“Não tá fácil pra ninguém” é frase recorrente no campo de pesquisa e é pronunciada tanto nas interações entre as usuárias das plataformas, quanto em nossas conversas. Ela evidencia uma lamentação das mulheres acerca de diversas questões. A frase era dita quando havia uma necessidade, por parte de minhas interlocutoras, de apontar para os problemas da relação amorosa, da falta de parceiros dispostos a compartilhar a vida, da falta de dinheiro para alcançar objetivos, para comprar determinado bem de consumo, dentre outras dificuldades e impasses.
“Não tá fácil pra ninguém” evidencia um lamento, distribuido coletivamente de forma o sujeito não carregue o fardo do fracasse pessoal sozinho. É uma frase carregada de projetos aspiracionais os quais não são consolidados completamente por ninguém do entorno. De outra forma, aborda aspectos da vida os quais compõem os anseios e vontades, mas que não estão ao alcance das mãos tão facilmente como elas gostariam que estivessem. Deseja-se um parceiro, deseja-se sucesso profissional e um pouco mais de dinheiro para garantir conforto, consumo, lazer e viagens. No entanto, ter isso como meta, desejos e sonhos de vida, não quer dizer, necessariamente, alcançá-los dentro da temporalidade que se espera ou, por vezes, diz sobre a impossibilidade de sequer alcançá-los.
Para além da dimensão material e dos anseios de consumo, “não está fácil pra ninguém” é também um enunciado que se relaciona com aquilo que Illouz (2014) chamou de fantasia. Illouz traz para o debate a ideia de fantasia que pode ser apropriada quando abordamos os anseios do sujeito. Em sua obra intitulada “Erotismo y autoayuda”, em que analisa o livro Cinquenta Tons de Cinza, a autora aponta como a fantasia nos auxilia a viver com a realidade. Segundo ela:
A fantasia trabalha em torno da realidade, a incorpora, defende a mente contra a realidade, porém, a ajuda a viver com ela. Nessa visão a fantasia é uma mediação entre sistemas diferentes, inclui aquilo que nega e oferece uma transição entre diferentes aspectos da consciência. Podemos supor que esta é também a razão pela qual a fantasia desempenha um papel crucial na vida psíquica e na vida coletiva, justamente porque aborda problemas e carências e ajuda a resolvê-los. (ILLOUZ, 2014, p. 141)
Esta concepção de fantasia permite formular uma compreensão sobre parte daquilo que compõe o imaginário dos sujeitos, seus sonhos e, no limite, também seus horizontes de
aspiração. A fantasia está no espaço do realizável, ela produz bem-estar e prazer, na medida em que borra as carências e que permite ao sujeito, ao menos no plano do imaginado, controlar seu destino. É na fantasia que nossos desejos todos se realizam, é nela que criamos mecanismos de compensação em relação aos limites da realidade, quer sejam eles econômicos, sociais, políticos ou emocionais. Todos nós fantasiamos e a fantasia, como parte da cultura, desempenha um papel fundamental para que consigamos enfrentar a realidade, suportá-la e transformá-la.
Faz parte de uma fantasia dos sujeitos da pesquisa, sempre constituída socialmente, habitar, por exemplo, a zona sul carioca, ansiar por uma caminhada na areia da praia após um dia de trabalho em uma empresa milionária; faz parte da fantasia alcançar a família feliz, com um casamento capaz de suprir todas as necessidade emocionais, sexuais e financeiras.
A fantasia é aquilo que sutura o sujeito à realidade, é uma forma de lidar com o sofrimento e as frustrações impostas pelas barreiras sociais, é a mediação que faz o sujeito organizar a realidade em que se insere. Na teoria psicanalítica de Freud (1907; 1977), a fantasia é a forma como o sujeito se apresenta em uma realidade psíquica, que pode diferir da realidade em si; trata-se de como o sujeito se localiza diante daquilo que lhe falta, diante de sua busca. Já para autoras desta mesma vertente, como Malanie Klein (1996), a fantasia é parte do funcionamento mental básico, está relacionada com os instintos e não só com a frustração perante a realidade inalcançável. Dessa forma, ela acontece independente da falta e se passa a todo o momento de existência.
Neste trabalho, posso me apropriar da ideia de fantasia abordada pela psicanálise e desenvolvida sociologicamente por Eva Ilouz, na medida em que ela possibilita uma reflexão analítica sobre como a vida mental elabora os desejos frente à realidade empírica. A fantasia é aquilo que extrapola os horizontes de aspiração, pois é esfera onde os desejos, mesmo mais absurdos, podem ser realizados, ainda que não se concretizem efetivamente.
Ao contrário de uma vertente psicanalítica que se dedica a compreender somente o âmbito subjetivo da fantasia, autoras como Illouz refletem sobre a fantasia como um construto social, elaborado a partir de um contexto, portanto, a fantasia é parte da cultura. Dito de outro modo, a fantasia é sempre culturalmente constituída e mediada; do mesmo modo a fantasia medeia a cultura. A fantasia, desse modo, não é oposta ao real, mas é parte constituinte dele. Assim, no mundo contemporâneo tecnologicamente mediado, aquilo que compõe nossa fantasia integra o espaço em que vivemos e passa pelo que é veiculado pelos meios de comunicação como TV, cinema e também via internet. A fantasia é indissociável da propaganda e pode ser pensada, inclusive, como o motor do uso das mídias sociais, em
especial, de serviços de redes sociais como o Facebook, onde pessoas comuns performatizam sucesso, consciência política, reconhecimento familiar, no trabalho, sucesso afetivo e amoroso.
Dito isto, pretendo elaborar um capítulo conclusivo que aborde, de forma conceitual e retomando os dados de campo apresentados, o que são esses horizontes de aspiração, como eles se alteraram em meio ao contexto socioeconômico das classes populares nos últimos anos e como se modificam nas interações em rede. Pretendo mobilizar um conjunto de teorias que proporcionem um solo fértil para refletir sobre este campo de pesquisa, com vistas a apontar de que maeneira as interlocutoras conectadas criam formas de negociar e lidar com os limites fantasísticos dos seus horizontes de aspiração e desejo. Em outros termos, como elas negociam, em rede, com os limites daquilo que sonham e com as fronteiras do que a realidade é capaz de oferecer.
A tese se dividiu em sete capítulos nos quais trouxe ao debate o que considerei como aspectos que compões os horizontes aspiracionais do público da pesquisa. Mais do que isso, estive atenta ao cotidiano dos sujeitos para compreender, para além de seus discursos e daquilo que me era dito, as limitações e alcances de suas experiências com base em suas situações vividas e as marcas de classe social, gênero, sexualidade, aspectos geracionais e, também, no que diz respeito aos aspectos políticos dos seus fluxos e trânsitos pela cidade e sua relação com outras regiões, distintas daquelas que habitam.
Posso concluir que, dentre os aspectos possíveis, foram selecionados para compor o texto os que mais me saltaram aos olhos nesse universo no intuito de apontar aquilo que integra as aspirações de minhas interlocutoras, considerando os variados perfis. Entre esses aspectos estão: a consolidação da relação amorosa, casamento, família, o desejo por uma situação profissional que garanta estabilidade, acesso à educação, à possibilidade de consumo de bens materiais como o carro e a casa própria, o acesso a situações de lazer, a vivência plena de sua sexualidade, relações amorosas mais igualitárias, a possibilidade de trânsito pela cidade e a ascensão social.
Tais características não são, certamente, exclusivas de uma população de baixa renda que habita o país. Em outras palavras, aspirações e fantasias compõem as vivências de sujeitos de diversas classes sociais, rendas, nacionalidades, religiões, gêneros, raças e permeiam todos os contextos sociais. No entanto, esta pesquisa mostrou que para as mulheres das classes populares cariocas, e de certa forma brasileiras, a socialidade em rede está atravessada por aquilo que desejam e buscam ou aspiram em sua realidade off-line. Em outras palavras, as fantasias são parte fundamental dos horizontes de aspiração. Assim, para lidar
com as inseguranças, conflitos e mal-estares que atravessam suas buscas diversas, a rede social se converteu em um espaço fundamental de socialidade, auxílio, ajuda, trocas e de negociações acerca do que vivenciam.
Os aspectos mencionados aparecem em considerável exposição na socialidade online entre estes sujeitos, mas também em suas rotinas off-line. A rede mostrou ser um espaço privilegiado de troca de experiências e de acesso a repertórios que auxiliam a entender a relação, mesmo que contraditória, entre: melhores condições de vida com ainda escassa segurança econômica; anseio pela relação amorosa e busca por individuação; acesso restrito à cidade e contato com formas de socialidade distantes dos locais de origem; cotidiano atravessado por conflitos e limitações no deslocamento e busca pela valorização dos espaços periféricos que habitam; situações de desemprego e ocupações e/ou trabalhos socialmente subalternizados ou considerados precários e possibilidade de ter o próprio negócio por meio da rede.
Muitas das contradições vivenciadas pelas mulheres da pesquisa derivam da distância entre os ideais sociais propagados midiaticamente acerca das esferas abordadas ao longo desse trabalho e as condições efetivas de alcança-lo. É nesse espaço entre um e outro que se projeta ou se fantasia. Nesse arranjo, as mídias digitais e as redes sociais se convertem em: um espaço sociotécnico no qual os sujeitos podem socializar intensamente a respeito dos paradoxos apresentados acima, bem como ambiente que permite performatizar o sucesso afetivo, profissional, financeiro, por meio de postagens, comentários e imagens lançadas em seus perfis.
Mas, o que aconteceu com os horizontes de aspiração dos sujeitos nos últimos anos? Como essa pesquisa pode fornecer um quadro sobre os atuais anseios das mulheres das classes populares brasileiras, quando conectadas em rede? Para responder essas questões e, então, adentrar o debate sobre as mídias, irei retomar parte da literatura sociológica que trata dos anseios dos sujeitos. Considero esse movimento indispensavel para uma compreensão sobre a forma como nossos horizontes aspiracionais são constituídos em contextos específicos.
Algumas são as fontes a respeito daquilo que os sujeitos desejam e, em grande medida, seus focos estão bastante direcionados aos aspectos econômicos e desejos por consumo que restringem a sensação de segurança social ao poder de compra de uma população e ao conforto material que desfrutam ou do qual são privados. O consumo aparece, neste trabalho, como um dos aspectos que compõe as aspirações das mulheres, dentre outros,
e, como vimos, penetra inclusive em seus rituais românticos dando a eles legitimidade e moldando relações de gênero.
O consumo não é único Norte dos roteiros subjetivos e, apesar do fato de que o que considero como parte horizontes de aspiração, o cotidiano das pessoas não se compõe somente pelo anseio de consumir. No entanto, entendo que tais práticas merecem atenção, pois os serviços de redes sociais também atuam no sentido alcançar e/ou formar nichos de mercado colorindo anseios e desejos.
O consumo, como aponta Canclini (1996), constrói parte da racionalidade integrativa e comunicativa de uma sociedade:
se os membros de uma sociedade não compartilhassem os sentidos dos bens, se estes só fossem compreensíveis à elite ou à maioria que os utiliza, não serviriam como instrumentos de diferenciação. Um carro importado ou um computador com novas funções distinguem os seus poucos proprietários na medida que quem não pode possuí-los conhece o seu significado sociocultural. Inversamente, um artesanato ou uma festa indígena cujo sentido mítico é propriedade dos que pertencem à etnia que os gerou - se tornam elementos de distinção ou discriminação na medida que outros setores da mesma sociedade se interessam por elas e entendem em algum nível seu significado. (CANCLINI, 1996, p. 56)
Em outros termos, consumir e participar de rituais de consumo é estabelecer uma disputa por aquilo que a sociedade produz e pelos modos de usá-lo. Consumir é tornar o mundo inteligível, uma vez que o consumo é meio através do qual os desejos se transformam em demandas práticas. De acordo com o autor, não se trata somente de um fruto do aumento de renda, da expansão da variedade de produtos disponíveis, nem mesmo do acesso a informação acerca de produtos para consumo como, no caso da pesquisa, por meio da Internet. Para Canclini, “o desejo de possuir o novo, não atua como algo irracional ou independente da cultura coletiva a que se pertence” (Claclini, 1996, p. 60), trata-se de um processo iminentemente cultural e coletivo.
Tal fato explica, por exemplo, o que retomei em outro capítulo acerca das utopias românticas atravessadas pelo consumo e desfrutadas como necessidades da esfera afetiva na escolha do parceiro, entre grande parte dos relacionamentos amorosos dos quais participam os sujeitos da pesquisa. Também evidencia que o processo de ascensão é percebido quando se acessa determinados bens como o próprio celular, veículo próprio, dinâmicas de lazer e moradia.
É corrente no discurso do senso comum a ideia de que no Brasil dos últimos anos, o fato das classes populares terem melhorado de vida e acessado alguns bens de consumo antes