Os Conselhos Gestores possuem como um de seus objetivos a proposição de ações que venham a melhorar a realidade da saúde no país.
Uma contribuição efetiva da comunidade só será possível, entretanto, se esta sentir-se segura para manifestar suas opiniões, estando certa de que tal participação não será meramente burocrática e artificial. Para isso, o ambiente participativo não pode ser estruturado em um sistema rígido e hierarquizado, ao invés disso, deverá prevalecer a igualdade entre os participantes, considerando que em cada pessoa há um conhecimento necessário para aperfeiçoar a estrutura do SUS. O Caderno de educação popular e saúde (2007, p.28) dispõe:
Um elemento fundamental do seu método é o fato de tomar, como ponto de partida do processo pedagógico, o saber anterior do educando. No trabalho, na vida social e na luta pela sobrevivência e pela transformação da realidade, as pessoas vão adquirindo um entendimento sobre a sua inserção na sociedade e na natureza. Esse conhecimento fragmentado e pouco elaborado é a matéria prima da Educação Popular. Essa valorização do saber e dos valores do educando permite que ele se sinta "em casa" e mantenha suas iniciativas. Nesse sentido, não se reproduz a passividade usual dos processos pedagógicos tradicionais. Na Educação Popular, não basta que o conteúdo discutido seja revolucionário, mas que o processo de discussão não se coloque de cima para baixo.
Esse espaço de troca de conhecimento, proporcionado pelo debate, permite que governo, profissionais e usuários possam, em um processo empático, colocar-se no lugar do outro, percebendo suas dificuldades e compreendendo melhor o motivo de determinadas ações, que, até então, poderiam parecer arbitrárias. Com uma participação efetiva, os usuários deixam de ser meros receptores das ações do governo ou dos profissionais e passam a integrar a relação de construção do sistema de saúde de sua comunidade. E o meio eficaz para essa participação tem como lastro o diálogo.
Em contrapartida ao sistema de saúde adotado no período militar, surge um novo sistema, denominado de Educação Popular, trata-se de uma metodologia na qual se valoriza o diálogo com a comunidade usuária do serviço, bem como do conhecimento cultural desta como ponto de partida para a elaboração de políticas públicas específicas e, consequentemente, eficazes. Conforme o II Caderno de educação popular em saúde, do Ministério da Saúde (2014, p128/129):
Sua tarefa específica é relacionar o fazer (saber empírico) das pessoas com uma reflexão teórica (saber científico) e integrar a dimensão imediata (micro) com a dimensão estratégica (macro). É um processo educativo permanente que tenta concretizar suas convicções, princípios e valores, respondendo adequadamente em cada conjuntura. [...] A metodologia participativa é aquela que permite a atuação efetiva dos participantes no processo educativo, valorizando os conhecimentos e experiências dos participantes, envolvendo-os na discussão, identificação e busca de soluções para problemas que emergem de suas vidas.
Inicia-se um processo de valorização das diversidades existente entre as comunidades, levando em consideração essas diferenças para a propositura de ações governamentais, inclusive no que se refere às campanhas educativas. O Caderno de educação popular e saúde (2007, p.20) dispõe:
Nesse sentido, os conhecimentos construídos nessas experiências mais localizadas são fundamentais para o norteamento das práticas educativas nos grandes meios de comunicação de massa, se o objetivo e uma metodologia participativa. E preciso superar a atual situação em que as grandes campanhas educativas em saúde são organizadas por grandes empresas de comunicação bem pouco articuladas com o cotidiano de relação entre os profissionais de saúde e a população.
Segundo o Caderno de educação popular e saúde (2007), Paulo Freire foi o primeiro a sistematizar teoricamente o movimento da Educação Popular em seu livro Pedagogia do Oprimido (1966). No texto de autoria de Paulo Freire, Pacientes impacientes, ele apresenta alguns princípios que o escritor julga necessários aos educadores. O primeiro
trata-se de saber ouvir, uma vez que não se vive só no mundo, é preciso dialogar e desfazer a ideia de que o educador é o detentor da verdade. Este, juntamente com o educando, vão buscar a melhor solução para os problemas impostos, em uma troca real de conhecimento e vivência. O segundo princípio seria o de ¨desmontar a visão mágica¨, visão esta fruto da cultura de um povo, que na falta de conhecimento científico buscam, à sua maneira, formas de explicar as condições em que vivem. Esse princípio objetiva desmontar tal visão por meio do oferecimento do saber técnico. Porém, é importante que não se trate apenas de lançar a informação, mas de dar subsídios para que a própria comunidade consiga elaborar um pensamento crítico alcançando a compreensão sobre determinado assunto.
O terceiro princípio é o aprender\estar com o outro, do qual se depreende que não há pessoa que detenha todo o conhecimento ou que não tenha conhecimento nenhum. Cada um, em sua vivência, em sua experiência, é capaz de fazer constatações, que lhe proporcionam conhecimento de vida, criticidade. O quarto princípio é o de assumir a ingenuidade do educando, Paulo Freire levanta a necessidade do educador saber, ao perceber uma deficiência do educando, conduzir a situação de forma a não humilhá-lo. O último princípio é o ¨viver pacientemente impaciente¨, trata-se da necessidade de reconhecer que a transformação é um processo, muitas vezes demorado, por isso a necessidade da paciência. Entretanto, essa compreensão não pode ser utilizada como escusa a fim de que se deixe de lutar diária e vividamente a favor da mudança, por isso a impaciência se faz necessária.
Conforme o II Caderno de educação popular em saúde, do Ministério da Saúde (2014), em 2005 a Educação Popular em Saúde (EPS) foi implantada na Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa (SGEP), que em 2009, com o intuito de desenvolver esse processo de diálogo, criou, por meio da Portaria nº 1.256, do Ministério da Saúde, de 17 de junho de 2009, o Comitê Nacional de Educação Popular em Saúde (CNEPS). Tratam-se de reuniões periódicas que objetivam fortalecer a Educação Popular em Saúde.
Essa participação popular, em um ambiente propício ao diálogo e sem uma estrutura hierarquizada, proporcionará aprendizado, conhecimento, fortalecimento da democracia, tornando seus membros conscientes da estrutura na qual se encontram. Essa consciência é revolucionária e necessária para uma mudança natural, que não seja imposta. Para Bobbio (2015), a democracia gera a chamada revolução silenciosa, por meio do livre debate, que acarretará uma mudança de mentalidade.
O fortalecimento da democracia não se faz com teorias, mas na prática, com erros e acertos, buscando diariamente o progresso do instituto. Segundo Bobbio (2015, p.55), ¨... a
educação para a democracia surgiria no próprio exercício da prática democrática. Concomitantemente, não antes...¨.
Conforme o II Caderno de educação popular em saúde, do Ministério da Saúde (2014, p.130):
Nessa perspectiva o processo por si capacita e qualifica política e tecnicamente, os sujeitos através da experimentação e apropriação do conteúdo e do modo de fazer; fortalece ações coletivas no enfrentamento dos seus problemas e na construção de soluções que expressem o poder da população e incentiva a construção de espaços de participação popular, gestão democrática e participativa, afirmação da cidadania ativa, ampliação dos direitos e processos de controle social e de democratização do Estado apontando para a emancipação e a construção de um projeto popular de transformação social.
Sobre o tema, esclarece Maria da Glória Gohn (2011, p.67):
... o exercício da democracia, em nome da cidadania de todos, é um processo, não uma engenharia de regras. Como tal, ele demanda tempo, é construído por etapas de aproximação sucessivas, em que o erro é (ou deveria ser) tão pedagógico quanto o acerto.
A metodologia dialética, utilizada na Educação Popular, permite o fortalecimento da democracia. Trata-se de um ciclo, o debate fortalece a democracia e essa permite um diálogo cada vez mais profundo e amadurecido. Um depende do outro, não há democracia sem participação popular. O diálogo, em uma estrutura autoritária, não passa, muitas vezes, de manobra política a fim de disfarçar o autoritarismo. Nesse último caso, o debate não é livre, mas manipulado, dando uma falsa ideia de democracia.