3. SANAT EĞİTİMİNDE VELİNİN (ANNE- BABANIN) ROLÜ
1.3. Veri Toplama Aracı
1.1.3. Bölümler Bazında Okullara Göre Veli Beklenti Düzeylerinin
A gestão universitária num regime autoritário é a primeira a receber o impacto do uso da força, por parte do comando militar e, sob a mira da arma, cede e atua como força aliada às forças de repressão.
Em 1969, a Reitoria da Universidade mandava cancelar ou impedir matrículas de alunos e ex-alunos que resistiam à ditadura instaurada com o golpe militar de 1964. Foram excluídos da vida acadêmica, tiveram suas vidas pessoais e profissionais tremendamente prejudicadas ou simples e cruelmente exterminadas [...] Obrigou o Conselho Universitário a homologar decisões que por outros meios e formas alcançariam, também, professores e técnicos da Instituição (UFPB, 1999, p. 7).
A UFPB não foi diferente das demais universidades públicas. O reitor em exercício, o desembargador Mário Moacyr Porto, dois dias após o golpe de 1964, compareceu ao Grupamento de Engenharia para receber o comunicado do Comando Militar de sua destituição do cargo de reitor da UFPB, substituído pelo interventor, um ex-oficial do Exército e professor da Faculdade de Medicina, Guilardo Martins Alves.
O Conselho Universitário que, antes da ditadura, tinha incentivado a ampliação da participação estudantil nos órgãos colegiados, aprovou com 21 votos (de 23) a eleição indireta do interventor. Com isso, legitimou a inserção do autoritarismo na universidade, abrindo espaços para punições, censuras, intervenção no DCE e DAs, repressão aos dissidentes, perseguição de docentes e gestores (que não ficaram impunes ao arbítrio).
Na UFPB, como em outras universidades públicas, a instauração do golpe militar de 1964 impactou, de imediato, na gestão. Afirma o reitor acerca do processo:
O ofício, que decorei, dizia o seguinte: ‘Comunico a Vossa Senhoria (já estava destituído do título de Magnífico...) que este comando militar, zelando pelos princípios de renovação da Revolução, resolveu intervir nessa Universidade. Cumpre esclarecer que a sua destituição do cargo de reitor não decorre de nenhuma dúvida quanto à sua probidade, ou suspeita de atividade subversiva’ [...] A Revolução estava punindo as pessoas sob dois fundamentos: subversão e corrupção. [...] Mas, mesmo assim, não me conformei e fiz uma resolução, talvez até um pouco precipitada, pedindo ao novo reitor, o Guilardo – que já estava empossado como interventor – para que fizesse uma devassa na minha administração, apesar de que o ofício me isentava de qualquer culpa. [...] Pedi uma certidão e eles me forneceram, dizendo que não existia nenhuma irregularidade (PORTO, 1994, p. 444).
O comando militar conseguiu total apoio do Conselho Universitário no processo de destituição do reitor em exercício, já que não houve manifestação de repúdio.
Apesar de a Universidade ser uma instituição que deveria primar pela liberdade de pensamento, inclusive incrementando-a, Guilardo Martins Alves se submeteu à orientação do Comando Revolucionário, cerceando esse postulado, valendo-se da autoridade que o cargo lhe conferia, passando a desenvolver ações através de justificativa teórica e pragmática que no fundo liquidava com a verdade factual [...] a ditadura se instalou com todo rigor na UFPB. Grande parte dos professores e alunos silenciou. Outra parte aderiu aos golpistas; uma pequena parte resistiu, denunciou e foi perseguida, presa e expurgada (GOMES, 2006, p. 53).
Outros diretores de Unidades da Universidade também sofreram a intervenção: Cláudio Santa Cruz (Diretor da Faculdade de Economia) e Paulo Pires (Diretor da Faculdade de Filosofia) (BARROS JÚNIOR, 1999).
Os reitores foram processados [...] A barra aqui ficou muito pesada, não para mim, mas para os professores que foram mandados para Fernando de Noronha. Muitos sofreram vexames de toda natureza, inclusive alunos da Universidade. [...] botei estudantes no Conselho da UFPB, com direito a ter voz e voto. Mas isso, antigamente, era considerado ato de subversão (PORTO, 1994, p. 445 – 446).
O professor Mário Moacyr Porto expressa como a política de diálogo aberto e ampliação do processo de participação estudantil nos conselhos superiores não agradaram ao Estado autoritário, motivo principal da sua demissão do cargo de reitor.
Eu lutei muito para aumentar consideravelmente a representação estudantil nos colegiados da Universidade. Essa foi uma das minhas lutas maiores e eu quero crer que foi essa luta ostensiva e permita dizer, corajosa, que me levou a Revolução de me destituir do cargo de Reitor [...] Eu não fui logo demitido, houve a intervenção militar, eu fui destituído como Reitor, por ato do Presidente da República [...] Houve um espaço entre a intervenção federal e a minha exoneração como Reitor. (PORTO, 2006, p. 101 – 102).
Afirma, ainda, o reitor exonerado na época:
O estudante só tinha o direito de estudar, tinha que ficar calado, submisso, amedrontado, medíocres. Os mais inteligentes, mais irreverentes, ficaram à margem, pelo fato de não se permitir às Universidades criticar, não se conformar com certas medidas. Isso pulou uma geração inteira. [...] O que houve foi o expurgo de uma geração inteira, pelo medo, pela punição, por aquele ato permanente, na Universidade, de cassação, de cancelamento de matrículas. Isso foi um grande mal. E é um mal que não dá na vista (PORTO, 1994, p. 449).
A professora Maria José Texeira Lopes Gomes, que realizou sua dissertação sobre o período citado, desvela como a estratégia de neutralização dos processos e espaços democráticos foram atingindo os setores mais mobilizados como o estudantil e o docente. A estratégia exigia silenciamento e repressão aos inimigos ideológicos e política de expansão aos adesistas.
O meio estudantil e o professorado passaram a ser vasculhados pelos IPMs (Inquéritos Policiais Militares), instrumentos criados por ato institucional e, posteriormente, regulados por lei. Uma Comissão Especial de Investigação Sumária (CEIS), composta pelo reitor, por professores e funcionários indicados pelos militares, foi instalada para levar a efeito os expurgos e outra Comissão Geral de Investigação (CGI), igualmente instalada na sede da Reitoria (GOMES, 2006, p. 53).
Cittadino (1993) identificou a oficialização do autoritarismo do regime na UFPB, através dos documentos expostos no quadro abaixo.
Quadro 8 – A intervenção militar na UFPB
DATA A intervenção na UFPB
14 de abril de 1964 Afastamento do Reitor Mário Moacyr Porto, com base no Ato Adicional do Comando Militar e nomeação do interventor, ex-oficial do exército, professor de Medicina Guilardo Martins Alves.
08 de maio de 1964 1ª. Reunião do CONSUNI após a intervenção.
15 de maio de 1964 Aviso nº 916/1964 do MEC, credenciando o interventor para o exercício
pro-tempore da reitoria (1964 – 1967).
Ofício 03/881/1969 Ofício do interventor ao Comandante da Guarnição Federal, declarando fidelidade ao processo deflagrado pelos militares, especificando as medidas tomadas.
Circular da Reitoria Circular dirigida aos interventores dos DAs, visando a normalização administrativa e a reorientação das organizações estudantis.
Ofício Reservado No. 05 de 25 de fevereiro de 1969
Punição Ad referendum do CONSUNI, Processo 31.260, que foi homologado por unanimidade pelo CONSUNI.
Fonte: CITTADINO (1993).
Foram realizados, ao todo, 35 expurgos de docentes e 85 de discentes, pela Comissão Especial de Investigação Sumária, sem direito à defesa e à justiça (UFPB, 1999). Depois de expulsar estudantes, professores e funcionários, o interventor da UFPB, durante parte do regime militar, afirmou, numa entrevista, que não usou de violência contra estudantes, apenas conseguiu “estabelecer um clima de confiança e bom relacionamento com as diferentes categorias docente, discente e administrativa, através de uma política de portas abertas, ampla comunicação e debate dos problemas” (ALVES, 2006, p. 102). (Ver, em anexo, relação de cassados na Paraíba).5
5
Como exemplo da violência da repressão, a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos cita a do estudante universitário José Roberto Borges de Sousa. Natural de Cabedelo, presidiu o Diretório Acadêmico de Medicina na UFPB e foi dirigente do DCE e da União Estadual dos Estudantes da Paraíba (UEEP). Era filiado à Ação Popular, que tinha hegemonia no movimento estudantil em 1968. Foi sob condições suspeitas, em Catolé do Rocha, onde vivia na clandestinidade. Sua morte foi atribuída ao Comando de Caça aos Comunistas (CCC) e ao Centro de Informações da Marinha (CENIMAR), e causada por resistir ativamente contra a opressão e lutar contra o corte de verbas para educação, a taxação dos serviços e o processo de avaliação pelo vestibular, a favor do restaurante universitário e pela defesa do ensino público e gratuito (BRASIL – CEMDP, 2007, p. 106).
Gomes ressalta como o processo de patrulhamento ideológico, os Inquéritos Policiais Militares, os expurgos e a Comissão Especial de Investigação Sumária contribuíram para reduzir as possibilidades de resistências e manter a regra do “dever de obedecer”, assumido pela gestão interventora e os órgãos colegiados. Pesquisa realizada por Gomes (2006), sobre os expurgos realizados na UFPB durante a ditadura militar, confirma como a universidade transformou-se em espaço de vigilância e violação dos direitos humanos (Anexo 06).
Na ata da primeira reunião do CONSUNI, após o golpe, é possível observar como o discurso autoritário transformava as medidas de força em palavras simbólicas como: “revolução democrática” a serviço da “paz e da democracia”, anunciando uma nova ordem que, se fosse democrática, não requisitaria o uso de golpes e repressão, nem de intervenção do exército nas universidades, como ocorreu, principalmente depois do AI-5. O terror cultural implicou na criação de dispositivos disciplinares. O Conselho Universitário puniu por um ano letivo, 85 estudantes que participaram da manifestação antilacerdista da Faculdade de Direito. As acusações em relação a docentes e discentes, pelos órgãos federais de Segurança, compreendiam: identificação como membro de organizações ou partidos de esquerda, participação em manifestações de caráter reivindicativo, participação nas ligas camponesas, participação de congressos da UNE, venda de livros, relações de amizade com comunistas, solidariedade a Celso Furtado pelo Plano Diretor da SUDENE, participação em eventos de cunho de esquerda, dentre outras. O clima de terror instaurou o medo como dispositivo de controle social, como afirma uma docente:
A repressão era grande demais. Eu tinha muito medo, tinha muito medo, é tanto que as poucas coisas que insurgiam, era muito velado, sabe aquela coisa? A ADUF começou no CCHLA, onde teve uma história de ameaça de uma bomba, ali em um bequinho do Departamento de História (era uma salinha só), depois é que foi para o Centro de Vivência. Telefonaram para o Departamento de História e disseram que botaram uma bomba. Foi comunicado ao reitor que acionou a Policia Federal que foi atrás da bomba, mas nada encontrou. (ND, 2010, entrevista).
A UFPB, enquanto instituição pública viveu, durante o período de 1964 a 1985, processos autoritários de várias ordens, como: intervenção na gestão com afastamento do reitor e diretores de centros, criação de órgãos paralelos de informação, censura política nos conteúdos e métodos educativos, alteração nas ações de pesquisa e extensão, fiscalização e controle de informação, perseguição de dirigentes, do movimento estudantil, de docentes e servidores, obrigando-os a viverem na clandestinidade.
Havia dois processos em curso. Um de caráter coercitivo (expurgo, repressão, IPMs, Comissões de Investigações) em relação aos docentes, servidores e discentes discordantes e outro de caráter consensual em relação aos adesistas (premiação com cargos, reforma cêntrica e expansão e modernização da universidade, reforma universitária, incentivo à pesquisa, expansão de matrículas) (GOMES, 2006).
O uso da força foi utilizado, também, para intervir e exonerar dirigentes, professores e servidores técnico-administrativos, além da criação da Assessoria de Segurança e Informação – ASI, que controlava processos de seleção, monitorava a atuação dos dirigentes e realizava sugestões e alertas. O quadro em seguida apresenta atos de violação aos direitos humanos vivenciados na UFPB, durante o regime de 1964 – 1985, que puseram em risco não só os direitos individuais (civis e políticos) como os direitos coletivos (justiça, educação e trabalho).
QUADRO 9 – Retrato das violações aos direitos humanos durante a ditadura militar na UFPB (1964 – 1979)
Declaração Universal dos Direitos Humanos Tipos de Violações de direitos
Direito à Vida
Artigo III
Todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.
• Constrangimento mediante violência ou grave ameaça, por palavra, escrito ou gesto, ou qualquer outro meio simbólico.
Direito de Liberdade
Artigo XIII
1. Todo ser humano tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado.
2. Todo ser humano tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio, e a este regressar.
Artigo XVIII
Todo ser humano tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, em público ou em particular
Artigo XIX.
Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem
interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e
independentemente de fronteiras.
• Ameaça. • Exílio.
• Patrulhamento ideológico.
• Perseguições por motivações ideológicas.
• Relatórios Secretos.
• Criação de profesores delatores. • Censura das atividades culturais. • Censura de livros e abordagens teóricas. • Controle dos meios de comunicação. • Violação de correspondência.
• Desvio, sonegação, subtração ou supressão de correspondência.
• Subtração da possibilidade de resistência.
Direitos Políticos
Artigo XX
1. Todo ser humano tem direito à liberdade de reunião e associação pacífica.
2. Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação.
• Destituição do cargo de Reitor (o prof. Moacir Porto) e substituição pelo interventor Guilardo Martins Alves, em 14 de abril de 1964.
• Dissolução do DCE e DAs.
• Atentado contra a liberdade de associação.
Direito à Educação
Artigo XXVI
1. Todo ser humano tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A instrução técnico- profissional será acessível a todos, bem como a instrução superior, esta baseada no mérito.
2. A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do
fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a
compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.
3. Os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos.
• Cancelamento de matrículas e expulsão de estudantes, professores e funcionários. • Suspensão do ano letivo de 85 estudantes
que participaram de manifestação antilacerdista da Faculdade de Direito.
Direito ao Trabalho
Artigo XXIII.
1.Todo ser humano tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego.
2. Todo ser humano, sem qualquer distinção, tem direito a igual remuneração por igual trabalho.
3. Todo ser humano que trabalha tem direito a uma remuneração justa e satisfatória, que lhe assegure, assim como à sua família, uma existência compatível com a dignidade humana e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social.
4. Todo ser humano tem direito a organizar sindicatos e a neles ingressar para proteção de seus interesses.
• Rescisão e suspensão de contratos e pagamentos.
• Demissão de professores e servidores. • Intervenção nas Universidades • Exoneração de Reitores e diretores. • Inquéritos sumários.
Direito de Acesso à Justiça
Artigo IX
Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado. Artigo X
Todo ser humano tem direito, em plena igualdade, a uma justa e pública audiência por parte de um tribunal independente e imparcial, para decidir sobre seus direitos e deveres ou do fundamento de qualquer acusação criminal contra ele.
Artigo XI
1. Todo ser humano, acusado de um ato delituoso, tem o direito de ser presumido inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa.
2. Ninguém poderá ser culpado por qualquer ação ou omissão que, no momento, não constituíam delito perante o direito nacional ou internacional. Também não será imposta pena mais forte do que aquela que, no momento da prática, era aplicável ao ato delituoso.
• Criação da Comissão Geral de
Investigação – CGI para realizar inquéritos em rito sumaríssimo, em caráter sigiloso, retirando o direito de defesa dos servidores e professores acusados.
• Criação da Comissão Especial de Investigação Sumária (CEIS) para processar expurgos.
• Realização de Inquéritos Policiais Militares.
Fonte: ADUFP-JP (1979); CITTADINO (1993); MELLO (2006); BRASIL-SEDH (2006); GOMES (2006); FERREIRA; FERNANDES (2006)
O quadro demonstra como a liberdade acadêmica foi suprimida, seja nos objetivos e conteúdos, nos métodos e formas de avaliação, como na regulamentação jurídica, no pluralismo de fundamentos e na gestão universitária6. Outras medidas, adotadas pelo comando militar, para contrabalancear as medidas de força e conquistar hegemonia foram a expansão da universidade, com a criação do campus e a ampliação de cursos e matrículas, assim como a concessão de títulos honoríficos a autoridades centrais (generais e ministros) do Estado de Segurança Nacional. Para Cittadino (1993), o Estado de Segurança Nacional sutentava-se em dois pilares: a defesa da segurança interna (durante o AI-5 teve a hegemonia da extrema- direita) e o modelo de desenvolvimento associado ao capital estrangeiro, sob hegemonia dos Estados Unidos, implicando num processo de desnacionalização.
Com a intenção de institucionalizar a ideologia da segurança nacional, coordenada pela Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra – ADESG, foram instituídas, na UFPB, pelos Conselhos Superiores: a Resolução nº 11/1970, implantando o Ensino de Educação Moral e Cívica na Graduação e a Resolução nº 06/1975, que autorizou a realização de Curso de Férias e da disciplina Estudos de Problemas Brasileiros.
A ditadura significou a negação do direito a educar-se em liberdade. Sem o pluralismo de ideias e a liberdade de organização e participação, o Estado autoritário violou o que preconiza a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) e os Pactos Internacionais.
A radicalização do processo político impunha neutralizar totalmente os espaços democráticos consentidos e indicar novos caminhos ideológicos, tornando a UFPB rígida, monolítica e homogeneizada, afastando do debate a intelectualidade progressista e o alunado mais politizado (GOMES, 2006, p.52).
Sem a liberdade, a vigilância e os interesses disciplinares sobrepunham-se ao direito e à responsabilidade com o ensino. No entanto, apesar do golpe na liberdade de pensamento atingir fortemente a universidade e a sociedade, simultâneo a ele gestaram-se resistências que desencadearam novos processos de mudanças, arejando a sociedade e forçando o processo de distensão e de transição democrática. Nessa tensão entre resistência e regulação, emergiram movimentos sindicais, populares e de educação. No processo de criação da ADUF, nos anos 1970, havia ainda reuniões clandestinas de articulação da entidade docente.
6 O Pacto dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, ratificados em 1988, ressaltam o dever dos Estados em respeitar a liberdade no exercício da autonomia acadêmica.
Nessa época, houve muita pressão para sair como presidente da chapa da associação docente, mas, como tinha resquícios da clandestinidade, não aceitei. Eu não esclareci em momento algum como se estas coisas as pessoas não iam saber? Era uma esquizofrenia. Eu e N não aparecíamos juntos. Ela passou dois meses numa solidão atroz. Ela começou a fazer um trabalho no bairro 13 de maio que Dom José colocou- a lá ela ficou encarregada com o grupo de crisma (AP, 2010, entrevista).
Barros Júnior (1999), no parecer referente ao Processo nº 013.711/99-07 junto ao CONSUNI, referente ao pedido de Retratação Institucional da Comissão de Anistia da UFPB, explicita claramente o que significou a ditadura nas universidades brasileiras:
Na prática e na verdade, implantou-se o arbítrio, o medo, a repressão. A tortura consolidou-se como método de ação dos agentes e aparelhos de segurança do Estado. No âmbito das universidades, uma série de leis buscou estabelecer um controle bastante rigoroso sobre o que se passava no interior das academias. A mais severa delas, o Decreto-Lei nº. 477, de 26 de fevereiro de 1969, punia com demissão, proibição de contratação, expulsão, impedimento de matrícula e banimento do país, no caso de estrangeiros, qualquer ato de professor, funcionário e aluno que tivesse caráter reividincatório, grevista ou político (BARROS JUNIOR, 1999, p. 34).
Incluía-se, entre os dispositivos disciplinares da repressão, o de transformar os órgãos de representação estudantil em centros de serviços assistenciais e reuniões de “caráter cívico”. O Decreto-Lei nº 228, de 28 de fevereiro de 1967 (revogado pela Lei nº 6.680, de 1979), em seu artigo 11, vedou aos órgãos de representação estudantil realizar “qualquer ação, manifestação ou propaganda de caráter político-partidário, racial ou religioso, bem como, incitar, promover ou apoiar ausências coletivas aos trabalhos escolares”
(www.jusbrasil.com.br). O Congresso Nacional aprovou a Lei nº 4.464, de 9 de novembro de
1964 (Diário Oficial da União, 11/11/1964, p. 169), proposta pelo Ministro da Educação, Flávio Suplicy de Lacerda, tutelando e esvaziando o movimento estudantil. Extinta a UNE e as Uniões Estaduais dos Estudantes, na Paraíba, o interventor da UFPB dissolveu o Diretório Central e os Diretórios Acadêmicos de Medicina, em João Pessoa, das Faculdades de Ciências Econômicas, em João Pessoa e Campina Grande, e da Escola Politécnica, que passaram a ser geridos por interventores. Tal ato, constante no Livro de Atas do CONSUNI, datado de 24 de março de 1964, foi chamado pelos golpistas de “reorientação aos novos ideais