2. BÖLÜM
4.3. Çin’de Azınlık Sosyolojinin Disiplin Haline Gelmesi ve İlgili Çalışmaları
4.3.3. Azınlık Sosyolojisinin Kurumsallaşma Süreci
Sabemos que, do ponto de vista espaço-temporal, existem, nas artes, duas grandes divisões: as artes que se verificam no espaço e as que se desenvolvem no tempo. Num primeiro momento, artes como a pintura e a literatura parecem distintas, em função de suas representações no espaço e no tempo.317 Assim, enquanto que na pintura observamos em sua disposição
geométrica uma representação bidimensional-simultânea, na literatura, ao contrário, parece haver uma linearidade da leitura, a qual inscreve o texto num tempo, durante o qual se processa o ato de ler.318 Mas esta separação
parece ser mais didática do que coerente, pois, em última análise, estas duas dimensões, o espaço e o tempo, além de estarem intimamente relacionadas, apresentam-se tanto no texto, quanto no quadro ou na imagem.
Com efeito, e como destaca Louvel, a pintura também está, concomitantemente ao seu domínio espacial, inscrita numa dimensão de tempo, assim como a imagem numa esfera temporal, possuidora, também, de uma simultaneidade espacial.319 Nesse sentido, a artificial separação
entre artes do tempo e artes do espaço parece ser ilógica. Na realidade, não podemos, em última instância, saber de qual tempo falamos, assim como de qual espaço se trata, mesmo porque, se bem analisarmos, veremos que o objeto espacial possui uma extensão mensurável, a qual é percebida, em nível simultâneo e durante um período temporal, pelo olhar do sujeito contemplador; e, ao mesmo tempo, o objeto pode ser descrito textualmente
317 Cf. LOUVEL, 2002, p. 21. 318 Cf. LOUVEL, 2002, p. 21. 319 Cf. LOUVEL, 2002, pp. 21-22.
por um narrador, e, desta forma, a apreensão objectual estará também ligada à esfera temporal. Assim, do ponto de vista extratextual, a artes tidas como do espaço, como, por exemplo, a escultura e a arquitetura (inscritas num espaço tridimensional), são percebidas, na simultaneidade imagética, pelo olhar do sujeito, que possui uma existência na dimensão temporal. Nesta perspectiva, as artes espaciais estão igualmente ancoradas numa dimensão durativa.320
Segundo a autora, existe um choque inicial que se prolonga através da relação entre o espectador e a obra. Por exemplo, durante a contemplação de uma tela, o espectador pode também deter-se em apenas uma parte do quadro, o seu olhar não se inscrevendo, portanto, na simultaneidade geométrica da imagem, a apreensão visual promovendo, assim, a captação de detalhes particulares.321 No caso da literatura, para Louvel, alguns
poemas possuem, igualmente, uma extensão espacial mensurável. Eles, então, apresentam uma existência no espaço passível de apreensão pelo olhar do leitor/espectador, ao mesmo tempo em que se inscreve numa possibilidade linear de leitura. Por outro lado, Louvel destaca que a “essência” do poema não está inserida numa dimensão intrinsecamente temporal-linear, em função, sobretudo, dos saltos e das leituras aleatórias, produzidas eventualmente pelo leitor. Nesse sentido, “a apreensão de um poema, como a de um quadro, apresenta um questão de grau e de duração relativa, segundo o sujeito, os seus critérios de formação, de cultura [...]”.322
A mesma reflexão, a respeito da dimensão espacial no texto literário,
320 Cf. LOUVEL, 2002, pp. 21-22. 321 Cf. LOUVEL, 2002, p. 21. 322 LOUVEL, 2002, p. 22.
pode ser utilizada no romance, mas é preciso estabelecer determinadas nuanças no que tange ao elemento espaço. Por exemplo, no romance, temos o espaço da ação, em que os personagens interagem. Há também o espaço tipográfico que, delineando a paginação, ajudará na configuração material do romance. Entretanto, devemos atentar para o fato de que as eventuais leituras simultâneas do poema a que se refere Louvel podem, de algum modo, manifestar-se no romance, guardando suas especificidades. Para destacar uma diferença entre o poema e o texto romanesco, podemos observar, por exemplo, que o romance possui, em geral, uma extensão narrativa considerável, a qual se desenvolve durante a leitura progressiva, mediante a mudança de páginas. O que não ocorre, normalmente, com o poema, que possui uma extensão de leitura bem menor, a qual, entre outros aspectos, procura motivar no leitor uma apreensão estética e conotativa. Contudo, a leitura do romance pode, em mais de um momento, apresentar- se de maneira retroativa, prospectiva ou aleatória, na medida em que o leitor, motivado por uma curiosidade relativa ao desenlace diegético ou por uma eventual perda do foco mnemônico (esquecimento de certas personagens, de certos eventos), pode saltar linhas, parágrafos ou páginas, retroceder, de modo a recuperar determinada parte da narrativa. Além disso, ao travar um primeiro contato visual com o texto, pode desejar localizar esta ou aquela passagem específica, promovendo, assim, a ruptura linear das unidades narrativas.
A distinção entre o mundo da representação e o mundo representado deve também ser colocada em destaque. Por exemplo, durante a leitura de uma écfrase, a linguagem parece revestir-se de uma camada artística, já que
não se trata mais de uma obra de arte, mas de sua representação textual, em que age a dimensão temporal do ato da leitura. Portanto, o que lemos, durante este processo ecfrásico, não é senão a linguagem escrita em relação estreita com a imagem. A dimensão espacial da narração, então, inscreve um texto-imagem, mas em um espaço da história, pelo fato de que esta dimensão imagética pode fornecer ao pensamento do leitor recursos descritivos para que parte do mundo imaginário do romance apareça.
Segundo Louvel, o tempo da contemplação pictural pode transladar-se, intersemioticamente, para as pausas descritivas, no domínio do texto. Esta translação temporal se efetua em função do aparecimento do detalhe textual, que parece compensar os movimentos óticos do leitor/contemplador, quando este se depara com a superfície de uma tela.323 Por exemplo, a translação
intersemiótica entre a imagem e o texto pode se evidenciar em função de uma compensação entre uma eventual fonte de luz no quadro, propiciadora da visualização da imagem pelo observador, e a descrição textual, que promove, por assim dizer, a transmutação da luz em tempo de leitura.
O diálogo infinito que medeia a relação entre a imagem e o texto, baseado numa mútua troca semiótica, instaura um movimento de ir-e-vir espacial, materializado, no texto, pelas hesitações do sujeito, como se estivesse entre o ver de perto e o ver de longe.324 Nesse sentido, o ritmo, que
é uma maneira particular de fluidez do tempo, fornece um movimento temporal singular ao texto. Como ressalta a autora, o ritmo poderia permitir uma revisão do diálogo intersemiótico entre o visual e o textual.325 O
323 Cf. LOUVEL, 2002, p. 23. 324 Cf. LOUVEL, 2002, p. 230. 325 Cf. LOUVEL, 2002, p. 231.
reconhecimento de um iconotexto, durante a leitura de uma passagem marcadamente descritiva, deflagra a aparição do visual, que é decodificado pelo olhar do narratário. O texto-imagem, reconhecido e co-criado pela narratário, pelo seu próprio movimento rítmico, transforma o texto num recorte imagético, o que perturba, em alguma medida, a suposta fluidez da leitura.