecostalismo e no neopentecostalismo o discurso é parte importante da religiosidade. No pentecostalismo as experiências religiosas também são parte considerável da religiosidade. Os discursos são ferramentas utilizadas e reutilizadas para manter as instituições e suas ideologias, crenças e teologias. Quem tem direito à fala nestes campos religiosos? Os lideres e aqueles que de alguma maneira recebem o reconhecimento da comunidade de que possuem conhecimento bíblico e/ou teológico.
Este capítulo relata a pesquisa de campo, realizada com ex-alunos de teologia que desistiram da pertença numa comunidade de fé evangélica. Em outras palavras, aqui há a pretensão de dar voz, utilizando a historia oral como metodologia, para aqueles que apesar de terem sido treinados para discursar na igreja, optaram por não mais falar, desistiram de atuar na liderança da mesma e não a frequentam mais, logo, realizaram a opção pela não voz, pelo silêncio. Em virtude disto, será exposto o maior número de citações possíveis, extraídas das entrevistas que foram realizadas. As entrevistas completas estão disponíveis nos anexos desta dissertação.
A principal preocupação neste capítulo é expor as motivações, as causas que desencadearam este processo que levou religiosos institucionalizados a desistirem da pertença. Ao invés de serem sacerdotes, guardiões das verdades da religião, estão fora e construíram um fortíssimo senso crítico das instituições das quais um dia fizeram parte e alguns até lideraram.
As razões para a não pertença são variadas: dificuldades com a liderança da igreja, o ativismo religioso imposto pela comunidade da qual eles faziam parte, ausência de dialogo da igreja com a sociedade, ausência de assistencialismo social, neopentecostalização da igreja a qual pertenciam, estudo teológico, dentre outros. Além das motivações e causas, também será
81 possível encontrar algumas criticas as igreja evangélicas, que se não foram apontadas como fatores motivadores, influenciaram na decisão da não pertença.
3.1 Metodologia de coleta das narrativas.
O que é escrito, ordenado, factual nunca é suficiente para abarcar toda a verdade: a vida sempre transborda de qualquer cálice (Boris Pasternak).
Esta pesquisa trabalha com um fenômeno recente que ainda carece de pesquisa e bibliografia, por isto a opção pela história oral que “é um método de pesquisa que utiliza a técnica da entrevista e outros procedimentos articulados entre si, no registro de narrativas da experiência humana” (FREITAS, 2002, p. 18). Através dela pretende-se criar fontes documentais, uma vez que “a História Oral fornece documentação para reconstruir o passado recente, pois o contemporâneo é também história” (FREITAS, 2002, p. 47).
“A história Oral privilegia, enfim, a voz dos indivíduos, não apenas dos grandes homens, como tem ocorrido, mas dando a palavra aos esquecidos ou ‘vencidos’ da história” (FREITAS, 2002, p. 51). Aplicada a esta pesquisa, a história oral permite àqueles que estão fora das instituições e que optaram pelo silêncio possam ter voz para narrar às motivações e contingências deste deslocamento em relação às igrejas.
Neste sentido, vale lembrar a afirmação de Freitas: “o registro de reminiscências orais [...] permite a documentação de pontos de vistas diferentes ou opostos sobre o mesmo fato, os quais, omitidos ou desprezados pelo discurso do poder, estariam condenados ao esquecimento” (2002, p. 48).
A história oral será utilizada como técnica de escuta, para que daqueles que são sujeitos participantes do fenômeno estudado, surja uma melhor compreensão do processo de desinstitucionalização que ocorre no campo evangélico.
Através desta metodologia de pesquisa, não se pretende arrancar dos interlocutores as hipóteses da pesquisa, mas sim “para aprender” (THOMPSON, 2002, p. 255) e “fazer um registro ’subjetivo’ de como um homem, ou uma mulher olha para trás e enxerga a própria vida, [...] em uma das suas partes”, (THOMPSON, 2002, p. 258). Pretende-se assim verificar a possibilidade de capturar as dinâmicas de fé, de um pequeno grupo – porém crescente – dentro do campo evangélico brasileiro.
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um método bastante promissor para a realização de pesquisa em diferentes áreas. É preciso preservar a memória física e espacial, como também descobrir e valorizar a memória do homem. A memória de um pode ser a memória de muitos, possibilitando a evidencia dos fatos coletivos (THOMPSON, 2002, p. 17).
As entrevistas87 recolhem os depoimentos de oito interlocutores, entre os meses de dezembro de 2013 e fevereiro de 2014. Os critérios para a escolha destes participantes foram os seguintes: possuem como características aglutinadoras o fato de atualmente não possuírem vínculos com nenhuma igreja e de serem ex-alunos(as) de teologia evangélica formados ou não, que estudaram após o ano 2000 e deixaram o seminário até 2010.
Neste recorte temporal, o ano 2000 se apresenta como “zero fictício”88, por ser o Censo deste ano o primeiro a fornecer dados estatísticos dos evangélicos indeterminados89. O ano de 2010 marca o limite final do recorte por ser o Censo deste ano o último a fornecer dados estatísticos sobre os evangélicos sem igreja. Há uma exceção, a interlocutora M. P.90 estudou entre o final da década 1980 e o inicio da década de 1990. Através desta exceção sinalizamos a amplitude do fenômeno da desinstitucionalização no campo evangélico brasileiro.
Além de serem ex-seminaristas, também foram adotados outros critérios para a escolha dos interlocutores como, grupos evangélicos diferentes (protestantes históricos, pentecostais e neopentecostais), homens e mulheres, diferentes seminários/faculdades e faixas etárias distintas.
Chegou-se a estes interlocutores através de contatos do pesquisador com colegas do seminário teológico onde estudou e colegas do mestrado que também estudaram teologia, além de pastores evangélicos que o mesmo conhece.
87 O roteiro para a realização das entrevistas consta dos anexos desta dissertação. 88 O conceito de “zero fictício” foi extraído de Michel de Certeau.
89 Terminologia utilizada pelo IBGE.
83 As entrevistas ocorreram na casa dos interlocutores(as), cada um concedeu apenas uma entrevista, e todas foram realizadas pelo autor desta dissertação, as mesmas tiveram o áudio gravado, com permissão dos entrevistados91.
Após a realização de cada entrevista as mesmas foram transcritas, ou seja, o discurso oral foi transportado para um discurso escrito. Reconhecem-se as limitações nesta transposição, numa gravação, não se consegue reter toda a comunicação expressada pelo interlocutor através do seu tom de voz, pelas expressões no seu rosto, pelo modo de se sentar, pela sua disposição de conceder a entrevista. Do mesmo modo ao transpor a entrevista para o texto escrito ocorrem outras percas. E ainda, é necessário admitir que, mesmo que seja de modo inconsciente, transcrever é um ato criador, é uma interpretação (BOM MEIHY, 2005).
Após a transcrição, as entrevistas foram devolvidas aos entrevistados(as) para que os mesmos realizassem a conferência e autorizassem a utilização deste material como fonte documental para a pesquisa que está sendo realizada (BOM MEIHY, 2005, p. 184, 185).
Na análise das entrevistas, que seguem abaixo neste capítulo, não é possível deixar de reconhecer que, como salienta Maurice Halbwachs, “lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e ideias (sic) de hoje” (FREITAS, 2002, p. 66). Conforme afirmou o interlocutor M.R.S.: “Hoje eu estou olhando distante, olhando meu passado, talvez se você me fizesse estas perguntas logo quando que eu sai, seriam outras as respostas”.
Também conforme Halbwachs “é indispensável que haja entre o grupo e o memorialista uma identidade, pela qual se evidencie uma memória coletiva. Consequentemente, o isolamento ou a falta de contato com o grupo significará a perda do passado” (FREITAS, 2002, p. 67, 68).
Aqui estava o maior desafio para esta pesquisa, ou seja, que houvesse uma identificação entre os sujeitos entrevistados e a religiosidade evangélica. Partimos da hipótese de que havia uma identificação, mesmo que tênue, difusa, diversa e ainda talvez mínima entre os sujeitos e a sua religiosidade anterior, ou seja, o pertencimento a uma igreja evangélica.
As entrevistas demonstram claramente que a hipótese estava correta, pois, embora a maioria tenha deixado de pertencer a uma igreja evangélica a mais de três anos, todos(as) conseguiram reconstruir, mesmo que alguns o tenham feito de maneira recortada, o processo pelo qual optaram pela não pertença.
91 Estas entrevistas e a metodologia para realiza-las foram aprovadas pelo Comitê de Ética em Pesquisa, da
Universidade Metodista de São Paulo e cada interlocutor(a) recebeu uma cópia do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
84 Quem são estes interlocutores? Quem constrói estas narrativas? Estes personagens serão apresentados a seguir.
3.2 Os sujeitos das narrativas.
... os sujeitos religiosos constroem suas auto-identidades ao negar a vinculação com uma instituição específica, o que pode evidenciar a recusa ou incapacidade de seguir determinadas doutrinas que normatizam as instituições religiosas (BARTZ, 2011, p. 18)
... eu simplesmente não me enquadro mais, não me encaixo mais dentro de uma igreja que hoje chamam de evangélica (K. C.).
A escolha de ex-alunos de teologia não é apenas para a construção de um recorte para a pesquisa, mas também para demonstrar a força e a velocidade com que tem ocorrido a desinstitucionalização no meio evangélico. Os sujeitos destas narrativas são pessoas que foram treinadas para liderarem igrejas locais, porém eles não desistem apenas desta liderança, há uma desistência da igreja, estas pessoas foram altamente institucionalizadas.
Uma das interlocutoras afirma: “Eu era muito CDF com a questão religiosa, eu chegava a ser chata, e... eu vejo que muitas vezes eu afastei pessoas da família de ter um relacionamento com Deus, de tão fundamentalista de certa forma que eu era” (M. P.).
Três interlocutores chegaram ao pastorado. É importante recordar que, de certa maneira, o pastor na religiosidade evangélica é uma espécie de sacerdote. Termo aqui utilizado conforme o conceito weberiano (WEBER, 2000), ou seja, aquele que preserva a religião, relembra os ritos, os mitos, as doutrinas fundantes e mantém e obedece as regras da instituição. O sacerdote é aquele que se deixa e muitas vezes deseja se encaixar dentro da hierarquia da instituição, ou seja, ele é o agente da religião.
J.M.G.S. K.C.S.M. M.R.S. M.P. L.C.V. A.C. K.C. C.E.N.S.
Chegou ao
pastorado? Sim Não Não Não Sim Sim Não Não
Também é relevante apontar que os seminários onde estes interlocutores estudaram são centros de treinamento de mão de obra para as igrejas evangélicas brasileiras e de formação de missionários para ampliarem o alcance das mesmas.
85
Estudou onde? Em qual
época? Concluiu o curso? Possuí outro curso superior ou pós?
J.M.G.S. Faculdade Teológica Batista de São
Paulo.
Entre 2005 e
2008. Sim Sim