2.1 AKILCI DUYGUSAL DAVRANIġÇI TERAPĠ (ADDT)
2.1.6. AkıldıĢı Ġnançlar
Triste fim de Policarpo Quaresma, como afirma Idilva Germano, ―pode ser entendido como um discurso metafórico da construção imaginária do Brasil e de sua gente‖.214
Esta afirmação está em consonância com a ideia de uma literatura que funciona como um discurso alternativo ao discurso da história. Sendo um discurso metafórico da construção imaginária do Brasil, o texto de Lima Barreto se apresenta como uma visão diferenciada da construção da nação.
O romance narra a vida de Policarpo Quaresma, um homem ingênuo e extremamente nacionalista que por meio da leitura de livros de sua ―brasiliana convencional‖ acredita que sua pátria só tem maravilhas a oferecer, e que, se a valorização do que é genuinamente nosso for feita, o Brasil se tornará o melhor país do mundo, noção esta ―totalmente desapegada de um exame ou reflexão sobre os fatos concretos da sociedade brasileira‖.215
Quaresma busca dar o exemplo e, ao longo do livro, não mede esforços para mostrar seu apreço pela cultura brasileira: faz pesquisas a respeito da tradição folclórica do país e, acreditando que um dos males do país está na língua emprestada dos portugueses, escreve uma petição para que o português deixe de ser a língua oficial do país e que seja substituído pelo tupi-guarani; repetindo uma crença secular de que as terras do Brasil são as melhores e mais férteis, ele se muda para o interior e resolve plantar e mostrar o potencial agrícola do país; pensando que estaria zelando pela nação, une-se ao exército de Floriano Peixoto para lutar contra os insurgentes na Revolta da Armada e se decepciona pela última vez.
Todo esse esforço do protagonista é em vão. Nenhuma de suas aspirações se concretiza, culminando toda a sua vontade e ingenuidade em seu triste fim. E esta já é uma prova de que este texto literário funciona como ruína alegórica. O protagonista de Barreto é um perdedor. O livro conta a história de um personagem que foi atropelado pela crueldade dos fatos e cujas ilusões vão sendo, uma a uma, dilaceradas pela dureza do mundo.
Já em 1904, antes, portanto, da escrita de Triste fim de Policarpo Quaresma, Lima Barreto escreveu um primeiro resumo do que viria a ser a trama de Clara dos
214 GERMANO, I. M. P. Triste Brasil de Policarpo Quaresma, p. 19. 215
104 Anjos. Nesta ocasião, porém, tratava-se de um projeto infinitamente mais ambicioso do que o que acabou por realizar de fato. Nessa primeira versão, Clara representaria apenas a primeira de uma sequência de gerações de mulheres de cor cujo destino trágico não poderiam modificar.
Este enredo não foi cumprido dessa maneira à época de sua concepção, mas o projeto não ficou esquecido. Em 1920, um conto homônimo foi publicado pelo escritor na coletânea Histórias e sonhos, e já ali constava o esqueleto do que viria a se transformar em romance dois anos mais tarde. No conto, Clara é seduzida por um modinheiro de nome Júlio Costa, um sujeito maldoso, vagabundo e mulherengo que tinha por ―esporte‖ seduzir moças ingênuas e criar galos de briga. Este é o caso também de Cassi Jones, denominação do algoz de Clara no romance. Júlio, entretanto, era um tipo um pouco menos perverso, odiado e exagerado que Cassi, o que faz com que a sedução de Clara no conto seja vista por estudiosos como Lúcia Miguel Pereira216 como mais verossímil do que o processo narrado no romance. Neste, assim que consegue ter com Clara o que deseja, a relação sexual, Cassi cuida de fugir, deixando a moça grávida e desamparada. No conto, o procedimento é o mesmo, mas o abandono não acontece de maneira tão brusca, tendo Júlio passado mais tempo com a moça e em sua casa antes de desaparecer.
De qualquer maneira, a trajetória definitiva da personagem, em ambos os textos seduzida por um mau-caráter e abandonada à própria sorte com um filho no ventre, é a segunda, na qual o vilão é mais caricato, porém mais interessante aos objetivos do autor. Se Cassi tem um caráter demasiado forte, representando um tipo bastante único, como será melhor discutido mais à frente, Clara não é construída da mesma maneira. Esta personagem não tem personalidade forte, não se impõe ao longo da narrativa, a não ser em seu trágico fim, quando percebe sua impotência diante da sociedade. Isso não se dá por descuido do autor, e sim por uma escolha deste, que projeta em Clara os dramas de toda uma classe, triplamente representante das minorias: mulheres, negras (ou miscigenadas), e pobres. ―O que [Lima Barreto] tinha em mira não era o pequeno drama pessoal de Clara, mas o drama de muitas gerações de mulheres de seu meio e cor – o possessivo aplicando-se aqui tanto à personagem como ao romancista.‖217 Ainda que
216 PEREIRA, L. M. Introdução, p. 33. 217
105 não tenha estendido a história a outras gerações e outras personagens, como previa seu projeto inicial, Lima Barreto não deixou de demonstrar, por meio da construção de sua personagem, de argumentos distribuídos ao longo de toda a narrativa e do uso da 1ª pessoa do plural na frase final do romance (―Nós não somos nada nesta vida‖)218 – em detrimento da 1ª pessoa do singular utilizada na versão do conto –, que se tratava da história de um povo, de algo recorrente na sociedade brasileira, e não apenas de um acontecimento isolado. Ainda que similares, portanto, conto e romance diferem na abrangência.
A breve história de Clara apresentada no conto não é expressivamente ampliada no romance. É justamente o que lhe é acrescido, porém, que faz a sua importância, torna-o profundamente inovado e o transforma em precioso documento, não apenas no repertório de nossa literatura, mas como trabalho de
―etnógrafo amador‖, epíteto já atribuído a Lima.219
Em consonância com a postura que demonstrou em seus artigos concernentes à questão do feminismo, sobre os quais falou-se no Capítulo 2, Clara dos Anjos é fruto da preocupação de Lima Barreto com a integridade física das mulheres, em especial as pobres e de cor, que contavam com menos armas para se defender. Diferentemente de todos os seus outros romances, dedicados a outros intelectuais, este é dedicado a sua mãe, uma mulata descendente de escravos. Possivelmente, o escritor via um pouco de sua mãe, de sua avó e de sua irmã nessas moças que descreveu. Em razão desse texto em defesa da tripla minoria representada pela protagonista e do fato de que, se se considerava que Lima Barreto escrevia mal, neste caso a escrita era ainda ―pior‖, já que não houve tempo para revisões (o escritor viria a falecer antes que pudesse pensar na publicação em livro do texto), Clara dos Anjos foi alvo de grande preconceito. Isso é explicado por Beatriz Resende:
De toda a vasta obra de Lima Barreto, Clara dos Anjos parece ser a que mais equívocos provocou. Mais ainda, a que mais fortemente fez surgir preconceitos, alguns ocultos sob a força da inteligência de críticos que, no entanto, não podiam fugir completamente às ideias de seu tempo em relação não apenas ao tema da raça, mas também ao comportamento que se esperava das mulheres e, no que diz respeito ao fazer literário, ao formato em que o romance vem a
218 BARRETO, L. Clara dos Anjos, p. 294. 219
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público, o folhetim. Uma leitura do romance, hoje, não pode deixar de enfrentar cada um desses preconceitos.220