BÖLÜM 3: SAKARYA İLİ KENTSEL ALAN ÖRNEĞİ
3.2. Sakarya İlinde Kentsel Alanda Gelir Dağılımı ve Yoksulluk
3.2.2. Araştırma Sonuçlarının Değerlendirilmesi
Os discursos parlamentares, considerados como produção preparada e calculada para determinado público (representantes da elite política do país), serão analisados tendo
em vista o caráter discursivo dos mesmos. Ou seja, serão considerados como uma peça oratória proferida em público ou escrita como se fosse para ser lida para um dado público, uma fala ou oração feita para dada audiência, podendo ser escrita previamente ou dita de improviso, tendo sido registrada por diferentes meios comunicativos (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2009).
Dentre inúmeros discursos políticos proferidos durante sua carreira como Ministro da Justiça e Deputado Geral analisaremos três discursos políticos: O Elemento Servil (1870 e 1871) e Agricultura: Crédito Territorial e Colonização (1870) que, analisados conjuntamente com as demais fontes de pesquisa, fornecem algumas concepções balizadoras das relações entre progresso, escravidão, imigração e educação dos escravizados.
Os discursos sobre o elemento servil proferidos em momentos decisivos em torno da questão da Lei do Ventre Livre foram publicados pela câmara dos deputados em 1977, ano do centenário da morte do autor, e talvez, pelo tom comemorativo alguns discursos não foram publicados. Dentre esses, Kátia Garmes (1998) disponibilizou três em sua dissertação Achados e esquecidos de José de Alencar. Mas esses discursos não tratam em nenhum momento sobre nenhuma das questões aqui abordadas.
Os discursos aqui selecionados e analisados são carregados de argumentos sociais e principalmente econômicos que justificam a manutenção do regime escravista:
Quando uma reforma põe em risco iminente a propriedade, a paz pública, os fundamentos da ordem social, é necessária toda a energia da resistência legal (José de Alencar - Discurso 11/07/1871).
Em um discurso posterior, Alencar reitera os verdadeiros interesses que estão por trás da sua “cruzada santa”: o bem-estar dos próprios escravizados:
Senhores, não defendo aqui unicamente os interesses das classes proprietárias, defendo, sobretudo essa raça infeliz que se quer sacrificar (Discurso 13/07/1871).
No discurso a respeito da colonização e crédito agrícola, inserido em um contexto de crise do Segundo Reinado alavancada principalmente pelas vultosas despesas com a Guerra do Paraguai (1864-1870) e o avanço dos movimentos abolicionistas e republicanos, Alencar defende a criação do crédito agrícola para o desenvolvimento da lavoura, aborda as
razões econômicas e retoma a proposta de Eusébio de Queirós de retirar os escravos do meio urbano e enviá-los aos trabalhos agrícolas como meio de valorização fundiária:
Sr. Presidente, para dar incremento à agricultura, que é nossa primeira indústria, a base da riqueza nacional e a fonte de nossa renda, aquela em que mais confiança deposito, há dois meios: é provê-la de capitais e braços (Discurso 07/07/1870).
Os discursos parlamentares apresentam e indicam os conflitos, dão o ponto de vista de quem está no centro da discussão, ou seja, no poder e sugerem os objetos e ideias que estão em disputa. Para Alencar, a manutenção do direito de propriedade como correlato do poder econômico acaba sobrepujando sua suposta preocupação com o destino dos escravizados com a abolição.
A análise desses discursos foi feita levando-se em consideração as implicações inerentes a sua produção e interessam ao historiador pelo fato de representarem uma intervenção pública de alguém, que, por meio das palavras pretende causar algum tipo de efeito ou acontecimento (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2009 p.225). José de Alencar ao proferi-los tinha como interlocutores seus companheiros da câmara que também lutavam pelos mesmos interesses políticos e econômicos, mas que poderiam ser diferenciados apenas nas propostas da condução política das questões em pauta. Por outro lado, sabemos que esses discursos eram previamente elaborados, e no caso do escritor, muito bem elaborados e carregados de metáforas e de alusões a personalidades estrangeiras passando do mais específico e objetivo para considerações generalizadas e abrangentes.
Como gênero discursivo argumentativo e de acordo com suas propriedades e baseando-nos também nas concepções de Perelman (2005) investigaremos os discursos alencarianos que entende o público ouvinte em questão como auditório particular ao qual o escritor se dirige e aos quais pretende sensibilizar se utilizando de argumentos persuasivos de que a escravidão deve ser mantida. Primeiro: os escravizados desfrutam de facilidades que não gozam um operário europeu; segundo: a escravidão é benéfica aos mesmos, pois é um meio de melhoramento dos instintos brutos pelo trabalho; e terceiro: os escravizados não estão preparados para a liberdade, é preciso primeiro educá-los. A partir desses três argumentos, Alencar elabora seus discursos parlamentares com o intuito de demonstrar que a escravidão é um benefício aos escravizados.
Como uma extensão da sua atuação política, Alencar escreveu a série Ao imperador: novas cartas políticas de Erasmo, artigos produzidos e publicados entre 1867 e 1868, que serão analisados dentro da articulação proposta por Alencar entre progresso e a manutenção do sistema escravista. Os escritos sobre política e direito constituem produção tardia em relação ao romance e ao teatro, com datação posterior à entrada do já consagrado escritor no circuito dos altos cargos públicos do Império.
Os artigos das Novas cartas são continuidade da série anterior Ao imperador: cartas escrita em 1865 e 1866 nas quais Alencar abordava assuntos políticos ligados à conflituosa relação entre a Coroa, o Executivo e o Parlamento. Já as Novas cartas foram produzidas num momento desfavorável para os conservadores e crítico para o sistema escravista brasileiro. Embora sejam intituladas como “cartas”, Alencar não as escreveu diretamente ao Imperador D. Pedro II, mas as publicou no jornal Diário no qual o prefácio, chamado de advertência deixava claro o público ao qual se destinava as Novas cartas:
Advertência
A tentativa foi bem decidida. O favor público a acompanhou e deu-lhe forças e estímulos, para progredir.
Dois pontos ainda se oferecem muito palpitantes ao exame público; são os corolários deste primeiro estudo. Demonstrada a necessidade de imprimir ao governo do estado outra marcha, enérgica e moralizadora, parece natural complemento desenvolver as ideias capitais da nova ordem de coisas: em outros termos, assentar as bases da futura política, tanto interna como externa. Continuando a benevolência dos leitores a alentar a empresa, ela se abalançará a esses novos cometimentos [a questão da escravidão].
No fim publica-se em nota a carta dirigida à redação do Diário; pela conexão que tem o assunto aqui tratado. Nela se acha como em relevo breve o pensamento desta série5
O prefácio nos indica quais eram as intenções das Novas Cartas: moralizar o governo e mudar os rumos políticos no encaminhamento da questão da abolição. A moralização consiste basicamente na crítica que Alencar dirige ao Imperador por este propor a emancipação com o objetivo de elevar sua glória pessoal e não levar em consideração os prejuízos financeiros envolvidos nessa proposta.
A única característica que aproxima esses artigos do gênero carta é a despedida que Alencar faz para o imperador justificando a sua produção e exaltando a figura do monarca.
5Trecho retirado da 2ª edição publicada pela Typographia Cândido Augusto de Melo, datada, de acordo com essa publicação, de 1866. Fizemos adaptação ortográfica e mantivemos a pontuação original.
José de Alencar, na primeira Carta, deixa claro que pertencia aos conservadores, ou seja, apoiava D. Pedro II: “senhor, como sou monarquista sou cristão”, entretanto, veremos que Alencar embora seja conservador não o é por inteiro, devido às disputas políticas. Podemos citar a título de exemplo -um trecho retirado da despedida presente nas Novas Cartas- o modo como ele concebia o poder do monarca:
O homem, porém, é nada em um trono constitucional. A excelência do sistema representativo esta justamente nessa virtude de anular a individualidade do monarca, e neutralizar por conseguinte suas paixões. Não há, não pode haver mau imperador, sob o domínio da constituição brasileira. Tibério ou Felippe II, submetidos a ela, seriam impotentes para o mal.
Alencar enfatiza nesse trecho a importância do sistema representativo para frear o poder individual de D. Pedro II que, respaldado pelo Poder moderador, acabava decidindo o que poderia ou não ser aprovado pelo governo.
Essas cartas em forma de artigos foram escritas após D. Pedro II, pressionado pelo apelo do Comité Français d’Émancipation, induzir o gabinete progressista a incluir a questão da emancipação na pauta da Fala do Trono de 1867, espécie de agenda de propostas do Ministério lida para as câmaras no início do ano legislativo. A partir disso, Alencar iniciaria uma verdadeira ofensiva contra o Imperador que lançou, desnecessariamente:
Uma voz funesta, que abala até as entranhas; voz prenhe de calamidades percorre neste momento, não já a cidade, mas o Império. E fostes vós, senhor, que a lançastes como um anátema ao país?
[...]
Será real que vossos lábios, selados sempre pela reserva e prudência, se abriram para soltar a palavra fatal? É possível que súbita alucinação desvaire a tal ponto um espírito sólido e reto?
O tom contundente e pedagógico presente nas Cartas vai ao encontro do pseudônimo utilizado por Alencar: o grande humanista neerlandês Erasmo de Roterdã (1469-1536). Erasmo divulgou o gênero retórico-político em sua obra A educação de um príncipe cristão (1516) que continha uma série de obras de filósofos que prescreviam normas morais aos governantes para a realização de uma administração justa (PARRON, 2008).
A seleção das cartas para o presente trabalho se deu de acordo com os seus conteúdos na medida em que nesse material podemos encontrar as justificativas e os argumentos de Alencar com o intuito de provar ao Imperador D. Pedro II que a escravidão não tem nada de extraordinário, ela sempre existiu nas mais diversas fases civilizatórias e, de acordo com as limitações intelectuais dos escravizados africanos, a instituição seria um processo educativo para a “raça infeliz”.