D. Cumhurbaşkanlığı Kararnameleri Bakımından Yürütmenin Mahfuz
II. Üst Kademe Kamu Yöneticilerinin Kapsamı
Habermas em sua teoria da ação comunicativa afirma que a única forma de conciliar as diferenças de pensamento existentes em uma sociedade complexa, como a atual, é por meio do diálogo, do confronto de ideias, no qual a melhor argumentação prevalecerá sobre as demais, independente de quem a tenha proferido. Assim, o convencimento seria estritamente argumentativo, não importando a classe social, cor ou sexo de quem proferiu a ideia.
Habermas conclui que a democracia é o único meio de proporcionar um ambiente adequado para esse sistema dialético. Para ele, o que dá razão às normas é o processo pelo qual são criadas, trata-se de um processo dialógico, de troca de conhecimento, no qual os sujeitos envolvidos na situação em questão poderão opinar, criticar, debater a fim de alcançar o melhor meio possível para o resultado almejado. Sendo o papel da norma o de positivar a conclusão do debate. De acordo com Juliana Diniz (2013, p.104):
Ao reunir as competências para execução de políticas públicas de índole social, o estado assume uma função proeminente no reforço dos vínculos de solidariedade e acaba por absorver todas as tensões e conflitos originados da sociedade, notadamente no que tange à matéria constitucional. A organização do estado, assim, precisa ser capaz de realizar não só a tarefa de regulamentação normativa, mas de estruturação das políticas sociais, ao mesmo tempo em que promove a mediação entre as expectativas sociais.
Para canalizar e absorver os conflitos, conduzindo-os de forma a evitar a desintegração e a destruição dos vínculos de solidariedade, o Estado precisa assumir uma nova identidade: democrática, inclusiva, aberta à tensão, ao considerá-la como inerente à sociedade hipercomplexa. A estrutura do estado democrático é dependente, portanto, de procedimentos constitucionais – sejam eles relacionados à atividade legislativa, judicial ou administrativa – voltados à promoção do diálogo entre as diversas pretensões normativas em conflito na esfera pública.
Conforme Habermas (2012, p.213):
Na linha da teoria do discurso, o princípio da soberania do povo significa que todo o poder político é deduzido do poder comunicativo dos cidadãos. O exercício do poder político orienta-se e se legitima pelas leis que os cidadãos criam para si mesmos numa formação da opinião e da vontade estruturada discursivamente. Quando se considera essa prática como um processo destinado a resolver problemas, descobre- se que ela deve a sua força legitimadora a um processo democrático destinado a garantir um tratamento racional de questões políticas. A aceitabilidade racional dos resultados obtidos em conformidade com o processo explica-se pela institucionalização de formas de comunicação interligadas que garantem de modo ideal que todas as questões relevantes, temas e contribuições, sejam tematizados e elaborados em discursos e negociações, na base das melhores informações e argumentos possíveis. Esta institucionalização jurídica de determinados processos e condições da comunicação torna possível um emprego efetivo de liberdades comunicativas iguais e simultaneamente estimula para o uso pragmático, ético e moral da razão prática, ou seja, para a compensação equitativa de interesses.
Habermas adveio da escola de Frankfurt, cuja ideia de uma razão ética universal era criticada. O autor, apesar disso, defendeu a possibilidade de uma razão universal. Entretanto, esta não se fundamentava em argumentos metafísicos, mas sim em uma racionalidade procedimental. Para isso, o autor criou a teoria da ação comunicativa, embasada no debate entre as comunidades até que se chegasse, por meio da argumentação, à uma solução dos problemas levantados. Conforme Luciano Cordeiro (2009, p.26):
Na ação comunicativa, abandonamos a aceitação de normas que regem o comportamento e perguntamos sobre as razões que a legitimam. Há a passagem de uma moral puramente convencional (aceitação de normas), para uma moral pós- convencional (exigência de justificação das normas). Podemos dizer que racionais, nos termos habermasianos, são os sujeitos capazes de passar de uma ação não problematizada, para argumentações reflexivas.
A sociedade moderna diferencia-se da pré-moderna por sua complexidade de ideias. Enquanto nesta há um ideal comum, a religião era o fundamento do poder, logo exercia grande influência sobre o pensamento da comunidade. Esse forte poder exercido pela igreja não permitia que pensamentos dissonantes se fortalecessem, com isso, as pessoas se subjugavam aos ensinamentos cristãos, aceitando-os como verdade incontestável, o que deixava a comunidade homogênea em sua maneira de pensar e agir. Segundo Juliano Cordeiro, Habermas (2009, p.8):
Ele interpreta as sociedades modernas como fortemente marcadas por um pluralismo de cosmovisões, consequência de um desmoronamento das visões tradicionais de mundo. Há, então, uma perda da validade de uma moral compartilhada por todos, além de uma perda de legitimação de uma fundamentação ontológica.
Com o iluminismo e o surgimento do Estado Moderno, a religião e o Estado passavam a se distinguir um do outro. O poder do Rei não poderia ser mais fundamentado na ideia de Deus. Essa secularização faz com que se perdesse o referencial ético comum que dava a homogeneidade à sociedade pré-moderna.
A secularização possibilita a proliferação de credos religiosos, e uma multiplicação de visões éticas distintas que vão passar a coexistir na vida pública. Essa diversidade acaba por ser um fator de desestabilização social pois as visões de mundo começaram a entrar em conflito. Atingindo o chamado esgotamento ético, ou seja, se existem vários modelos éticos, não existiria um que fosse universal e compartilhado. As escolhas morais passam a ser escolhas relativas da ordem do privado, não haveria mais um parâmetro que fosse passível de universalidade, as escolhas éticas (incluindo-se o fundamento da moral e do direito) passam a ser preferencias individuais, recaindo em uma ética utilitarista voltada à afirmação dessa razão instrumental.
Habermas, no entanto, defende que esta razão instrumental tem sido fator de barbárie e de violência, pois não levou ao progresso, como imaginava o Iluminismo, mas sim, a grandes conflitos sociais. Assim, propõe o pensamento de uma ética alternativa, por isso que se diz que ele resgata o projeto da modernidade, pois afirma a possibilidade do nascimento de
uma ética universal, um parâmetro de fundamentação para a ética e para o direito que seja compartilhável. A ética proposta por Habermas não será sustentada por um ideal metafísico, mas por uma razão procedimental pautada em uma racionalidade discursiva.
A ética universal defendida por Habermas baseava-se em uma racionalidade discursiva, na qual os agentes em debate se submeteriam ao melhor argumento apresentado. O autor reconheceu a impossibilidade de ter um parâmetro ético compartilhado universalmente a partir de uma ética de conteúdo, ou seja, se existe uma fragmentação cultural tão profunda, não há como ter mais um referencial compartilhado a partir de conteúdos considerados bons em si mesmos.
O máximo que se consegue ter de universalização, são procedimentos de deliberação e de diálogo, que permitem efetivamente que as pessoas sejam livres na medida em que participam ativamente do processo de formação normativo. Habermas entende que o único modelo político que permite uma razão universal embasada em uma racionalidade discursiva é o democrático. Sobre a visão de Habermas, interpreta Juliano Cordeiro (2009, p.8):
A racionalidade comunicativa diz respeito a uma noção de racionalidade mais ampla, um conceito procedimental de racionalidade, em que os participantes de um debate almejam um consenso intersubjetivamente alcançado: os sujeitos buscam se entender sobre uma situação, coordenando planos de ação de comum acordo.
Para Habermas, tanto o Estado Liberal quanto o Estado Social apresentam limitações em suas propostas. Juliano Cordeiro (2009, p.10):
Segundo Habermas, o Estado liberal funciona apenas com base numa racionalidade sistêmica, em que o econômico tem primazia em relação às deliberações comunicativas dos sujeitos. Já o Estado social, segundo Habermas, apesar de refletir a respeito das desigualdades fáticas, promovendo políticas de reparo social, corre sempre o risco de se tornar um Estado paternalista, não avançando para além de determinadas medidas reformistas. Habermas, ao contrário do Estado liberal e do Estado social, propõe um novo modelo, com base na política deliberativa, em que os sujeitos serão autônomos, à medida que puderem se entender também como autores do direito, ao qual se submetem enquanto destinatários.
Nessa política deliberativa, proposta por Habermas, a participação social se faz imprescindível. Pois é a partir dessa participação que os destinatários das normas poderão formular a razão que fundamenta a criação da norma. Habermas conceitua sociedade civil da seguinte maneira (1997, p.99): ¨A sociedade civil compõe-se de movimentos, organizações e
associações, os quais captam os ecos dos problemas sociais que ressoam nas esferas privadas, condensam-nos e os transmitem, a seguir, para a esfera pública política. ¨
Além disso, por vivenciar os problemas sociais diretamente, é a sociedade que acaba por conseguir identificar o que precisa ser modificado. Para Habermas (1997, p.115):
As estruturas comunicacionais da esfera pública estão muito ligadas aos domínios da vida privada, fazendo com que a periferia, ou seja, a sociedade civil, possua uma sensibilidade maior para os novos problemas, conseguindo captá-los e identifica-los antes que os centros da política. Pode-se comprovar isso através dos grandes temas surgidos nas últimas décadas – pensemos na espiral do rearmamento atômico, nos riscos do emprego pacífico da energia nuclear, nos riscos de outras instalações técnicas de grande porte ou de experimentos genéticos [...].
O autor defende uma relação de proximidade entre administração e sociedade, que se manifestará por movimentos sociais, bem como deverá ter espaço institucionalizado a fim de que suas ideias tenham maior poder de influência política. Habermas (1997, p.105):
Ora, a soberania do povo, diluída comunicativamente, não pode impor-se através do poder dos discursos públicos autônomos. Para gerar um poder político, sua influência tem que abranger também as deliberações de instituições democráticas da formação da opinião e da vontade, assumindo uma forma autorizada.
Habermas entende que, na esfera pública, há um constante embate entre a razão instrumental, ou agir estratégico, que objetiva o interesse particular, e a razão dialógica, ou agir comunicativo, que busca o consenso entre as diferentes visões de mundo a fim de que se chegue a um denominador comum.
O agir comunicativo objetiva o acordo, mas para que este seja possível, o diálogo se faz essencial. Porém, esse diálogo precisa ocorrer em condições de igualdade entre os participantes, onde o argumento utilizado seja o único elemento diferenciador. O diálogo vai permitir que se desenvolva um processo empático, no qual cada um poderá conhecer a visão do outro sobre determinado assunto, o que permitirá a aceitação da tomada de determinado posicionamento, mesmo não sendo aquele desejado inicialmente por todos, mas que, após o debate, percebe-se ser o mais produtivo socialmente. Conforme Juliana Diniz (2013, p.132):
A democracia funciona, então, como a instituição social que possibilita a reaproximação dos indivíduos, de forma cooperativa, na tentativa de autodeterminar- se, atuando por meio do diálogo e da inclusão – simbolizada pelo direito de participação.
Habermas também reconhece a individualidade de cada comunidade, haja vista seu processo histórico de formação. Diante disso, pode-se ter comunidades que enfrentam problemas semelhantes, mas que decidam combate-lo de forma distinta, para melhor se adequar a realidade local. Sendo assim, é importante que as políticas públicas estejam voltadas à realidade de uma comunidade específica, a fim de produzir resultados mais eficientes. Aduz Habermas (2012, p.196):
A validade dos argumentos correspondentes é relativa à identidade histórica e cultural da comunidade jurídica; relativa também às orientações axiológicas, aos fins e situações de seus membros. Mesmo quando se parte da ideia de que enfoques e motivos se modificam no decorrer de um formação coletiva e racional da vontade, conforme os argumentos, não se pode excluir a facticidade dos contextos existentes; caso contrário, os discursos éticos e pragmáticos, inclusive os compromissos, perderiam o sentido.
O autor, porém, reconhece a possibilidade, do quem vem a chamar de colonização da esfera pública, que trata-se de quando as instituições públicas passam a agir em nome de interesses privados (razão instrumental), e não mais sob a perspectiva de um agir comunicativo. Juliano Cordeiro (2009, p.9):
Todavia, Habermas explica que é preciso observar se a linguagem é utilizada apenas como meio para a transmissão de informação (agir estratégico) ou se, ao contrário, como fonte de integração social (agir comunicativo). O grande problema é que o dinheiro e o poder passaram a ter centralidade na sociedade atual, havendo uma colonização do mundo da vida, patologia típica das sociedades modernas, onde o princípio sistêmico de integração invade o mundo vivido e desintegra-o. desta forma, as ações dos participantes do mundo da vida não são coordenadas apenas por processos de comunicação voltados ao entendimento (integração social), e sim, igualmente, por meio de imperativos funcionais do sistema econômico e administrativo (integração sistêmica).
Ante o exposto, pode-se perceber que Habermas defende a participação social na esfera pública, e que tal participação deve ser realizada por meio do diálogo e em igualdade de condições, sendo o sistema democrático o único ambiente propício para o desenvolvimento dessa Teoria do Agir Comunicativo. Em uma analogia de fácil compreensão, os Conselhos Gestores se enquadram nessa proposta de Habermas de participação social na esfera administrativa. Na qual a população diretamente interessada atuará debatendo sobre um tema a fim de chegar a uma conclusão aceita por todos, e tal conclusão terá como fundamento legitimador esse debate anterior.