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III. Aziz Agustinus

III.VI. Aziz Agustinus’ta Bilgi Kavramı

III.VI.II. Aydınlanma

A metodologia usada para a coleta de dados consistiu no procedimento mediante o questionário, o memorial e a entrevista coletiva, concebidos como gêneros discursivos que foram construídos junto aos estudantes habitantes do programa. Escolhi os estudantes do Programa Conexões de Saberes por ser esta uma ação de largo alcance na universidade brasileira. Sobre os sujeitos da pesquisa, selecionei mais especificamente os estudantes oriundos de espaços populares, originários do bacharelado em Ciência e Tecnologia, participantes do Programa Conexões de Saberes: diálogos entre a universidade e as comunidades populares, em uma instituição de ensino superior em Angicos.

Mediante os propósitos desta pesquisa, fiz a opção como professora pela construção de um corpus linguístico-discursivo constituído por esses três gêneros discursivos, materialidades linguísticas que provocam diversos olhares.

O primeiro gênero discursivo, o questionário socioeconômico, que foi aplicado com os estudantes quando de seu ingresso no programa. Estes foram entregues e respondidos no ato da seleção para ser bolsista do programa, solicitando dados sobre as condições e perfil socioeconômico. O objetivo foi conhecer o perfil dos estudantes, tendo sido organizado em 27 questões respondidas pelos estudantes. A análise desses dados foi sistematizada neste trabalho. Esse questionário nos permitiu conhecer a situação e seus perfis.

O segundo gênero discursivo, os memoriais dos estudantes, as suas escritas, as histórias de vida escritas por esses sujeitos da pesquisa, a fim de interpretar o discurso dos estudantes universitários oriundos de espaços populares de escolas públicas.

O memorial, de natureza acadêmico-biográfico, possui origem etimológica do latim memoriale, significando aquilo que se faz lembrar. Datado do século XIV, os primeiros memoriais foram feitos nos anos 1930. O memorial é uma escrita de si, uma narrativa ao mesmo tempo descritiva e narrativa acerca de trajetória e formação.

Parafraseando Soares (2001), sinto-me companheira de travessia dos alunos, pois cada um compôs a mesma história, em lugares sociais diferentes. Escolhi tais histórias de vida, do tipo memorial, pois estas se legitimam como método, técnica de pesquisa para compreender fenômenos sociais e a produção de sentido individual e coletivo.

Os memoriais foram produzidos pelos sujeitos da pesquisa, os estudantes, especificamente, participantes do Programa Conexões de Saberes na UFERSA, no período 2010-2011, inicialmente, o interesse na representatividade dos cursos de graduação da UFERSA Campus de Angicos, a partir do perfil dos sujeitos da pesquisa, estudantes oriundos de espaços populares de escolas públicas e regularmente matriculados nos cursos de graduação, no ano da realização da pesquisa, que aceitaram o convite, a fim de colaborar, mediante preenchimento da ficha de identificação e do Termo de Consentimento para Publicação do Memorial.

Tal memorial foi construído na Oficina Construção do Memorial, realizada no dia 27 de abril de 2011, planejada e preparada objetivando possibilitar o conhecimento sobre o gênero memorial, sua estrutura e propósito

comunicativo, bem como proporcionar um momento para produção do memorial, suas histórias de vida enquanto estudantes universitários oriundos de espaços populares de escolas públicas. A opção pela utilização do gênero memorial foi ocorrendo ao longo da investigação, como reflexo das inquietações no decorrer do Programa Conexões de Saberes sobre os estudantes universitários oriundos de espaços populares, de escolas públicas, suas memórias e trajetórias.

Na oficina, cada participante recebeu uma instrução modelo de memorial para leitura e produção, com a estrutura que escolhi e adaptei do Guia do Curso de Extensão “TV na Escola e os desafios de hoje”, no qual atuei como Tutora Acadêmica, no Núcleo de Educação a Distância (NEaD) da Pró-Reitoria de Extensão (PROEX), da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Esse curso foi ofertado para professores do Ensino Fundamental e Médio da Rede Pública, UniRede e Secretaria de Educação (SEED) do Ministério da Educação (MEC), no ano de 2002.

Desse modo foi explicado para os alunos que o propósito era elaborar o memorial passo a passo, com as impressões sobre a trajetória de aprendizagem, desde a escola até a universidade. Nesse contexto, solicitei aos estudantes a produção um memorial, iniciando com uma apresentação, seguida do desenvolvimento acerca de sua trajetória escolar, da escola à universidade, em relação ao acesso e permanência no sistema educacional, tendo como objetivo central o processo de reflexão sobre sua história de vida e vivências escolares e acadêmicas que possibilitaram mudanças pessoais e em sua prática de estudante. Tais memoriais tomados como gênero discursivo constituem escritas narrativas, histórias de vida dos estudantes universitários oriundos de espaços populares, de escolas públicas sujeitos da pesquisa, sobre suas trajetórias de vida ao longo dos processos educacionais da escola à universidade.

Como resultado da oficina, foram construídos 11 textos, exemplares do gênero memorial produzidos por estudantes da graduação, que constituem o corpus da pesquisa. Para essa construção, fiz um convite aos sujeitos identificados no Programa Conexões de Saberes, todos estudantes universitários oriundos de espaços populares, de escolas pública, que

aceitaram colaborar para a produção de um memorial de acordo com a instrução geradora e os objetivos da nossa pesquisa. É importante salientar a importância desse momento para a concretização dessa produção.

Assim, nesta pesquisa, o memorial é concebido na perspectiva dialógica como gênero discursivo. Tal produção de memorial foi devidamente planejada e preparada com foco nas experiências dos participantes, de forma que proporcionasse a revelação e descrição do discurso dos sujeitos e de suas histórias de vida, contendo suas trajetórias escolares de acesso e permanência na universidade. Após essa etapa da coleta, procedi no tratamento do corpus, análise, descrição e interpretação à luz do referencial teórico adotado.

Após a construção desses dados, fui examinando-os, agrupando-os, fazendo os recortes dos enunciados discursivos e os submetendo à análise, a partir da teoria discursiva que concebe:

[…] o móvel dessa empreitada é finalmente o de realizar as condições de uma prática de leitura, enquanto detecção sistemática dos sintomas representativos dos efeitos de sentido no interior da superfície discursiva (PÊCHEUX,1993, p. 148).

Essas materialidades foram analisadas na perspectiva de linguagem compreendida em sua diversidade. Para a interpretação dos dados, recorri aos pressupostos teóricos da Análise do Discurso em Michel Pêcheux. Registro as reflexões sobre os discursos dos estudantes de camadas populares, tomados como sujeitos sociais manifestados em práticas discursivas do Programa Conexões de Saberes na educação superior.

À medida da realização de leituras e análises, fui também compreendendo, pela via do discurso, que a implementação do Programa Conexões de Saberes na universidade e seu diálogo com a sociedade foi um esforço a fim de possibilitar o acesso e a permanência de estudantes oriundos de espaços populares ao ensino superior.

O memorial é essa materialidade linguística que propicia a escrita pessoal sobre a trajetória de vida, os aprendizados, acertos e vitórias. Nesse sentido, o memorial proporciona um espaço discursivo para o sujeito construir sua história, estabelecendo relações entre a memória, discurso e interdiscurso, destacando trajetória, vivências, gostos e desgostos ao longo da vida escolar

(SEVERINO, 2007; RAJAGOPALAN, 2002; PASSEGGI, 2012; BENEVIDES, 2015; SOUZA, 2008).

O terceiro gênero discursivo, a entrevista coletiva, é compreendido como um espaço discursivo que ajuda na identificação de conflitos por meio de palavras, expressões e conceitos utilizados por pesquisadores. Como estratégia metodológica, as entrevistas coletivas cumprem com objetivos de: “identificar pontos de vista dos entrevistados; reconhecer aspectos polêmicos; provocar o debate entre os participantes, estimular as pessoas a tomarem consciência de sua situação e condição e a pensarem criticamente sobre elas” (KRAMER, 2006, p. 66).

Nesta pesquisa qualitativa, procuro interpretar a produção de sentido em que a entrevista não está limitada à coleta de dados, mas a um espaço complexo, pois envolve diversos mecanismos durante o processo da pesquisa. Assim, a entrevista foi devidamente planejada e concedida on-line pelo software de redes sociais, por meio do bate-papo do Facebook, na mediação auxiliada pelo uso do computador em redes de comunicação. Escolhi essa rede porque faz parte do cotidiano dos estudantes e nela já possuía um grupo de interação com eles para interagir no processo de construção dos dados.

A entrevista coletiva também foi escolhida porque na pesquisa qualitativa ela promove um espaço de diálogos. Na verdade, a sua utilização foi valiosa na condução final do trabalho de investigação, de forma planejada, a fim de solucionar o problema em questão. A entrevista coletiva foi realizada com os estudantes que aceitaram participar, tendo sido feito o convite para os 11 alunos participantes da oficina de construção do memorial, sendo que somente 9 (nove) aceitaram cooperar nesse momento da entrevista coletiva, cujas narrativas encontram-se no anexo desta tese.

Enfim, vali-me desses procedimentos de construção dos dados, instrumentos valiosos nesse processo. Em específico, situo aqui que as escolhas foram pensadas como uma alternativa para a construção e entendimento da diversidade e relações discursivas aplicada à educação, na área das Ciências Humanas. No processo de construção de dados, a escrita de si, as narrativas dos estudantes produzem sentidos construindo os sujeitos discursivos os sujeitos e suas relações sociais, como explicitado por Charlot

(2000, p. 79): “Estuda relações com lugares, pessoas, objetos, conteúdos de pensamento, situações, normas relacionais etc.; na medida em que, é claro, está em jogo a questão do aprender e do saber”. Partindo dessa ideia, vejo esses gêneros discursivos nessas relações com o saber e/ou com o aprender com estudantes de origem popular na universidade.

Na perspectiva bakhtiniana, o memorial, a entrevista coletiva e o questionário são gêneros discursivos que produzem discursos. Além do intercâmbio entre participantes, a entrevista coletiva possibilitou uma experiência no conhecimento do outro, validada como um importante instrumento para lidar com a linguagem na diversidade em ciências humanas. Explico agora os procedimentos da análise dos dados que constituem o corpus da pesquisa.