• Sonuç bulunamadı

complexa e abrangente, porque este é um conceito vago, que apresenta muitas significações, relacionando-se a uma série de transformações inscritas em diversas áreas da vida humana, na política, nas mentalidades, nos costumes, no modo de vida e no cotidiano.

A modernidade também produziu transformações nos processos educativos, atingindo a escola e também as famílias. Para Marcus Vinicius da Cunha, escola e família são instituições sociais de caráter educacional que gravitam em torno de um mesmo centro, o indivíduo educável, e são imbuídas da missão de conduzir pessoas do presente para um espaço futuro, supostamente melhor, mais desejável e superior. No entanto, na definição de seus espaços educativos, essas instituições vivenciaram dificuldades, e ainda estão imersas em acirrado conflito. Pais e professores, se interrogados, apontam uma extensa lista de insatisfações acerca do desempenho do outro. (CUNHA, 2003).

No momento presente (século XXI), esse confronto, conforme Cunha (2003), manifesta-se no lamentável quadro de violência que atinge a escola, mas no passado girou em torno da própria definição da escola como instituição responsável pela educação da infância. Em suas argumentações, o autor discute idéias de Comenius, que circularam há mais de 300 anos e já apontavam a necessidade das escolas para educarem bem os filhos, pois a divisão social do trabalho caminhava a passos largos e impossibilitava que os pais disponibilizassem tempo para essa tarefa, além de não estarem preparados para a atividade educativa. Em outras palavras, a escola evoluiu e inscreveu-se na tradição como espaço de formação do futuro adulto. “O problema é que, ao longo de sua evolução, a escola tornou-se mais do que uma simples instituição de apoio à família, ela posicionou-se contra a família”. (CUNHA, 2003, p. 450).

Para o autor, esse posicionamento da escola, contra a família, relaciona- se aos conhecimentos produzidos pela ciência. Ou seja, a escola, ao longo da história, foi incorporando saberes científicos em oposição aos saberes domésticos tradicionais. Assim, desde a 2ª metade do século XIX, a instituição

familiar era caracterizada pelo mau funcionamento, dada como incompetente, incapaz, sem qualidades para educar as crianças. Como o discurso da ciência que orientava a escola, ao mesmo tempo, também desqualificava a família na educação do corpo e do espírito, fazia-se urgente inseri-la nos padrões de normalidade. (CUNHA, 2003).

Ainda segundo o autor, duas abordagens eram comuns no movimento renovador das práticas educativas. Em primeiro lugar, a educação tornou-se assunto do Estado e a escola era a instituição responsável pela educação. A educação das crianças não poderia ocorrer no âmbito familiar, porque as mães não possuíam as mesmas capacidades que os professores, pela ausência de conhecimentos científicos que embasassem suas ações. Em segundo lugar, o discurso continha um chamamento às famílias, para se aproximarem da escola e se instruírem sobre a educação de seus filhos. Ou seja, os pais não tinham mais direito exclusivo sobre a educação de seus filhos, tornando-se coadjuvantes nessa educação, ao mesmo tempo que a escola indicava-lhes a melhor maneira de conduzir crianças e jovens na direção correta que a sociedade requisitava. E os argumentos da escola eram irrefutáveis, porque assentados em crenças e conhecimentos científicos. (CUNHA, 2003).

No contexto montesclarense, ao empreender sua missão “desanalfabetizadora”, a Gazeta do Norte também colocou atenção sobre os processos educativos ocorridos no ambiente familiar, dedicando parte de seus esforços para produzir a mulher moderna, educando-a conforme os conhecimentos científicos, preparando a base da educação das crianças.

Por compreender a mulher como primeira educadora da infância, mas também reconhecer sua desqualificação para essa educação, a Gazeta do

Norte, apoiando iniciativas da Escola Normal, assumiu papel eminentemente

pedagógico, voltado para educar as mães, em parceria com a Escola Normal. As estratégias utilizadas organizaram-se em torno de dois eixos de ação: fazer propaganda dos modernos métodos educativos e apontar as falhas cometidas pelas mães; educar a comunidade local, e especialmente a mulher, pela realização de conferências médicas e pedagógicas e a publicação de artigos educativos no jornal.

Nas conferências realizadas em Montes Claros, foram apontados os defeitos da educação doméstica, destacando-se a imperiosa necessidade de

pais e professores conjugarem esforços para educarem conforme diretrizes comuns. No entanto, as atividades educativas desenvolvidas sofreram um deslocamento temático. Nos últimos anos da década de 1910 e primeiros de 1920, a discussão relacionava-se aos defeitos da educação doméstica, à importância da mãe educadora, à necessidade de autoridade e respeito na relação adulto-criança, ao valor educativo e modelar das virtudes dos pais, aos problemas de higiene e saúde. Essas eram temáticas consideradas como pontos de estrangulamento dos conhecimentos dos pais e da comunidade como um todo. Já os últimos anos da década de 1920 e primeiros da década de 1930, por influência do movimento da Escola Nova, as práticas educativas dirigidas às mães passaram a focalizar a pedagogia moderna. Aos pais foram apresentados os modernos métodos de ensino, valorizando a atividade, o trabalho e o interesse das crianças, sendo discutida a relação entre castigos, autoridade, iniciativa, interesse e curiosidade infantil. Se inicialmente os pais eram desqualificados por não possuírem conhecimentos médico-higiênicos, essa desqualificação pasou a referir-se ao desconhecimento dos novos métodos e processos educativos. (Ver QUADRO IV, ANEXO V, que mostra as confências pedagógicas e o ANEXO IV, QUADRO V, que indica as matérias de natureza pedagógica presentes na Gazeta do Norte).

A mudança no eixo das discussões revela um deslocamento dos motivos que justificavam a intervenção da Gazeta do Norte na vida das famílias. A apropriação de conhecimentos da área médica era necessária ao crescimento e desenvolvimento orgânico saudável das crianças. Já os conhecimentos pedagógicos favoreceriam uma educação moderna, em que as crianças desenvolveriam a capacidade de iniciativa e curiosidade, como também de autodisciplina, de controle dos impulsos e sublimação dos desejos egoístas para a construção do bem-estar coletivo. Não apenas uma preocupação com a moralidade e o crescimento físico, mas uma ampliação da missão educativa que inclui o desenvolvimento da criança em sua individualidade, como pessoa única, dotada de interesses e aptidões, capaz de exercitar sua liberdade e desenvolver mecanismos de autocontrole.

Inicialmente, por influência das pedagogias disciplinares, a disciplina da criança era compreendida como obediência, constituindo-se como reflexo da autoridade moral, da firmeza e afeto dos pais. A partir das pedagogias

psicológicas e da renovação proposta pela Escola Nova, os castigos foram questionados e a disciplina passou a ser compreendida como autogoverno, produzida pela atividade interessada, pela motivação da criança e a orientação dos pais e professores. Como nas décadas anteriores, o lar continuou a ser compreendido como espaço educativo e o papel da família reconhecido, mas as mães precisavam adquirir conhecimentos científicos e revisarem suas práticas. Nesse sentido a Escola Normal fez conferências visando educar as famílias, e a Gazeta do Norte lhes conferiu publicidade.

No momento inicial de fundação Gazeta do Norte (1918), suas relações com a Escola Normal eram mais fluidas e a parceria escola-jornal ainda não havia se consolidado. Assim, o conteúdo das conferências não era transcrito pelo jornal, que limitava-se a dar publicidade e comentar os eventos. Pelo valor educativo dos conhecimentos disseminados, a comunidade era chamada a participar, para educar-se e promover o desenvolvimento da cidade. O jornal organizava suas ações pela lógica da campanha educativa e circunscrevia sua missão “desanalfabetizadora” ao plano da propaganda, da conscientização e da formação de opinião, divulgando os benefícios advindos da educação e da instrução.

Por essa abordagem, em 1918, a Gazeta do Norte fez um chamamento aos pais, visando sua participação nas conferências e palestras médico- higiênicas desenvolvidas na Escola Normal. O discurso, inicialmente destinado às famílias, acaba por assumir um direcionamento mais específico, voltando-se para as mães de família, e não mais genericamente aos pais. Em matéria assinada por Honor Sarmento foi explicitado o despreparo das mães para o exercício da educação familiar, e a falta de conhecimento das mães gerava desatenção e descuido com a educação dos filhos:

Notamos, de muito tempo, o descaso com que olham as praticas de hygiene, o descapricho com que tratam os deveres domésticos, de forma especial e evidente, quanto às necessidades que tem as creanças para o seu desenvolvimento são, normal e robusto, descapricho que attribuimos à falta de conhecimentos que, é preciso adquiram as mães de família332.

332

SARMENTO, Honor. Cartas Semanaes. Gazeta do Norte. Ano I. nº 14, 05 de outubro de 1918, p. 01.

Benzer Belgeler