Em suas reflexões sobre o cômico do discurso, Olbrechts-Tyteca (1974, p. 17-20) propõe que o cômico pode se situar em diferentes níveis, concernentes, por sua vez, a três diferentes perspectivas, a saber:
A relação entre os diferentes planos do objeto cômico: num primeiro nível, o
cômico age sobre as condições da argumentação, sobre os esquemas e sobre os tipos raciocínios; num segundo nível, o cômico age sobre a retórica, ela própria,
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sendo essa parodiada; e um terceiro nível, no qual a retórica é ridicularizada enquanto ciência ou técnica;
A relação entre o objeto e o pensamento a respeito do objeto, o que se dá em dois níveis: o primário, no qual o cômico mostra, diz, trata; e o secundário ou reflexivo, no qual o cômico é compreendido. Assim, se se leva em consideração a conivência que o riso da retórica exige por meio do uso de argumentos e esquemas, deve-se pensar, então, que grande parte disso foi formulada de forma implícita, mas que, ao mesmo tempo, é passível de ser descrito como numa argumentação normal;
As relações entre os auditórios, pelas quais se pode perceber o cômico nas ações
maliciosas e nas reações entre os parceiros a partir da diferença entre os atos de interpelar e de responder, de atacar e de revidar.
Como o nosso objetivo não é especificamente analisar o cômico da retórica, mas sim o
DH e os seus múltiplos sujeitos, nos restringiremos ao entendimento das relações entre
os auditórios, explorando seus diferentes níveis257. Tomemos o exemplo (1):
— Por que esse frango está magro? Dizia o autor dramático D., a um garçom
que o servia.
— Meu senhor, ele é de Mans, fala o garçom se gabando! — Então, ele veio a pé, responde D. 258
De acordo com Olbrechts-Tyteca (1974), os interlocutores, no exemplo (1), se encontram em níveis diferentes: no primeiro nível se encontra o garçom – primeiro a ser interpelado; no segundo, o senhor D. Todavia, como se trata de uma narrativa, ela está logicamente endereçada a outrem, isto é, a um auditório de terceiro nível. Tendo em vista perceber onde está o cômico da retórica, Olbrechts-Tyteca propõe que é possível
reduzir tal historieta a um aforismo do tipo: “Os frangos de Mans são sempre fartos em
257Lembra a autora que “essas perspectivas não são completamente independentes, mas os níveis devem
ser considerados separadamente em cada uma delas” (OLBRECHTS-TYTECA, 1974, p. 17 – tradução
nossa). No original: “Ces trois perspectives ne sont pas tout à fait indépendantes, mais les niveaux en chacune d’elles doivent être envisagés séparément”.
258No original: “— Que ce poulet est maigre! disait l’auteur dramatique D., à un maître d’hôtel qui le
servait. — Monsieur, il arrive du Mans, fait le maître d’hôtel en se rengorgeant! — Alors, il est venu à
186 carne, salvo quando eles vêm a pé ao mercado”259. Entretanto, esse procedimento não
nos proporcionaria perceber “as ações maliciosas e as reações entre os parceiros”260
(OLBRECHTS-TYTECA, 1974, p. 17-18 – tradução nossa). De fato, essa percepção da presença dos auditórios contribui para vislumbrar melhor as fontes do cômico. Avancemos com mais um exemplo (2):
A bela Pamela, que há muito tempo não dirigia, diz à Doris:
— Você sabia, o guarda de trânsito que me pegou em contravenção foi
verdadeiramente amável.
— Como assim?
— Tipo assim! Imagine você que ele me perguntou se eu desejaria que a
comunidade trocasse de lugar para mim todos os postes de iluminação pública261.
Aqui, a fonte do cômico deve ser percebida na acolhida e na interpretação de uma resposta potencialmente cômica. De acordo com Olbrechts-Tyteca, nós (leitores), embora sejamos um auditório de terceiro nível, não sabemos a resposta de Doris e, por consequência, estamos (sentimos, nas palavras da autora) mais afastados em relação à cena entre Pamela e o agente do que em relação à cena entre o senhor D. e o garçom. Segue que a presença de um terceiro personagem no diálogo, além de potencializar esse
afastamento, oferece as bases para a constituição de um auditório de nível superior.
Vejamos o exemplo (3):
Uma mulher diz a um humorista: Como você é feio, meu caro senhor!
— Eu conheço, entretanto, uma mulher que estaria disposta a pagar 10.000
dólares para me ver.
— ?
— Sim, ela é cega.
— Coitada! (diz um Judeu alemão)262
.
O comentário do judeu alemão, como observa Olbrechts-Tyteca (1974, p. 18), parece fazer rir a um auditório de quarto nível, uma vez que essa personagem, anormalement
259 No original: “Les poulets du Mans sont toujours bien en chair, sauf quand ils viennent à pied au
marché”.
260No original: “[...] les malicieuses actions et réactions entre partenaires”.
261No original: “La jolie Paméla, qui ne conduit pas depuis très longtemps dit à Doris:— Tu sais, cet
agent qui m’a collé une contravention a été vraiment aimable. — Comment cela? — Eh bien! figure-toi
qu’il m’a demandé si je désirais que la commune déplace tous les réverbères pour moi.” (OLBRECHTS-
TYTECA, 1974, p. 18 – tradução nossa)
262No original: “Une femme dit à un humoriste: Comme vous êtes laid cher Monsieur. — Je connais
pourtant une femme qui était prête à donner 10.000 dollars pour me voir. — ? — Oui, elle était aveugle.
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sérieux263, “se singulariza dentro do auditório de terceiro nível ao qual a história foi
endereçada”264. Como postula a autora, essa personagem representa, nas históricas
cômicas, o ataque à capacidade de compreensão do riso (em muitos casos, estereotipada) por determinado grupo como, por exemplo: o judeu alemão na França; os escoceses para os ingleses; os brancos entre os negros etc. Essa atitude de julgar o outro faz com que essas personagens colaborem para a constituição do auditório de nível
superior.
Em síntese, a proposta de Olbrechts-Tyteca (1974) nos proporciona visualizar quatro níveis de auditórios onde o cômico pode ser percebido no discurso: i) primeiro e
segundo níveis, entre os personagens-interlocutores diretos; ii) terceiro nível,
configurado como o auditório para o qual um ato cômico é relatado (leitores e/ou ouvintes); e iii) quarto nível, que, na verdade, é o auditório de terceiro nível movido por um afastamento devido à presença de uma personagem anormalement sérieux. No discurso, essa personagem tem a função de apresentar (explicita ou implicitamente) a acolhida/rejeição e, por vezes, a não compreensão do cômico (julgada a partir de
estereótipos) pertencente a um “ser” em relação a um dado grupo.
Dentro desse panorama, quando se expõe a presença do auditório de terceiro nível e o
afastamento que esse auditório pode/poderia ter em relação à cena do diálogo, essa
proposta tem o mérito de apontar para o que acontece internamente e externamente no discurso. No entanto, como os planos situacional (ou comunicacional) e discursivo (ou enunciativo) não estão claramente delimitados, as instâncias do discurso (internas, externas, presentes, ausentes) parecem causar confusão a respeito de quem faz rir e
quem ri de quem.
263 Devido à dificuldade de verter para o português com o sentido proposto pela autora, isto é, dizer que
uma personagem é “séria de uma forma muito anormal”, preferimos deixar, no nosso texto, a expressão
em francês.
264 No original: “[...] se singularise dans l’auditoire du 3 niveau auquel l’histoire était prétendument
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