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1. GİRİŞ

5.3. Öneriler

5.3.2. Araştırmacılara Yönelik Öneriler

Sísifo e Pandora conseguem imaginar para si uma vida diferente, apesar das dificuldades. O simples fato de conseguir falar sobre o futuro, na maior parte das vezes, de forma positiva, é um importante indicador para esse estudo. Significa que esses jovens não chegaram ao “[...] ponto de não reversibilidade [...]” (FRIGOTTO, 2004, p.182) - situação de muitos jovens brasileiros, fragilizados pela Ideologia de Submissão e Resignação (GÓIS, 1993) que impede seu retorno ao caminho de humanização e socialização. Quando Pandora diz ter “[...] desistido mesmo [P3.20.40]” , considerando intransponíveis as barreiras para a concretização de seus planos, ainda vê a possibilidade de um trabalho que goste. Sísifo projeta uma atuação profissional em âmbito internacional, a qual acredita poder construir através de ações efetivadas a partir do presente.

Fernando Pessoa ilustra poeticamente as funções psicológicas da construção de um horizonte existencial no Projeto de Vida, que é a de mobilizar o contato com o Núcleo de vida (GÓIS, 1993; ROGERS, 1989), conferindo um sentido profundo para a busca de transformação da Identidade:

... Triste de quem vive em casa, Contente com seu lar,

Sem que um sonho, no erguer da asa, Faça até mais rubra a brasa

Da lareira a abandonar! Triste de quem é feliz, Vive por que a vida dura. Nada na alma lhe diz Mais que a lição da raiz: Ter por vida a sepultura.

Eras sobre eras se somem No tempo, que em eras vem, Ser descontente é ser homem Que as forças cegas se domem Pela visão que a alma tem! (PESSOA, 2004, s.p.)

Os quadros 11 e 12 apresentam de forma sucinta aspectos do Projeto de Vida de Sísifo e Pandora, respectivamente:

QUADRO 11 - Projetos de Vida – Sísifo

PROJETO DE VIDA – SÍSIFO Trabalhar com informática.

Ser chefia Fazer faculdade Profissionalizar-se Ter uma família 1º MOMENTO

Ter dinheiro suficiente para viver bem Ser operador (profissão definida)

Fazer faculdade: pedagogia, informática... 2º MOMENTO

Carreira: político, advogado... Profissionalizar-se

Fazer faculdade

Fazer cursos de manutenção, de mecânica e então ser mecânico. A partir disso fazer vestibular para mecatrônica e, depois, para engenharia.

3º MOMENTO

Atuar profissionalmente em âmbito internacional.

QUADRO 12 – Projetos de Vida – Pandora

PROJETO DE VIDA – PANDORA Estudar, Fazer faculdade.

Trabalhar com Administração, área que gosta. 1º MOMENTO

Cuidar da filha

Fazer curso de técnico em informática no SENAI Estudar, formar-se – fazer faculdade.

Lutar para manter-se independente 2º MOMENTO

Cuidar da filha Superar a depressão Trabalhar como vendedora 3º MOMENTO

Progredir

A partir da forma pela qual o sujeito da realidade aprofunda sua consciência na atividade, ele engendra os modos de relação com o presente e projeções do futuro, como os que foram apresentados acima, modos que se alteram dentro do contexto social. Freire (1980)

caracterizou os tipos de consciência, como já foi demonstrado no Referencial Teórico, permitindo uma leitura da relação de Sísifo e Pandora com a realidade.

No tipo de consciência mágica, o sujeito entrega seu futuro a entidades supranaturais: Deus, Sorte, Destino. Sísifo apresenta esse tipo de consciência ao atribuir as dificuldades da sua vida a Deus, e o fato de melhorar no futuro, à Sorte. Pandora remete seu casamento à ordem do Destino. Desse modo, o sujeito não faz ligação desse futuro com o presente e não se inclui na construção de nenhum deles. Os sonhos expressos podem ser apenas projeções da resolução das necessidades que existem hoje. Aqui, o Caráter Oprimido (GÓIS, 1993) e o Fatalismo (MARTÍN-BARÓ, 1998) estão muito arraigados e o Poder Pessoal (GÓIS, 1993; ROGERS, 1989) e Valor Pessoal (GÓIS, 1993), quase anulados.

Na consciência ingênua, ainda não se consegue um afastamento suficiente da situação atual de modo a imaginar um futuro, porém, já consegue relacionar presente e futuro, e seu papel nesta situação. Sísifo, embora pense que “rolar a pedra” é castigo/missão divina, sabe que precisa dar seus passos para alterar a situação. Nas palavras de Camus (2004, p. 141): “Se há um destino pessoal, não há um destino superior ou pelo menos só há um, que ele julga fatal e desprezível. De resto sabe que é dono de seus dias [...]”. Pandora, em um momento cansa-se de perdoar, quebra a lei do silêncio, sai de casa para ir à missa, vê que aquela vida não é plena, é “vidinha”. Aqui, o Valor Pessoal, que é a expressão do núcleo de vida (GÓIS, 1993; ROGERS, 1989), começa a ser mobilizado e o Poder Pessoal, mesmo que ainda impedido, começa a se fazer sentir. A Ideologia de Submissão e Resignação (GÓIS, 1993) e o Fatalismo (MARTÍN-BARÓ, 1998) começam a ser questionados, rompendo os bloqueios do Caráter Oprimido (GÓIS, 1993).

Quando há a conscientização, que é, de acordo com Freire (1980), o movimento da consciência, antes ingênua, à consciência crítica, o sujeito, pelas capacidades de reflexão e abstração que possui, é capaz de imaginar-se no futuro, compreendendo a relação deste com o presente, e concebendo modos de agir no mundo para que sua expectativa se concretize. Aqui o sujeito já é capaz de sonhar. Sísifo consegue a promoção, começando a exercitar o Poder Pessoal (ROGERS, 1989) – começa a profissionalizar-se: ser mecânico deixa de ser projeto e torna-se realidade. A Pandora que volta para o esposo não é a mesma, está amadurecida, de olhos abertos, mesmo que, por enquanto, perdida, sem entender muita coisa, deprimida e doente. Há uma transformação interna, subjetiva, e uma objetivação dessa transformação.

De acordo com o demonstrado anteriormente, são observados indícios da presença de todos os modos de relação com o mundo, expressos em cada tipo de consciência, em vários momentos da vida de Sísifo e Pandora. Esses tipos não aparecem de forma pura, pois um

esquema teórico nunca dá conta das múltiplas formas de expressão da realidade, mas mesclando-se uns aos outros e forjando as diversas personagens que dão vida aos papéis apresentados na Análise dos dados.

É possível verificar claramente, como definido pelos objetivos desse estudo, o redimensionamento do projeto de vida do jovem e sua relação com a inserção profissional. O trabalho atual aparece como início da possibilidade de escolha para Pandora. Se “o primeiro emprego não se escolhe”, quem sabe seja possível escolher a partir dele, construindo o futuro a partir do presente. Observa-se que Sísifo amadurece progressivamente um projeto de vida através do trabalho, sem desconsiderar sua realidade atual.

O Projeto de Vida de Sísifo e Pandora concentra-se principalmente nas questões do Estudo e da Profissionalização. Estudos com jovens cursando o nível médio, como o realizado por Matos (2001), apresentam resultados similares no sentido da escolarização e profissionalização. Então, por que, mesmo jovens que já trabalham, e já concluíram o ensino médio, continuam se referindo a essas questões como fundamentais para a construção de suas vidas?

Essa indagação deseja provocar estranhamento, desnaturalizando o “dado”. Mesmo que a denúncia resulte óbvia e conste há muito no jargão das produções sobre o tema, salta novamente aos olhos o fato de que o ensino formal e o mundo do trabalho estão desvinculados.

A origem etimológica da palavra escola, como oportunamente lembra Frigotto (2004), significa lugar de ócio. Como visto na introdução desse estudo, acerca do tópico relacionado ao breve histórico de juventude e trabalho, a escola surge demarcando a juventude como um período de preparação para a vida adulta, desde os tempos da Antigüidade clássica. Nesse espaço, acontecia a formação estética, artística, lúdica, enfim, o objetivo era repassar o conhecimento acumulado pela humanidade, para orientar o desenvolvimento do ser humano. A escola é construída como espaço institucional no século XVIII, devido à necessidade de se separar “[...] fé e razão, natureza e religião, política e igreja [...]” em decorrência da revolução industrial (RAMOS, 2001. p.29).

Apesar do discurso burguês visar à educação para todos, este modelo nunca foi universal: “[...] a escola para a classe trabalhadora sempre foi outra – uma escola para a disciplina do trabalho precoce e precário [...]” (FRIGOTTO, 2004, p. 195). “Assim a educação dos trabalhadores pobres teria por função discipliná-los para a produção, proporcionando à maioria da população somente o mínimo necessário para fazer do trabalhador um cidadão passivo que, apesar de tudo, tivesse alguns poucos direitos [...]”

(RAMOS, 2001, p.31). Os objetivos da educação, como assinala Vigotski (2003), correspondem aos ideais da época, forjados na história daquela sociedade. A educação visaria, portanto, à reprodução da força de trabalho como mercadoria. A melhor metáfora dessa situação, a meu ver, foi apresentada no videoclip da música Another Brick in The Wall do grupo de rock inglês Pink Floyd, obra que faz parte do musical The Wall (1982). Na escola/fábrica, os estudantes enfileirados, sem rosto, caminham para o moedor de carne. Acontece, então, uma revolta dos estudantes, que incendeiam a escola repetindo: “We don´t need no education!”4. Quem precisa desse tipo de educação? Certamente não são as crianças e os jovens, mas o sistema de manutenção da divisão entre os que pensam e os que fazem, que privilegia os primeiros e explora os demais.

Como já foi visto, várias formas de organização da produção refletiam essa idéia platônica de divisão do trabalho (PLATÃO, 2003). A partir desse pensamento, a educação passa a assumir o papel não apenas de socialização, mas de transmissão do saber técnico, começando a atuar em termos de Formação Profissional, principalmente no que diz respeito às classes populares. Atualmente, a Lei de Diretrizes e Bases define que a educação escolar deve desenvolver nos educandos “[...] conhecimentos e habilidades necessários para o exercício da cidadania e inserção no mundo do trabalho [...]” (RAMOS, 2004, p. 126), sendo estes objetivos alcançados já ao fim do nível fundamental, que prepararia basicamente para o trabalho e para a continuação dos estudos.

A inserção de Sísifo e Pandora nesse mercado de trabalho, bem como a da maioria dos jovens de classe popular, não acontece por escolha. Frigotto (2004, p.197) aponta que “[...] cresceu o número de jovens que participam de 'trabalhos' [aspas do autor] ou atividades dos mais diferentes tipos como forma de ajudar seus pais a compor a renda familiar”. Segundo a pesquisa de Sallas et al. (2003), com a extinção dos cursos profissionalizantes que facilitavam o estágio, estudo e trabalho passam a se opor, sendo muito difícil para o jovem estudar e trabalhar ao mesmo tempo. Observa-se que Pandora constantemente relembra essa dificuldade, adiando a chegada/retorno do papel de estudante, assim como o estudo permanece como um plano para Sísifo. Para eles, assim como para boa parte dos jovens das classes populares, a questão se coloca como estudar ou sobreviver. Quando conseguem uma colocação no mercado esta se dá em condições que não favorecem seu desenvolvimento. “O fato de que só 13,6% dos jovens do estrato D e E estejam ou já estiveram trabalhando aponta

4 "Nós não precisamos de educação". Tradução feita pela autora. Destaca-se ainda a ironia da frase: dita em língua inglesa é gramaticalmente incorreta, pois apresenta duas partículas negativas.

que, na encruzilhada social entre ter que trabalhar ou estudar, tal parcela é excluída de ambas as possibilidades”. (SALLAS et al, 2003.p. 244).

Tal forma diferenciada de ricos e pobres ingressarem no mercado de trabalho – os mais ricos ocupados em atividades de mando ou de treinamento para um futuro profissional, enquanto os pobres engrossam o grupo dos desempregados, dos autônomos e dos empregados das empresas privadas – apenas comprova que a posse diferenciada do capital social e econômico demarca os lugares sociais que tais jovens irão ocupar desde cedo e por toda sua vida. (SALLAS et al, 2003, p. 243, 244).

O primeiro emprego está para esses jovens assim como o vestibular está para os jovens das classes mais favorecidas, não pelo fato de não desejarem ingressar numa universidade, até porque isso ampliaria suas possibilidades de emprego, mas pela impossibilidade de competir, devido à falta de preparação.

Aqui aparece a noção de Empregabilidade – aumento da possibilidade de se empregar – e a Pedagogia das Competências como ligação entre Educação e Trabalho, utilizada na maioria das vezes de forma ideológica para justificar a insegurança das relações de trabalho e responsabilizar individualmente os sujeitos. As mudanças nos modos de produção, com a reestruturação das ocupações, exigem cada vez mais flexibilidade dos profissionais, que absorvem estes conceitos e a partir deles planejam seu futuro, como mostrou claramente o discurso de Sísifo (ver Quadro S, [ S3.21.23. a S3.21.46] em Anexos).

Retornando, porém, à questão inicial, o que apontam Sísifo e Pandora quando, mesmo tendo concluído o ensino médio e já ocupados na condição formal, continuam a balizar seu futuro pelo eixo educação-trabalho? Refletem estas questões do mercado, a necessidade de contínua qualificação e flexibilidade e, ao mesmo tempo, denunciam uma educação de má qualidade, descontextualizada e insuficiente para que desenvolvessem condições de seguir a partir dela, conferindo apenas a certificação e não a qualificação. Além disso, o trabalho que realizam atualmente parece lhes agregar valor pelo fato de estarem adquirindo experiência, mas falha na formação de uma Identidade Ocupacional. São profissionais que não têm profissão.

Os sentidos do trabalho são parte importante dessa discussão, por complementar a compreensão de que vida é essa que esses jovens desejam construir para si, e de que modo o trabalho – atual ou possível - participa dela.

Benzer Belgeler