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1.3. HASTA MEMNUNYETNN ÖLÇÜMÜ

2.1.4. Afganistan’da Sosyal Durum

O tema da identidade e, mais especificamente da identidade sexual, tem sido explorado em diversos campos do conhecimento. No entanto, assumo neste trabalho concepções produzidas no campo da psicologia social crítica.

Neste campo da Psicologia Social, a temática da identidade vem sendo focalizada desde o início do século passado. Após um período de poucos avanços, o tema voltou a receber atenção em trabalhos que tratam sobre relações entre grupos, sobre diferenciação social e sobre identidade marginal (JACQUES, 1998).

De acordo com Jacques (1998), o conceito de identidade tem sido denominado por meio de diferentes expressões tais como imagem, representação e conceito de si: refere-se a conteúdos como conjuntos de traços, de imagens, de sentimentos que o sujeito reconhece como fazendo parte dele próprio. Enquanto na literatura norte-americana o termo consagrado é “self” ou “self-concept”, correspondendo a conceito de si, a tradição européia privilegia a noção de representação de si. A autora explica:

A identidade pode ser representada pelo nome, pelo pronome eu ou por outras predicações como àquelas referentes ao papel social. No entanto, a representação de si através da qual é possível apreender

a identidade é sempre a representação de um objeto ausente (o si mesmo). Sob este ponto de vista, a identidade se refere a um conjunto de representações que responde a pergunta ‘quem és’ (JACQUES, 1998, p. 161).

Essas diferentes terminologias refletem não só uma diversidade teórico- metodológica como também a complexidade que este envolve. Um dos reflexos dessa dificuldade conceitual é a subdivisão dos sistemas identificatórios, assim a identidade é qualificada como identidade pessoal (atributos específicos do indivíduo) e identidade social (atributos que assinalam o pertencimento a grupos ou categorias) (JACQUES, 1998).

A identidade de um indivíduo se constitui a partir do contexto histórico e social em que está inserido. Daí decorrem, como formas histórico-sociais de individualidade, as possibilidades e impossibilidades, os modos e alternativas de sua identidade. Como determinada, a identidade se configura, ao mesmo tempo, como determinante, pois o sujeito tem um papel ativo na construção deste contexto, tanto pela inserção quanto pela apropriação que faz do mesmo (JACQUES, 1998). A partir desta perspectiva

é possível compreender a identidade pessoal como e ao mesmo tempo identidade social, superando a falsa dicotomia entre essas duas instâncias. Dito de outra forma: o indivíduo se configura ao mesmo tempo como personagem e autor – personagem de uma história que ele mesmo constrói e que, por sua vez, o vai construindo como autor (JACQUES, 1998, p. 163).

Ao pensar a identidade, não como algo estático, mas como algo dinâmico, em constante mutação, Ciampa (2001) concebe a identidade como metamorfose. Segundo esse autor, cada indivíduo encarna as relações sociais, configurando uma identidade pessoal, uma história de vida, um projeto de vida que pode ou não se concretizar, no emaranhado das relações sociais. Ao mesmo tempo em que constituem a sociedade, as identidades são por ela constituídas.

Num primeiro momento, a tendência é analisar a identidade como um traço estático na definição do sujeito. O indivíduo aparece isolado, sua identidade surge como algo imediato, imutável. Geralmente, essa representação é feita pelo nome próprio (CIAMPA, 2001). No entanto, embora nos represente, apenas o nome não dá conta de nossa identidade, como elucida Jacques “o nome próprio é uma representação da identidade precocemente adquirida a partir da forma como os

outros nos chamam e, portanto, pelo seu caráter restritivo não dá conta da identidade (1998, p. 165).

O nome nos identifica e passamos a nos identificar com ele. Se, no início, os outros me chamavam por um nome que me foi dado, agora “eu me chamo...”, identifico-me por fulana de tal. De acordo com Ciampa (2001, p. 131), “interiorizamos aquilo que os outros nos atribuem de tal forma que se torna algo nosso. A tendência é nós nos predicarmos coisas que os outros nos atribuem”. Assim, nos tornamos filhos de fulano, netos de sicrano, alunos, sobrinhos... Assumimos papéis que vão constituindo nossa identidade.

Para Ciampa (2001), essa identidade, que inicialmente assume a forma de um nome próprio, vai adotando outras formas de predicações, outros papéis. Ele propõe o termo personagem como expressão empírica da identidade. Para ele, um nome designa uma personagem, assim como um papel, pelo menos em termos de identidade, designa uma personagem. “A identidade então, assume a forma

personagem, ainda que esta seja chamada pelo nome próprio, por um apelido, por

um papel, etc” (CIAMPA, 2001, p.134).

O uso de termos próprios à dramaturgia (tais como personagem, ator, autor, papel) já foi observado na obra de Goffman (1985). Para ele, o personagem também se refere à identidade empírica que é a forma como a identidade é representada no mundo. Envolve sempre a presença de um ator desempenhando um papel social.

Os papéis sociais são abstrações construídas nas relações sociais e que se concretizam em personagens; o personagem implica a existência de um ator que o personifica. Os papéis sociais caracterizam a identidade do outro e o lugar no grupo social; o personagem, enquanto representa um papel social, representa uma identidade coletiva a ele associada, construída e mediada através das relações sociais (JACQUES, 1998, p. 163)

Ciampa (2001) nos chama atenção para o fato de que identidade é diferença e igualdade. Isso pode ser percebido ao analisar-se novamente a questão do nome próprio. O pré-nome é um diferenciador de outros iguais, mas também um nivelador com outros, similarmente nomeados. O sobrenome distingue a individualidade, remetendo a outros iguais do mesmo grupo familiar. “Com isso se revela um dos segredos da identidade: ela é a articulação da diferença e da igualdade” (CIAMPA, 2001, p. 138).

Esse duplo aspecto igualdade/diferença é uma das características da pluralidade humana. Essa pluralidade implica unicidade, pois o indivíduo vai se igualando por totalidades conforme os vários grupos em que vai se inserindo ao longo da vida (gaúchos ou catarinense, homens ou mulheres, etc.) sem pressupor homogeneização. Ao se representar semelhante ao outro a partir do pertencimento a grupos ou categorias, percebe sua unicidade a partir de sua diferença (JACQUES, 1998). Segundo essa autora, “Essa diferença é essencial para a tomada de consciência de si e é inerente à própria vida social, pois a diferença só aparece tomando como referência o outro” (p. 164).

No ponto de vista de Ciampa (2001), uma identidade aparece como a articulação de várias personagens, articulação de igualdades e diferenças, constituindo e constituída por sua história e por seu projeto pessoal.

São múltiplas personagens que ora se conservam, ora se sucedem; ora coexistem, ora se alternam. Estas diferentes maneiras de se estruturar as personagens indicam como que modos de produção da identidade. Certamente são maneiras possíveis de uma identidade se estruturar; quando há predominância de uma talvez se pudesse falar num modo dominante de produção (CIAMPA, 2001, p. 156). Essas personagens são vividas por atores que as encarnam e que se transformam à medida que vão vivenciando suas personagens. Como atores, estamos sempre buscando nossas personagens, quando não encontramos novas personagens, repetimos as antigas; quando tanto novas quanto as velhas se tornam impraticáveis, “o ator caminha para a morte, simbólica ou biológica” (CIAMPA, 2001, p. 157).

Embora cada indivíduo seja uma totalidade, em cada momento de sua existência, manifesta-se uma parte de si como desdobramento das múltiplas determinações a que está sujeito em função das personagens que interpreta em sua vida. Diante de seu filho, relaciona-se como pai, diante do seu pai, como filho. No entanto, nem seu filho o vê apenas como pai, nem seu pai o vê apenas como filho. Nunca comparecemos diante dos outros apenas como portadores de um único papel, mas como uma personagem, como uma totalidade... parcial. Quando compareço frente a alguém, eu me represento (CIAMPA, 2001). Na realidade

é impossível expressar a totalidade de mim; posso falar por mim, agir por mim, mas estou sendo o representante de mim mesmo. O

mesmo pode ser dito do outro frente ao qual compareço (e que comparece frente a mim).

Com isso, estabelece-se uma intrincada rede de representações que permeia todas as relações, onde cada identidade reflete outra identidade, desaparecendo qualquer possibilidade de se estabelecer um fundamento originário para cada uma delas (CIAMPA, 2001, p. 171).

As identidades dos sujeitos refletem as estruturas sociais, mas, como não são estáticas, reagem sobre elas, algumas vezes conservando-as, outras vezes, transformando-as. De acordo com Ciampa (2001), as atividades dos indivíduos são normatizadas tendo em vista a manutenção da estrutura social, objetivando a conservação das identidades produzidas: “Assim, a identidade que se constitui no produto de um permanente processo de identificação aparece como um dado, e não como um dar-se constante, que expressa o movimento do social” (p. 171).

Em suma, na perspectiva da Psicologia Social Crítica, ao responder a pergunta “quem és?” o indivíduo desenvolve uma representação de si e vai apreendendo sua identidade. Essa representação não resulta de uma simples duplicação simbólica ou mental da identidade, mas de uma articulação entre a identidade pressuposta (derivada, por exemplo, do papel social), da ação do sujeito e das relações em que está envolvido concretamente (JACQUES, 1998).

1.2 Preconceito contra homossexuais no Brasil e resistência da comunidade