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Çin’deki Milliyetlerin Belirlenmesi Sürecinde Ortaya Çıkan Sorunlar

2. BÖLÜM

4.2. Çin’deki Milliyetlerin Belirlenmesi Sürecinde Ortaya Çıkan Sorunlar

A fim de complementar a teoria do Descritivo, vista até aqui na perspectiva de Philippe Hamon, comentaremos brevemente o trabalho de J.- M. Adam e A. Petitjean, o qual evidencia, também, a importância do Descritivo, no texto literário. No trabalho em questão, os autores destacam, na primeira parte, a presença do Descritivo nos textos literários onde existe a predominância da descrição de paisagens. Já na segunda parte, enfocam o estudo do Descritivo na perspectiva da lingüística textual. Inicialmente, Adam e Petitjean destacam quatro tipos de descrição: a descrição ornamental, a descrição expressiva, a descrição representativa e a descrição produtiva.

No primeiro caso, observamos a descrição ornamental, ou seja, a descrição na qual constatamos uma preocupação em representar, textualmente, objetos cujos contornos exteriores são identificáveis com aspectos ornamentais e estéticos extraordinários. Os autores ressaltam a presença deste tipo de descrição na literatura greco-latina, mais precisamente na epopéia. Nesse sentido, afirmam, citando Debray-Genette:

270 Cf. HAMON, 1993, p. 126. 271 Cf. HAMON, 1993, p. 126.

“estudando a descrição das epopéias gregas, constatamos que elas possuem, em sua quase-totalidade, objetos sobre os quais afirmamos o caráter ornamental e estético extraordinários”.272 Portanto, a descrição de natureza

ornamental parece possuir, em seu âmago, uma preocupação de idealização estética.273 Esta preocupação é bem evidente durante a famosa descrição do

escudo de Aquiles (A Ilíada, Canto XVIII). Esta passagem descritiva apresenta não apenas uma preocupação estética, mas também um viés narrativo, como mostra o ato de fabricação do escudo. O binômio descrição ornamental/narração está, portanto, em concomitância nesta passagem de A Ilíada, assim como em outros extratos textuais vistos em Homero. A descrição ornamental, constante na obra homérica, está também presente em outros romances épicos, os quais, assim como A Ilíada, atribuem um notório lugar ao estético. Adam e Petitjean sublinham que, a partir da Antigüidade, a eloqüência presente nos discursos judiciário e político é, paulatinamente, suplantada pela eloqüência epidídica (elogio a pessoas, locais, etc.).274 Nesta, a descrição assume as formas prosopográfica e

topográfica. Na perspectiva topográfica, sabemos, por exemplo, que a descrição da natureza também deriva dos discursos epidídico e judicial. Esta descrição, em especial, é fartamente declinada, pelo viés do locus amoenus (ou “lugar aprazível”), presente em Homero. Este tipo de descrição, de tão recorrente, consubstancializou-se num importante topos literário. 275

272 DEBRAY-GENETTE apud ADAM & PETITJEAN, 1989, p. 9. 273 Cf. DEBRAY-GENETTE apud ADAM & PETITJEAN, 1989, p. 9. 274 Cf. ADAM & PETITJEAN, 1989, p. 12.

Nesta perspectiva, durante a Antigüidade e a Idade Média, parece que a função representativa da descrição276, no âmbito da representação

ornamental, é secundária, uma vez que o aspecto ornamental da descrição não possibilita senão um apreço à alusão constante de uma visão pictórica do objeto referencial. Ou seja, a dimensão verossímil do referente parece ficar aquém de uma preocupação focada na apreensão visual do referente objetual. Mickail Bakhtine ressalta que “não faltam, no romance grego, as descrições de paisagem, de cidades e de construções e elas inauguram, de algum modo, a tradição das narrativas de viagem”.277

A segunda categoria descritiva repertoriada por Adam e Petitjean é a descrição expressiva.278 Segundo os autores, este tipo de descrição se

apresenta como depositária de um ponto de vista, seja do narrador, seja do personagem, o que sobredetermina a descrição. Ao final do século XVIII e, sobretudo nas primeiras décadas do século XIX, as descrições de paisagem, o locus amoenus, tomam a forma de clichê que, através de uma renovação temática, apresentam-se muitas vezes como uma natureza selvagem e deserta. Os autores citam duas passagens de Rousseau nas quais este topos, renovado é evidenciado de maneira que possamos melhor apreender este novo olhar sobre o recorte espaço-paisagístico da descrição:

Este lugar solitário formava um reduto selvagem e deserto, mas cheio destes tipos de belezas que agradam somente às almas sensíveis e que parecem horríveis aos outros.279

De resto, sabemos já o que entendo por uma bela região. Nunca uma região de planície, por mais bela que fosse, não o pareceu a meus olhos.

276 Isto é, a descrição textual, que, mediante o olhar subjetivo do narrador, pretende expor a descrição objetiva da realidade, sem, contudo, descrevê-la em todos os seus detalhes exatos, pois estes são verossímeis e/ou possíveis.

277 BAKHTINE, Mickail. Esthétique et théorie du roman, Paris : Gallimard, 1978, p. 241. 278 Cf. ADAM & PETITJEAN, 1989, pp. 17-18.

Para mim, é preciso que haja torrentes, rochedos, pinheiros, negras florestas, montanhas, caminhos tortuosos para subir e descer, precipícios ao meu lado que me causem medo. Tive este prazer e o provei em todo o seu charme aproximando-me de Chambéry.280

Segundo Adam e Petitjean, para a compreensão da descrição expressiva, é preciso considerar algumas mudanças sociais ocorridas ao longo do século XIX, as quais, entre outros aspectos, favoreceram o aparecimento de um novo dispositivo cultural – a literatura – cuja esfera de atuação se consolida paulatinamente. Assim, novos valores aparecem no campo literário, pautados, sobretudo, por uma modificação de produção, difusão e recepção das obras, e com o aparecimento da noção de autor e de originalidade. Disso decorre o surgimento de alguns aspectos que, ligados ao mundo literário, atribuem ao romance um cunho ideológico consistente, o qual passa a governar as principais características deste novo universo. Nesse sentido, uma concepção individualista e burguesa surge no seio das representações literárias, às quais se une o aspecto do gênio do escritor, no qual seu status criativo desempenha um papel relevante. Esta dimensão, em seu cerne, possui um forte apelo sentimental. 281

A descrição expressiva traz a introdução de um ponto de vista, seja do narrador/descritor, seja da personagem. Esta orientação descritiva, sobremaneira motivada e orientada por uma focalização subjetiva, além de sobredeterminar a descrição, pode atribuir ao referente descrito um grau relativo e débil de verossimilhança. Esta fraqueza da verossimilhança do objeto descrito decorre da grande carga subjetiva que a ele é ligada, o que orienta e motiva a descrição conforme o olhar do narrador/descritor,

280 ROUSSEAU, J-J. Les confessions, apud ADAM & PETITJEAN, 1989, p. 16. 281 Cf. ADAM & PETITJEAN, 1989, pp. 16-18.

distanciando, portanto, o referente descrito de uma suposta verificação objetiva. No texto, isso pode ser exposto, por exemplo, através de verbos subordinativos modais282 e de modalizadores283 (“parecia-me que”, “eu

imaginava que”, “deliciosos”, “charmoso”, “grandemente”, “brilhantes”, “lindas”, etc.). Adam e Petitjean ressaltam também que determinadas organizações discursivas são importantes nesta configuração descritiva; geralmente, estas descrições inserem-se em romances na primeira pessoa, nas quais um eu onipresente as ordena. Trata-se de romances cujo eixo espacial se apresenta como importante (por exemplo, no caso em que a viagem de um personagem justifica as descrições). Também, um eixo temporal é igualmente importante para a precisão da época em que decorre determinado evento.

Adam e Petitjean destacam a importância da memória que auxilia também na coerência da história, para que o narratário seja capaz de recuperar ou associar elementos da diegese a certas personagens: o reflexo anímico da personagem coincide com a emergência de determinada paisagem, que funciona como mediação entre a personagem e seus sentimentos; a mesma paisagem pode ser apresentada várias vezes, com diferentes tonalidades, que expõem a mudança das disposições internas da personagem. Estas descrições das quais temos falado, desempenham também o papel de operador temporal, uma vez que podem ajudar na localização de determinadas informações sobre a evolução psicológica da

282 Isto é, verbos introduzindo orações subordinadas substantivas objetivas diretas de caráter modalizante

personagem, inferida, por exemplo, a partir da mudança de estações do ano.284

O terceiro tipo de descrição assinalado por Adam e Petitjean é a descrição representativa. Neste tipo de descrição, o Descritivo pretende mediar a apreensão objetual do referente através do sujeito narrativo cognoscente (representado seja através do narrador, seja da personagem). Como corolário, esta mediação está, do ponto de vista filosófico, ancorada numa cosmovisão segundo a qual a finalidade última e precípua do processo descritivo consiste numa exposição clara e objetiva da realidade, o que exigiria a ausência de subjetividade na enunciação (implicando em neutralidade, portanto), assim como a adequação do objeto referencial ao enunciado, cabendo ao escritor buscar a verdade que está nas coisas.285

Assim, existe uma confluência teórico-ideológica entre o saber científico da época e esta proposta de produção romanesca, representada, do ponto de vista descritivo, pela descrição representativa. Nesse contexto, a descrição representativa seria a que se coadunaria melhor com essa visão de mundo positiva. A título de exemplo, como um dos representantes desta visão positivo-romanesca, citemos Émile Zola:

O objetivo a ser atingido não é mais o de narrar, de pôr as idéias ou os fatos em mútua relação, mas sim o de expor cada objeto que apresentamos em seu desenho, em sua cor, em seu odor, no conjunto completo de sua existência [...].286

Adam e Petitjean ressaltam a unificação teórica entre a visão romanesca de caráter experimental e a ideologia da representação. Nesta ótica, observamos que o mundo é rico, diverso, descontínuo; podemos

284 Cf. ADAM & PETITJEAN, 1989, pp. 19-20. 285 Cf. ADAM & PETITJEAN, 1989, p. 25.

transmitir uma informação sobre este mundo; a língua pode copiar o real; a língua é exterior ao real; a mensagem deve apagar-se ao máximo, assim como o estilo, etc. Destas instruções descritivas, três funções da descrição advêm: uma função matésica (construção de uma classificação), uma função mimética (construção de uma representação) e uma função semiósica (construção do sentido). 287

A função matésica deve expor, ao longo da sintagmática narrativa, os saberes do autor, os seus aspectos teóricos. Sendo assim, o texto ganha (amplificatio) um caráter enciclopédico, na medida em que o seu objetivo último não é senão mostrar, e demonstrar, o resumo das mais variadas áreas do conhecimento como, por exemplo, o científico.288 Neste intertexto

enciclopédico, o narrador/descritor estabelece uma ligação tão estreita entre o enunciado e o referente objetivo da physis que este último passa a ser exposto plenamente.289 Na pretensão de expor objetivamente o real, o texto

descritivo-enciclopédico parece representar uma fatura técnica onde a palavra pode [ou supõe poder] refletir o elemento referencial, objetivando uma clara e isenta exposição da verdade.

Sobre a função mimética da descrição, dizem os autores: “chamamos mimética a descrição cuja função, única ou principal, é a de localizar o espaço-tempo no qual os personagens interagem”.290 Segundo eles, até o

romance heróico-galaico do século XVII, havia uma diminuta individualização das personagens, que eram submetidas a um destino ligado

287 Cf. ADAM & PETITJEAN, 1989, p. 26. 288 Cf. ADAM & PETITJEAN, 1989, p. 26.

289 Esta exposição plena do objeto referencial, conforme advertimos antes, é sempre suposta, mesmo quando há uma forte impressão objetiva, durante a descrição.

ao acaso.291 Nesta configuração, o espaço-tempo é debilmente determinado.

Entretanto, a partir do século XVIII, as personagens ganham em individualização, do mesmo modo que o espaço e o tempo passam a ser claramente definidos. Segundo Ian Watt, citado por Adam e Petitjean, “distinguimos [...] o romance [...] pela quantidade de atenção que ele fornece habitualmente à individualização das personagens e à apresentação detalhada de seu entorno espaço-temporal”. 292

A terceira função da descrição representativa concretiza-se sob a forma da descrição semiósica, ligada à natureza semântica da descrição. Sabemos que o narrador, a fim de proporcionar uma verossimilhança ao olhar do narratário, atribui em geral à narrativa uma estrutura textual na qual o processo descritivo, fornece e expõe a ilusão realística do objeto referencial. Em outras palavras, a descrição serve como meio basilar sobre o qual se assenta a pretensão romanesca de expor a realidade. Esta situação descritiva, a partir da qual o descritor expõe a ilusão realística, apóia-se em geral na idéia de uma progressão linear da leitura. No caso da descrição de paisagens, o objeto referencial, percebido geometricamente no recorte espaço-temporal geotopográfico da realidade extratextual de maneira simultânea, transforma-se, ao materializar-se no meio representativo do texto, numa declinação de nomes e atributos.

Naturalmente, este enfraquecimento da velocidade narrativa da ficção pode até mesmo provocar uma parada total da dinâmica do texto. A fim de debilitar esta heterogeneidade entre a intensificação aspectual/modal do descritivo, correlacionada à visão focalizante de um descritor, e a evolução

291 Cf. ADAM & PETITJEAN, 1989, p. 33.

dinâmica dos eventos diegéticos, muitos escritores realistas procederam a uma configuração textual que justificasse o aparecimento constante do Descritivo. Para tanto, utilizaram: uma camuflagem descritiva que, em função de certos organizadores espaço-temporais (“em seguida”, “à direita”, “no alto”, por exemplo), evita a verborragia descritiva; a justificativa da descrição, que serve de pretexto desencadeador de passagens descritivas.

Além disso, a descrição possui certas funções semiósicas. Uma delas, a função focalizante, está vinculada diretamente à dimensão subjetiva do narrador. Nesse sentido, ao objeto descrito, que não existe isoladamente no romance, liga-se um olhar particular, uma determinada perspectiva, que se desdobra em perspectiva de tipo autorial (ponto de vista do autor) e perspectiva de tipo atorial (ponto de vista da personagem). Segundo os autores, “cada perspectiva é de amplitude variável (limitada ou ilimitada) e de orientação diferente (externa ou interna)”.293

Sob esta ótica, apresentam-se três tipos narrativos: Tipo narrativo autorial:

1- Percepção externa ilimitada: [...] o narrador autorial é onipresente e percebe a totalidade do mundo romanesco exterior.

2- Percepção interna ilimitada: [...] o narrador onisciente dispõe de uma percepção infalível da vida interior e mesmo do inconsciente de todos os atores.

Tipo narrativo atorial:

1- Percepção externa ilimitada: extrospecção. Adotando a perspectiva de um ator [...] o narrador poderá fornecer apenas uma apresentação externa dos outros atores.

2- Percepção interna limitada: introspecção. Adotando a perspectiva de um ator, o narrador [...] ignora a vida interior dos outros atores.

Tipo narrativo neutro: percepção autorial externa limitada: impossibilidade de uma percepção interna.294

Assim, segundo Adam e Petitjean, do ponto de vista das descrições realistas de paisagens, a narrativa é autorial ou atorial, externa e

293 ADAM & PETITJEAN, 1989, p. 48.

relativamente limitada. No primeiro caso, “o narrador não delega o seu olhar a um personagem.”295 Onisciente, mediante a função matésica do Descritivo,

ele expõe o seu saber. Servindo-se de operadores realistas (“é preciso falar de”, “é preciso saber que”, “-se impessoal”, por exemplo), o narrador retrata o referente descrito de maneira a torná-lo crível. Na verdade, estes operadores mostram um sujeito observador indefinido, testemunha de uma realidade que deve ser descrita.296

Adam e Petitjean sublinham que, quando a descrição é sensorial, existe a presença plena de personagens-pretextos.297 Daí resulta que o

aspecto paisagístico da descrição é, muitas vezes, apreendido pelo olhar de um personagem estrategicamente localizado, para que se obtenha uma descrição mais verossímil. Além disso, sabemos que, em romances, temos, geralmente, uma multifocalização, advinda de vários descritores, “podendo a descrição ser interpretada como manifestando o ponto de vista de um ator, como o de um autor”.298 Segundo F. Jost, citado por Adam e Petitjean, é

preciso distinguir a focalização (o que sabe o descritor), da ocularização (o que vê o descritor) e da auricularização (o que escuta o descritor)299 Nesta

proposta, a existência da ocularização atorial ocorre quando estão presentes marcadores textuais de seleção perceptiva (verbos como “perceber”, “olhar”), possessivos de terceira pessoa (“à sua direita”, “à sua esquerda”), dêiticos espaciais ligados a um pronome anafórico do ator (“diante dele”). Já as coordenadas espaciais independentes da posição do descritor legitimam o

295 Cf. ADAM & PETITJEAN, 1989, p. 48. 296 Cf. ADAM & PETITJEAN, 1989, p. 48. 297 Cf. ADAM & PETITJEAN, 1989, p. 48. 298 Cf. ADAM & PETITJEAN, 1989, p. 50.

aparecimento da ocularização zero: localizadores não-dêiticos (“no cume”, “na base”) e informantes geográficos (nomes de ruas, de locais).300

Para a distinção entre os diferentes modos de textualização do espaço descrito, podemos observar uma perspectiva lateral (à direita/à esquerda), uma perspectiva vertical (alto/baixo), uma perspectiva em aproximação (ao longe/diante de), uma perspectiva em recuo (diante de/no horizonte) ou uma temporalização artificial (de início/em seguida).301

Além disso, a focalização pode estar em avaliação ou em modalização. No primeiro caso, ela está ligada ao objeto descrito de maneira que ele apresente uma dimensão verossímil, isto é, o narrador se preocupa em traduzir descritivamente o objeto referencial de forma a torná-lo crível e reconhecido imageticamente pelo narratário, mediante uma precisão descritiva supostamente neutra. No segundo caso, porém, a dimensão assertiva do ato de descrever sofre um abalo, pois este é carregado de visão subjetivo-interpretativa, o que ocasiona um distanciamento referencial entre o objeto e o horizonte de expectativa imagético do narratário. Adam e Petitjean ressaltam também que a descrição pode possuir uma função indicial, no caso em que, por exemplo, a descrição de um determinado local seja deslocada, semântica e indiretamente, para outro campo de idéia. Este procedimento poder ser originado a partir da metonímia, da sinédoque, da metáfora ou da comparação. 302

A descrição produtiva não se preocupa em fazer uma representação detalhada da realidade, pois apresenta marcas subjetivas que denunciam

300 Cf. JOST apud ADAM & PETITJEAN, 1989, p. 51. 301 Cf. ADAM & PETITJEAN, 1989, pp. 50-51. 302 Cf. ADAM & PETITJEAN, 1989, p. 53.

intervenções diretas do narrador (como, por exemplo, as “reticências” e o “etc.”). Desta forma, vemo-la envolta num contexto em que as funções matésica e semiósica parecem ser as mais contestadas.303 Isto se deve,

sobretudo, a uma afirmação do caráter subjetivo da percepção descritiva e a uma preocupação estética. Na realidade, os que contestavam o valor objetivo da ilusão referencial304 afirmavam a impossibilidade descritiva da apreensão

objetiva, por parte do sujeito cognoscente, do elemento a ser descrito, uma vez que, pelo fato de sempre existir um ponto de vista subjetivo durante o ato descritivo, jamais se pode descrever de modo neutro algo na realidade empírica. Nesse sentido, observa Robbe-Grillet:

Reconheçamos primeiramente que a descrição não é uma invenção moderna [...] É certo que estas descrições têm por objetivo fazer ver, e elas o atingem. Tratava-se, então, freqüentemente, de estabelecer um cenário, definir o esquema da ação e de apresentar a aparência física dos protagonistas. O peso das coisas assim postas de maneira precisa constituía um universo estável e seguro, ao qual era possível se referir, garantindo, por sua semelhança com o mundo real, a autenticidade dos acontecimentos [...] tudo isso levava ao convencimento de uma existência objetiva – fora da literatura – de um mundo que o romancista parecia apenas reproduzir, copiar, transmitir a um documento qualquer.305

Com efeito, na descrição dos objetos, há sempre o olhar que os observa. Assim, os objetos descritos nos romances não possuem jamais presença fora das percepções humanas, reais ou imaginárias.306

Do exposto acerca da teoria do Descritivo, assinalamos que ela é fundamental para o reconhecimento, organização e classificação dos recortes textuais descritivos. Além disso, e como veremos adiante, esta teoria pode

303 Cf. ADAM & PETITJEAN, 1989, pp. 61-62.

304 Ou seja, do objeto referencial, do pantônimo. O termo ilusão, neste caso, justifica-se devido à construção imagético-textual do narrador e do narratário, a qual jamais se coincide na visualização final do objeto, em função das percepções distintas e singulares de cada olhar.

305 ROBBE-GRILLET, A. Temps et description dans le récit d’aujourd’hui. In : ____. Pour un

nouveau roman. Paris: Gallimard, 1963, p. 158. (Idées, nº 45)

ajudar a compreender melhor como certas passagens do texto literário são passíveis de visualização e de iconização.

4.3 – O iconotexto

A exposição teórica acerca do Descritivo é fundamental, na medida em que ajuda a estabelecer a sustentação basilar para o estudo do que chamamos, conforme a proposta classificatória de Liliane Louvel, de iconotexto.307 Nesta Dissertação, usaremos os instrumentos propostos por

Louvel como meio para a análise de algumas passagens textuais de Salammbô, nas quais procuraremos assinalar o quão estreita é a relação entre este romance de Flaubert e a dimensão imagética, representada, sobretudo, pelo aparecimento do pictural no texto. Mostraremos também a relação metafórica e semiótica entre o texto e a imagem, isto é, a relação pautada numa comparação entre o legível e o visual. Entretanto, a imagem pictural é apenas uma possibilidade representativa no texto, pois há imagens que pertencem a diversos domínios semióticos, como, por exemplo, os universos imagéticos da fotografia e do espelho, os quais, além de servirem como veículos de imagens, possuem determinadas características funcionais que lhes são intrínsecas.

No âmbito da relação entre o texto e a imagem, a partir de uma relação bimidiática entre os códigos pictórico e textual, podemos observar como se efetua o processo de translação entre uma arte e outra, entre a literatura e a pintura, por exemplo. Desta forma, pensando nas imagens orientalistas presentes em Salammbô, o conceito de iconotexto nos parece especialmente