ÜNİTE V Hz. Ammar îbni Yâsir (R.Anh)
FIKHU’S-SAHABE (2) Sahabenin Kim Olduğunu Tayin Etmede Ölçü
4) Ashâb İçinde Vefatlarından Sonra
Borges, num artigo intitulado “A segunda fase do Jornalismo Público” (2009, pág.3), lembra Merrit nesta passagem importante:
“Já Davis Merrit, embora reconhecendo que a função de watchdog “tem servido bem o jornalismo (e a democracia) na sua relação com o Governo”, imputa aos seus excessos o cepticismo sistemático dos jornalistas, dos quais decorre uma suspeita social generalizada em relação a qualquer forma de autoridade, obstaculizando a participação democrática.”
Aqui foi sintetizada uma das preocupações desta tese (se é que é permitida uma tese demonstrar uma preocupação): a “suspeita social generalizada em relação a qualquer forma de autoridade”, sendo que a mais indicada neste trabalho seja a autoridade que vem do poder – da política, dos políticos – que não é, em traço geral, tida bem em conta pela generalidade dos cidadãos. Basta-nos andar na rua e colher opiniões, assistir aos debates das rádios e televisões que dão espaço de antena ao cidadão comum, para verificar que “eles” (como são normalmente referidos), os políticos, não são bem vistos. Tirando aqueles por quem a falange de apoio torce como quem torce por um clube de futebol – neste caso aparece-nos uma outra problemática, bem visível também, por exemplo, na questão da disciplina de voto entre deputados de uma bancada parlamentar: à partida, tudo o que o líder disser está bem dito e o que o líder da bancada oposta disser está errado.
Pode o Jornalismo Público contribuir para uma mudança desta realidade? Antes de mais, convém sucintamente explicar o que é este tipo de Jornalismo. Basicamente nele ao jornalista não lhe bastará dar a informação. Terá antes que ser “um participante justo e não um observador distanciado da vida pública” (2009, p.3); “uma espécie de árbitro, comprometido em assegurar o respeito pelas regras do jogo”, mas “sem qualquer interesse partidário no resultado específico, para além de que seja alcançado através de um processo democrático” (2009, p.3). Tudo começou no final da década de 80 do século XX (há 20 e poucos anos atrás, apenas), nos Estados Unidos, “depois da cobertura frustrada das eleições presidenciais de 1988” (Quadros, 2005, p.4). O que é que aconteceu então? Pelos vistos, o início daquilo que insistentemente temos dado conta ao longo deste trabalho: “Os jornais não valorizaram as questões mais importantes
dos eleitores e fizeram uma cobertura do tipo de corrida de cavalos” (2005, p.4), expressão que Quadros foi buscar ao autor Traquina.
Assim sendo, no início dos anos 90, a abordagem do jornalismo público – “sendo parte do papel do jornalista a promoção do debate público – enquanto modo de promoção da própria democracia” (Ferreira, 2011, p.5) - foi sendo implementada em alguns jornais de âmbito local e regional nos EUA, sendo exemplos de jornais o ‘Wichita Eagle’ e o ‘Charlotte Observer’. Segundo Ferreira (2011, p.5), isto passou-se devido a dois impulsos principais:
1 - devido ao afastamento entre cidadãos e actores políticos de que já falámos neste trabalho; e o autor refere que: “o jornalismo tradicional teria fomentado uma lacuna na participação dos cidadãos na vida pública, afastando-os do processo democrático, com o declínio da participação nas eleições políticas”, sublinhando também as eleições de 1988 norte-americanas, “marcada por discursos políticos altamente cautelosos e calculados”, (2011, p.5) que terá reforçado o sentimento de alienação do público em relação à política (e “se esta alienação era um problema político, era igualmente um problema económico, na medida em que resultava numa redução do número de leitores de jornais que versassem sobre questões públicas”; mas não só: “era também um problema de carácter individual, pois muitos jornalistas sentiam-se isolados quer como agentes públicos quer como cidadãos”);
2 – devido a depreciação da imagem da imprensa; estudos da década de 90 mostravam que o público colava os actores da imprensa aos actores políticos, em que todos estariam alheados dos verdadeiros problemas da vida da comunidade; este segundo aspecto terá tido como impacto uma urgente reflexão sobre o papel do jornalismo (que esta tese faz também, em pequena escala).
Resumindo e concluindo, o Jornalismo Público deve adoptar uma nova perspectiva de relação com os factos em que (e notarão certamente similitudes entre o que vão ler agora e muito do que este trabalho já disse e dirá) (Ferreira, 2011, p.7):
“Os jornalistas resistem às histórias sobre a ‘competição’ política, a favor de artigos sobre temáticas, dando cobertura a questões de deliberação pública que ocorrem na sociedade civil, definindo como notícias não apenas [sublinhe-se o ‘não apenas’, que implica o ‘também’] os episódios da luta quotidiana entre os diversos actores políticos e sociais, mas sobretudo a troca de ideias no âmbito de um
controverso, os jornalistas instigam a própria deliberação, convocando os cidadãos para se pronunciarem sobre assuntos de carácter público, ou recrutando pessoas para comporem painéis de cidadãos que colaborem com os jornalistas na eleição dos temas a tratar, ou das questões a colocar numa determinada entrevista.”
Convém dizer que, quanto a este último ponto, já temos exemplos vivos em Portugal: no comentário de Marcelo Rebelo de Sousa, aos Domingos na TVI, as perguntas finais a que Marcelo responde são feitas por cidadãos que colocam as questões via Internet. Quer neste ponto em particular quer na concepção e percepção que temos de Jornalismo Público, constatamos que não é o caso de ele não existir e dever existir: trata-se isso sim - e aí há similitudes na tese deste trabalho que também não pretende a “passagem do 8 para o 80” - de sugerir ou não que se faça “um pouco mais de” ou que haja um equilíbrio maior entre ‘horizontalidade’ e ‘verticalidade’, sendo que, à partida, haver a existência de Jornalismo Público, consoante pudemos ler neste ponto do trabalho, aumentará a ‘verticalidade’ do acompanhamento jornalístico da política, mais concretamente em tempos de campanha. Ou seja, queremos dizer que ‘sim’: esta tese está a favor do jornalismo público e propõe um modelo teórico que nos permita compreender possibilidades de execução do mesmo, até porque este é “uma ideia em acção” (Rosen, cit in Borges, 2009, p.2), isto é, conforme nos explica Borges (2009, p.2):
“A ausência de uma definição unívoca deste “outro” jornalismo deve-se à renitência dos seus principais impulsionadores em articularem um conjunto coerente de conceitos e de práticas profissionais que o unificassem, para além da (algo vaga) intenção de tornar a vida pública mais democrática. Negando a existência de um “jornalismo público oficial” (Charity, 1995: 9) e de uma fórmula para fazer jornalismo público, “se esta existe, tem ainda de ser descoberta” (Merrit, 1998: 7), estes optaram por apresentá-lo como uma “ideia em acção” (Rosen, 1999: 5), passível de ser inventado, definido e reformulado à medida das organizações noticiosas que o adoptassem.”
Este trabalho, modestamente e em pequena escala, tentou/tenta fazer um pouco isso: inventar, definir, novas formas de jornalismo independentemente de o rotularmos de ‘público’ ou não, embora haja pertinência em o fazermos, tendo em conta o que já aqui se escreveu sobre ele. Um acompanhamento mais ‘vertical’, no entanto, não implica na nossa concepção deste trabalho, que o jornalista se abstenha de escolher a agenda mediática do dia em detrimento dos cidadãos – que será uma das premissas do jornalismo público (que confunde a agenda mediática com a agenda dos cidadãos, sendo esta segunda a que vai compor a primeira). Continuamos a acreditar na legitimidade,
boa fé, capacidade, necessidade até, dos jornalistas continuarem a “mandar” no rol de notícias que saem para a esfera pública. Sugerimos – e conclui-se que as sugestões desta tese são para os jornalistas, mais do que para actores políticos ou cidadãos – é uma nova tomada de consciência das prioridades nas formas escolhidas de tratamento que os profissionais do jornalismo adoptam para abordar determinado acontecimento – uma campanha eleitoral, por exemplo. Aí o jornalista olhará mais para a visão elaborada que cada um dos candidatos tem para com a realidade e menos para o que ele tem a dizer sobre poucas ideias do seu adversário (algo que, como uma bola de neve a descer uma montanha, tem como consequência um arrastar de comentários sobre comentários sobre comentários…). Ao agir, com uma postura mais próxima de Jornalismo de Investigação – embora adaptado à velocidade necessária a meios diários -, mais isoladamente sobre cada um dos candidatos, conseguir-se-á para o cidadão um conhecimento mais desenvolvido da pessoa que o quer representar no tipo de democracia que temos vigente no nosso país.
Conforme pôde notar, trouxemos ao debate (ou introduzimos no mesmo) características do Jornalismo de Investigação. Fizemo-lo porque, apesar de ele pressupor, conforme nos diz Amaral (2008, p.311), “aprofundar temas/assuntos com mais tempo do que o disponível quando se trabalha em informação de actualidade do dia-a-dia” (difícil de obter em campanhas), também é certo que ele simplesmente é visto como feito “fora dos percursos habituais da pesquisa de informação” (2008, p.311). Ora o que se propõe é tão simplesmente uma alteração da focalização do tipo de pesquisa de informação, mais no sentido de aniquilar as críticas das críticas uns dos outros, que substancialmente não traz conteúdo ao debate esclarecido e à escolha de mesmo tipo por parte do cidadão na urna de voto, e em vez disso “radiografar” mais um candidato em vez de o fotografar: “jornalismo bem feito se assemelha a uma fotografia da realidade” e o “Jornalismo de Investigação mostra uma radiografia da realidade” (Mouriquand, cit in Amaral, 2008, p.311).
No entanto, apesar de ser aos jornalistas que continuamos a reconhecer uma maior legitimidade para serem os seleccionadores das notícias, os ‘gatekeepers’ da infinitude de acontecimentos da nossa realidade, não queremos menosprezar a importância que terá auscultar periodicamente o público ou os públicos de determinado meio para se saber qual a sensibilidade do leitor/telespectador/ouvinte quanto à agenda
entrevistado por Dinis de Abreu para o livro “Ser jornalista em Portugal” era director do ‘Jornal de Notícias’, confessava que “Penso que outro defeito do jornalismo de hoje é precisamente não conhecer os seus leitores. Os jornais e os jornalistas não conhecem o seu público.” (Rebelo et all, 2011, p.546), dizendo que se sentia à vontade para dizer tal coisa porque tinha promovido um estudo sobre o perfil do leitor do JN, feito pela Universidade Católica, um estudo que segundo ele nunca tinha sido feito, confessando que “trabalhava-se por palpite!” (2011, p.546). Não chegou esse estudo para mudar a orientação do jornal, mas concluíram que davam “relevo a coisas que, pelos vistos, o leitor não estava à espera, ou delas estava cansado” (2011, p.546).
Assim sendo, o tipo de jornalismo que propomos é uma possibilidade de ‘Jornalismo Público’, uma vez que este é uma “ideia em acção” ainda sem contornos práticos muito concretos (talvez estejamos a ajudar a concretizar esse tipo de jornalismo); vai também ao encontro de algumas características do Jornalismo de Investigação, na pró-actividade no sentido de se descobrirem coisas diferentes das que normalmente são veiculadas pelos media – que se prenderão talvez um pouco exageradamente no confronto, no combate – que os jornalistas deverão demonstrar no exercício da sua actividade. Mas se tivéssemos que criar uma designação que seja fidedigna ao tipo de jornalismo que defendemos nesta tese, essa designação seria: “Jornalismo Pedagógico”. Pelo que lemos para esta tese, não encontramos em lado nenhum esta designação, simplesmente esta palavra tão importante – Pedagogia – associada a exacta actividade tão importante – o Jornalismo. Parece-nos importante, até porque vivemos numa altura em que a ‘aprendizagem ao longo da vida’ entrou no discurso quotidiano, juntar estas duas palavras e repetirmos a designação/expressão “Jornalismo Pedagógico”. Não se pretenderá que o Jornalismo se substitua à Escola, mas pode e deve, no nosso entender, ser uma aliada da mesma e promotora de alguns objectivos idênticos, pelo menos em determinadas alturas. No ponto do trabalho que se segue, tentaremos concretizar ainda mais esta ideia.