A seguir, discutiremos os diversos conceitos relacionados ao cuidado domiciliar e as contribuições das equipes especializadas e da atenção primária nos cuidados no final da vida no domicílio.
Rehem e Trad (2005) expressam o fato de haver uma diversidade de termos para conceituar os cuidados no domicílio: assistência domiciliar (predominante), atenção domiciliária, atenção médica domiciliária, internação domiciliar, hospitalização domiciliar, e
Home Care, que pode ser traduzido como assistência domiciliar à saúde. Essa diversidade de
termos está relacionada à dificuldade em definir claramente as características dessa modalidade de assistência à saúde.
Para Sportello, Oliveira e Sakurada (2006), a assistência domiciliária é uma modalidade da saúde em expansão, em decorrência do envelhecimento populacional e aumento das doenças cronicodegenerativas, da necessidade de reduzir as internações e de aumentar a rotatividade dos leitos, além de ser considerada uma forma humanizada de cuidado.
A assistência domiciliária
[...] visa à adequação e a redução da demanda por atendimento hospitalar e de seus custos, mas sem perda da qualidade do atendimento, reduzindo o tempo de permanência do paciente internado, pois a AD dará a continuidade de seu tratamento, diminuindo também os riscos de uma infecção hospitalar. Além disso, a AD contribui na promoção do auto-cuidado, treina o paciente e/ou cuidador frente às suas novas necessidades e possibilita uma adaptação e maior autonomia do paciente e de seus familiares quanto às atividades de vida diária. Consegue executar a prevenção precoce de complicações no domicílio e favorece a retomada do vínculo familiar e da rotina domiciliar, além da educação em saúde, como um todo. (SAKURADA; TAQUEMORI, 2008, p.120)
De acordo com Sakurada e Taquemori (2008), as primeiras iniciativas de cuidado no domicílio surgiram nos EUA na década de 1940, com o objetivo de descongestionar o hospital e de proporcionar um ambiente psicológico mais favorável ao doente e sua família. No Brasil, as primeiras experiências de visitas domiciliares ocorreram na década de 1940, ligadas, inicialmente, ao Ministério do Trabalho. A assistência domiciliária planejada, no entanto, teve início com o Serviço de Assistência Domiciliar do Hospital dos Servidores
Públicos do Estado de São Paulo, em 1963. Apesar de sua origem no setor público, a expansão dessa modalidade de assistência por meio dos serviços privados.
Conforme a OMS, a assistência domiciliar se caracteriza como:
[...] a provisão de serviços de saúde por prestadores formais e informais com o objetivo de promover, restaurar e manter o conforto, função e saúde das pessoas num nível máximo, incluindo cuidados para uma morte digna. Serviços de assistência domiciliar podem ser classificados nas categorias de preventivos, terapêuticos, reabilitadores, acompanhamento por longo tempo e cuidados paliativos. (BRASIL, 2003).
Evocam Giacomozzi e Lacerda (2006) que, “a atenção domiciliar à saúde constitui a modalidade geral da atenção à saúde prestada no domicílio, sendo uma categoria genérica que engloba e representa o atendimento, a visita e a internação domiciliares, cada qual com seus objetivos e características.” (p. 646). A visita domiciliar tem como objetivo o diagnóstico da realidade do indivíduo e ações educativas, e a internação domiciliar envolve aparato tecnológico especializado e presença da equipe por pelo menos 4 horas diárias.
Com a publicação da Portaria GM/MS nº 2.146, de 23 de março de 1998, foram estabelecidos os requisitos para o credenciamento de hospitais e os critérios para a realização de internação domiciliar no SUS realizada pela própria equipe do hospital, como sequência da internação hospitalar. Lembra Figueiredo (2010) que, essa portaria considera a internação domiciliar humanizada de acompanhar os pacientes crônicos dependentes do hospital, que proporciona maior contato do doente com a família, favorecendo a recuperação mais rápida e reduzindo os riscos de infecção hospitalar. A lei nº 10.424, de 16 de abril de 2002, complemento da lei 8.080/90, estabeleceu o atendimento e internação domiciliar no âmbito do SUS, considerando que “[...] incluem-se, principalmente, os procedimentos médicos, de enfermagem, fisioterapêuticos, psicológicos e de assistência social, entre outros necessários ao cuidado integral dos pacientes em seu domicílio”, multidisciplinar e no sentido da medicina preventiva, terapêutica e reabilitadora (BRASIL, 2002). Figueiredo (2010) destaca que não há na legislação referencias sobre a articulação com a atenção básica no contexto do atendimento no domicílio. Com a Portaria SAS/MS nº 249, de 16 de abril de 2002, a assistência domiciliar passou a ser reconhecida como modalidade assistencial a ser desenvolvida pelo Centro de Referência em Assistência à Saúde do Idoso, também vinculada à área hospitalar. De acordo Figueiredo (2010), já há na diretriz uma relação com a atenção básica, uma vez que esta deve referenciar os doentes ao serviço de assistência domiciliar dos
centros de referencia em assistência à saúde do idoso.
Com as diretrizes gerais da ANVISA (RCD nº 11, de 26 de janeiro de 2006), têm- se o estabelecimento dos critérios de funcionamento dos serviços de atenção domiciliar e a definição das características do atendimento no domicílio, tanto no âmbito público quanto privado. A atenção domiciliar passa a corresponder ao termo genérico que envolve ações de promoção à saúde, prevenção, tratamento de doenças e reabilitação desenvolvidas em domicílio. A expressão assistência domiciliar refere-se ao conjunto de atividades de caráter ambulatorial, programadas e continuadas, desenvolvidas em domicílio, ao passo que a internação domiciliar é caracterizada pela atenção em tempo integral a pessoa com quadro clínico mais complexo e com necessidade de tecnologia especializada.
Em 2006, a Portaria nº 2.529, de 19 de outubro, instituiu a internação domiciliar no âmbito do SUS, definindo critérios de inclusão e desligamento dos pacientes nessa modalidade de atenção. Para Figueiredo (2010), nessa portaria a responsabilidade de acompanhamento após a alta do programa de internação é da atenção básica. O autor destaca a necessidade de uma política de assistência domiciliar definida para a atenção básica, apesar de se considerar que essa é uma ação que deve ser desenvolvida pelos profissionais da ESF por meio do instrumento de visita domiciliar.
A assistência domiciliar é considerada ação complexa, uma vez que não é específica de determinada patologia, nem de uma faixa etária, mas que é indicada pelo grau de necessidade e/ou incapacidade do doente, e a demanda nem sempre é do doente e do familiar, mas do sistema de saúde. Requer cuidados assistenciais e sociais, exige articulação com outros pontos da rede, formando uma linha de cuidado, necessitando de apoio da família e da vizinhança, articulando uma rede de apoio (BRASIL, 2003).
Considerando os conceitos apresentados, buscaremos discutir as características da assistência domiciliar realizada pelos profissionais do serviço especializado de Home Care e da atenção primária (profissionais da ESF) no contexto dos cuidados paliativos.
5.2 Cuidados Paliativos no domicílio: Atenção Especializada e Atenção Primária à