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AMASYA ÜNİVERSİTESİ İLAHİYAT FAKÜLTESİ DERGİSİ YAZIM İLKELERİ

Em fins do século XIX, já se apresentavam nos grandes centros urbanos brasileiros (notadamente, São Paulo e Rio de Janeiro), os sinais que viriam a marcar a moderna urbanização brasileira: adensamento populacional além da capacidade da infraestrutura disponível; concentração da propriedade, da riqueza e do poder político em determinadas áreas da cidade, marginalização dos segmentos populares e legislação voltada prioritariamente para a cidade formal, relegando a cidade informal a segundo plano.

Durante as últimas décadas do século XIX e as primeiras do século XX, já havia no Brasil uma ideia razoavelmente estruturada de política urbana, a qual geralmente consistia, influenciada pelo pensamento francês, em ações voltadas ao melhoramento sanitário e embelezamento da cidade, sobretudo nas regiões centrais15.

Célebre tornou-se a reforma urbana promovida na capital federal de então, Rio de Janeiro, pelo Prefeito Francisco Pereira Passos, que governou entre 1902 e 1906. A radicalidade de suas propostas foi tal que lhe valeu o apelido “Bota-abaixo”.

A capital vinha crescendo desordenadamente havia décadas, situação que se agravou com a abolição da escravidão. Diante de uma situação de constrangimento internacional da República brasileira perante as outras nações, devido às péssimas condições urbanas de sua principal cidade, o Governo local realizou obras de grande impacto objetivando embelezá-la (atraindo, assim, mais investimentos do exterior), dar-lhe ares mais cosmopolitas (isto é, europeus) e resolver a crise na área de saúde pública16. A ideologia desta reforma em muito se assemelhou àquela aplicada em Paris pelo Barão de Haussmann, prefeito da capital francesa no século XIX. Assim, promoveu-se a correção e o alargamento de ruas e a abertura de grandes avenidas, bem como a construção de edifícios imponentes e de belas praças e jardins. Para tanto, contudo, foram retiradas do Centro todas as habitações coletivas (cortiços), cuja situação caótica de insalubridade favorecia a proliferação e a disseminação de doenças e epidemias17.

15 “Em verdade, nesse momento histórico, o urbanismo servia de instrumento de modificação interior – da

estética e da salubridade – das cidades, do desenvolvimento quantitativo, voltado à realização de uma melhor distribuição da população, industrial e residencial, ou seja, focava-se aí apenas a questão da quantidade” (BARROS; CARNEIRO, 2006, p. 49) (grifo nosso).

16

Para o contexto político, econômico e social que envolveu a reforma urbana carioca, ver Azevedo (2003; 2011).

17 A fim de controlar o problema da saúde no Rio de Janeiro, o Presidente Rodrigues Alves nomeou Diretor-

geral de Saúde Pública, em 1903, o sanitarista Oswaldo Cruz, que passou a comandar as políticas de eliminação de focos de larvas de insetos e vacinação obrigatória. A desinformação de boa parte da população quanto aos benefícios das medidas e o descontentamento com as políticas arbitrárias de Pereira Passos deram causa à

As populações retiradas para a execução das obras nas áreas centrais do Rio de Janeiro, sem condições para arcar com os custos dos alugueis e terrenos agora valorizados, foram remetidas para zonas distantes ou ocuparam os morros cariocas próximos ao Centro, em um processo de “higienização social” que incentivou sobremaneira o surgimento de favelas e bolsões periféricos. Esse processo era agravado pelo retorno de soldados que partiam para campanhas militares distantes, como a que destruiu o povoado de Canudos, e, ao retornarem, sem recursos ou habitação garantida, passavam a morar precariamente em zonas mais afastadas. Na mesma situação enquadravam-se várias das levas de imigrantes estrangeiros que chegavam à cidade e escravos alforriados que convergiam para as zonas urbanas, mas sem condições mínimas de sobrevivência.

Em suma, podemos considerar, em geral, que a urbanização da época dava-se em bases desorganizadas, apresentando-se o Estado quase tão-somente na construção de obras associadas ao melhoramento da estética e da salubridade das cidades, bem como, possivelmente, construindo mais ruas, pontes etc., com pouca atenção à qualidade de vida da população mais pobre.

Não se pode deixar de anotar que a reforma promovida por Pereira Passos enquadra-se em uma visão racionalista da realidade, bastante em voga no período. Isso significa que as reformas possuíam a intenção de dar um aspecto racional, “civilizado” e hierarquizado à cidade. “O racionalismo vai instaurar ou restaurar a coerência na realidade caótica que ele observa e que se oferece à sua ação” (LEFEBVRE, 1969, p. 27). A questão é que esta prática não vem desacompanhada de uma ideologia, ainda que implicitamente, conforme explica brilhantemente Henri Lefebvre (1969, p. 26)(grifos do autor):

No século XIX, e sobretudo no século XX, toma forma a racionalidade organizadora, operacional nos diversos graus da realidade social. Provém essa racionalidade da empresa e da gestão das unidades de produção? Nasce ao nível do Estado e da planificação? O importante é que seja uma razão analítica levada às suas últimas consequências. Ela parte de uma análise metódica dos elementos tão fina quanto possível (de uma operação produtiva, de uma organização econômica e social, de uma estrutura ou de uma função). Em seguida, subordina esses elementos a uma finalidade. Donde sai essa finalidade? Quem a formula, quem a estipula? Como e por quê? Está aqui a falha e a queda desse racionalismo operatório. Seus adeptos pretendem tirar a finalidade do encadeamento das operações. Ora, isso não existe. A finalidade, isto é, o conjunto e a orientação do conjunto, se decide. Dizer que ela provém das próprias operações é fechar-se num círculo vicioso: com a decupagem analítica dando a si mesma por sua própria finalidade, por seu próprio sentido. A finalidade é objeto de decisão. É uma estratégia, justificada (mais ou menos) por uma ideologia. A noção de sistema cobre a noção de estratégia. À análise crítica, o sistema revela ser uma estratégia, desvenda-se como decisão (finalidade decidida).

O sentido da passagem citada é complementado por outra anterior, na mesma obra (1969, p. 21-22), como se vê:

Os subúrbios, sem dúvida, foram criados sob a pressão das circunstâncias a fim de responder ao impulso cego (ainda que motivado e orientado) da industrialização, responder à chegada maciça dos camponeses levados para os centros urbanos pelo

“êxodo rural”. Nem por isso o processo deixou de ser orientado por uma estratégia. Estratégia de classe típica, significa isso uma sequência de atos coordenados,

planificados, com um único objetivo? Não. O caráter de classe parece tanto mais profundo quanto diversas ações coordenadas, centradas sobre objetivos diversos, convergiram no entanto para um resultado final. Evidente que todos esses Notáveis não se propunham abrir um caminho para a especulação; alguns deles, homens de boa vontade, filantropos, humanistas, parecem mesmo desejar o contrário. Nem por isso deixaram de estender em torno da cidade a mobilização da riqueza da terra, a entrada do solo e do alojamento, sem restrição, para a troca e o valor de troca. Com as implicações especulativas. Não se propunham desmoralizar a classe operária mas sim, pelo contrário, moralizá-la. (...) Queriam atribuir-lhes uma outra função, uma outra condição, outros papéis, que não aqueles ligados à condição de produtores assalariados. (...) Assim, imaginaram, com o habitat [ver notas 20 e 19], a ascensão à propriedade (grifo do autor).

Destarte, pode-se concluir que as obras de remodelação urbana do Rio de Janeiro, a exemplo de outras que aconteceram (e acontecem) no Brasil, favoreceram a consolidação dos aspectos urbanos que marcam a divisão social da cidade no capitalismo industrial, expostos no ponto 1.1 deste trabalho. Aliás, a esta situação soma-se, ainda, no caso brasileiro, o fator racial, que não necessariamente esteve presente nos processos de urbanização dos países centrais.

Conquanto o processo de industrialização nacional desse apenas seus primeiros passos (a economia ainda estava completamente atrelada ao tripé latifúndio-monocultura- agroexportação), e o objetivo declarados das autoridades fosse o embelezamento e a modernização das cidades, dentro dos parâmetros positivistas de “ordem e progresso”, não há como descolar tal processo da formação das bases para a exploração da massa operária que passaria a crescer nas grandes cidades do País.