2.2. GÖLGESĐZLER
2.2.2. Tematik Kurgu
2.2.2.3. Đletişimsizlik
A abordagem sociológica das profissões e das ocupações foi inaugurada na década de 1930, pelos sociólogos britânicos Alexander Morris Carr-Saunders e Paul Alexander Wilson. Em sua obra, destacaram a definição do que caracterizava as profissões e a defesa do profissionalismo como sistema de valores, considerado essencial para funcionamento da sociedade capitalista de acordo com Gonçalves (2007/2008).
As principais concepções de uma sociedade capitalista, dentre as quais a definição de
divisão do trabalho, foram definidas por Adam Smith (SMITH, 1986), economista escocês,
no século XVIII. Com o desenvolvimento das sociedades, a noção de divisão do trabalho desenhada por ele deixou de ser atributo da área econômica e passou a influenciar diferentes campos da sociedade, tais como as funções políticas, administrativas, jurídicas, artísticas e científicas nas quais se observou um grau de especialização cada vez maior. A ciência, por exemplo, fragmentou-se em uma gama expressiva de disciplinas específicas e, nesse cenário, as funções sociais do trabalho foram traduzidas por Durkheim (1989) como divisão social do
trabalho.
Sociólogos clássicos como Durkheim (1989), mesmo antes de o campo de estudo das profissões estar delimitado, já haviam identificado o “[...] papel que os agrupamentos profissionais destinavam a desempenhar na organização social dos povos contemporâneos” (DURKHEIM, 1989, p. 7). Em face das transformações experimentadas pela sociedade capitalista, em particular, no século XX, a sociologia das profissões avançou, e suas bases teórico-metodológicas experimentaram reconstruções sistemáticas. Tal evolução foi dividida, segundo Gonçalves (2007/2008), em quatro fases, mesmo não se tratando de uma delimitação precisa, mas visando facilitar a compreensão do processo.
A primeira fase do campo da sociologia das profissões ocorreu entre os anos 1930 e 1960, quando se definiram seu objeto - as profissões - assim como a metodologia de análise a ser adotada, qual seja, comparativo-taxinômica (entre profissões e entre estas e as ocupações comuns). Nesse período, floresceram estudos de sociólogos funcionalistas, particularmente americanos, cuja
[...] centralização excessiva na definição dos atributos, a natureza empirista dos estudos, a desafeição pela reflexão teórica como sustentáculo da investigação empírica, a atomização analítica das profissões face às dinâmicas globais do capitalismo nacional constituem eixos da abordagem [...], que concorreram para uma leitura heuristicamente fraca do fenômeno profissional (GONÇALVES, 2007/2008, p. 180).
Sociólogos interacionistas simbólicos15 propuseram abordagens para o estudo das profissões que ampliaram esse escopo de análise e foram inspiradas em pensamentos de Durkheim (1989), que as entendia como recurso para a promoção da coesão social. Parsons (1968), por exemplo, definiu três critérios para se identificar uma profissão: a) a exigência de uma formação técnica formal; b) as habilidades desenvolvidas pelo indivíduo; c) os meios institucionais existentes para garantir que essas competências fossem colocadas a serviço de uso socialmente responsável. Este último critério, considerado como o principal, foi observado de forma clara no âmbito da prática profissional da medicina quando a ciência médica é aplicada na cura de doenças (PARSONS, 1968).
Estudos com foco em médicos receberam atenção particular de sociólogos interacionistas simbólicos, muitos deles vinculados à Escola de Chicago. Suas pesquisas mereceram destaque no âmbito da Sociologia das Profissões, e foram fundamentadas em concepção teórico-metodológica inovadora para a época, enquadrando-se no campo da análise sociológica da divisão do trabalho social (ALMEIDA, 2010). Os sociólogos dessa escola “[...] tiveram o grande mérito de vincular estreitamente o universo do trabalho aos mecanismos de socialização”, conforme destacou Dubar (1997, p. 186), com quem concordaram Joas (1999) e Lallement (2004).
A segunda fase na evolução da sociologia das profissões, que aconteceu de meados dos anos 1960 até o final da década de 1970, foi marcada por críticas às proposições funcionalistas16 e pelo surgimento de propostas alternativas. Destacaram-se aqui os estudos de Freidson (1988), em particular, sua obra Profession of medicine: a study of the sociology of
applied knowledge17, originalmente publicada em 1970. Nela ele ressaltou a importância de definir conceitos distintos de profissão, levando-se em consideração as particularidades históricas e geográficas, isto é, os contextos sociais nos quais as profissões se desenvolvem, bem como desvelando o significado do Estado para o desenvolvimento do profissionalismo. Em sua concepção, a autonomia profissional é uma característica determinante no poder de uma profissão.
15
O interacionismo simbólico é uma corrente teórica da sociologia que “[...] focaliza a atenção sobre as relações sociais, a produção de uma identidade que se forja no contato com os outros... e não apenas sobre os simples comportamentos individuais” (LALLEMENT, 2004, p.291).
16
Considera-se como pontos principais da abordagem funcionalista: “[...] a centralização excessiva na definição dos atributos, a natureza empirista dos estudos, a não inclinação pela reflexão teórica como suporte da investigação empírica e a atomização analítica das profissões face às dinâmicas globais do capitalismo nacional” (GONÇALVES, 2007/2008, p.181).
17
Traduzida para o português em 2009 (FREIDSON, Eliot. Profissão médica: um estudo de sociologia do
conhecimento aplicado / Eliot Freidson; Tradução de André de Faria Pereira-Neto e Kvieta Brezinova de Morais. São Paulo: Editora UNESP; Porto Alegre, RS: Sindicato dos Médicos, 2009. 453p.
Entretanto, Freidson (2009) reconheceu que, em que pese a autonomia oferecer a dimensão da profissão, é a capacidade de autorregulação que confere a autonomia profissional. O autor elucidou, também, que o modelo de desempenho do profissional é muito mais apoiado em suas práticas do que nos processos de socialização vivenciados durante a formação universitária. Nesse aspecto, opôs-se a visões predominantes da época, como a de Parsons (1968), que acreditava na preponderância da concepção de que as profissões devem servir à coletividade, definindo o comportamento profissional, ideia disseminada por meio das instituições formadoras.
Eliot Freidson esclareceu em seu livro Renascimento do Profissionalismo, lançado em 1994, que utilizava o termo profissão para designar “[...] uma ocupação que controla seu próprio trabalho, organizada por um conjunto especial de instituições sustentadas, em parte, por uma ideologia particular de experiência e utilidade” (FREIDSON, 1998, p. 33). O uso do termo profissionalismo, segundo ele, seria “[...] para denotar aquela ideologia e aquele conjunto especial de instituições” (FREIDSON, 1998, p. 33), ou seja, as universidades, associações de classe e o Estado.
Na década de 1980, desenvolveu-se uma terceira fase de estudos, caracterizada pela sedimentação de uma diversidade de escopos teórico-metodológicos. Constatou-se uma ampliação das perspectivas existentes na fase anterior, observando-se, também, o foco na análise do poder e monopólios profissionais, além do destaque para a abordagem sistêmica das profissões (GONÇALVES, 2007/2008).
Nesse cenário, sobressairam estudos abordando, particularmente, os processos de profissionalização (LARSON, 1977; ABBOTT, 1988). Ambos os autores acreditavam que a diferença entre as profissões e as condições sociais e econômicas de aplicação de seu conhecimento estava diretamente relacionada com a amplitude da autonomia que poderiam exercer diante do controle dos clientes, do capital e do Estado. Os estudos de Abbott (1988) também encontraram pontos de convergência com Dubar (1997, 2005) e Freidson (1998) no que tange à constatação de que a particularidade que melhor classifica as profissões é o conhecimento abstrato convencional que ela difunde.
Os movimentos de profissionalização do século XIX, no entender de Larson (1977, p.xvii), prefiguraram a reestruturação geral da desigualdade social nas sociedades capitalistas contemporâneas: o núcleo era a hierarquia profissional, ou seja, um sistema diferenciado de competências e recompensas; o princípio central da legitimidade fundou-se na realização de uma especialização reconhecida, isto é, em um sistema de educação e credenciamento.
Abbott (1988) empreendeu uma análise crítica da natureza do trabalho profissional, viabilizada por meio da observação da prática profissional. O autor discutiu o tema da jurisdição, bem como mecanismos utilizados pelos profissionais para preservar o monopólio da competência, protegendo-se da concorrência. Por jurisdição ele entendia a relação que há entre uma profissão e o trabalho pertinente a ela; trata-se, assim, do direito de exclusividade da prática profissional por determinado grupo profissional (ABBOTT, 1988).
As práticas foram abordadas em três situações de análise: diagnóstico, inferência e tratamento. O diagnóstico e o tratamento são ações de mediação na prática profissional; no diagnóstico busca-se informação no saber profissional sistematizado e no tratamento encontram-se instruções a partir desse saber profissional. Por sua vez, a inferência é um ato eminentemente profissional. Com base no que se obtém de informações no diagnóstico e nos tratamentos possíveis, o profissional faz reflexões e decide adequadamente. Tal perspectiva permite localizar o saber profissional numa lógica que desnuda a complementaridade inequívoca entre teoria e prática. Dados objetivos e dados subjetivos necessitam ser mobilizados para o exercício efetivo de um saber profissional, indo, portanto, além de uma prescrição técnica pré-formatada (ABBOTT, 1988).
Em linhas gerais, observou-se nesse período um contraste entre as abordagens anglo- americana e a desenvolvida na França e no restante da Europa continental. As primeiras tenderam a se concentrar no fechamento dos grupos profissionais; nas segundas, o foco deslocou-se para questões de ocupação em termos mais gerais, incluindo identidade profissional, trajetórias de carreira, formação profissional e especialização, bem como o emprego em organizações do setor público (EVETTS, 2003).
Nota-se, assim, a existência de dois padrões de desenvolvimento histórico das profissões: o anglo-americano e o europeu continental. Gonçalves (2007/2008) identificou que, no contexto anglo-americano, profissões tradicionais como a dos médicos evoluíram com forte autonomia, regidas pelo mercado, ligadas às universidades privadas, sendo as associações profissionais privadas as responsáveis principais por regular essa profissão.
Na quarta fase de evolução da sociologia das profissões, a partir da década de 1990, distinguiu-se a abordagem comparativa dos fenômenos profissionais, bem como o surgimento de novas problemáticas teóricas (GONÇALVES, 2007/2008). Evetts (2003), por exemplo, abordou profissões como um grupo genérico de ocupações baseadas no conhecimento tácito e explícito. As profissões, segundo a autora, são essencialmente a categoria de ocupações apoiadas em conhecimentos que normalmente se seguem a um período de ensino superior e de formação profissional e experiência.
Trata-se de uma forma diferente de categorizar as ocupações e ver as profissões como mecanismos estruturais, profissionais e institucionais para lidar com o trabalho associado às incertezas da vida moderna nas sociedades de risco, conforme salientou Evetts (2003). Tal abordagem ampliou a noção de profissão e contextualizou a realidade social experimentada pelos indivíduos em sociedades capitalistas desenvolvidas do século XXI.
Em face dos marcos teóricos da evolução da sociologia das profissões apresentados e das referências adotadas para análise da identidade e das competências profissionais no presente estudo, optou-se por utilizar a definição de profissão como o
[...] conjunto de atividades produtivas desenvolvidas por um grupo de pessoas que possuem conhecimentos específicos, validados academicamente e reconhecidos socialmente, mediante instrumentos regulatórios formais ou informais que são compartilhados coletivamente, garantindo elevado grau de autonomia no exercício de suas atribuições, movidas em certo nível por altruísmo (PAIVA, MELO, 2008, p. 361).
A sociologia das profissões, particularmente, na vertente anglo-americana, em toda a trajetória evolutiva dedicou especial atenção à profissão e formação profissional do médico (MERTON, 1957; FREIDSON, 1988, 1995, 1998, 2009; PARSONS, 1968; LARSON, 1977). Na Europa, Carapinheiro (1998) tornou-se referência nessas investigações, abordando, especialmente, ambientes hospitalares. No Brasil, as pesquisas sobre as profissões floresceram a partir da década de 1970, contemplando a categoria médica de forma particular. Tendo em vista que tal destaque histórico encontra convergência com o fato de os sujeitos desta pesquisa serem médicos, reiterou-se a pertinência de compreender a profissão e a formação médica.