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Ah Beyoğlu Vah Beyoğlu

4. BULGULAR VE YORUMLAR

4.2. Salah Bey Tarih

4.2.2. Ah Beyoğlu Vah Beyoğlu

Os principais textos de Habermas, ao menos aqueles referentes às discussões sobre a centralidade do trabalho, partem justamente da apreciação de que o marxismo em geral, incluindo nesse grupo tanto os intelectuais diretamente influenciados pelo teórico original do materialismo histórico-dialético quanto pelo próprio Marx, não seria capaz de oferecer formulações teóricas capazes de reproduzir abstratamente o devir histórico de acordo com o seu movimento real. Como consequência, ocorreria a perda de legitimidade de todo o ideário socialista fundado na perspectiva marxista, estopim das discussões sobre a crise do marxismo. Em Para a reconstrução do materialismo histórico, originalmente escrito em 1976, Habermas toma como base um pressuposto retirado diretamente de A ideologia alemã, de Marx e Engels, ligado diretamente à discussão da necessidade de avaliar a história da humanidade como um processo histórico evolutivo, para questionar a ideia, contida no próprio texto dos fundadores do socialismo científico, de que o trabalho social seria realmente central na constituição ontológica dos seres humanos. Mais precisamente, tratar-se-ia diretamente de questionar, em sua obra, se a caracterização do trabalho social teria sido realizada de maneira adequada pelo pensamento marxista, ou, em suas próprias palavras, “se o trabalho social é suficientemente caracterizante no que se refere à forma de reprodução da vida humana” (HABERMAS, 1983, p. 114).

Para Habermas, no mesmo texto, a condição social do ser humano começou a existir apenas a partir da evolução do gênero hominídeo até o ponto em que a intensidade do trabalho e a estrutura familiar fundada no matrimônio surgiram em sua vida. Isso teria ocorrido no salto qualitativo do surgimento do homo sapiens (HABERMAS, 1983, p. 114). Nesse momento, as condições orgânicas da espécie, juntamente com as relações sociais, permitem a



ele incorporar o entendimento de subjetividades distintas da sua e assimilar padrões e normas de comportamento. A diferença entre o homo sapiens e as formas predecessoras a sua condição é que, enquanto essas agiriam com base em um tipo de razão imediatista, aquela se basearia no que ele chama de agir comunicativo.38

Opinião semelhante sobre os limites de uma análise pautada no trabalho como categoria central, mesmo que não compartilhada com a mesma retórica pragmática habermasiana, é a de Claus Offe. A diferença entre Habermas e Offe, além da retórica, se estabelece ao nível da análise. Enquanto Habermas realiza sua crítica ao nível filosófico, abordando o modo como é articulada a teoria marxista, Offe fundamenta sua crítica a partir de supostas mudanças na realidade, para posteriormente avaliar a capacidade de compreensão do mundo fornecida não apenas pelo marxismo, mas como por toda a sociologia clássica.

E que fique claro que a escolha da obra de Offe, e dos outros autores que seguem, não possui uma particularidade para além do movimento específico em que todos se enquadram: o de representarem, apesar de suas diferenças, uma tentativa de questionamento da centralidade do trabalho que desemboca numa crítica das formas clássicas de compreensão da realidade.

Offe parte inicialmente da suposta constatação de que tanto a sociedade burguesa, em seu conjunto de práticas e valores, quanto a corrente teórico-política marxista concebem a sociedade como que fundada no trabalho, reconhecido enquanto “fato social”. Algo reforçado pela ideia de que ambas as posições reconhecem a sociedade moderna como uma “sociedade do trabalho”. Retomando Marx, Offe afirma que todas as sociedades são sociedades do trabalho, pelo fato de que todas as sociedades devem entrar em metabolismo com a natureza a fim de garantir a satisfação de suas necessidades básicas de sobrevivência. Assim posto, seria uma trivialidade sociológica denominar a sociedade moderna deste modo. Entretanto, algo teria mudado e Offe entende a necessidade de demonstrar quais as implicações decorrentes da análise teórica que faz tal afirmação.



38 O agir comunicativo é uma das principais contrições teóricas de Habermas. Conceito basilar de toda a sua teoria social, ela se caracteriza como uma formulação que tenta estabelecer uma nova forma de compreensão sobre a condição humana. Seu entendimento passa pela diferenciação entre ação e discurso. O primeiro deve ser entendido como o ato humano não linguístico, voltado à objetivação de determinada idealização que envolva diretamente a transformação da natureza (HABERMAS, 1996, pp. 103-104). O segundo termo é identificado, em oposição ao primeiro, como todo o ato humano ligado à língua, às relações que envolvem a interpretação de determinadas condições de vida dos indivíduos e à expressão desse entendimento entre esses mesmo indivíduos; este termo é entendido como um ato subjetivo direcionado exclusivamente às relações sociais (HABERMAS, 1996, pp. 104-105).

Assim, Habermas relata a existência de duas formas de interação entre ação e discurso que resultam, consequentemente, em dois tipos de ação teleológica: a ação estratégica, caracterizada pelo exercício da influência através da transmissão de informação; e a ação comunicativa, baseada na formação de consenso através do entendimento do entendimento do conteúdo entre um orador e um ouvinte. A esta última, aliás, Habermas garante um potencial emancipador maior do que se comparado à ação estratégica.

Para Offe, as transformações ocorridas a partir do século XIX na economia europeia através do processo de industrialização capitalista – responsável pela hierarquização de tarefas no interior do processo produtivo e também na esfera da circulação, bem como da orientação racional e técnica dessas relações sociais – foram o objeto por excelência dos cientistas sociais da época, atualmente clássicos da disciplina: Marx, Durkheim e Weber. Juntamente a isso, deve-se ressaltar que as categorias centrais de análise desses autores constituem-se por esse objeto, o que significa dizer que as relações de trabalho da época pautavam ao instrumental analítico da sociologia em seus primórdios.

Até então, três pontos serviram de base para a sustentação da tese da centralidade do trabalho nas análises sociológicas: 1) o aumento do trabalho em sua forma “pura”, enquanto atividade autônoma, separada de outras instituições, ao contrário do que ocorria no período feudal – isso teria permitido condensar a observação e a vivência de experiências da atividade do trabalho na figura do trabalhador; 2) a hierarquia surgida entre formas de trabalho nobres e vulgares determinou a existência de conflitos e formas de solidariedade fundamentais no arranjo social; 3) o desenvolvimento, em todos os níveis, da chamada racionalidade instrumental, ou racionalidade técnica, que além de regular a atividade produtiva, orienta outros conjuntos de relações na sociedade (OFFE, 1994, pp. 169-170). Estes elementos que seriam a base afirmativa da centralidade do trabalho, à época de Offe, teriam deixado de existir, ao menos supostamente.

Mas, também para Offe, o século XX trouxe consequências bastante profundas no devir do desenvolvimento capitalista. A indústria cede terreno como principal atividade econômica, gerando menos empregos. De maneira conjunta, aumentaram, no mesmo período, a atividade do setor terciário e, graças a um avanço na racionalidade técnica e da maquinaria, o desemprego estrutural. Assim, para Offe, estaria havendo uma crise da “sociedade do trabalho”, algo que traria consigo a queda de todo o instrumental analítico sociológico fundado nessa concepção de sociedade (OFFE, 1994, pp. 175-176).

Diante da situação de desalinho da categoria trabalho, lança uma série de questionamentos que poderiam ser expressos nas seguintes perguntas: estaria a sociedade menos configurada pelo fator trabalho? Poder-se-ia dizer, apesar do fato de uma parte esmagadora da população depender do salário, que o trabalho se tornou menos importante para os indivíduos quanto para a coletividade? Enfim, poder-se-ia, então, falar de uma implosão da categoria trabalho?” (OFFE, 1994, pp. 170-171).

Essa tese pode ser confirmada com um breve exame das preocupações temáticas, das hipóteses mais ou menos tácitas e dos pontos de vista relevantes que governam a ciência social contemporânea. A partir deste ponto de observação, é possível encontrar amplas evidências para a conclusão de que o trabalho e a posição dos trabalhadores no processo de produção não são tratados como o princípio básico de organização das estruturas sociais; que a dinâmica do desenvolvimento social não é concebida como emergente dos conflitos a respeito de quem controla a empresa industrial; e que a otimização da relação entre meios e fins técnico-organizacionais ou econômicos através da racionalidade capitalista industrial não é compreendida como a forma de racionalidade precursora de mais desenvolvimento social (OFFE, 1994, p. 171).

Um dos pontos observados que o levam a afirmar isso é que o trabalho teria se transformado numa atividade extremamente heterogênea se comparada aos seus primórdios. A constante especialização da atividade produtiva teria aumentado a diversidade dos tipos de atividade na esfera econômica, caracterizando o processo de trabalho e as relações de produção como fenômenos mais complexos do que no passado. Assim sendo, as relações de trabalho e as relações de classe comuns no inicio do capitalismo já não o seriam mais na atual fase. Com a reorganização da divisão do trabalho, com seu aperfeiçoamento, a variedade dos interesses e das experiências teria dado brecha para o surgimento de novas formas de associação cultural, política e organizacional (OFFE, 1994, pp. 185-186).

Nesse sentido, seria visível o impacto do crescimento do setor de serviços (o chamado terceiro setor) na economia capitalista. Para além de sua importância na dinâmica econômica, sua caraterização se diferiria, e muito, a do trabalho industrial. Naquele, a lógica técnica tenderia a predominar menos do que nesta última, dado que a complexidade da organização desse tipo de trabalho e sua inserção no processo produtivo só poderia se desenvolver de acordo com a libertação de uma lógica técnica, que pouco contribui para a diminuição dos problemas considerados de “segunda ordem”, por parte dos detentores do capital.

Uma ética fundada no trabalho, ou seja, um modo de vida pautado na lógica da cotidianidade da atividade produtiva estaria se extinguindo, para Offe. O declínio de empregos no setor industrial, o desemprego acompanhado do trabalho informal, a crise do Estado de bem-estar e a fragmentação da sociedade salarial seriam indícios desse fenômeno (OFFE, 1994, p. 187).

Uma segunda observação realizada por Offe diz respeito ao declínio da importância da chamada ética do trabalho na vida dos próprios trabalhadores, ou, em outras palavras, a queda na importância dada ao trabalho por aqueles que vivem essa situação em seu cotidiano. Para ele, o trabalho torna-se central para a estruturação através de dois mecanismos: o da integração social, onde ele é encarado como um dever; e outro no âmbito da integração do

sistema, visto como necessidade. Respectivamente, um fator moral e um fator concreto, existencial. O processo de racionalização que deriva em um nível cada vez mais crescente de especialização do trabalho que, aliado à lógica da mercadoria – que exige uma quantidade cada vez maior de trabalho morto e de uma forma de produtividade pautada na extração de mais-valia relativa –, diminuiria quantitativamente a necessidade de trabalhadores no processo produtivo, também é um dos fatores que contribuiriam para o afastamento das relações sociais intrínsecas ao trabalho no cotidiano da maior parte da população (OFFE, 1994, pp. 182-183).

Outro fenômeno que estaria conectado ao do fim da ética do trabalho e que estaria por jogar ao chão o instrumental analítico clássico da sociologia é o do aumento do tempo livre. Para além de uma questão conjuntural, Offe vê esse processo como uma tendência a ser confirmada, dado o grande desenvolvimento tecnológico e a expansão do processo de extração de mais-valia relativa (OFFE, 1994, p. 183).

No campo da necessidade, a conjuntura da época, marcada pela ascensão do Estado de bem-estar, bem como do estado das relações de produção, indica que o trabalho assalariado perde cada vez mais espaço. Já que a grande massa de trabalhadores retirados do segundo setor e não absorvidos pelo terceiro tendem a ser assistidos pelo governo, a perspectiva de uma sociedade fundamentada diretamente pela necessidade do trabalho começaria a esvair-se (OFFE, 1994, pp. 184-185).

Desse duplo movimento, estariam ressurgindo no horizonte de estudos sociológicos temas e fenômenos desvinculados, ao menos diretamente, do chamado mundo do trabalho, como a ecologia e a as questões de gênero e etnia.

A desvinculação dos temas da matriz do chamado mundo do trabalho implica na adoção de uma nova categoria analítica. Offe não a apresenta, restringindo-se apenas a percepção desse movimento. Dentro dessa linha de debate, é Habermas quem propõe essa substituição.

Considerando o que foi escrito a pouco sobre o agir comunicativo39, a linguagem é pressuposto da condição humana, assim como o trabalho. Entretanto, segundo ele, a condição social da humanidade só poderia existir fundamentada na linguagem, pois que o trabalho social, organizado mesmo que de maneira tosca por agregados de hominídeos, já se constituiria como uma forma de organização, mas ainda sim em uma condição meramente natural (HABERMAS, 1983, pp. 116-118). O que distinguiria realmente o ser humano de suas formas evolutivas anteriores seria a linguagem, que colocaria a organização do trabalho



social em outro patamar de complexidade. Como afirma um de seus comentadores sobre a centralidade da linguagem nas relações humanas:

Aí reside seu principal construto teórico, ou seja, a linguagem como fundamento das interações que permite a construção de vínculos valorativo e normativo entre os indivíduos. Dito de outra maneira, Habermas opera, num primeiro plano, uma articulação entre trabalho e linguagem, visando demonstrar que nessa articulação reside a exclusividade social, para em seguida distinguir entre interação e trabalho, ou, em conformidade com sua denominação conceitual, entre agir comunicativo e agir instrumental, transferindo para o primeiro o estatuto de maior relevância para a compreensão das relações sociais (ORGANISTA, 2006, p. 103).

A crítica à categoria trabalho surge, em Habermas, de uma análise da própria teoria marxista, questionando a constituição ontológica do ser humano apontada originalmente por essa corrente e propondo a linguagem como nova referência padrão. Offe, por sua vez, fundamenta sua crítica na análise sociológica, avaliando os limites das teorias pautadas na categoria trabalho de acordo com as transformações supostamente ocorridas no modo de produção capitalista. Esta discussão está presente em Santos. Como já foi escrito anteriormente, Santos coloca Habermas como um dos três intelectuais referenciais da contemporaneidade40, e toda a teorização acerca da crise paradigmática, especialmente ao que se refere à teorização do paradigma emergente, tem por fundamento a linguagem como elemento central. É apenas através da subordinação da linguagem que Santos pode seguir com seus procedimentos hermenêuticos, de valorização da subjetividade em detrimento daquilo que seria simplesmente objetivo. É deste modo, também, que Santos pode negar qualquer outra teoria crítica à modernidade e ao capitalismo (em especial, o marxismo) que se baseia na categoria trabalho, considerando-a “totalizante” – com a errônea igualação do termo a noção de “totalitarismo” –, e economicista, priorizando, ao contrário, momentos e análises mais fragmentadas, tal como o movimento sugerido por Offe. Há de se ressaltar que Offe apresenta uma análise mais apurada das supostas transformações do capitalismo do que Habermas e Santos, influenciando outros autores contemporâneos a ele. Tanto neles quanto no próprio Offe, o momento apontado por ele de abandono da centralidade do trabalho devido às transformações no modo de produção capitalista levam à formulações políticas semelhantes, inclusive à teoria de Santos.