Antes de passar-se à questão relativa à inserção do indivíduo na ordem coletiva, faz-se necessário compreender, com Rousseau, como o homem natural saiu de sua condição de iso- lamento e passou à condição de vida societária, verificando-se as transformações profundas nos ambientes em que o homem estava inserido, assim como as transformações na sua própria constituição. Note-se que o filósofo genebrino apresenta um processo em que as estruturas e a constituição do homem estavam entrelaçadas modificando-se simultaneamente, linha de pen- samento que estende à constituição do espaço civil. Ele não concebeu apenas as estruturas da república, bem como a dinâmica da vida social, pois era inconcebível pensar as estruturas sem supor sua profunda relação com a dinâmica da existência do homem. Dessa forma, poder-se-á
observar como Rousseau concebeu o espaço civil como o espaço de excelência para a realiza- ção do indivíduo — a partir de então, do indivíduo cidadão —, realização que o levaria, de fato, a gozar da felicidade.
Na obra de Robert Mauzi, há a demonstração da importância em não repetir o que tra- dicionalmente era comum entre os teóricos: a separação entre o que pertencia ao mundo da filosofia e das luzes e ao mundo da sensibilidade. Ele afirma:
Com efeito, nada é mais decepcionante, no que concerne ao século XVIII, que a posição dos historiadores de considerar separadamente, aquilo que de- corre da filosofia ou das luzes e aquilo que se atribui, não sem ironia, à sen- sibilidade (MAUZI, 1960, p. 10, tradução nossa).26
Para Mauzi, a constituição do pensamento de Rousseau, juntamente com outros teóricos do século dezoito, é a expressão da riqueza desse século, visto que ele encerra um tipo de refle- xão que procura abordar a profundidade da alma humana. Veja-se o que Mauzi afirma:
No entanto, grandes romances são de uma extraordinária riqueza. Quando conhecemos Cleveland e A nova Heloísa, resta pouco a se descobrir sobre o século XVIII! E ficamos convencidos de que Prévost é uma das mais lúcidas consciências de então, a única consciência trágica, com Rousseau, de uma época em que as euforias artificiais sabiam admiravelmente adormecer ou esconder o mal das almas (MAUZI, 1960, p. 10, tradução nossa).27
A preocupação de Rousseau com o indivíduo vai além da mera busca de estruturas de organização que solucionem a diversidade de seus problemas, que solucionem, por exemplo, a questão da desigualdade, por saber que a solução dos problemas humanos não se concentraria apenas nesse campo. Para a plena realização do homem, dever-se-ia buscar a confluência en- tre estruturas saudáveis e aquilo que diz respeito à constituição do indivíduo, ao sentimento de existência; mais do que viabilizar estruturas republicanas, dever-se-ia buscar a realização do indivíduo. Nesse contexto de realização, verificar-se-á como, em Rousseau, os elementos da
26“Rien n’est plus décevant en effet, en ce qui concerne le XVIII siècle, que le parti pris des historiens de
considérer séparément ce qui relève de la philosophie ou des lumières et ce qu’on abandonne, non sans ironie, à la sensibilité.”
27 “Pourtant certains grands romans sont d’une extraordinaire richesse. Quand on connaît Cleveland et La
Nouvelle Héloise, il reste peu à découvrir sur le XVIII siècle! Et l’on s’est convaincu que Prévost est l’une des plus lucides parmi les consciences d’alors, la seule conscience tragique, avec Rousseau, d’une époque où les euphories artificielles savaient admirablement endormir ou masquer le malaise des âmes.”
estrutura da república e os elementos da constituição humana estão entrelaçados como fun- damentos para a realização do indivíduo cidadão.
No início da segunda parte do seu segundo Discurso (1987-1988a), ele esclarece como a sociedade foi fundada. A eclosão da propriedade foi o advento que marcou um tipo de orga- nização que o homem até então não conhecera. Assim descreve o ocorrido: “O verdadeiro fun- dador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer isto é meu
e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo” (p. 63). É a aceitação dessa posse a
causa central de todos os infortúnios dos homens. Assim, adverte e conclama os homens a combaterem tal procedimento: “Defendei-vos de ouvir esse impostor; estareis perdidos se
esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém!” (p. 63).28E reconhece que o contexto no qual os homens viveram nos seus primórdios não existe mais quando do anúncio por ele da eclosão da propriedade:
Grande é a possibilidade, porém, de que as coisas já então tivessem chega-
do ao ponto de não poder mais permanecer como eram, pois essa ideia de
propriedade, dependendo de muitas ideias anteriores que só poderiam ter nascido sucessivamente, não se formou repentinamente no espírito humano
(p. 63).
A eclosão da propriedade foi apenas um dos efeitos de um longo processo de trans- formação pelo qual a humanidade passou. Todo esse processo é uma combinação entre as mudanças ocorridas constantemente na natureza e a ação humana para se adequar a tais mu- danças. É o produto daquilo que o homem teve de realizar para se adequar às vicissitudes do próprio mundo natural. “Foi preciso fazer-se muitos progressos, adquirir-se muita indústria e
luzes, transmiti-las e aumentá-las de geração para geração, antes de chegar a esse último termo do estado de natureza” (p. 64). Se, inicialmente, o homem se atinha às suas puras sen- sações, viu-se forçado, com o tempo, a transformá-las, ou seja, a ampliá-las, pois as mudanças do clima e do tempo o obrigaram a isso. Com o avanço do conhecimento e da indústria huma- na, tornou-se impossível ao homem manter a suavidade da vida natural. E o elemento que põe fim a esse estilo de vida é o aparecimento da propriedade. Se, antes, os homens se contenta- vam com a colheita dos frutos da terra e, posteriormente, com sua produção agrícola familiar,
28Doravante, como no capítulo anterior, de todas as citações da obra Discurso sobre a origem e os fundamentos
da desigualdade entre os homens serão indicadas apenas as páginas em que se encontram na tradução de Lour-
chegou o tempo em que a terra se tornou seu principal desejo e o detonador de disputas. En- quanto houve abundância de terra e recursos naturais, os conflitos eram esporádicos e envol- viam basicamente uma ou outra família.
No entanto, com o aumento da população humana, as terras se tornaram escassas para atender o interesse de todos. Aqueles que tinham mais terras procuravam mantê-las e até am- pliá-las, e os que não tinham necessitavam de terras para a sua manutenção. O homem saiu de uma vida de contentamento para uma vida de necessidades intensas e passou a experimentar a desigualdade. A propriedade, que fez surgir a desigualdade, foi uma decorrência do excesso de necessidades que provocou nos homens a busca pelo acúmulo de bens.
[...] mas, desde o instante em que um homem sentiu necessidade do socorro de outro, desde que se percebeu ser útil a um só contar com provisões para dois, desapareceu a igualdade, introduziu-se a propriedade, o trabalho tornou-se necessário e as vastas florestas transformaram-se em campos apra- zíveis que se impôs regar com o suor dos homens e nos quais logo se viu a escravidão e a miséria germinarem e crescerem com as colhei- tas (p. 69).
As necessidades humanas em demasia foram forjadas a partir do aparecimento da me- talurgia e da agricultura. Se, antes, os homens se contentavam em trocar os poucos produtos que possuíam, viram-se, então, diante da possiblidade de aumentar seus bens, pois a agricultu- ra e a metalurgia atendiam a esse desejo. Antes mesmo da divisão do trabalho de Marx,29 o filósofo genebrino observou que a agricultura e a metalurgia realizaram mudanças profundas na vida da humanidade, tanto do ponto de vista material quanto do ponto de vista espiritual. Do ponto de vista material, o homem foi introduzido na vida civilizada; do ponto de vista es- piritual, experimentou um novo sentimento de existência com a nova dinâmica de vida. En- quanto a dinâmica da vida do homem natural caracterizava-se pela simplicidade que se res- tringia ao atendimento de suas necessidades mais elementares, a vida desse novo homem tor- nou-se mais complexa e variada, o que significa que o homem desse novo tempo aumentou, em seu dia a dia, o desejo por coisas que antes lhe eram desnecessárias, iniciando-se o acúmu- lo de bens e fazendo-se necessária uma divisão de tarefas entre eles. Entretanto, nem todos os homens conseguiram acumular bens, pois apenas alguns tiveram o controle das novas tecno-
29“Rousseau pensou, um século antes de Marx, que o principal efeito da divisão do trabalho não foi enriquecer
as pessoas, dando-lhes acesso aos meios e às capacidades de seus semelhantes, nem de melhorar sua vida permitindo-lhes se especializarem nas atividades para as quais eram mais dotados, mas de reduzi-los a escravos, fazendo depender da vontade do outro o exercício de suas próprias capacidades.” (GAUTHIER, 2011, p. 37, tradução nossa).
logias. Enquanto o homem estava tomado integralmente pela busca de sua sobrevivência, ele não criou nenhuma atividade que se diferenciasse de suas atividades meramente naturais. “A
agricultura e a metalurgia prosperaram entre os homens de forma ocasional” (p. 69).
Quanto à metalurgia, pode ter ocorrido por parte do homem a observação do fenômeno da erupção vulcânica, que procurou imitar ao manipular o ferro por meio do fogo. Em relação à agricultura,
[...] conheceu-se o princípio muito antes de ser a prática estabelecida e absolutamente não é possível que os homens, ocupados continuamente em obter sua subsistência das árvores e das plantas, não formassem rapida- mente a ideia das vias empregadas pela natureza para a geração dos vegetais (p. 69).
Ambas as tecnologias propiciaram o surgimento de um conjunto de novos afazeres. Por um lado, aqueles que desenvolviam atividades que manuseavam materiais como o ferro necessitavam de alimentos que eram produzidos pelos agricultores; por outro, os agricultores precisavam de utensílios produzidos pelos que manipulavam a metalurgia. A saída encontrada foi a troca, e, enquanto o escambo manteve em equilíbrio a igualdade entre os homens, os conflitos não eram intensos, nem a desigualdade se firmou.
No caso específico da agricultura, Rousseau observa que a utilização contínua de ter- ras para abastecer a mesa de todos criou uma cultura que concedeu àquele que as utilizava direitos sobre a mesma. Do uso e, a seguir, da posse da terra chegou-se facilmente à efetiva- ção do direito de propriedade.
Somente o trabalho, dando ao cultivador um direito sobre o produto da terra que ele trabalhou, dá-lhe consequentemente direito sobre a gleba pe- lo menos até a colheita, assim sendo cada ano; por determinar tal fato uma posse contínua, transforma-se facilmente em propriedade (p. 70).
Mas não foi apenas o acúmulo de terras que gerou a desigualdade, visto que as dife- renças entre suas atividades e as iniciativas dos mais habilidosos fomentou, também, seu apro- fundamento. A desigualdade produziu um cenário novo, pois passou a haver homens com bens e posses e homens que deles não dispunham. O cenário da desigualdade foi aprofundado à proporção que os homens dominaram determinadas técnicas e dividiram suas atividades, encontrando-se, desse modo, em lugares distintos em função das atividades que dominassem e desenvolvessem.
A divisão entre os que possuíam bens e os que não possuíam deu início a um processo de conflitos e desavenças. Uns lutavam pela sua própria sobrevivência, e outros, pela manu- tenção de seus bens. A cada avanço do progresso, observava-se o avanço das desigualdades. Cada vez mais o acúmulo de riquezas jogava a maioria dos homens na pobreza. A herança ajudava no acúmulo de mais e mais riqueza, em detrimento dos que nada possuíam. Cada vez mais os que tinham posses faziam pesar sobre os ombros dos pobres seus poderes. Nas mãos dos ricos, os pobres tinham dois caminhos. Esperar a benevolência dos abastados, ou roubar- lhes quando possível, o que gerou um conflito contínuo e violento. Assim, os mais poderosos se viram diante de conflitos que colocavam em risco suas vidas e suas posses. Após a implan- tação da posse da terra, a insegurança foi a marca da nova vida dos homens, insegurança que se tornou desvantajosa para os ricos, que buscaram encontrar uma saída. Se sabiam que não tinham argumentos convincentes para justificar os bens que tinham acumulado, o que dizer de terras e mais terras sob o domínio de um único senhor? Como os senhores poderiam explicar, aos que não tinham terras e alimentos, a posse de áreas que ajudariam a tantos?
Por mais que dissessem: Fui eu quem construiu este muro; ganhei este terre- no com meu trabalho, outros poderiam responder-lhes: Quem vos deu as demarcações, por que razão pretendeis ser pagos a nossas expensas, de um trabalho que não vos impusemos? Ignorais que uma multidão de vossos ir- mãos perece e sofre a necessidade do que tendes a mais e que vos seria ne- cessário um consentimento expresso e unânime do gênero humano para que, da subsistência comum, vos apropriásseis de quanto ultrapassasse a vossa? (p. 72).
Além disso, os senhores precisavam cotidianamente defendê-las de um ou outro indi- víduo, ou ainda, de grupos, casos em que a defesa tornava-se mais difícil. Os senhores elabo- raram, então, um plano que poria um fim aos conflitos, conclamando todos a aderir a um mo- delo de vida do qual todos se beneficiariam, em que tanto o rico quanto o pobre teriam asse- gurados seus direitos e suas vidas em paz e em segurança, na medida em que observassem as leis, pois seus inimigos seriam totalmente afastados do convívio coletivo.
Segundo Rousseau, muitos homens inocentes e grosseiros, pensando estar protegendo sua liberdade, acreditaram na proposta gestada pelos senhores.
Fora preciso muito menos do que o equivalente desse discurso para arrastar homens grosseiros, fáceis de seduzir, que aliás tinham questões para deslin- dar entre si, que não podiam dispensar árbitros e possuíam demasiada ambi- ção para poder por muito tempo dispensar os senhores (p. 73).
Apesar dos limites, o pacto possibilitava, de certa maneira, a conservação de parte da liberdade dos homens, embora uma liberdade regulada pela lei. A pouca experiência com es- tabelecimentos políticos levou os homens a cair em uma espécie de armadilha, pois, em vez de irem ao encontro daquilo com que sonhavam — a manutenção da liberdade e a paz — , depararam-se com seus grilhões.
Tem-se o advento da sociedade e das leis a partir do acordo feito entre os homens. E o fizeram por acreditar que a melhor opção seria a implantação do pacto social, para que se pudessem sanar todos os problemas advindos dos constantes conflitos. Ao ser introduzido esse modelo de organização, os homens decretaram o fim de sua antiga liberdade, a liberdade natural. As leis que passaram a reger o direito de propriedade surgiram como o suporte para o fortalecimento do poder dos proprietários e o enfraquecimento dos que não possuíam terras. Para Rousseau, o primeiro pacto social institucionalizou, assim, a desigualdade entre os ho- mens. Esse pacto desferiu o último golpe contra a liberdade natural e contra o sentimento de existência que era circunscrito ao amor de si.