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AVRUPADA GÜVENLĐK YAPISININ OLUŞUM SÜRECLERĐ

3.3. AVRUPA GÜVENLĐK VE SAVUNMA KĐMLĐĞĐ (AGSK)

Os direitos humanos exercem uma função conectiva do direito internacional contemporâneo. Desde o neoconstitucionalismo, funcionam como elemento de destaque do direito constitucional. Esta comunicação intensa entre os direitos humanos e o direito constitucional é uma exigência e consequência da ordem internacional, não apenas no plano jurídico, porém de toda intensa comunicação dos países nas diversas áreas. Dois fenômenos se notam atualmente: a internacionalização do Direito Constitucional e a Constitucionalização do Direito Internacional196. O ponto de convergência entre todos os países passa a ser os direitos humanos, logo, o direito constitucional é direcionado a permitir a interação entre os povos e nações, abrindo-se e adotando os direitos humanos como objetivo comum. Tais processos, no Brasil, se encontram diretamente relacionados com o processo de internacionalização dos direitos humanos, em razão da própria configuração que recebem no texto constitucional, que dispõe sobre a hierarquia normativa dos tratados de direitos humanos e também em virtude do amplo rol de direitos fundamentais assegurados em seu texto.197

E, uma vez que os direitos humanos passam, na atualidade, a exercer essa função relevante de comunicação entre os Estados Constitucionais de Direito,198 além de um papel de destaque no ordenamento jurídico nacional199, pela posição que a Constituição de 1988 lhe outorgou de princípio regente das relações internacionais, especialmente, diante da consagração da dignidade da pessoa humana como fundamento da República, essa condição do direito contra a autoincriminação também merece destaque.

O Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos da ONU, de 1966, tem previsão sobre o direito contra a autoincriminação na seguinte formatação:

196 MEYER-PFLUG, Samantha Ribeiro. A internacionalização do direito constitucional brasileiro. In: OAGLIARINI, Alexandre Coutinho; DIMOULIS, Dimitri. (coord.). Direito constitucional internacional dos direitos - Belo Horizonte: Fórum, 2012. p. 277.

197 MEYER-PFLUG, Samantha Ribeiro. A internacionalização do direito constitucional brasileiro. In: OAGLIARINI, Alexandre Coutinho; DIMOULIS, Dimitri. (coord.). Direito constitucional internacional dos direitos - Belo Horizonte: Fórum, 2012. p. 278.

198 ARAÚJO, Rochester Oliveira. O processo penal e os direitos humanos: perspectivas de uma reaproximação. Monografia de Pós-Graduação Latu Sensu em Direito Penal e Processual Penal – Natal: Centro Universitário do Rio Grande do Norte, 2012. p. 14.

Artigo 14.

3. Toda pessoa acusada de um delito terá direito, em plena igualdade, a, pelo menos, as seguintes garantias:

g) de não ser obrigada a depor contra si mesma, nem a confessar-se culpada.

O Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (PIDCP) é um dos eixos da força que os Direitos Humanos possuem na atualidade.200 A previsão neste diploma normativo do direito contra a autoincriminação introduz, no sistema global de proteção dos direitos humanos, esta garantia processual penal, em uma magnitude que ultrapassa as dimensões do Estado Constitucional.

O PIDCP compõe o Bill of Rights da modernidade, e é um marco na proteção internacional dos direitos humanos. Especialmente em sintonia com a Declaração Universal de 1948 é a consagração do respeito a dignidade humana e dos valores básicos universais, o que afasta dos direitos humanos um mero aspecto moral ou informativo, sendo possível viabilizar atualmente uma coercibilidade diante do controle dos organismos internacionais.201 Em seus primeiros artigos, o Pacto proclama o dever dos Estados-partes de assegurar os direitos nele elencados a todos os indivíduos que estejam sob sua jurisdição. As garantias nele contidas possuem uma cogência internacional, mormente diante dos poucos espaços para “relativizações” que o Pacto permite. Exepcionalmente admite derrogação temporária dos direitos que anuncia, e ainda assim diante de um controle rigoroso. Ainda assim, o Pacto estabelece direitos inderrogáveis e nesse rol restrito está inclusa a proibição de tortura ou qualquer forma de tratamento cruel, desumano ou degradante. Dessa forma, nada pode justificar a suspensão de tais direitos, seja ameaça ou estado de guerra, perigo público, instabilidade política interna ou qualquer situação de emergência, em virtude da proximidade com que esse direito tem com o conteúdo central dos direitos humanos, a dignidade da pessoa humana.202

200MAZZUOLI, Valerio de Oliveira ; GOMES, Luiz Flávio . O Brasil e o sistema interamericano de proteção dos direitos humanos. In: Andrei Zenkner Schmidt (coord.). (Org.). Novos rumos do direito penal contemporâneo: livro em homenagem ao Prof. Dr. Cezar Roberto Bitencourt. Andrei Zenkner Schmidt (coord.). Rio de Janeiro: Lumem Juris, 2006, p. 427.

201 ARAÚJO, Giselle Ferreira de. Proteção dos Direitos Humanos por Organismos Internacionais Controle e Coercibilidade. In: PIOVESAN, Flávia; GARCIA, Maria. Direitos humanos: doutrinas essênciais. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011 v. VI, p. 667.

202 PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e o direito constitucional internacional. 11.ed. rev. ampl. e atual. São Paulo: Saraiva, 2010.

Além disso, a jurisprudência internacional, baseada na previsão contida no Pacto, influenciou até mesmo o Supremo Tribunal Federal, na ampla proteção que determina a esse direito em nosso ordenamento jurídico203.

Outras previsões também foram consolidando a autoincriminação como direito humano consagrado, integrando também o sistema especial de proteção aos direitos humanos, por meio de previsões específicas, com grande destaque para a Convenção contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes e seu Protocolo Facultativo204 que, considerando a prática da tortura uma grave violação de direitos humanos, dispõe de medidas que visam coibir esta prática, diversas dessas relacionadas com a vedação da autoincriminação. Entre outros, o artigo 15 da Convenção dispõe:

Artigo 15 - Cada Estado-parte assegurará que nenhuma declaração que se demonstre ter sido prestada como resultado de tortura possa ser invocada como prova em qualquer processo, salvo contra uma pessoa acusada de tortura como prova de que a declaração foi prestada. Além de outras previsões no sistema global de proteção205, o direito contra a autoincriminação igualmente possui referência nos sistemas regionais de proteção dos direitos humanos, com destaque do contexto brasileiro, do sistema interamericano de proteção aos Direitos Humanos, com a previsão estampada no Pacto de São José da Costa Rica, no artigo 8º, §2º, “g”, que versa:

Artigo 8º. Garantias Judiciais

203ROXIN, Claus. La Evolución de la Política Criminal, el Derecho penal y el Proceso penal. Trad. Carmen Gómez Rivero e Maria del Carmen García Cantizano. Valencia: Tirant lo blanch, 2000. p. 127.

204 Decreto no 40, de 15 de fevereiro de 1991; e, o Protocolo Facultativo, Decreto nº 6.085 de 19 de abril de 2007.

205 A previsão é vasta, e introduzida em diversos tratados internacionais. Entre eles, destaque para a contida no artigo 18, 3, “g” da Convenção Internacional sobre a Protecção dos Direitos de Todos os Trabalhadores Migrantes e dos Membros das suas Famílias, que dispõe: “3. O trabalhador migrante ou membro da sua família acusado de ter infringido a lei penal tem, no mínimo, direito às garantias seguintes:g) A não ser obrigado a testemunhar ou a confessar-se culpado”; e aquela que se apresenta na Convenção sobre os Direitos da Criança (Decreto no99.710, de 21 de novembro de 1990) que dispõe: “Artigo 40. 1. Os Estados Partes reconhecem o direito de toda criança a quem se alegue ter infringido as leis penais ou a quem se acuse ou declare culpada de ter infringido as leis penais de ser tratada de modo a promover e estimular seu sentido de dignidade e de valor e a fortalecer o respeito da criança pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais de terceiros, levando em consideração a idade da criança e a importância de se estimular sua reintegração e seu desempenho construtivo na sociedade. 2. Nesse sentido, e de acordo com as disposições pertinentes dos instrumentos internacionais, os Estados Partes assegurarão, em particular: b) que toda criança de quem se alegue ter infringido as leis penais ou a quem se acuse de ter infringido essas leis goze, pelo menos, das seguintes garantias: IV) não ser obrigada a testemunhar ou a se declarar culpada, e poder interrogar ou fazer com que sejam interrogadas as testemunhas de acusação bem como poder obter a participação e o interrogatório de testemunhas em sua defesa, em igualdade de condições”;

2. Toda pessoa acusada de delito tem direito a que se presuma sua inocência enquanto não se comprove legalmente sua culpa. Durante o processo, toda pessoa tem direito, em plena igualdade, às seguintes garantias mínimas:

g) direito de não ser obrigado a depor contra si mesma, nem a declarar-se culpada.

Entre um dos mais recentes documentos internacionais que tratam do tema, o Estatuto de Roma, que criou o Tribunal Penal Internacional, cujo objetivo é punir os crimes que afetem a comunidade internacional e as graves violações de direitos humanos, também apresentou o princípio contra a autoincriminação nas suas previsões aplicadas a tais processos de sua competência. O diploma internacional dispõe:

Artigo 55. Direitos das Pessoas no Decurso do Inquérito

1. No decurso de um inquérito aberto nos termos do presente Estatuto: a) Nenhuma pessoa poderá ser obrigada a depor contra si própria ou a declarar-se culpada;

b) Nenhuma pessoa poderá ser submetida a qualquer forma de coação, intimidação ou ameaça, tortura ou outras formas de penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes;

E também:

2. Sempre que existam motivos para crer que uma pessoa cometeu um crime da competência do Tribunal e que deve ser interrogada pelo Procurador ou pelas autoridades nacionais, em virtude de um pedido feito em conformidade com o disposto na Parte IX do presente Estatuto, essa pessoa será informada, antes do interrogatório, de que goza ainda dos seguintes direitos:

b) A guardar silêncio, sem que tal seja tido em consideração para efeitos de determinação da sua culpa ou inocência;

O documento garante, expressamente, o direito contra a autoincriminação em relação aos processos de competência do Tribunal Penal Internacional. É importante destacar dois pontos sobre a previsão contida no Estatuto de Roma. A primeira é a de que o direito contra a autoincriminação, explicitamente instituído no diploma, não se resume ao direito ao silêncio, sendo apenas uma de suas expressões. Entre esses fragmentos, que ganham autonomia no texto, estão o direito de ser informado e o direito de não sofrer qualquer coação, não apenas a tortura. Em segundo lugar, o direito contra a autoincriminação também foi

estabelecido de forma associada ao direito à defesa técnica, visto a conexão entre esses direitos.206

Embora a aplicabilidade do direito contra a autoincriminação, previsto no Estatuto de Roma, seja reduzida, já que é diploma aplicado apenas aos casos da competência do Tribunal Penal Internacional, possui um poder simbólico fundamental. A aprovação do documento foi um grande avanço histórico e uma mensagem inequívoca do interesse em se barrar as graves violações de Direitos Humanos. Apesar de o Estatuto de Roma não ser um modelo de Código Penal e Processual Penal Internacional dogmaticamente refinado – e nem poderia ser – é uma tentativa de mesclar os sistemas de justiça criminal de mais de 150 Estados em um único instrumento legal, que foi o mais ou menos aceitável para todas as delegações presentes em Roma207.

Logo, é possível tirar duas conclusões sobre a previsão no Estatuto de Roma, que demonstram o poder simbólico que ele possui para a consolidação do direito contra a autoincriminação: (a) por ser o fruto do consenso de diversos instrumentos jurídicos de diversos países, os dispositivos nele existentes demonstram uma grande aceitabilidade dos direitos assegurados. Portanto, o direito contra a autoincriminação consagrado no documento é um desses direitos amplamente consensuais no direito internacional; e (b), a competência do Tribunal Penal Internacional, apesar de restrita, é extremamente complexa, destinada a combater as grandes violações de Direitos Humanos que ofendem a paz e a segurança da

206 Vide o texto normativo completo. Decreto 4.388 de 25 de dezembro de 2012. Artigo 55. Direitos das Pessoas no Decurso do Inquérito. 1. No decurso de um inquérito aberto nos termos do presente Estatuto: a) Nenhuma pessoa poderá ser obrigada a depor contra si própria ou a declarar-se culpada; b) Nenhuma pessoa poderá ser submetida a qualquer forma de coação, intimidação ou ameaça, tortura ou outras formas de penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes; e c) Qualquer pessoa que for interrogada numa língua que não compreenda ou não fale fluentemente, será assistida, gratuitamente, por um intérprete competente e disporá das traduções que são necessárias às exigências de equidade; d) Nenhuma pessoa poderá ser presa ou detida arbitrariamente, nem ser privada da sua liberdade, salvo pelos motivos previstos no presente Estatuto e em conformidade com os procedimentos nele estabelecidos. 2. Sempre que existam motivos para crer que uma pessoa cometeu um crime da competência do Tribunal e que deve ser interrogada pelo Procurador ou pelas autoridades nacionais, em virtude de um pedido feito em conformidade com o disposto na Parte IX do presente Estatuto, essa pessoa será .informada, antes do interrogatório, de que goza ainda dos seguintes direitos: a) A ser informada antes de ser interrogada de que existem indícios de que cometeu um crime da competência do Tribunal; b) A guardar silêncio, sem que tal seja tido em consideração para efeitos de determinação da sua culpa ou inocência; c) A ser assistida por um advogado da sua escolha ou, se não o tiver, a solicitar que lhe seja designado um defensor dativo, em todas as situações em que o interesse da justiça assim o exija e sem qualquer encargo se não possuir meios suficientes para lhe pagar; e d) A ser interrogada na presença do seu advogado, a menos que tenha renunciado voluntariamente ao direito de ser assistida por um advogado. (Grifo Nosso).

207 AMBOS, Kai. General Principles of Criminal Law in the Rome Statute. 14 de Dezembro de 1999.

Criminal Law Forum. Vol. 10, 1999. Disponível em:

humanidade.208 Por isso, a pressão social para a condenação dos acusados dessas atrocidades não se compara a nenhuma outra enfrentada por qualquer Tribunal nacional, mesmo diante de um fato com grande repercussão midiática. O próprio Tribunal Penal Internacional busca ser um Tribunal permanente que visa coibir a impunidade dessas formas de violação de direito209. Os acusados dos crimes de competência do Tribunal Penal Internacional possuem grande reprovabilidade da comunidade internacional sobre suas condutas, e a sede por uma condenação é incomparável às experiências nacionais. Ainda assim, diante desse amplo interesse social e da pressão que o Tribunal se submete, buscou-se garantir, até mesmo como forma de legitimar a competência do Tribunal, um processo penal acusatório, com o direito à ampla defesa, e, expressamente, o direito contra a autoincriminação em suas diversas manifestações.

O direito não é previsto unicamente no âmbito dos tratados internacionais de Direitos Humanos, sendo amplamente reconhecido, também, pela jurisprudência internacional, a exemplo da Corte Europeia de Direitos Humanos210.

Ademais, a importância que os Direitos Humanos possuem na ótica internacional reflete em ações internas aos países, que buscam dar maior efetividade aos direitos e garantias contra a violação. Neste sentido, o Plano Nacional dos Direitos Humanos – 3 (PNDH-3)211 exige a participação de diversos setores governamentais com o objetivo de concretizar uma série de Direitos Humanos reconhecidos. O Programa é dividido em 6 Eixos Orientadores, existindo em cada um algumas diretrizes que fundamentam a criação de Objetivos Estratégicos realizáveis por Ações Programáticas. Englobando Direitos Humanos de liberdade, igualdade, entre outros. Evidencie-se o Eixo Orientador IV do PNDH-3 e suas diretrizes:

IV - Eixo Orientador IV: Segurança Pública, Acesso à Justiça e Combate à Violência: (...)

b) Diretriz 12: Transparência e participação popular no sistema de segurança pública e justiça criminal;

c) Diretriz 13: Prevenção da violência e da criminalidade e profissionalização da investigação de atos criminosos;

208 Preâmbulo do Estatuto de Roma: “(...) Reconhecendo que crimes de uma tal gravidade constituem uma ameaça à paz, à segurança e ao bem-estar da humanidade (...)”

209 Preâmbulo do Estatuto de Roma: “(...)Decididos a por fim à impunidade dos autores desses crimes e a contribuir assim para a prevenção de tais crimes.”

210 HADDAD, Carlos Henrique Borlido. Conteúdos e contornos do princípio contra a auto-incriminação. Campinas: Bookseller, 2005. p. 46.

d) Diretriz 14: Combate à violência institucional, com ênfase na erradicação da tortura e na redução da letalidade policial e carcerária; (...)

g) Diretriz 17: Promoção de sistema de justiça mais acessível, ágil e efetivo, para o conhecimento, a garantia e a defesa de direitos;

O Programa não institui, explicitamente, uma diretriz para tornar efetiva a proteção do direito contra a autoincriminação, entretanto faz melhor que isso: institui diversas diretrizes que, ao serem realizáveis pelas ações programáticas, protegem o direito contra a autoincriminação por diversas frentes de atuação. Neste sentido, ao exigir uma profissionalização da investigação dos atos criminosos, estabelece, por exemplo, entre as ações programáticas, a alteração da legislação para permitir, no inquérito policial, a utilização de procedimentos orais gravados212, o que certamente permite que haja um maior controle das práticas investigativas nessa fase pré-processual. Igualmente, na efetivação da diretriz 14 se permite que o direito contra a autoincriminação ganhe proteção na efetivação das ações.

Todas essas demonstrações da amplitude com que o direito contra a autoincriminação é reconhecido no direito internacional, seja nas experiências constitucionais estrangeiras ou pela consolidação como um Direito Humano, apenas reforça que o ordenamento jurídico brasileiro, em sintonia com a ótica internacional, precisa assegurar esse direito de uma forma adequada e bem debatida.

3.2 O SISTEMA JURÍDICO CONSTITUCIONAL BRASILEIRO A PARTIR DA