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como “uma missão de estratégia para a vida”.

A reversão do cenário em que encontramos a grande maioria do alunado nas instituições privadas torna-se, portanto, um dos maiores desafios em termos de Educação Superior em nosso país, pois segundo Figueiredo (2010), há uma enorme desigualdade de oportunidades existentes nos Ensinos: Fundamental e Médio, fazendo com que, a parcela mais discriminada da população tenha menores possibilidades de acesso ao ensino superior público, gratuito e de boa qualidade, direcionando-se, dessa forma, para o ensino privado, ao qual frequentemente tem que dispensar recursos acima de suas possibilidades, com retornos, muitas vezes, duvidosos.

Não podemos desconsiderar a relevância dos programas de bolsas na vida dos estudantes que só estão conseguindo realizar o sonho de obter um diploma universitário através de tais programas, caso contrário o número de jovens excluídos do ensino superior seria ainda maior, no entanto, não podemos nos furtar de fazer a crítica pela forma em que esses programas estão sendo desenvolvidos e implicados em todo o sistema de educação superior brasileiro, interferindo em sua economia também. A reflexão e a crítica que os autores fazem em relação a isso merecem destaque no sentido de que não têm o intuito de excluírem esses jovens do ensino superior, mas sim, estão implicados nos caminhos em que a qualidade desse ensino está sendo direcionado no país, defendendo o acesso ao ensino superior público e de qualidade a todas as camadas da população.

4.6 DIFICULDADES DA PASSAGEM DO ENSINO MÉDIO PARA O ENSINO SUPERIOR

A maior parte dos estudantes entrevistados, tanto da universidade pública quanto da faculdade privada, é proveniente da rede pública de ensino,

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destacando-se apenas dois casos em que uma jovem (ingressante da UNESP) estudou em escola particular e outra (concluinte da UNESP) estudou o 3º ano do ensino médio em escola particular, além de ter passado um ano cursando pedagogia em uma faculdade particular antes de ingressar na UNESP.

Considerando, portanto, a grande maioria oriunda do ensino básico público, identificamos entre eles, um relato bastante enfatizado que diz respeito à diferença e principalmente as dificuldades que encontraram quando entraram para o ensino superior (tanto público quanto privado). Relataram que se sentiram desorientados, desambientados, confusos e com grande dificuldade de entendimento na organização do espaço acadêmico, bem como no conteúdo das disciplinas, como podemos verificar através das suas observações:

Foi um "baque", foi um susto! Você está acostumada com um modelo no ensino médio porque ao invés do ensino médio preparar você para o vestibular, não prepara nada, nem para a universidade! E assim, são realidades completamente diferentes, principalmente por causa da pesquisa porque pesquisa do ensino médio... (risos) é você entrar no Google, entrar no site, copiar, colar... [...] Eu levei um susto... você chega e o professor já vem com aquele cronograma do semestre e você olha aquilo e fala, "Meu Deus!" (risos) Porque são aqueles montes de livros e bibliografias... você nem sabe onde eu vou achar esse negócio... o que é isso?. É bem diferente! Então, até pegar o ritmo da... do que é universidade... foi um "baque" muito grande, né? Mas, depois eu fui me acostumando e até a sua escrita fica diferente, né? Eu não sabia... eu não sabia o que era um artigo. Ah, olha é um artigo, "ahn... o que é isso?" Nunca tinha lido um artigo, não tinha consciência do que era um artigo científico. (IA, 21 anos, concluinte – UNESP).

Nossa, a UNESP é muito puxado. Tem professores do 1º ano que eles até entendem que você veio do ensino médio. Porque tem professor que acha que você já vem assim... sabendo todas as normas da ABNT, sabendo formatos de um trabalho específico. [...] porque o que a gente aprende no ensino médio é copiar e colar do Google e da Wikipédia... e na universidade não é isso, né? (NE, 21 anos, concluinte – UNESP).

[...] porque é outro tipo de maneira de ensinar... não é caderno... lousa... você copia... que é aquela coisa que você acaba acostumando... aí é mais xerox... é...é... mais texto que você lê.... Então no começo... foi muito difícil entender... [...] os professores entrando, né... professores de faculdade... você fica com um pouco de receio, né... não sabe o que vai ser... que tipo de prova vai ser... como vai ser avaliado... então eu fiquei desesperada sim (AN, 35 anos, concluinte – ASSER).

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Verificamos que as dificuldades que os jovens falam, são trazidas do ensino médio, período que não consideram como preparação suficiente para a entrada no ensino superior, sendo que, uma vez lá, se sentiam “perdidos”, “desorientados”.

Identificamos as dificuldades expostas por todos os estudantes, tanto aqueles provenientes da UNESP, como, os da ASSER: demonstraram um estranhamento e uma preocupação maiores com a questão referente ao conteúdo trabalhado na universidade, conteúdo este que se diferenciava e muito do ensino médio, sendo considerado mais difícil. Além de perceberam essa diferença, complementaram, expondo a diferença da didática utilizada pelos professores do ensino médio que se diferenciava muito, no ensino superior.

A partir dos relatos acima, identificamos que, o ensino médio deixa a desejar ao tentar preparar o aluno para o passo seguinte que é o ensino superior, uma vez que, se mostra muito distante do ambiente universitário, do currículo e da forma de conduzir a aprendizagem apresentadas pela universidade/faculdade, fazendo com que o aluno se perca na lacuna que se forma entre um tipo de ensino e outro e tenha que buscar seus caminhos por si só.

Conforme Castro (2008) existe um dilema posto ao jovem ao entrar no ensino superior: o aluno é bombardeado por conhecimentos, com pouco tempo para aprender com profundidade necessária, quer dizer: “o ensino acadêmico para o mundo do vestibular é diferente do ensino, também acadêmico, para o mundo real. Somem-se a isso as diferenças de aptidão de cada aluno para as disciplinas mais acadêmicas e abstratas” (CASTRO, 2008, p. 116).

Segundo o autor ainda, o ensino médio, está em uma encruzilhada, está encurralado, pois seu antecessor, o fundamental ainda possui características precárias diante do necessário para uma sociedade moderna. O seu sucessor, o ensino superior carrega as deficiências dos períodos anteriores e recruta quem, mais ou menos, sabe o que quer. O ensino médio, portanto, precisa arredondar

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a formação inicial do aluno – embora não se saiba muito bem como se faz isso, assim como, precisa dar ao aluno uma cultura mínima nas ciências e nas humanidades. Precisa ensinar a ler e escrever, de preferência, em mais de uma língua. Precisa fixar os valores. De fato, é nesse nível que se burila o espírito de cidadania e a identidade cultural. Tem-se aí uma agenda ambiciosa. O problema é que, na maioria dos países, muitos alunos do ensino médio vão para o superior, sem cumprir tal agenda, ou seja, sem a formação específica e necessária (CASTRO, 2008, p. 115).

Ao considerarmos o ensino médio em nosso país, de acordo com Carrano (2010), identificamos que são múltiplos os desafios a serem equacionados pelos jovens, quando se encontram nesse ciclo de estudo, uma vez que,

Os jovens têm afirmado que se sentem sozinhos e não encontram quem os apoie na busca de trabalho; também não encontram informações seguras sobre as carreiras que poderiam seguir em nível superior. Os que possuem maior volume de capitais (sociais e simbólicos) podem contar com redes que herdaram de seus familiares e que lhes possibilitam mais chances de acesso a melhores postos de trabalho. Os jovens populares, contudo, navegam em territórios mais áridos – e, como costumam dizer, além de uma escolarização frágil que lhes dificulta competir nos vestibulares e mercados, lhes falta Q.I. (quem indique) para as vagas “decentes” disponíveis. Eles e elas nos dizem, em síntese: “Estamos nos sentindo sozinhos, não temos com quem dialogar ou quem nos proteja”. Há muito pouca mediação entre os mercados de trabalho e aquilo que se aprendeu na escola, assim como parece existir um fosso intransponível entre a educação básica e aquilo que se encontrará na universidade. Tornam-se necessárias políticas públicas que possam realizar essas mediações, ampliando os processos de qualificação profissional em níveis médios e potencializando diálogos intraescolares e entre níveis de ensino, e que, fundamentalmente, gerem suportes que permitam aos jovens mais empobrecidos a escolarização em condições de maior igualdade em relação aos seus contemporâneos de classes sociais economicamente mais favorecidas (CARRANO, 2010, p. 163-164).

Para o autor o ensino médio vive uma crônica crise de identidade, bem como permanece numa encruzilhada que convida a divergentes caminhos relacionados à formação cidadã, ou seja, por um lado a qualificação para o

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mundo do trabalho e por outro, a preparação para o ingresso no nível superior de ensino.

O ensino médio no Brasil é visto como excludente e a serviço de duas vertentes: ou prepara apenas para o vestibular (privilegiando uma determinada classe social, que pode postergar o período da juventude permitindo que seus jovens dediquem-se apenas aos estudos) ou destina-se a preparação para o mercado de trabalho, isto é, o ensino profissionalizante (destinado às classes sociais menos abastadas que necessitam interromper seu período de juventude mais cedo e adentrar no mundo adulto através da responsabilidade pelo trabalho para garantir a subsistência).

Em relação a isso, existem várias contribuições acadêmicas e de propostas políticas públicas para o debate em torno da identidade do ensino médio, entretanto, são poucas as que buscam perguntar ao próprio jovem estudante quais os rumos que o ensino médio deve seguir:

Os estudantes fazem críticas aos currículos excessivamente teóricos e pouco práticos que lhes são oferecidos e também se ressentem de espaços de interlocução para que suas queixas sejam ouvidas. Os jovens reclamam da inadequação da prática docente, da falta de sentidos práticos sobre o que está sendo ensinado, da desorganização do espaço escolar e da falta de infraestrutura material e humana para a boa aprendizagem. A falta de escuta aos jovens por parte da escola em relação aos “conteúdos programáticos” também pode fazer parte do rol de queixas que comumente escutamos dos jovens estudantes. E, vislumbrando a vida para além da escola, denunciam que o que lhes é oferecido como conhecimento se apresenta de pouca praticidade para os desafios que precisam enfrentar no mundo do trabalho. Os jovens consideram também um verdadeiro descompromisso da instituição quanto aos relacionamentos produtivos que poderiam ser estabelecidos entre a escola, os mercados de trabalho e a continuidade dos estudos em nível superior (CARRANO, 2010 p. 144-145).

Os jovens pobres veem o crescimento da oferta da escolarização no ensino médio, equiparada à perda da qualidade escolar. Na verdade, para eles as escolas públicas, em sua maioria, são pouco atraentes, não estimulam a

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imaginação criadora e oferecem pouco espaço para novas experiências, sociabilidades, solidariedades, debates públicos, atividades culturais e informativas ou passeios que ampliem os territórios de conhecimento, ou seja, além de todos os fatores exógenos (necessidade de buscar trabalho, insegurança nos espaços de moradia, maternidade e paternidade ainda na adolescência etc.) que vão atraindo o jovem para fora da escola, o estar na escola não tem sido uma experiência atraente para muitos jovens. Com isso, identificamos que fora da escola os jovens praticam mundos e culturas completamente desconhecidos pela mesma e pelos educadores, entrando em choque e muitas vezes em conflito, com os sentidos da existência da instituição escolar, assim sendo, a “escola busca educar para a cidadania mais ampla, mas não pratica a cidadania escolar dentro dela; nesse sentido, apresenta-se como um laboratório de socialização política e cultural esvaziado de sentido prático”

(CARRANO, 2010, p. 146).

De acordo com Sposito (2002) é possível compreender as dimensões que transcendem a perspectiva escolar quando se abre o olhar para o conhecimento sobre como os jovens se apropriam do social e adquirem redes de sociabilidade e interações que se distanciam dos modelos educacionais, trazendo para o interior da escola particularidades únicas adquiridas no convívio com os outros, conforme podemos perceber:

O novo público que frequenta a escola, sobretudo adolescente e jovem, passa a constituir no interior um universo cada vez mais autônomo de interações, distanciado das referências institucionais trazendo novamente, em sua especificidade, a necessidade de uma perspectiva não escolar no estudo da escola, a via não escolar [...]. A autonomização de uma subcultura adolescente engendra, para os alunos da massificação do ensino, uma reticência ou uma oposição à ação do universo normativo escolar, ele mesmo em crise. A escola cessa lentamente de ser modelada somente pelos critérios da sociabilidade adulta e vê penetrar os critérios da sociabilidade adolescente, exigindo um modo peculiar de compreensão e estudo (SPOSITO, 2002, p.19-20).

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As sociedades organizadas no modo de produção capitalista geram “riscos sociais” sistêmicos ao mesmo tempo em que produzem a ideologia da interiorização do fracasso. As más escolhas pessoais e os desempenhos individuais insatisfatórios diante dos múltiplos espaços de competição seriam as causas principais das trajetórias de vida truncadas ou mal equacionadas. Em última instância, o insucesso seria resultante da baixa capacidade do indivíduo para produzir competências e biografias suficientemente adequadas ao enfrentamento dos desafios estruturais nos quais ele pouco pode interferir. Com isso, percebemos que as pressões para o ingresso cada vez mais precoce na vida de trabalho remunerado levam ao difícil convívio entre trabalho desprotegido e estudo desvinculado das relações de trabalho, situação que gera cansaço, angústia, dispersões de sentidos e, no fim das contas, a evasão da escola (CARRANO, 2010).

A trajetória dos jovens que buscam a inserção no mundo do trabalho, especialmente dos jovens das famílias mais pobres, é incerta, isto é,

[...] eles ocupam as ofertas de trabalho disponíveis, as quais, precárias e desprotegidas em sua maioria, permitem pouca ou nenhuma possibilidade de iniciar ou progredir numa carreira profissional. A informalidade é crescente à medida que se desce nos estratos de renda e consumo do beneficiário do emprego. O aumento da escolaridade coincide, em geral, com maiores chances de conseguir empregos formais, algo decisivo para os jovens, considerando que o desemprego juvenil no Brasil é, em média, quase três vezes maior do que o do conjunto da população. Enxergando por esse prisma, é possível afirmar que os condicionantes sociais que delimitam determinada estrutura de transição (processo de mudanças para distintas situações de vida) interferem na constituição das trajetórias

sociais dos jovens, na constituição de seus “modos de vida” e na possibilidade que encontram de elaborar seus sentidos de futuro (CARRANO, 2010, p. 160).

De acordo com o autor, portanto, é imprescindível criar e estimular estruturas e estratégias de qualificação e apoio para o ingresso no mundo do

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trabalho concomitantemente à melhoria da formação de base e cidadã que se espera que o ensino médio proporcione aos seus estudantes, pois:

A combinação entre escolarização de qualidade e inserção protegida no mundo trabalho, com fins de aprendizagem e qualificação profissional, reconhece a importância do trabalho na socialização dos jovens. Entre a ideia da escola integrada, que não pressupõe a relação direta com a esfera produtiva, mas valoriza a relação com o mundo do trabalho, e o intercâmbio entre escola e mercado de trabalho existem mediações possíveis que precisam ser experimentadas. Os públicos estudantis são diversos e demandantes de alternativas plurais (CARRANO, 2010, p. 163).

Portanto, faz-se necessário manter-se aberta a possibilidade democratizante de continuidade dos estudos em nível superior, além de se permitir que a passagem pelo ensino médio seja estação suficiente para que jovens se qualifiquem e tenham assegurados os seus direitos à formação técnica e profissional, ao primeiro emprego e encontrem também as condições adequadas para que se capacitem como cidadãos cultural e eticamente plenos, visualizando assim, para o jovem, o ensino médio como lugar de destaque na sua transição para a vida adulta (CARRANO, 2010).

Se o ensino médio fosse realmente visto como possibilidade para a transição para a vida adulta, facilitaria para que os jovens abandonassem o discurso de que se sentem sozinhos e não conseguem compreender a passagem do ensino médio para o superior. Através dos depoimentos dos jovens identificamos que quando adentram o espaço acadêmico se sentem perdidos, desorientados e uma sensação de estranhamento daquele cenário parece dominar em suas impressões mais fortes. Identificam claramente a ausência de mediação entre o ensino médio e o superior e ainda, entre o que se aprende na escola e o que se utiliza no mercado de trabalho.

Na realidade o ensino médio falha duplamente quando se vê na encruzilhada de não conseguir preparar adequadamente o jovem nem para o mundo do trabalho e nem para o nível superior de ensino, falha essa que herda

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da precariedade do ensino fundamental e que acarretará lacunas expressivas em seu sucessor: o ensino superior.