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Beyrut’taki Siyasal GeliĢmeler

ÜÇÜNCÜ BÖLÜM: ġAM VE BEYRUT’TA SĠYASET

A. OSMANLI YÖNETĠMĠ VE ĠÇ SĠYASAL GELĠġMELER

2. Beyrut’taki Siyasal GeliĢmeler

Especialistas são unânimes ao afirmarem que a história social da infância e da adolescência, em todas as sociedades, é marcada por valores, ritos de passagem, regras de condutas e práticas de socialização diversas, como também veiculam ideias de atenção/proteção peculiares e práticas de violência diversas. Eles salientam ainda que a infância propriamente dita é algo recente.

Ariès (2006), em sua obra sobre a infância, descreve que há registros de violência praticada contra crianças e adolescentes desde a antiguidade. Já no Brasil, o autor afirma que no período colonial, não era dado nenhum tratamento diferenciado a esta parcela da população. Não havia distinção entre crianças e adultos na divisão do trabalho e no processo de escolarização.

Durante o século XIX e na primeira metade do século XX foram estabelecidas normas referentes ao tratamento de crianças e adolescentes. O objetivo era protegê-las de situações consideradas como “cruéis”. Segundo Méllo (2006, p.131) “No combate à crueldade propunha-se limitar as horas de trabalho dos aprendizes, garantir condições sanitárias mais adequadas e providenciar o mínimo [...] Eram normas que visavam atingir, sobretudo, crianças pobres que trabalhavam.”

A preocupação com a infância e a adolescência é mais evidente a partir do século XX. Desde então, várias declarações e documentos de proteção aos seus direitos foram sendo instituídas em nível mundial, como a Declaração de Genebra de 1924 e a Declaração Universal dos Direitos da Criança, aprovada pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em 1959.

A ONU declarou reconhecer “[...] que a criança, em decorrência de sua imaturidade física e mental, precisa de proteção e cuidados especiais, inclusive proteção legal apropriada antes e depois do nascimento [...]”. A declaração estabeleceu os princípios relativos à proteção da infância e instituiu a universalidade dos direitos das crianças e adolescentes sem distinção de classe, raça, cor, sexo ou crença religiosa. Desde então, pelo menos no plano formal, meninas e meninos tornaram-se sujeitos de direitos universais, por meio do direito internacional.

Na década de 1990 outros documentos de abrangência mundial foram promulgados. A mobilização social internacional em defesa dos direitos humanos levou a Conferência Mundial dos Direitos Humanos a promulgar, em 20 de novembro de 1989, com aprovação na ONU, a Convenção Internacional dos Direitos da Criança.

Neste contexto, os movimentos em defesa dos direitos humanos de crianças e adolescentes desencadearam na década de 1990 denúncias de violências sofridas por esta população. Isso acirrou o tensionamento e as contradições na esfera pública. Organizações sociais como o Movimento Nacional dos Meninos e Meninas de Rua, o Fórum em Defesa da Criança e Adolescentes e a Pastoral do Menor, criados na década de 1980, no bojo do processo de redemocratização do Brasil, foram importantes no processo de denúncia de violações contra esses sujeitos.

Araújo (2006, 172-173) destaca que:

O II Encontro Nacional de Meninos e Meninas de Rua, realizado em Brasília, no mês setembro de 1989 – entre os dias 26 e 29. Objetivando dar vez e voz às crianças e adolescentes, cujas trajetórias de vida estavam marcadas pela violência, especialmente pela violação de direitos sociais, este II Encontro foi determinante por duas razões fundamentais:

a) porque, pela primeira vez, foram denunciados para todo o país assassinatos de crianças e adolescentes. Esta violência em toda sua extensão e gravidade foi abordada quando da exposição da pesquisa realizada/coordenada pelo IBASE (1989) – por solicitação do MNMMR – que registrou 1.397 casos de morte violenta (assassinatos) de crianças-adolescentes (sobretudo do sexo masculino), em nove estados brasileiros, no período de 1984 a 1989. Esse quadro configurava-se num verdadeiro processo de extermínio, visto que, além de atingir especialmente pessoas negras e pobres, os assassinatos eram (e ainda são) feitos por grupos de extermínio constituídos principalmente por policiais militares e civis, agentes de empresas de segurança privada, pelo Esquadrão da Morte – os chamados “justiceiros”. Outro instrumento de denúncia utilizado para chamar (ainda mais) a atenção da sociedade e das autoridades competentes foi a exposição de uma faixa feita com mais de 1.000 nomes de crianças e adolescentes vítimas desse tipo de violência.

b) finalmente, numa ação inédita, as crianças e adolescentes (meninas-meninos) presentes nesse encontro, exercendo seu poder de voz e de cidadãos brasileiros – ainda que a Pátria Mãe Gentil não os reconhecesse como tais –, ocuparam o

Plenário do Congresso Nacional e votaram de forma simbólica a aprovação de uma nova legislação infanto-juvenil, ou seja, sua Carta de Direitos. Mais do que isto, ao final do referido Encontro, foram encaminhadas para o Congresso Nacional sugestões de ações a serem realizadas pelo Estado de modo a viabilizar a erradicação dos problemas apontados e, sobretudo, reivindicando de forma imediata a aprovação da nova lei.

Essa manifestação foi importante para demarcar uma nova etapa da história da infância brasileira. Meninos e meninas de rua foram porta vozes de sua própria história. Vítimas de diversas formas de violência, eles manifestaram por meio de um documento as reivindicações dos direitos de cidadania e denunciaram o extermínio de colegas. Em uma ação coletiva, juntamente com organizações sociais, exigiram do poder público a defesa dos direitos humanos da infância brasileira.

Com a aprovação da CF/1988, a aprovação do ECA/1990 e a constatação de diversas situações de maus-tratos contra crianças e adolescentes, o governo brasileiro viu-se compelido a promover a consolidação de um sistema de garantia de direitos dessa importante parcela da população brasileira. Ao longo das duas últimas décadas, o Brasil vem estruturando esse sistema nas áreas política, social, econômica e jurídica.

Ele tem como base três eixos de sustentação. São eles: a promoção (prevenção e atendimento); o controle (fiscalização e vigilância) e a defesa (denúncia e responsabilização). A partir de cada eixo encontram-se os atores públicos (governo e sociedade) que são imprescindíveis para articular e atuar em rede na busca de consolidar este sistema. O trabalho em rede é definido no Guia Escolar (2004, p.84) como algo que vai além de uma ação conjunta, com papéis e atribuições definidas.

A REDE não é um simples ajuste técnico, metodológico e administrativo mas implica uma mudança cultural e comportamental. É uma oportunidade estratégica de construção de ambientes para novas posturas e de instrumentos de apoio que fazem parte de um processo de mudança em curso.

Cada um exerce um papel com atribuições na elaboração, implementação e fiscalização das políticas públicas. Elas asseguram a materialidade do sistema de garantias de direitos de crianças e adolescentes e tem como finalidade prevenir, garantir e restituir os direitos destes sujeitos em todo o país.

O Sistema de Garantias de Direitos de crianças e adolescentes vigora através de ações disseminadas por meio da formulação e implementação de planos, programas e projetos. Elas são disponibilizadas mediante serviços prestados por órgãos governamentais e não-governamentais a esta parcela da população.

Na CF/1988 e no ECA/1990 é reafirmada a responsabilidade da família, da sociedade e do estado na promoção da defesa de crianças e adolescentes. Esta divisão clássica entre governo e

sociedade civil no trato de crianças e adolescentes é preconizada pelo esquema a seguir que orienta a organização e a articulação do sistema de garantia de direitos.

O moderno sistema de garantias de direitos, instituído legalmente pelo ECA, rompe com a concentração da autoridade suprema sobre a infância e a ação policialesca da ideia de delinquência infantil, ambas estabelecidas pelo antigo “Código de Menores”. Ele instaura uma nova sistemática na qual os papéis a serem exercidos pela sociedade civil e órgãos governamentais e não- governamentais são difusos e ao mesmo tempo interconectados.

A “proteção integral” de crianças e adolescentes passa a ser responsabilidade de todos. No entanto, é preciso ter cuidado com as armadilhas do capital que incute a partir destes pressupostos a política de transferência de responsabilidade do estado para a sociedade civil e órgãos privados, assim como a resolução dos problemas de forma individualizada e não de maneira coletiva.

Figura 2 –

As Bases do Sistema de Garantia de Direitos de Crianças e Adolescentes

Fonte: MOTTI, Antonio José Angelo; CONTINI, Maria de Lourdes Jeffrery & AMORIM, Sandra Maria Francisco de (Orgs.). Consolidando a experiência do PAIR. Campo Grande: Editora UFMS, 2008. Adaptado pelo autor.

O esquema apresenta os eixos do sistema de garantia que se concentra nas ações de atendimento. Nele aparecem as principais instituições que atuam na área da infância e juventude. O organograma permite que se tenha uma visão geral do funcionamento do sistema de garantia de direitos de crianças e adolescentes.

Entre os elementos que compõe tal sistema, é importante ressaltar a prevenção, que não se constitui como um eixo específico, mas é um item importante que pertence ao eixo promoção dos

SISTEMA DE GARANTIA DE DIREITOS

PROMOÇÃO ATENDIMENTO CONTROLE

MONITORAMENTO DEFESA RESPONSABILIZAÇÃO ESPAÇOS PÚBLICOS POLÍTICAS SOCIAIS CONSELHO DE DIREITOS POLÍTICAS ESPECÍFICAS - EDUCAÇÃO

- SAÚDE ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA SEXUAL

ESPAÇOS PÚBLICOS ESPAÇOS PÚBLICOS

FÓRUM DCA ACOMPANHAMENTO AVALIAÇÃO PROPOSIÇÃO ORÇAMENTO MEDIDAS POLÍTICO JURÍDICO JUSTIÇA SEGURANÇA PÚBLICA CENTROS DE DEFESA MINISTÉRIO PÚBLICO JUDICIAL ADMINISTRATIVA SOCIAIS OAB DEFENSORIA PÚBLICA COMITÊ NACIONAL DE ENFRENTAMENTO À

VIOLÊNCIA SEXUAL CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES

CONSELHO DE DIREITOS

FISCALIZAÇÃO POLÍTICAS

direitos de crianças e adolescentes e agrega a escola como uma das instituições de relevância para o seu desenvolvimento.

O capital, por sua vez, tem pressionado os governos a instaurarem processos de privatização dos serviços públicos. A política de cunho neoliberal é baseada na instauração do “estado mínimo”. Isso ocorre em função das reformas neoliberais por meio da transferência de responsabilidades do estado para a iniciativa privada, como por exemplo, atendimento de saúde e educação através de instituições privadas, ou organizações não-governamentais com a terceirização de serviços. Tal fato implica na diminuição da intervenção estatal e na ampliação e flexibilização dos empreendimentos privados.

Ainda assim, não se devem desconsiderar os avanços das políticas públicas na área do enfrentamento da violência sexual contra criança e adolescentes. O Comitê Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual Contra crianças e Adolescentes no caderno de avaliação do Plano Nacional de Enfrentamento (2008, p. 16) destaca as responsabilidades que estado e sociedade civil devem assumir diante desta situação de violência.

[...] a concepção da política pública em sua natureza de responsabilidade compartilhada por todos e todas, e não um dever absoluto do Estado. A política pública que traz um modo de pensar sobre a relação Estado e sociedade como uma prática cooperada e em rede de organismos governamentais e não-governamentais que prestam serviços públicos. Nessa perspectiva, as ações desenvolvidas no espaço da sociedade civil não podem ser pensadas como alternativas ou paralelas, mas como integradas e de extensão da política pública de Estado, capazes de construir conhecimento e provocar impactos para solucionar a problemática enfrentada. Portanto, os planos de enfrentamento à violência sexual contra criança e adolescente devem apontar os órgãos setoriais responsáveis pela implementação das ações estabelecidas, os prazos para o alcance das metas e os indicadores de monitoramento.

O Brasil tem avançado em políticas públicas criadas em função do PNEVSCCA (2000). Elas são organizadas com base nos seis eixos estratégicos contidos no plano. Para cada eixo foram apresentados objetivos que orientam o percurso a ser seguido e o destino a ser alcançado. Eles indicam o que fazer frente a essa problemática.

a) Análise da Situação

1. Identificar causas/ fatores de vulnerabilidade e modalidades de violência sexual contra crianças e adolescentes.

2. Diagnosticar a situação e as condições do enfrentamento da violência sexual pelo governo e ONG’s.

3. Proceder ao levantamento dos recursos financeiros necessários à execução do Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual Infanto-Juvenil e inventariar os existentes.

a) Mobilização e Articulação

1. Comprometer a sociedade civil no enfrentamento à violência sexual.

2. Fortalecer articulações nacionais, regionais e locais no combate e eliminação da violência sexual.

1. Assegurar que a legislação penal contemple todas as situações de violência sexual, como crime contra a pessoa.

2. Garantir a aplicação das leis de proteção às crianças e adolescentes vítimas ou em risco de violência sexual.

3. Disponibilizar, divulgar e integrar os serviços de notificação de situações de risco e de violência sexual contra crianças e adolescentes.

4. Adotar medidas coercitivas em relação ao tráfico de crianças e adolescentes para fins sexuais e de proteção às vítimas.

5. Combater a violência sexual contra crianças e adolescentes na Internet. 6. Formar recursos humanos na área de defesa e responsabilização. a) Atendimento

1. Garantir a proteção integral e a prioridade absoluta às crianças e aos adolescentes em situação de violência sexual.

2. Intervir junto às famílias que vivem em situação de violência sexual.

3. Promover capacitação, teórica e metodológica, aos profissionais e agentes que atuam em programas de atendimento.

a) Prevenção

1. Educar crianças e adolescentes sobre seus direitos, visando o fortalecimento da sua auto-estima e defesa contra a violência sexual.

2. Enfrentar os fatores de risco da violência sexual.

3. Promover o fortalecimento das redes familiares e comunitárias para a defesa de crianças e adolescentes contra situações de violência sexual.

4. Informar, orientar e capacitar os diferentes atores envolvidos a respeito da prevenção à violência sexual.

5. Promover a prevenção à violência sexual na mídia e em espaço cibernético. a) Protagonismo Infanto-Juvenil

1. Promover a participação de crianças e adolescentes nas políticas de enfrentamento da violência sexual.

2. Aumentar a participação de jovens nos espaços de garantias de direitos. 3. Promover a mudança de concepção das instituições que trabalham com jovens no sentido de assegurar o protagonismo infanto-juvenil.

O engajamento da sociedade civil organizada e a integração e articulação dos setores públicos (dos estados e municípios brasileiros) vêm proporcionando um volume de ações que tem permitido o estabelecimento de acordos, compromissos e pactos com o intuito de diminuir a incidência da violência sexual contra crianças e adolescentes no território nacional.

A dimensão continental do Brasil e a diversidade de tipos de ocorrência de casos - exploração sexual comercial, pornografia infantil, pedofilia, abuso sexual intrafamiliar e extrafamiliar e o tráfico interno e internacional para fins sexuais, tendo como principal rede articuladora o turismo sexual – exige dos órgãos governamentais e da sociedade um esforço conjunto para o enfrentamento deste fenômeno social. Na subseção a seguir, serão enfocadas as ações de enfrentamento ao abuso sexual contra crianças e adolescentes desenvolvidas pelo governo federal brasileiro.

4.3 Ações desenvolvidas de enfrentamento ao abuso sexual contra crianças e adolescentes