A SENAES é parte da história de articulação do movimento social de Economia Solidária. Como forma de atender às demandas do movimento de Economia Solidária, a SENAES, juntamente com o MTE, criou o Programa de Economia Solidária em Desenvolvimento, financiado pelo Plano Plurianual Participativo – PPA (2008-2011). Esse programa teve como objetivo, “[...] implementar políticas que estendam ações de inclusão, proteção e fomento aos trabalhadores que participam das demais formas de organização do mundo do trabalho, entre elas, as iniciativas de Economia Solidária” (BRASIL; MTE, 2012b).
Segundo o mapeamento da Economia Solidária, que demonstra informações e dados referentes às experiências econômicas solidárias (EES), constatou a existência de 21.857 empreendimentos no Brasil, e destes, 2.085 estão localizados no Rio Grande do Sul, totalizando quase 10% dos empreendimentos averiguados (9,53%), (INCUBADORA..., 2006). Outro dado percebido a partir desse mapeamento é que quanto menor o empreendimento coletivo, proporcionalmente, é maior a inserção de mulheres. Elas predominam nas experiências com menos de 10 integrantes, chegando à porcentagem de 63% desses tipos de empreendimentos (BRASIL; MTE; 2012c). A partir do mapeamento, foi possível ter a dimensão da quantidade de
empreendimentos existentes no país, assim como de priorizar as ações que o Programa de Economia Solidária em Desenvolvimento abarcaria.
As atividades do Programa de Economia Solidária em Desenvolvimento são: a) Fomento e Assistência Técnica a Empreendimentos Econômicos Solidários e Redes de Cooperação de Economia Solidária; b) Promoção do Desenvolvimento Local e da Economia Solidária por meio da Atuação de Agentes de Desenvolvimento Solidário; c) Fomento a Finanças Solidárias com Base em Bancos Comunitários e Fundos Solidários; d) Formação de Formadores, Educadores e Gestores Públicos para Atuação em Economia Solidária; e) Organização Nacional da Comercialização dos Produtos e Serviços de Empreendimentos Econômicos Solidários; f) Estímulo à Institucionalização de Políticas Públicas de Economia Solidária; Cadastro de Empreendimentos e Entidades de Apoio para Manutenção e Ampliação do Sistema de Informações em Economia Solidária; g) Recuperação de Empresa por Trabalhadores Organizados em Autogestão; h) Desenvolvimento e Disseminação de Conhecimento e Tecnologias Sociais apropriadas à Economia Solidária; i) Fomento à Incubadoras de Empreendimentos Econômicos Solidários; e, j) Elaboração do Marco Jurídico da Economia Solidária (BRASIL; MTE, 2012d).
As atividades propostas pelo programa possuíram como órgãos executores de suas atividades e/ou ações as organizações da sociedade civil - ONG’s e OSCIP’s -, Universidades, Instituições privadas, entre outros. Essas instituições tiveram o papel de fomentar, apoiar e assessorar os empreendimentos econômicos solidários – EES. O acesso aos recursos, para o desenvolvimento das suas atividades, necessitava do encaminhamento de projetos para concorrer por meio de editais. Nas organizações da sociedade civil que participam dos editais - por não serem instituições públicas e permanentes - o tempo de execução e financiamento são limitados, o tempo de execução varia entre 2 a 4 anos. Essas limitações acabam enfraquecendo as ações com os EES.
Iamamoto (2008, p. 199) afirma que, “[...] é fundamental estimular inserções sociais que contenham potencialidades de democratizar a vida em sociedade, conclamando e viabilizando a ingerência de segmentos organizados da sociedade civil na coisa pública”. Desse modo, estimular a estrutura que foi criada para a Economia Solidária no setor público, não só no aspecto de estrutura institucional que o apoia, mas também no processo de organização, execução, fiscalização e controle social. Muitas dessas impressões citadas refletem o fato de a Economia Solidária,
perante o governo federal, ter tido primeiramente sua efetividade por meio de um programa social. Ou seja, sofrem interferência do mercado as soluções para as demandas dos empreendimentos. Tendo em vista essa reflexão, Iamamoto (2008) afirma que
[...] proposta político institucional de resposta à questão social, de inspiração neoliberal, parte das políticas de ajuste recomendadas pelos organismos internacionais, comprometidos com a lógica financeira do grande capital internacional, que capturam o Estado nacional num contexto de crise e de fragilização do processo de organização dos trabalhadores (IAMAMOTO, 2008, p. 196).
Portanto, salienta-se que a criação da Secretaria e do Programa foram pautados por um misto de lutas e pressões sociais, moldadas pela ideologia e convicção do movimento popular de Economia Solidária e, ao mesmo tempo, o Estado, envolto no sistema capitalista, tenta atender a essas demandas conforme sua política de manutenção do Estado. Para tanto, são duas perspectivas que o Estado – SENAES - tem de administrar e articular, os interesses do público e do privado.
Em 2012 foram implantados dois programas financiados pelo Plano Plurianual - PPA (2012-2015), o Programa de Resíduos Sólidos e o Programa de Desenvolvimento Regional, Territorial Sustentável e Economia Solidária. Sendo que o de Resíduos Sólidos é um programa transversal, o qual possui como órgão responsável o Ministério do Meio Ambiente. O Programa tem como intuito ampliar o “acesso aos serviços de manejo de resíduos sólidos urbanos”. Tendo como intuito a inclusão socioeconômica dos catadores. O Programa de Desenvolvimento Regional, Territorial Sustentável e Economia Solidária, tem como órgão responsável o Ministério do Trabalho e Emprego - MTE e visa ao fortalecimento e fomento dos EES, criação de cadeias produtivas e “acesso ao conhecimento, crédito e finanças solidárias e da organização do comércio justo e solidário”. Para isso, também estabeleceu como objetivo a institucionalização da Política Nacional de Economia Solidária e a integração das políticas que visam ao atendimento às demandas dos EES (BRASIL; MTE, 2012d).
No que se refere à avaliação e impacto do Programa de Economia Solidária em Desenvolvimento, o movimento social de Economia Solidária apontou limitações do seu desenvolvimento. Na II Conferência Nacional de Economia Solidária – II
CONAES, foi realizada uma avaliação e apontaram as seguintes limitações no programa:
Apesar desses avanços, os participantes da II CONAES afirmaram que as políticas públicas existentes ainda são limitadas, fragmentadas e com pouca abrangência, aquém da necessidade real. Os programas de economia solidária sofrem com a limitação dos recursos financeiros e de estrutura institucional. A implementação de programas e ações é seriamente comprometida pelas normativas e pela cultura institucional que favorecem a fragmentação das políticas, dificultando apoio governamental no fomento aos empreendimentos de economia solidária. Da mesma forma, o acesso dos empreendimentos econômicos solidários ao financiamento e ao crédito ainda é extremamente limitado e em alguns setores, inexistente (CONAES, 2010, p.7).
Tendo em vista as limitações apontadas, algumas proposições estão sendo colocadas pelo movimento de Economia Solidária, em busca de passar do nível de um programa social de Estado para uma Política Social. São elas: 1) avançar na institucionalização e na ampliação das políticas públicas de Economia Solidária; 2) criação e implantação do Sistema Nacional de Economia Solidária; 3) criação de um Ministério para a Economia Solidária (CONAES, 2010).
O primeiro e segundo pontos, das proposições do movimento, atualmente, estão sendo contemplados pelo Projeto de Lei - PL nº 4685/12. O projeto de lei institui a Política Nacional de Economia Solidária e o Sistema Nacional de Economia Solidária, que abarcam as demandas do movimento social. Além disso, o projeto prevê a criação do Fundo Nacional de Economia Solidária – FNAES (FBES, 2013).
Anteriormente a esse projeto de lei, outro projeto foi criado por entidades do governo federal para suprir as reivindicações do movimento social, representado pelo Fórum Brasileiro de Economia Solidária – FBES. O Projeto de Lei - PL nº 865/2011 - foi amplamente dicutido pelo movimento social e considerado incompatível ao aliar as demandas das micro e pequenas empresas com os da Economia Solidária. Dentre as propostas do projeto, apontam quatros pontos discutidos pelo movimento: 1) o Projeto de Lei 865/2011 alteraria a Lei nº 10.683, de 28 de maio de 2003; 2) seria criado a Secretaria Especial da Micro e Pequena Empresa; 3) a nova Secretaria abarcaria todas as atividades da atual Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes); 4) o PL transferiria para a nova secretaria, o Conselho Nacional da Economia Solidária (CNES) (FBES, 2011).
As discussões levaram ao cancelamento da PL nº 865/2011 e hoje está em pauta a nova proposta apoiada pelo movimento. Essas discussões e reivindicações
são expressões dos movimentos de resistência à tentativa de imposição do governo a demandas próprias do sistema. Principalmente em unir duas propostas que são antagônicas à priori – Economia Solidária e micro e pequena empresas. No próximo item, será introduzido o debate sobre a utilização da Economia Solidária como estratégia na Erradicação da Pobreza Extrema. Exemplificados nas medidas do Plano Brasil Sem Miséria, do Governo Federal, e no Plano de Governo do Estado do Rio Grande do Sul, o RS Mais Igual.
3.4 ECONOMIA SOLIDÁRIA COMO ESTRATÉGIA PARA A ERRADICAÇÃO DA