• Sonuç bulunamadı

Do ponto de vista físico, o homem é incompleto para enfrentar as dificuldades encon- tradas na natureza e, em sua incompletude e em sua singularidade, adaptou-se às adversidades do meio ambiente, adquirindo, a partir da vida difícil decorrente da dureza da natureza, uma compleição física robusta e vigorosa. Desde a infância, iniciou sua existência experimentando o rigor do clima. Aprimorou os recursos físicos que percebeu nos outros animais e ampliou sua ação para conseguir sobreviver. Teve apenas o seu corpo como a principal ferramenta para enfrentar os desafios da sobrevivência, que o tornou capaz de superar quase todos os obstáculos que encontrava. Forjado desde o nascimento a ser forte, usufruiu de toda a potên- cia que a espécie pôde oferecer. Rousseau compara-o com os homens socializados que veem em sua prole um fardo oneroso. Diante do homem natural, o homem civilizado é um ser fragi- lizado, pois sempre tem ao seu dispor ferramentas que poupam sua estrutura física; no entan- to, esses instrumentos apenas enfraquecem seu corpo.

Na primeira parte do Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade en- tre os homens, descreve a poderosa constituição física do homem e afirma que, ao se compa- rar o homem moderno com o homem natural, aquele não teria nenhuma vantagem do ponto de vista físico sobre o segundo. Desse ponto de vista, houve uma total decadência do homem ao adotar uma vida contrária à sua vida natural. O declínio do homem foi o declínio de sua reali- zação, uma vez que o novo estilo de vida desestruturou a sua constituição. Mais do que fazer uma crítica à utilização das ferramentas pelo homem, quer ressaltar os malefícios do estilo de vida que lhe impôs a sociedade.

Sendo o corpo o único instrumento que o homem selvagem conhece, é por ele empregado de diversos modos, de que são incapazes, dada a falta de exercício, nossos corpos, e foi nossa indústria que nos privou da força e da agilidade que a necessidade obrigou o selvagem a adquirir (p. 42-43).

Se, por um lado, seu Segundo Discurso apresenta o homem como um ser robusto, também aponta seu lado fragilizado, decorrente de sua socialização. O olhar de Rousseau não é um olhar inocente, mas um olhar realista sobre o indivíduo e sobre sua condição ao longo do

processo histórico. O homem natural é a referência da qual parte para analisar a realidade do homem civilizado. Mais adiante neste trabalho, se verá que aquilo que levou o homem a sair da condição de ser natural estava já contido em si próprio.

Em uma outra via que se diferencia da rousseauniana, Hobbes afirma que o homem é um ser que procura combater o seu semelhante de forma constante. Mas Rousseau lembra pensadores que se opõem à postura hobbesiana: “Um filósofo ilustre pensa o contrário, e

Cumberland e Pufendorf asseguram também que nenhum ser é tão tímido quanto o homem em estado de natureza” (p. 136). O homem não vivia senão em função de sua satisfação, e, ao contrário do homem hobbesiano, desejava apenas usufruir de sua existência básica. Pensando sobre aquilo que o homem poderia ter desejado efetivar, supõe que seus desejos se restringiam basicamente a realizar-se. Em que consistiria essa realização? Em satisfazer aquilo que era fundamental para a sua existência, isto é, estar nutrido e protegido das intempéries da nature- za, visando, unicamente, ao seu bem-estar, que é expresso pelo seu sentimento mais primitivo, o amor de si, pelo qual basta-se a si mesmo. E, dessa forma, consegue distanciar-se das inter- pretações hobbesianas. Nada mais evidente no homem do que sua capacidade de se livrar de tudo aquilo que pudesse prejudicá-lo, o que não significa, como em Hobbes, que o homem procurava eliminar qualquer ser que indiscriminadamente pudesse ameaçá-lo. O homem só o faria na medida em que sua vida estivesse em perigo. Preso aos limites de sua existência, não planejava nem se projetava para além daquilo que seus sentidos não apontassem. Circunscrito às suas sensações, o homem natural se sentia, assim, realizado.

Mesmo realizado em sua constituição, o homem percebia-se limitado diante de quase tudo o que o circundava. As feras e os fenômenos naturais eram ameaças constantes. Diante de tais desafios, o que lhe teria assegurado, além de um corpo saudável, a sua realização? A resposta seria: o homem conseguiu desenvolver algumas habilidades, que foram fruto de sua experiência orientada pelo seu sentimento de existência, o amor de si. Como se constituíram essas habilidades? Primeiramente, a partir da consciência de sua condição. O amor de si gerou uma consciência primitiva de sua condição, a partir da qual ele pôde comparar-se com as for- ças da natureza e com os outros animais e, dessa comparação, pôde delinear estratégias para a manutenção de sua vida. Note-se que o termo comparação é fruto de uma consciência forjada na experiência da vida e não de uma atividade formal do pensamento; restringe-se ao dado puramente sensitivo, que torna o homem envolto pela simplicidade da vida e, portanto, inca- paz de elaborar as maquinações guiadas pelo mal, as quais Hobbes enxerga no homem selva- gem.

O que de fato é notório é o destaque que o filósofo genebrino dá aos atributos físicos do homem e, partir deles, ao tipo de vida que levava. Sua destreza e suas habilidades eram elementos que adquiriu de sua experiência no meio ambiente, quer com os animais, quer com as intempéries da própria natureza. O homem conseguiu superar as dificuldades que surgiam no seu dia a dia, sendo as mais árduas as decorrentes de “enfermidades naturais, a infância, a

velhice e as doenças de toda espécie” (p. 44). As primeiras são comuns a toda a espécie ani-

mal, ao passo que a última é própria do homem civilizado.

Rousseau não se cansa de comparar o homem natural com o homem civilizado e, por diversas vezes, mostra os limites que uma vida “superior” possui sobre uma vida “inferior”. Para a maioria dos pensadores, a vida superior é a civilizada e racional, sendo a inferior, a do selvagem, que não está em consonância com o uso da reta razão. Ao contrário, porém, usa o exemplo dos homens mais rudes para dar uma lição à civilidade, mostrando que esta, com toda a sua ciência, parece conformar o homem a uma vida degenerativa. Se a vida simples tivesse sido mantida, defende ele, a humanidade não padeceria de uma enorme quantidade de doenças e de adversidades sociais. Ao contrário, o homem natural, que levava uma vida sau- dável, praticamente conhecia poucos males.

Com tão poucas fontes de males, o homem, no estado de natureza, não sente, pois, necessidade de remédios e, menos ainda, de médicos; a espécie humana não está, pois, a esse respeito, em condições piores do que todas as outras e é fácil perguntar aos caçadores se, nas suas caminhadas, encontram muitos animais enfermos (p. 45).

A vida do homem natural era plenamente regrada e sustentada pela natureza; como os outros animais, seu conforto e suas dificuldades advinham da natureza. O mundo civilizado possibilitava complementos à vida do homem, mas ele teve de pagar um preço alto por esses complementos. Se, de um lado, sua vida era simples e solitária; de outro, porém, teve sua vida modificada e plena de pesares. Rousseau não esconde sua escolha pelo melhor tipo de vida, escolha que vai ao encontro da vida na qual o homem se realizava plenamente: a vida simples. E, sem nenhuma dúvida, essa realização passava pelo amor de si, cuja manifestação era o sinal de que a vida humana era boa. Independente e solitário, entregue a si mesmo, o homem contemplava a vida com satisfação. Nessa condição, seguia as prescrições da natureza e esta- va em harmonia consigo próprio.

Do ponto de vista físico, o homem rousseauniano, apesar dos limites em relação aos outros animais, era um ser bem-dotado, bastando-lhe seguir seus sentidos para prover-se do que fosse necessário para sua sobrevivência. Apesar de possuir uma estrutura física robusta

como a dos outros animais, havia entre eles uma diferença fundamental: mesmo ao se orientar pela natureza, o homem era capaz de fazer escolhas, capaz, portanto, de ser livre, diferencian- do-se dos animais, cuja única tarefa era executar o que lhes ordenava a natureza. Diversamen- te, o homem possuía a capacidade de modificar aquilo que lhe era apresentado pela natureza e pela vida. Aqui se marcará a lógica de que o que o homem fez, em termos de escolha, e que o levou à sua deterioração não foi a tendência predominante da história do homem. Se, do ponto de vista histórico, os fatos mostram uma realidade catastrófica para o homem, nosso filósofo deixa evidente que uma outra história poderia ter sido escrita, e que ainda seria possível cons- truí-la em uma direção diferente da que predominou até então. Ou seja, a história do homem poderia ter sido a história daquele que conservou uma vida de realização, não necessariamente da mesma maneira que o faziam os primeiros homens. Essa perspectiva rousseauniana possi- bilita um leque de vertentes a respeito do homem. A partir de um progresso sistemático, o homem não teria construído, obrigatoriamente, um mundo contrário à sua própria realização, visto que o amor de si, sentimento primeiro, teria sido sempre o mais preponderante na dinâ- mica de sua vida.

O pessimismo histórico do Discurso é contrabalançado pelo otimismo antro- pológico que é uma das constantes do pensamento de Rousseau. O homem é naturalmente bom. A bondade natural está perdida para sempre? Sim, se se consideram as sociedades. Não, se se considera o homem singular. O mal não reside na natureza humana, mas nas estruturas sociais (STAROBINSKI, 1991, p. 300-301).

Atribui-se, costumeiramente, ao progresso da vida e à atualização dos sentimentos humanos todo o processo de deterioração do homem. É como se houvesse uma tendência na- tural para construir um mundo desigual, quando de sua saída do estado natural. Muitos são os leitores de Rousseau que perseveram nesse tipo de leitura. Luc Vincenti, em seu livro

Jean-Jacques Rousseau, l’individu et la république (p. 33-34), aponta Leo Strauss como um

desses leitores, o qual, preso apenas a uma leitura histórica, atribui uma perspectiva pessimis- ta ao filósofo genebrino, sem ter percebido o otimismo antropológico rousseauniano. Ao con- trário, Rousseau não quis apresentar esse tipo de visão sobre o homem como a única possibi- lidade, não quis apresentar uma tendência que historicamente se tornou hegemônica: a ten- dência de que os progressos são inevitáveis para o surgimento da desigualdade. Para ele, o homem não é um ser de uma única possibilidade, mas de muitas. Por ser incompleto, poderia ter consolidado aquilo que era inerente à sua constituição, e a incompletude fez dele um ser de possibilidades. Na perspectiva antropológica de Rousseau, o homem poderia ter construído

um mundo que mantivesse os fundamentos básicos da vida natural, ou seja, mesmo com o desenvolvimento da técnica e da racionalidade, poderia ter mantido o estilo simples e harmo- nioso da vida natural, estilo esse que poderia ter sido o horizonte fundante da vida em grupo. Ao iniciar o processo de desenvolvimento técnico, poderia ter efetivado uma racionalidade que se mantivesse integrada à sua própria constituição natural.

Em sua grande maioria, os que comentam Rousseau o apresentam como um filósofo que expõe apenas as desventuras do homem no decorrer do desenvolvimento da razão. Toda- via, ele deixa claro que o ser humano poderia e pôde escolher vários caminhos para construir sua história. O sentimento do amor de si conferia ao homem a característica de um ser de abertura, que lhe possibilitava uma flexibilidade em sua vida. Ao contrário dos demais ani- mais, em que o amor de si responde apenas pela conservação, no homem ele é a fonte dos demais sentimentos. É por isso que, ao falar do homem, Rousseau mostra o quão é limitado olhá-lo a partir de um único ponto de vista. Por exemplo: o desenvolvimento da razão. É co- mo se a mera evolução da razão levasse o homem apenas à sua degeneração. Levou-o, sim, à degeneração, mas outro quadro poderia ter se efetivado; poderia o homem ter consolidado ainda mais sua existência primeira. Em defesa dessa sua posição, apresenta, em outras obras, possíveis soluções para os problemas que o homem criou ao deixar o estado primeiro. Seja como for, as possibilidades do homem só podem ser compreendidas a partir dos seus senti- mentos. Qualquer que fosse a mudança que o homem viria a realizar, pelos sentimentos é que o faria.

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Benzer Belgeler