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2. BÖLÜM: AĞIZDAN AĞIZA İLETİŞİM (WOM) VE

2.1. Ağızdan Ağıza İletişim (WOM)

Nessa categoria apresentamos o que aparenta ser o núcleo mais evidente das representações sociais da água na cidade de Irauçuba. A invisibilidade e a visibilidade na falta sobrepõem-se (ora uma, ora outra), marcam em nosso entendimento uma resistência que se insinua no percurso das lutas e, por vezes, parece esgueirar-se sofrendo apagamentos. Ocorre que a problemática da água, sua falta em quantidade suficiente ou na qualidade adequada ou, ainda, a desertificação e a seca, passaram a ser encaradas também como fator de menor valia, de baixa-estima, de depreciação da comunidade e conseqüentemente dos seus habitantes. Por outro lado, a visão “acostumada” da falta d’água parece levar à não visibilidade de estratégias de mudança. Pela reiteração da falta, isto acaba por adquirir uma “naturalidade” que resulta ancorar- se em um não lutar. Como afirma um entrevistado: “... pelo menos tem, ruim mais tem...”.

“... a gente se maldiz porque é longe” (o lugar de pegar água). Aqui nesse depoimento de Marlene até parece que o único problema é esse, a distância de onde se apanha água. Enquanto, em outros trechos se vê que percebem que o problema é muito mais amplo, envolvendo, por exemplo: má distribuição, baixa qualidade da água, falta de devidos cuidados com os mananciais, carência quantitativa, descaso das políticas públicas etc.

Quando interrogamos os marcadores acerca dos principais problemas do lugar, surgiram várias outras respostas, ficando a água, geralmente, em terceiro plano, como que invisibilizando a gravidade da sua problemática. Será que essa invisibilidade do

problema seria por tê-lo associado a uma gama de outros problemas emergentes ou de faces novas? Eis, sinteticamente suas respostas quanto aos problemas:

Marlene e Pedro: “Nós ‘tem’ muita vontade de construir uma escolinha pras crianças (creche)”.

Antônia Maria: “... a nossa luta maior aqui é o desemprego. O que nós queremos fazer é trazer uma fábrica para cá...”.

Moura: “ocupação pro pai de família”.

Gilvane: “... eu acho que os principais são as queimadas. O sistema como o homem trabalha a terra...”.

Nonato: “O problema concreto que eu vejo aqui é a questão da desertificação, que é um problema muito sério...”.

Clairton: “descaso do homem público (governantes)”.

Milton: “... não tem vida própria, não tem uma indústria” (falando da cidade).

Perguntamos a Antônia Maria porque não lutam pela água, no que ela responde:

“... nós nem consegue nada, pelo amor de Deus..., nós somos pobre... eu chego pra falar com o poder público, entra num ouvido e sai pelo outro”. E, adiante diz: “a nossa luta maior é o desemprego”.

Aparentemente ela efetiva uma divagação quando perguntada pela água, respondendo como impotente e arrematando que o problema maior é o emprego. Por outro lado, nesse depoimento, aparece uma explicação de que a situação de classe define a não resolução desse grave problema sócio-ambiental. O “emprego” parece ser uma luta mais digna e de maior alcance social e que levaria o problema da água em seu encaminhamento.

Água é considerada por muitos um bem essencial, mas acreditam que se sobrevive com ela limitada. Portanto, em certos momentos, não parece significar uma prioridade na luta, se bem que em outros, particularmente nas situações de carência maior, ela fique mais visível. É como se não percebessem a possibilidade de conquistar água de qualidade e desse modo não faz sentido estar tratando da água como problema, considerado, por alguns, insolúvel. Argumentam que: “... não se consegue”; “Sempre foi assim...”; “É característica da região...”.

O conhecimento tatuado apresenta-se, em alguns discursos, buscando justificar o problema da água. É como um discurso formal que oculta a sua própria reflexão sobre a

mudança desse quadro. Porém, de algum modo, dá visibilidade ao problema: “... aí tem ferro, odor, tem nitrito pesado, tem bactéria, tem um ph acima de 10. (...). Eu vou beber soda cáustica por acaso?”

Diante da nossa interrogação de por quê não aparecia a água como problema principal, quando da pesquisa, uma das respostas foi “a gente se acostuma com o que é ruim”; outra foi que isso era fruto da acomodação e alguém disse ser o temor de afrontar os políticos locais outro ponto levantado. Parece que hierarquizavam, em diferentes momentos, os problemas que tinham solução mais fácil. Alguém destaca, em segredo, que existe medo da repressão da parte dos superiores (abuso de poder por parte dos políticos locais).

Tratando da água como problema na cidade, alguns afirmam que o que há é falta de tomada de decisão: “O povo não sabe reivindicar seus direitos”. Outro diz que: “se a gente faz reunião muitos não vão...” Outro fala que: “os órgãos responsáveis passam de oito a dez dias sem mandar água... mesmo ruim...”. Houve uma discussão se não seria o caso de trocar a CAGECE pelo SAAE. que estaria inclusive encerrando o período previsto para a exploração pela CAGECE da cidade. Foi citado o serviço prestado pela SAAE em Itapajé e avaliou-se sua oferta como de melhor qualidade.

Parece-nos que, mais uma vez, existe, por vezes, uma espécie de mascaramento do problema, ou uma fragmentação que obscurece a visão mais ampla, circunscrevendo o problema a uma questão de gerência no processo do tratamento e distribuição. Existe mesmo o esquecimento de uma informação considerada de domínio de todos os marcadores de que “... a COGERH (Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos42) já havia condenado a água do Jerimum desde há muito tempo. Apesar disso a prefeitura

(tendo esse problema desde anos atrás) não tomou decisão”.

Gilvane, do bairro da Rodoviária, informou que o médico responsável pelo laboratório de análise da cidade realizou um rápido teste com a água da torneira

42 A Companhia de Gestão de Recursos Hídricos – COGERH criada pela lei estadual nº 12.217/93, é vinculada a Secretaria

dos Recursos Hídricos – SRH-CE, órgão executor da política estadual de recursos hídricos cujas ações são exercidas por ela própria e pelas instituições vinculadas: COGERH, SOHIDRA e FUNCEME. À Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (COGERH) compete a execução de ações voltadas para o gerenciamento dos recursos hídricos que englobam: operação e manutenção da infra-estrutura de oferta hídrica do estado; monitoramento dos recursos hídricos superficiais e subterrâneos; organização de usuários de água com vistas a formação de Comitês de Bacias Hidrográficas; cobrança de tarifa de água bruta e realização de estudos diretamente ligados as suas funções, como por exemplo: plano de gerenciamento de bacias hidrográficas, estudos de perdas de água em trânsito etc. (Brasil, 2001).