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3.1 – O Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais:

Para o desenvolvimento da presente pesquisa, entendemos ser necessária pequena incursão a respeito dos Tratados Internacionais em matéria de direitos humanos, especialmente àqueles que se enquadram na segunda geração184.

Os direitos econômicos, como categoria examinada neste tomo, busca verificar a paulatina evolução histórica dada aos direitos humanos em matéria econômica, de forma a melhor entendermos os aspectos social e cultural que nortearam a criação e evolução desta importante categoria de direitos.

A integração econômica promovida entre os povos exigiu, como verificaremos, a adequação e a tomada de medidas no sentido de preservar importantes aspectos econômicos e sociais, os quais parecem ser indispensáveis à busca de um mínimo de segurança para as nações envolvidas em qualquer processo integracionista. De fato, as razões desta preocupação revelam-se bastante óbvias, pois de nada adiantaria a ratificação de tratados ou termos de cooperação se as economias dos países interessados neste entendimento não funcionassem de acordo e em sintonia com a nova dinâmica aplicada.

Além desta importante preocupação, surgia, ainda, a necessidade de se preservarem aspectos e princípios mínimos, de forma a também se permitir a proteção e respeito aos direitos sociais e culturais que eventualmente pudessem ser prejudicados com algum processo de integração qualquer.

Lembre-se, ainda, que antes mesmo destes movimentos integracionistas — históricos —, com o término da Segunda Guerra Mundial, houve grande necessidade

184 ―Os direitos de terceira geração podem ser entendidos como aqueles postulados pela própria ONU‖.

Lafer, classifica-os como sendo de terceira e quarta geração. In: LAFER, Celso. A Reconstrução dos

direitos humanos: um diálogo com o pensamento de Hannah Arendt. São Paulo: Editora Companhia

de se criarem mecanismos eficazes destinados à proteção de direitos fundamentais do homem. ―Já não se podia mais admitir o Estado nos moldes liberais clássicos de não intervenção‖185. Em síntese, o Estado passaria a desenvolver laços internacionais. Neste sentido, os mecanismos desenvolvidos estariam voltados à busca de uma harmonização global, a qual somente seria alcançada através de tratados, acordos e a criação de regras de proteção. Assim, os direitos humanos receberiam considerável valorização. Tanto do ponto de vista social, como econômico, as regras de proteção cresceriam na mesma proporção em que os entendimentos mantidos entre os Estados estrangeiros se aprofundavam. Os direitos econômicos passariam a assumir maior dimensão a partir da criação das primeiras regras protetivas.

Para Jayme Benvenuto Lima Júnior existe, ainda, outras considerações a respeito da preservação dos direitos econômicos. E sobre este ponto, assim se manifesta:

A idéia de proteção a essa categoria de direitos envolve a crença de que o bem-estar individual resulta, em parte, de condições econômicas, sociais e culturais, bem como da visão de que o governo tem a obrigação de garantir adequadamente tais condições para todos os indivíduos186.

Criado em 1966, e assinado pelo Brasil em 24 de janeiro de 1992187, o Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais traz um extenso rol de direitos e garantias, dentre os quais destacamos a proteção ao trabalho (que deveria ser em condições justas e favoráveis); a proteção especial de crianças e adolescentes contra a fome; a cooperação internacional; o respeito para a cultura de cada povo; o progresso científico e técnico e outros mais.

O Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, divide-se em cinco partes, sendo que toda a sua extensa composição confere direitos e garantias das mais variadas formas e categoriais, incluindo-se, principalmente, os direitos

185 MAGALHÃES, José Luiz Quadros. Direitos Humanos: sua história, sua garantia e a questão da

indivisibilidade. São Paulo: Editora Juarez de Oliveira, 2000. 34.

186 LIMA JÚNIOR, Jayme Benvenuto. Os direitos humanos econômicos, sociais e culturais. Rio de

Janeiro: Editora Renovar, 2001. p. 30.

187 O referido Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, embora assinado em 24 de

janeiro de 1992, desde o ano de 1966 vem trazendo extenso rol de direitos, que vão muito além dos direitos econômicos propriamente ditos. No Brasil foi aprovado pelo Decreto número 226 de 12.12.1991 e promulgado pelo Decreto 591 de 06.07.1992, quando, então, teria passado a viger em nosso país.

da pessoa humana ser livre da miséria, que, para o trabalho em questão, tem plena relevância. Afinal de contas, as imunidades servem como instrumento estimulador de entidades que lidam com a assistência social e sua diversa penetração nos campos sociais de nosso país.

Ao fundamentar sua criação, o Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, no seu preâmbulo, reconhece que ‗o ideal do ser humano livre, liberto do temor e da miséria, não pode ser realizado a menos que se criem condições que permitam a cada um gozar de seus direitos econômicos, sociais e culturais, assim como de seus direitos civis e políticos‘. O mesmo reconhecimento é feito pelo Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos aos direitos humanos, econômicos, sociais e culturais, também em seu preâmbulo. Essa foi a fórmula encontrada para articular as duas categorias de direitos, afastadas pela intolerância ideológica dos governantes da época188.

Embora não seja o objeto desta pesquisa tratar a respeito de direitos civis e políticos, intrinsecamente, estas categorias parecem vier associadas, uma vez que o tema econômico depende, também, da ingerência política dos representantes eleitos pelo povo, ou seja, os governantes ou dirigentes do Estado.

De qualquer forma, preferimos centrar nossos estudos entorno das repercussões eminentemente econômicas que o presente Pacto possa ter representado para a sociedade.

Como conseqüência da criação do Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, criou-se, ainda, um sistema de monitoramento destinado a avaliar e acompanhar a implementação dos parâmetros eleitos pelo referido Pacto. Assim, precisamente no ano de 1987, teria sido criado o Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais das Nações Unidas, tendo como meta primordial a implementação dos conceitos e garantias estabelecidas pelo pacto nos países signatários.

A ONU189, como entidade responsável pelo acompanhamento das políticas econômicas globais, tem seguido atentamente a evolução das economias

188 LIMA JÚNIOR, Jayme Benvenuto. Os direitos humanos econômicos, sociais e culturais. Rio de

Janeiro: Editora Renovar, 2001 p. 34.

189 Hodiernamente, a ONU, através da comissão denominada WESP — World Economic Situation and Prospects —, juntamente com o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais tem estabelecido uma

visão ampla a respeito do desenvolvimento econômico, elaborando importantes perspectivas de crescimento e questões a serem resolvidas. Este trabalho desempenhado pela ONU, serve, em verdade, como um ponto de referência para as discussões relativas às economias e aspectos sociais criados.

existentes, especialmente para traçar um posicionamento e medidas necessárias à manutenção do equilíbrio e o desenvolvimento sólido dos mercados. O referido Pacto, como destaca Flávia Piovesan190, apresenta uma peculiar sistemática de monitoramento e implementação dos direitos que contempla. Em verdade, esta sistemática inclui o mecanismo dos relatórios, os quais seriam enviados por parte dos Estados signatários.

O Pacto de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais estabelece apenas algumas perspectivas ou ideais a serem perseguidos pelos países signatários, mesmo sabendo que, em alguns, como é o caso do Brasil, as condições à aplicação de alguns conceitos ainda não encontram a situação econômica adequada à sua perfeita integração, embora exigíveis, já que o Brasil é signatário do Pacto. De qualquer forma, o que se busca proteger ou regular não é efetivamente a atividade econômica em si. Cada Estado possui modelo econômico vinculado aos aspectos sociais e culturais, de modo que qualquer legislação ou tratado que tencione exaurir o tema a respeito de economia, sofrerá, invariavelmente, com certas imperfeições.

Como bem pondera Ana Letícia Barauna Duarte Medeiros, ―qualquer construção teórico-dogmática dos direitos humanos deve ter como premissa que o destinatário de suas preocupações sempre será o ser humano‖191.

Ao analisarmos a história dos direitos fundamentais e a criação dos direitos humanos, verificaremos um ponto em comum. Para todos os dispositivos e textos que cuidam de examinar o tema, que é, na verdade, a preocupação que se dispensa a figura humana, ponto frágil em diversas relações, já que destinatária dos efeitos nefastos de uma economia mal gerida.

190 PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o direito constitucional. São Paulo: Editora Max Limonad.

5ª edição, 2002. p. 181.

191 DUARTE MEDEIROS, Ana Letícia Barauna. Direito internacional dos direitos humanos na américa

latina: uma reflexão filosófica da negação da alteridade. Rio de Janeiro: Editora Lúmen Júris. 2007. p.

3.2 – A Declaração Universal dos Direitos Humanos:

A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 surge como uma das manifestações mais notáveis em termos de preocupação com os direitos humanos, especialmente aqueles voltados a conferir um mínimo de garantias.

Como ensina Valério de Oliveira Mazzuoli192, a Declaração Universal dos Direitos Humanos teria sido proclamada na cidade de Paris, em 10 de dezembro de 1948, tendo como um dos principais fundamentos a dignidade da pessoa humana. A Declaração seria um código de conduta humana a ser seguida em todo o planeta e em qualquer circunstância.

Trazendo, em seu texto, um mínimo de garantias, os direitos humanos visam, também, a inviolabilidade da pessoa, a autonomia e a dignidade. Sem deixarmos, logicamente, o conteúdo econômico que poderá vir associado a estes propósitos.

Construída com exatos trinta artigos, a Declaração Universal dos Direitos do Homem traz um extenso rol de direitos, dentre os quais destacamos o direito de propriedade, o direito de nacionalidade, liberdade, ao trabalho, opinião, entre outros mais. Tecnicamente, como ensina Mazzuoli, a Declaração Universal dos Direitos do Homem não poderia ser entendida como sendo um tratado, eis que, para sua formalização, algumas etapas não puderam ser verificadas. Apenas rememorando Mazzuoli conceitua o tratado internacional como sendo um ―acordo formal concluído entre os sujeitos de direito internacional público, regido pelos direitos das gentes, visando a produzir imprescindivelmente efeitos jurídicos para as partes contratantes‖193.

Em seus trinta artigos, a Declaração Universal de Direitos Humanos unge à condição de ‗inalienáveis‘, direitos humanos tanto civis e políticos, como econômicos, sociais e culturais que visam estabelecer um padrão mínimo de

192 MAZZUOLI, Valério de Oliveira. Curso de direito internacional público. São Paulo: Editora Revista

dos Tribunais, 2006. p. 519.

193 MAZZUOLI, Valério de Oliveira. Tratados internacionais. São Paulo: Editora Juarez de Oliveira,

sociabilidade e respeito aos cidadãos, por meio de um instrumento internacional civilizatório194.

A Declaração garante, ainda, a toda pessoa o direito a um padrão mínimo de conforto que seja capaz de garantir para si e sua família a alimentação, o vestuário, habitação e outros. A preocupação com o bem-estar do ser humano é ponto primordial da Declaração, contudo, como no artigo XXV, existe a exteriorização da vontade de se permitir a todos o mínimo de garantias econômicas para o seu sustento e de seus familiares. A família também é foco neste código de conduta. Vejamos o dispositivo da Declaração:

Artigo XXV — 1. Toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem-estar, inclusive a alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, o direito à segurança, em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle195.

A grande importância de que se observa com a criação da Declaração Universal dos Direitos Humanos é o alcance e a influência que este texto traz para os tratados subseqüentes a este, pois além do conforto mínimo de garantias, trouxe certos paradigmas para o campo do direito internacional, de forma que alguns países, passaram a adotar tais paradigmas como preceitos e fundamentos constitucionais. A exemplo disso, temos o Brasil, que, praticamente, transcreveu uma série de dispositivos da Declaração para o artigo 5º da Constituição Federal de 1988.

3.3 – O Protocolo Adicional à Convenção Americana sobre Direitos Humanos em Matéria de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais – Protocolo de San Salvador:

194 LIMA JÚNIOR, Jayme Benvenuto. Os direitos humanos econômicos, sociais e culturais. Rio de

Janeiro: Editora Renovar. 2001, p. 27.

Os tratados internacionais sobre direitos econômicos nos trazem importantes delineamentos a respeito da intenção e alcance que algumas nações conferem a estes tipos de pactos, lançando, para a economia e o direito, modelo capaz de afinar plena sintonia com a ética e o bem-estar social.

Como alinhavado por Ives Gandra da Silva Martins196, economia, de fato, segue os seus próprios caminhos, assim como Estado também o faz. No entanto, respeitar as regras impositivas contidas em lei não pode significar a criação de obstáculos que sejam contrários à sociedade. Para o Brasil, a ética no Direito e na Economia encontram-se bem definidas na Constituição Federal de 1988, fazendo crer que desde a sua edição, os princípios éticos são inerentes à própria Economia, valorizando a iniciativa privada e a livre concorrência, evitando qualquer forma de abuso do poder econômico.

Certamente que com tais preocupações, o legislador desejou imprimir certa atenção a certos aspectos, na medida em que os dispositivos que contêm estes princípios — limitações, no caso — protegem a economia da própria atuação do Estado, que poderia se revestir de uma conduta predatória às bases lançadas.

No entanto, esta preocupação, quanto a ordem econômica, não existiu apenas na Constituição Federal de 1988. O Protocolo Adicional à Convenção Americana sobre Direitos Humanos em Matéria de Direitos Econômicos Sociais e Culturais, também conhecido como o Protocolo de San Salvador197, trouxe como inovações ao Sistema Interamericano de Direitos Humanos a proteção ao trabalho; a condições justas; a seguridade social; a alimentação e uma série de outros direitos. Entretanto, ainda que com o Protocolo de San Salvador se tenha demonstrado interesse na preservação de direitos econômicos e sociais, Jayme Benvenuto Lima Júnior defende que o Protocolo não atribuiu a mesma importância a tais direitos, como no caso do Pacto Internacional de Direitos Econômicos e Sociais e Culturais. E prossegue o autor, dizendo:

Comparativamente ao Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, o Protocolo não atribui a mesma importância a tais direitos, minimizando a sua capacidade de contribuir para a construção de um mundo melhor e mais justo. De forma retórica, no entanto, o Protocolo abriu a

196 MARTINS, Ives Gandra da Silva. Ética no direito e na economia. In: FISCHER, Octávio Campos

(coordenador). Tributos e direitos fundamentais. São Paulo: Editora Dialética, 2004. p. 135-136.

197 Os artigos 6º ao 7º do Protocolo de San Salvador, trazem, realmente, uma série de garantias e proteções

possibilidade, no seu artigo 22, de incorporar outros direitos ou de ampliar os direitos nele reconhecidos198.

De forma geral, o Pacto de San Salvador, ao ser criado, teria sofrido nítida influência de muitos dos dispositivos do Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, já que, desde o seu preâmbulo ou suas razões, existe menção clara a este Protocolo, além dos mais importantes, como, por exemplo, a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

A criação de protocolos, acordos ou mesmo tratados internacionais, é, de fato, base de apoio à criação e defesa de inúmeros direitos, mas, como muitos especialistas defendem, a proteção internacional do indivíduo acarreta alguns problemas, que até o presente momento, não parecem ser solucionados de forma razoável.

A proteção internacional do indivíduo acarreta uma grave ameaça à soberania do Estado. Em razão da sua competência pessoal e da sua competência territorial, é a ele que compete o poder exclusivo de agir no que respeita aos indivíduos nacionais ou estrangeiros que vivam sobre o seu território. Ora, é evidente que nenhum Estado reconhece senão a sua própria legislação — ordinária e constitucional — que ignora os direitos individuais e não basta constituir, só por si, uma proteção eficaz desses direitos199.

Mesmo assim, a criação destes Protocolos avaliza o interesse global pela defesa dos direitos humanos, também os econômicos, especialmente porque a soberania, neste aspecto, poderá sofrer certa flexibilização em face da defesa dos direitos cuja prevalência ressoa muito maior.

198 LIMA JÚNIOR, Jayme Benvenuto. Os direitos humanos econômicos, sociais e culturais. Rio de

Janeiro: Editora Renovar, 2001. p. 46-47.

199 DINH, Nguyen Quoc; DAILLIER, Patrick e PELLET, Alain. Direito Internacional Público. 2ª edição.

3.4 – A Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento:

A Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento, a qual teve bases de elaboração os princípios da Carta das Nações Unidas e Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais e do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, teria como motivação primária a valorização do indivíduo e seu desenvolvimento, criando-o como um verdadeiro princípio.

Para tanto, a Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento vislumbrou contar com ferramentas como a cooperação internacional, ‗para resolver os problemas internacionais de caráter econômico, social, cultural ou humanitário, e para promover e encorajar o respeito dos direitos humanos e às liberdades fundamentais para todos sem distinção de raça, sexo, língua ou religião‘, em vinculação com mecanismos (não nominados) tendentes à ―descolonização, à prevenção da discriminação, ao respeito e à observância dos direitos humanos e das liberdades fundamentais, à manutenção da paz e segurança internacionais e maior promoção das relações amistosas e cooperação entre os Estados200.

A importância da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento, apesar de sua diminuta força jurídica, visto tratar-se apenas de uma declaração, é, em verdade, a associação que o manifesto traz entre o desenvolvimento, o desarmamento e, por conseguinte, a paz entre as nações. A exemplo disso, o artigo 7º onde consta o indicativo de que ―os Estados devem tomar, a nível nacional, todas as medidas necessárias para a realização do direito ao desenvolvimento e devem assegurar, inter alia, igualdade de oportunidade para todos em seu acesso aos recursos básicos, educação, serviços de saúde, alimentação, habitação, emprego e distribuição eqüitativa da renda‖.

Editada em 1986, a Declaração teria surgido em um turbulento período da história humana, onde eram graves as violações aos direitos humanos, especialmente os das minorias. Como consta do preâmbulo, a referida Declaração buscava, entre outras coisas, combater e criticar as ações ―resultantes do colonialismo, neocolonialismo,

‗apartheid’, de todas as formas de racismo e discriminação racial, dominação estrangeira e ocupação‖.

A Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento reacendeu o debate a respeito das diferenças entre os países subdesenvolvidos e os países de primeiro mundo. Para os países mais pobres, a Declaração objetivava conscientizar estes Estados a respeito da necessidade de proteção e respeito aos direitos humanos, a preservação da igualdade de condições e, sobre tudo, a importância da dignidade humana frente às necessidades econômicas.

Já para os países de primeiro mundo, ou desenvolvidos, a intenção era a de criar um ideal de cooperação e ajuda àqueles que, não necessariamente, possuíssem condições materiais e de logística para desenvolver um plano de progresso e desenvolvimento no plano econômico e social.

No Brasil, como a história nos revela, somente a partir da Constituição de 1988 é que os direitos humanos passaram a receber um tratamento de maior importância. O artigo 4º da Constituição Federal traz explicitamente o princípio da prevalência dos direitos humanos. George Rodrigo Bandeira Galindo201, a respeito do princípio, defende que a interpretação deste deve ser realizada de forma mais ampla possível, a final de contas, vincula a ação diplomática brasileira e deveria ser respeitado em quaisquer acordos ou atos unilaterais, implicando, ainda, na obrigação de o Governo brasileiro colaborar com qualquer órgão estabelecido para monitorar a situação dos direitos humanos, notadamente nos sistemas onde o Brasil for parte.

Os direitos humanos, como defende Bobbio202, não nascem de uma única vez, muito menos de uma vez por todas. Como resposta óbvia às barbáries humanas protagonizadas pela história, surgiu a necessidade de se criarem sistemas de proteção contra estas agressões. Como ensina Flávia Piovesan203, com o rompimento do paradigma dos direitos humanos — tudo através da negação do valor da pessoa humana como fonte

201 GALINDO, George Rodrigo Bandeira. Tratados internacionais de direitos humanos e constituição

brasileira. Belo Horizonte: Editora Del Rey, 2002. p. 120.

202 BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Editora

Campus, 1992. p. 32.

203 PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e o direito constitucional internacional. 4ª edição. São Paulo:

de direito —, criou-se a necessidade de construir os direitos humanos como uma espécie de fonte ou paradigma ético que aproxime o direito da moral.

De qualquer forma, observa-se que os direitos humanos, independentemente de sua categorização, precisam ser difundidos de forma mais efetiva, ainda que através de tratados internacionais. A exemplo da Declaração sobre o Direito ao