1. BÖLÜM
2.2. Belâgat
2.2.1. Meʽânî
2.2.1.5. Aslî anlamı Dışında Kullanılan Diğer Lafızlar
um mandato que se contrapõe à lógica privatista e colonialista, características dos governos militares, continuada pelo governo de Aníbal Barcelos. A partir daí, institui-se, ainda de forma embrionária, uma nova racionalidade política, fundada no discurso de valorização e respeito às peculiaridades sócio-culturais e ambientais do Amapá.
2.2.3. Programa de Desenvolvimento Sustentável: “um norte para o Brasil45”
Essa proposta ganha força no Estado e, em 1994, João Alberto Capiberibe é eleito governador, numa coligação entre o Partido Socialista Brasileiro – PSB; o Partido dos Trabalhadores – PT, que indica a Profa. Dalva Figueiredo, militante sindical, para ser vice- governadora; o Partido Verde – PV e o Partido Comunista do Brasil – PC do B. Sem dúvida, a eleição desta coalizão de esquerda constitui marco histórico na cena política local, fundando as bases de um novo projeto político.
A campanha que levou esse grupo ao poder tem o seguinte slogan, expressão de sua vontade política: Tudo Por Nossa Terra. Esta idéia-chave evidencia a oposição destas forças políticas à lógica externa do poder federal em relação ao Amapá, encarnada por Barcelos.
Esse discurso de valorização das particularidades locais emerge fortemente no cenário do Amapá na década de 1990, tornando-se uma diretriz fundante tanto na esfera da cultura, quanto na esfera da política. Com efeito, tal diretriz passa a constituir uma tendência política e cultural, que vai se consolidando ao longo dos anos. É a base do processo de construção da identidade do Estado a ser afirmada no contexto nacional, na perspectiva de romper com a imagem de lugar dependente do governo central ou, então, do Estado do Pará, ao qual já fora vinculado.
No âmbito da cultura, observa-se, naquele período, a emergência de um forte movimento de base regionalista, com maior expressividade na produção musical. Neste contexto ganham visibilidade músicos e poetas como: Fernando Canto, integrante do Grupo Pilão; Osmar Júnior; Joãozinho Gomes, Zé Miguel Val Milhomem e Amadeu Cavalcante, que posteriormente, organizaram o Grupo Senzalas; Antônio Messias, professor universitário e
45 A idéia do PDSA como referência para a construção de um projeto de desenvolvimento par a Amazônia e para
o Brasil é recorrente no discurso oficial e constitui uma tese que consubstancia um projeto em disputa no interior do partido. Essa expressão virou, posteriormente, título ao livro: Amapá: um norte para o Brasil, organizado por Nilson Moulin a partir de uma série de diálogos, do então governador João Alberto Capiberibe, com jornalistas e ambientalistas de expressão nacional.
estimulador do Grupo Raízes Aéreas, constituído por Naldo Maranhão, Helder Brandão, Beto Oscar e Helder do Espírito Santo.
Essa ebulição estimulou a realização de festivais de música amapaense e outras iniciativas culturais relevantes. Neste contexto, ganha dimensão importante a criação da Universidade Federal do Amapá – UNIFAP, fortalecendo essa ambiência de reflexão política e organização cultural.
Na esfera política, adentram a cena pública movimentos sociais de diferentes perfis: o movimento de trabalhadores rurais e ambientalistas, ligados ao Conselho Nacional dos Seringueiros – CNAS e ao Grupo de Trabalho Amazônico – GTA; o movimento estudantil secundarista e universitário que ganha organicidade e maior radicalidade, aliando- se às demandas políticas de outros segmentos sociais; o movimento negro, existente no Amapá desde a década de 1970 e que nesta nova conjuntura, avança na politização de suas lutas. Emergem entidades representativas de diferentes segmentos sociais que lutam por sua afirmação e reconhecimento como sujeitos políticos no exercício da cidadania: entidades representativas dos povos indígenas; organizações de mulheres, articulando um expressivo movimento, particularmente, de mulheres negras; cooperativas de produtores, incentivadas pela política de desenvolvimento sustentável, implementada pela prefeitura e, posteriormente, pelo governo do Estado.
Essa ampla movimentação político-cultural encarna a proposta do governador Capiberibe – o Capi dos amapaense – demarcando uma mudança substancial nos programas governamentais. Pautado nas proposições elaboradas durante a Conferência Mundial de Meio
Ambiente, a Rio-92 e condensadas na Agenda 2146, o governador Capiberibe elabora, juntamente com seu grupo político, o Programa de Desenvolvimento Sustentável do Amapá –
PDSA. Este programa tinha como eixo a promoção do desenvolvimento com respeito às potencialidades ambientais, econômicas, sociais e culturais. O referido Programa define
como diretrizes político-administrativas prioritária: valorização das vantagens comparativas;
sustentabilidade da economia; equidade social; utilização de parcerias para a execução de projetos; descentralização das atividades; e municipalização das ações de governo47.
46 A Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio-92, aconteceu no Rio de
Janeiro, em 1992, contando com a participação de representantes de 178 países. A Rio-92 aprovou cinco importantes documentos: Declaração do Rio de Janeiro; Agenda 21; Convenção sobre a Biodiversidade;
Convenção sobre as Alterações Climáticas e Declaração sobre Florestas. Durante a Conferência, ocorreu o
Fórum Global, com a participação de 9.300 ONG’s, que resultou na aprovação da Carta da Terra. Um maior
detalhamento desta referencias históricas questão pode ser encontrado em KITAMURA (1994).
Ao descrever o processo de formulação do PDSA, Capi relata em entrevista concedida a Elson Martins, João Paulo Capobianco, Rui Xavier e Zuenir Ventura48.
Existe uma tese para combinação da atividade econômica com a atividade social e a preservação ambiental. Isso foi o que saiu da Eco-92. A Eco-92 difundiu as possibilidades de um novo modelo e eu formei um grupo de trabalho. Nós formamos um grupo de trabalho, primeiro para discutir o relatório Nosso Futuro Comum49. Depois passamos a discutir e vincular as
idéias às possibilidades locais. Esse grupo foi formado no final de 1992, quando eu estava saindo da prefeitura. Em 1993, a gente amplia o grupo e começa a fazer um desenho para o Estado. Então levantamos as possibilidades econômicas, uma área onde havia uma barreira, porque não tínhamos uma visão muito clara da economia política na abrangência de um Estado. E fomos aprofundando a discussão e o debate. Chegamos à conclusão de que poderíamos criar projetos pontuais de desenvolvimento sustentável, achando que teríamos dificuldades de aplicá-los como política pública. Quando ganhamos o governo, já chegamos com o programa de uso racional dos recursos: da pesca, da floresta e da paisagem cênica para o turismo – com possibilidade de atividades econômicas sem destruir os recursos (MOULIN, 2000: 52-53). (os grifos são meus).
Em síntese, os processos políticos que convergem para a eleição de Capi ao governo estadual sinalizam, em certa medida, elementos da construção de uma nova cultura política centrada na articulação entre os setores da esquerda e os seguimentos das classes populares que começam a se organizar, num efetivo processo de (re)fundação da sociedade civil.
Na perspectiva política, sinalizada pelo PDSA, destaco três níveis de mudanças estruturantes, implementadas no sentido de garantir as bases da governabilidade: a) reordenamento do modelo de gestão pública; b) constituição de novas estruturas institucionais e administrativas; c) novas formas de relação entre o Estado e a sociedade local.
Em relação à gestão pública, Capiberibe desenvolve um modelo com fortes contornos de “modernização” da ação dos agentes governamentais, instituindo sistemas de controle das contas públicas, conferiando ares de transparência à sua administração. A implementação de mecanismos de controle da gestão e das contas públicas colocam-se, naquele momento, como uma exigência da Lei de Responsabilidade Fiscal. Para além das exigências legais esse processo decorre da adesão do governo ao Programa de Modernização
48 Esta entrevista está publicada em Moulin, Nilson (org). Amapá: um norte para o Brasil. 2º Edição. São Paulo:
Cortez, 2000.
49 João Alberto Capiberibe refere-se ao relatório elaborado pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento, criada pela Assembléia Geral da ONU em 1983. A Comissão foi presidida pela Senhora Brundtland, responsável pela publicação, em 1987, do documento denominado Nosso Futuro Comum, também, conhecido como Relatório Brundtland. Este documento contribuiu para a difusão do conceito de “desenvolvimento sustentável” em nível internacional. Sobre este tema ver, Godard (1997).
da Gestão Fazendária, desenvolvido pelo BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento
nos países Latino-Americanos.
As propostas contidas no PDSA exigiam, também, a constituição de uma nova base institucional. Cria-se, então, o Conselho Estadual de Desenvolvimento Sustentável; a Secretaria Estadual de Meio Ambiente – SEMA; a Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia – SETEC; a Fundação Estadual de Cultura – FUNDECAP; o Centro de Formação e Desenvolvimento de Recursos Humanos – CEFORH; a Agência de Promoção da Cidadania – AGEMP; a Agência de Desenvolvimento do Amapá - ADAP. Enfim, reorganiza-se a estrutura administrativa e institucional, na perspectiva de garantir bases de ação para os programas e projetos que compunham o PDSA.
Dentre o conjunto de mudanças desenvolvidas no governo Capi, considero relevante para análise do objeto desta investigação compreender as alterações na relação entre o Estado e a sociedade civil. O governo, em seu discurso, enuncia que a articulação com a sociedade deveria ocorrer, prioritariamente, em dois níveis: a valorização da cultura local e
dos saberes das comunidades tradicionais e sua interlocução com o conhecimento técnico- científico, com vista à construção de alternativas econômicas compatíveis com a preservação
dos recursos naturais e, ainda, por meio da participação de organizações e entidades da sociedade na execução de projeto governamentais (MOULIN, 2000:53).
Não obstante às problemáticas e dificuldades que envolvem o processo de formulação de políticas publicas com recorte do uso sustentável dos recursos naturais no estado da Amazônia, o Governo Capiberibe promoveu ações significativas, importantes para a construção de uma cultura políticas pautada no respeito às especificidades locais, particularmente, aos saberes das populações tradicionais. O diálogo e a parceria política com os extrativistas do Laranjal do Jarí, que possibilitou a organização de sistemas de produção autogestionários e solidários, rompendo a dominação dos atravessadores; a política de agregação de valor aos produtos locais; a regionalização da merenda escolar; a produção dos fitoterápicos e, particularmente, a criação do Programa Parteiras Tradicionais são importantes indicativos do conjunto de mudanças promovidas pelo governo Capi, cujas repercussões materiais na vida dessas comunidades exigem análise especificas.