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No item anterior, vimos que, para melhor visualizar como se processa a enunciação no

enunciado, Maingueneau trabalha a metáfora teatral de “cenas de fala”, mais

especificamente cenas de enunciação. Essas cenas, de acordo com o autor (2006e, p. 95), possuem caráter, ao mesmo tempo, construtivo e institutivo, ou seja, por meio delas, a enunciação pode acontecer num espaço instituído pelo gênero e, simultaneamente, instaurar seu próprio espaço de enunciação no universo de discursos de uma dada sociedade. Com base nisso, Maingueneau (2004b, p. 48-49) e (2006e, p. 96-97) propõe que os textos, de um modo geral, podem apresentar três cenas distintas, a saber:

 Cena englobante: “aquela que corresponde ao tipo de discurso. Quando

recebemos um panfleto na rua, temos, geralmente, capacidade para determinar

200 O conceito de replicação (e seus correlatos réplica e replicante) pode assumir diferentes acepções

dependendo do campo semântico no qual ele é aplicado. No campo da Retórica, entende-se por

replicação o direito de retrucar (replicar) certos tipos argumentos, contestando alegações feitas pelo

adversário. No campo da Biologia, considera-se que a replicação diz respeito à duplicação da molécula de ADN (ácido desoxirribonucleico, em inglês, DNA). Daí, dizem-se replicantes as cópias de ADN

produzidas a partir de outra molécula como molde. Já no campo das Belas Artes (pintura, escultura...), denominam-se réplicas as cópias ou as imitações de determinadas obras ou de traços dessas (HOUAISS, 2009). Em nosso percurso, assumimos uma ampliação desse conceito no campo da Science Fiction (SCI-

FI). Tomando como base o conflito descrito no romance Do androids dream of electric sheep? (em português: Blade Runner: perigo eminente), no qual androides “fabricados” à imagem e semelhança do homem, porém mais fortes e agressivos, reivindicam, além dos direitos civis dos humanos, mais tempo de vida – eles só duravam poucos anos (cf. DICK, 1968), o diretor Ridley Scott tece o conceito de

replicantes para a sua adaptação cinematográfica do romance (SUPPIA, 2008, p. 2). Com replicantes,

Scott substituía o conceito de androide, muito em voga na época. Esse conceito já se encontrava muito desgastado e, devido à estética de film noir desejada por Scott para o mundo sombrio e futurista de Blade

Runner, se aplicava com certas dificuldades a seres fabricados biologicamente em série. Além disso,

podemos dizer que, com replicantes, Ridley Scott amplia, de certo modo, as discussões, tanto em Filosofia quanto em Literatura SCI-FI, a respeitos dos conceitos de cyborg, de androide e, também, de

clone, ao abordar o desconforto e a desconfiança da sociedade diante de um desenvolvimento tecnológico

acelerado e desordenado, particularmente, quando voltado para fins bélicos. A partir disso, observamos no DH, ou melhor, nos gêneros e nos textos por ele engendrados, certas semelhanças com os replicantes. Como esses, os gêneros e os textos humorísticos possuem as características da duplicação (de gêneros e de textos pela imitação), da força (no caso, argumentativa) e da durabilidade (ligada, em alguns casos, à brevidade dos gêneros e dos textos tidos como humorísticos). Além disso, acreditamos que o conceito de

replicação consegue, de certo modo, melhor circunscrever a capacidade do DH em imitar, ou melhor, em

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se ele é oriundo de um discurso de tipo religioso, político, publicitário... ou seja, temos uma noção da cena englobante que nos é necessária para interpretar o

panfleto em questão e notar de que maneira ele interpela o leitor”;

 Cena genérica: aquela “definida pelos gêneros de discurso particulares. Cada

gênero de discurso implica, com efeito, uma cena específica: papéis para seus parceiros, circunstâncias (em particular um modo de inscrição no espaço e no

tempo), um suporte material, um modo de circulação, uma finalidade etc.”;  Cenografia: aquela que “não é imposta pelo tipo ou pelo gênero de discurso,

mas pelo próprio discurso”. Nesse passo, podemos afirmar que a “cenografia

tem por função fazer passar a cena englobante e a cena genérica para o segundo

plano”. Com efeito, assume-se que certos “gêneros exigem a escolha de uma

cenografia [...]. É o caso, por exemplo, dos gêneros ligados ao discurso publicitário: certas propagandas exploram cenografias de conversação, outras de

discurso científico etc.”

Embora essas cenas possam ser consideradas, metodologicamente, distintas entre si, Maingueneau sublinha que há uma forte imbricação entre elas. Tanto é assim que as cenas englobante e genérica formam uma espécie de “quadro cênico”, no interior do qual o texto, pragmaticamente falando, está em conformidade201 (MAINGUENEAU,

2004b, p. 49). No entanto, certos tipos de discursos como, por exemplo, o publicitário e o literário, podem engendrar as mais variadas cenografias em seus textos. Mesmo assim, esses textos permanecem com suas cenas englobantes prototípicas, pois o contrato de comunicação deve ser percebido enquanto publicidade (cf. comercial da pick-up Fiat Strada 2013) e literatura (por exemplo, o Werther de Goethe) para que as finalidades sejam atingidas.

201 Nesses termos, devemos, também, admitir que a ideia de quadro cênico se aproxima, em muito, dos

conceitos de frames e de script, oriundos da psicologia linguística textual. Em linhas gerais, como explica Chabrol (2006b, p. 441-442), as noções de script (“esquema”) e frames (“quadros”) estão ligadas à capacidade cognitiva e mnemônica de percepção das regularidades linguísticas, discursivas e situacionais

presentes em textos e em eventos. Nesse sentido, os conhecimentos assim armazenados “podem ser

utilizados para construir expectativas que, sem dúvida, orientam parcialmente os processos de pré-

programação na percepção, ação e compreensão dos textos ou das imagens”. Nesse sentido, continua

Chabrol, podemos considerar que os frames dizem respeito às situações (de enunciação) “conhecidas”; e os scripts, a uma sucessão de frames em sequência.

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Por outro lado, há certos textos nos quais o processo de percepção das cenas englobantes pode se apresentar nebuloso e confuso. Nesses casos, embora a tendência seja acionar a cena englobante mais recorrente, alguma coisa nos diz que essa cena não corresponde à finalidade e às visadas passíveis de ser percebidas no texto. Assim sendo, devemos supor que a noção de imitação (por captação ou por subversão), de certo modo, incide tanto sobre gêneros e textos quanto sobre a estrutura do tipo de discurso, ou melhor dizendo, sobre a sua cena englobante, numa espécie de pluri-isotopia202 não

somente textual, mas sim discursiva. Tal processo, que denominamos – ad hoc – de

replicação, pode ser percebido em certas obras humorísticas que parecem exigir o

acionamento, em diferentes momentos, de cenas englobantes de outros tipos de discurso. Vejamos um exemplo.

Em História do Brasil pelo método confuso (HBMC), Fradique (2004) faz um relato

humorístico e “confuso” dos principais acontecimentos históricos do País, desde o seu “descobrimento” até as primeiras décadas do século XX. Fatos, heróis, pessoas

importantes e características gerais das terrae brasilis são apresentados de modo cômico e satírico, porém nos moldes dos livros didáticos das escolas primárias da época.

Marcada também pelo método confuso, a HBMC se estrutura, desde as suas páginas pré- textuais, de modo semelhante às obras didáticas do final do século XIX e início do XX.

De cara, Fradique erige uma lista de suas obras publicadas e a publicar – mas que o autor nunca publicou nem viria a publicar –, merecendo destaque o Dicionário de rimas

riquíssimas e pobríssimas e a História do fim do mundo, cujo exemplar único,

datilografado, o autor vendeu ao barbeiro da esquina para limpar navalhas (FRADIQUE, 2004, p. 35-36). Na sequência dessa pseudo lista, segue-se mais um engodo de Fradique: com nomes falsos e com pastiches dos críticos da época, o autor elogia, rebate argumentos negativos e, ao mesmo tempo, tece críticas à própria HBMC, como, por exemplo, uma carta – apócrifa – de Rui Barbosa escrita do “seu” próprio punho. Já no prefácio à 3ª edição, Fradique explica que:

202 Podemos afirmar que os textos tendem a apresentar, na maioria das vezes, um plano isotópico que os

mantêm ligados a um determinado domínio temático, como, por exemplo, o domínio da saúde, da política, do sexo, da moral etc. (CHARAUDEAU, 2006a). No entanto, certos textos, como os poéticos e em especial os humorísticos, podem fazer coexistir, num mesmo texto, dois (ou até mais) planos isotópicos por meio de conectores e/ou desencadeadores de isotopia, instaurando, por sua vez, diferentes tipos de incoerência no plano semântico do texto (cf. apêndice B).

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Sendo a história uma série contínua e coordenada de deturpações mais ou menos originais do que em verdade se passa no seio dos homens através do tempo e do espaço; sendo essas deturpações, às vezes, tão profundas que repelem para os domínios da lenda fatos absolutamente reais e fantasticamente adulterados para a imaginação das gerações, como acontece com os primeiros tempos da Grécia e Roma; – tomei a deliberação humaníssima de poupar à posteridade esse trabalho fastigioso de desordenar e mascarar a história, no que se refere a este país de desfalques e conselheiros. (FRADIQUE, 2004, p. 54)

Nesse passo, de modo semelhante ao que já havia feito na sua GPMC, o autor justifica a aplicação do método sobre a ciência da História, preparando, assim, o espírito do leitor para a leitura da HBMC.Desse ponto, tem-se início o texto propriamente dito, ou melhor dizendo, não tem início, pois o capítulo primeiro, dedicado à situação de Portugal em

“1$500”, se encontra em branco (FRADIQUE, 2004, p. 59). Segue-se então, no capítulo

segundo, os motivos que levaram os portugueses e, em especial, Pedro Alvares Cabral a empreenderem a viagem para cá: um telegrama da United Press avisando sobre extinção do comissariado no Brasil. Assim, no dia 9 de março, a tropa de Cabral parte do Tejo em dez calhambeques ex-alemães, tendo, entre outros tripulantes, Sancho Pança (como imediato de Cabral), alguns repórteres, uns penetras e uma galinha-d’angola.

A chegada ao País se dá no dia 21 de abril. No desembarque, Cabral é recebido como qualquer outro embaixador latino no Rio de Janeiro: banalmente e sem nenhum alarde. Já a galinha-d’angola foi recepcionada por uma comissão composta pelos Srs. Pinto Rocha, Pinto Lima, Rocha Pombo, Bulhão Pato e sportman Gallo. Cabral e sua tropa foram alojados, provisoriamente, num albergue noturno – uma mistura de hotel, bordel e meretrício. Depois de um curto passeio de automóvel pelo o Rio de Janeiro, Cabral retorna ao albergue noturno onde se depara com um sujeito enforcado: era Tiradentes, condenado à morte pela forca por ter sido considerado maximalista203

e, juntamente com Dom Pedro I, ter conspirado para revolta da esquadra que levaria à Independência no dia 7 de setembro. Na manhã do dia seguinte, Cabral parte para um passeio para reconhecer a terra, encontrando-se por acaso com um patrício, o Basílio, primo da Luísa, que o leva de bonde até um lugar especial: um paraíso – novamente uma espécie de meretrício ou bordel...

203

Segundo Lustosa (1993), maximalistas seria uma tradução literal da palavra russa bol’chevík, que, na

HBMC, reuniria, sob o mesmo rótulo e, às vezes, no mesmo fato, personalidades de diferentes épocas ligadas a diferentes tipos de levantes ou de revoluções.

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Por essas poucas linhas, podemos afirmar, junto com Lustosa (1993, p. 127), que a característica mais marcante do texto de Fradique é o fato de que ele conta a História do

Brasil numa espécie de movimento narrativo pancrônico, ou seja, diacronicamente, “a

narrativa obedece ao modelo tradicional. No entanto, num movimento sincrônico, faz com que esta história tradicional aconteça num Brasil contemporâneo”. Como já vimos, essa característica é muito semelhante à estratégia narrativa presente na Coena

Cypriani. No caso específico da HBMC, assim como Cabral, várias outras figuras históricas e mesmo personagens ficcionais consideradas como heróis (Tiradentes, Antônio Conselheiro, Caramuru, Paraguaçu, Peri, D. Pedro I, D. Pedro II, Inês de

Castro, Deodoro de Fonseca, D. João “Cesto”, Carlota Joaquina, Jeca Tatu, Mem de Sá,

entre outros), passam a “viver” o dia a dia do Rio de Janeiro, no que Lustosa (1993, p. 130) considera uma espécie de banalização do herói, agora com hábitos e atitudes familiares. Hábitos e atitudes perfeitamente passíveis de análise numa histórica pelo método confuso, pois:

Se dermos atenção demorada a certos procedimentos registrados na história dos homens, teremos que nos perder em considerações de ordem filosóficas, perfeitamente dispensáveis, ao preço do café, mas em todo caso interessantes pela sua superfutilidade. (FRADIQUE, 2004, p. 114)

Depreende-se do arrazoado acima que a HBMC, além de fazer surgir vários tipos de incoerência (loufoquerie, insólita e paradoxal) com o seu movimento narrativo pancrônico, exige que a cena englobante do discurso didático-pedagógico, típica dos livros didáticos e dos manuais escolares, “conviva” com outra cena englobante que nos diz que o texto deve ser lido e entendido como um texto de humor. Ou seja, não podemos dizer que, ao assumirmos o contrato humorístico durante a leitura da HBMC, a cena englobante do discurso didático-pedagógico foi abandonada. Pelo contrário, acreditamos que essa cena anda pari passu com uma outra, que a replica, para dar forma204 à cena englobante do DH.

204 Sobre a capacidade proteiforme dos dispositivos do

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Cabe ressaltar que esse acionamento de cenas englobantes pode acontecer em momentos diferentes da leitura (lato sensu) de um texto. Grosso modo, diremos que esse acionamento pode se dar de dois205

modos:

 Incoativo: indica que a cena englobante humorística é apresentada desde o início

da leitura. No entanto, a cena englobante do discurso replicado também é acionada, de modo a dar sustentação às distorções propostas pela imitação (por captação ou por subversão);

 Contínuo: indica que a cena englobante humorística vai se construindo

gradativamente durante a leitura por meio de um acúmulo de deduções lógicas

e/ou de reinterpretação de inferências.

No modo incoativo, além da HBMC, podemos incluir como exemplos desse acionamento as obras: a Grammatica portugueza pelo methodo confuso (cf. FRADIQUE, 1984);

Feira livre: antologia das letras nacionais pelo método confuso (cf. FRADIQUE,

1923); Mulher: manual do proprietário (cf. TELES, s.d.); Homem: manual da

proprietária (cf. TELES, 2002); Dicionário humorístico (cf. MASUCCI, 1958); e a Casa da Mãe Joana (cf. PIMENTA, 2002). Nessas obras, a cena englobante do discurso

replicado (no caso, o didático e o literário) e a cena humorística são acionadas,

simultaneamente, no mesmo momento em que o contrato de comunicação também se

estabelece, o que pode se dar por meio de um título ou pelo reconhecimento da cena

genérica (no caso, um manual, uma gramática, uma antologia, um dicionário, uma

enciclopédia) e/ou de um texto específico (no caso específico da HBMC, o texto de Rocha Pombo206). Dessa forma, o leitor é preparado, avisado de que o texto é uma

205 Num primeiro momento, ficamos inclinados a considerar três modos de acionamento, incluindo,

assim, um modo Pontual. Esse modo indicaria que a cena englobante humorística seria acionada,

abruptamente, em um determinado momento do texto, normalmente no final, assemelhando-se, desse

modo, a uma guilhotina mental (que reverte, drasticamente, as expectativas dos leitores/ouvintes) ou a um

solavanco mental (que desata os nós e proporciona uma leve surpresa seguida de um alívio de tensão)

(SALIBA, 2012, p. 19). Com efeito, poderíamos agrupar, nesse modo, certas narrativas, mais ou menos longas, nas quais o leitor/ouvinte somente perceberia a cena englobante humorística no momento do desenlace (como nas crônicas ou no teatro) ou da moral (no caso de algumas fábulas). Contudo, o fato de que, nessas narrativas, o acionamento fica restrito a um momento pontual cria dificuldade para que se distinga se o que temos é realmente um acionamento de uma cena englobante humorística ou se se trata de um ACH utilizado como estratégia discursiva num dado gênero literário ou publicitário, por exemplo.

206

Em prefácio à 3ª edição, Fradique (2004, p. 54) afirma que, diante da inveja e do despeito pela adoção da HBMC nas casas oficiais de ensino, seus concorrentes deveriam praticar sobre sua a obra o que ele,

149 “armadilha”, obrigando-o a uma leitura mais atenta, pois, de um modo geral, “ele quer

rir e entender a piada, participar da comunidade do riso” (LUSTOSA, 1993, p. 161).

Já para o modo contínuo, podemos citar Uma modesta proposta para prevenir que, na

Irlanda, as crianças dos pobres sejam um fardo para os pais ou para o país, e para as tornar benéficas para a República(SWIFT, 1729). Considerado, em seu tempo como um humorista de espinhos por fora e rosas por dentro (ESCARPIT, 1972, p. 42 et seq.),

Swift elabora uma “proposta” ou, nas palavras do próprio autor, um “método justo, barato e fácil” para resolver o problema das crianças pobres da sociedade irlandesa de

meados do XVIII. O texto, nos moldes de um artigo de sociologia política ou de econômica, discute a impossibilidade de uma grande parte das mães daquele país conseguir sustentar seus filhos, que, por sua vez, têm como futuro se tornar ladrões, emigrantes, ou ingressar no exército inimigo. Assim, num tom academicista quase estatístico-matemático, Swift apresenta, primeiramente, as benesses do seu “método”: i) evitar grandes gastos com alimentação, uma vez que as crianças com até um ano se suprem muito bem com leite materno; ii) impedir atos de barbárie como os abortos e os assassínios de filhos bastardos; e iii) contribuir para alimentação e vestuário de milhares na Irlanda. Em seguida, Swift demonstra que há sim condições favoráveis à aplicação

do seu “método”:

Sendo o número de almas neste reino normalmente avaliado em um milhão e meio, calculo que entre estas devem existir cerca de duzentos mil casais cujas mulheres são férteis. Deste número subtraio trinta mil casais com meios para manter os seus próprios filhos embora, dadas as actuais misérias da nação, eu julgue que não possam existir tantos. Todavia, assegurado isto, restarão cento e setenta mil parideiras. De novo subtraio cinquenta mil por conta das mulheres que abortam, ou cujos filhos morrem por acidente, ou doença, durante o primeiro ano. Restam apenas cento e vinte mil filhos de pais pobres a nascer por ano. (SWIFT, 1729, p. 2)

Diante disso, Swift pode, agora, expor sua “proposta”:

Foi-me garantido por um muito sábio americano do meu conhecimento, em Londres, que uma criança jovem e saudável, bem alimentada, com um ano de idade, é do mais delicioso, o alimento mais nutriente e completo – seja estufada, grelhada, assada, ou cozida. E não tenho qualquer dúvida de que

poderá igualmente ser servida de fricassé ou num “ragout”’. (SWIFT, 1729,

p. 3)

da mentira”. Essa obra seria Nossa pátria: narração dos factos da história do Brasil, cuja primeira edição

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Segue-se, então, uma sequência de argumentos, não menos estapafúrdios, que procuram validar essa tese como, por exemplo: i) o tipo de público-alvo: pessoas de qualidade e fortuna pelo reino a fora; ii) o rendimento: uma criança rendendo duas porções para festas ou um quarto da frente ou detrás para uma família jantar sozinha; iii) a conservação: até 4 dias, no inverno, à base de sal e pimenta; iv) o aproveitamento da

“carcaça” para confecção de luvas e de botas etc. Como se pode notar, no texto de

Swift, a cena do discurso científico da sociologia e da economia não é abandonada em prol da cena humorística. Pelo contrário, essa última vai sendo instituída passo a passo, criando um real discursivo que possibilite a Swift criticar a burguesia ascendente, o papismo que infectava o país, e as condições precárias de vida na sociedade irlandesa.

É necessário salientar ainda que, embora seja possível distinguir os modos incoativo e

contínuo, o acionamento das cenas englobantes ditas humorísticas pode ser

potencializado ou atenuado pela percepção da instância discursiva que produz o

discurso:

Os Sonacirema são um grupo norte-americano que vive no território entre os Cree Canadenses, o Yaqui e Tarahumare mexicanos, e os Carib e Arawak das Antilhas. Pouco se sabe sobre sua origem, embora a tradição diga que vieram do leste. [...] A cultura Sonacirema é caracterizada por uma economia de mercado altamente desenvolvida que evolui em um rico habitat natural. Embora as pessoas dediquem um bom tempo às atividades econômicas, a maior parte dos frutos desses trabalhos e uma porção considerável do dia são gastos em rituais. [...] A convicção fundamental subjacente a todo o sistema parece ser a de que o corpo humano é feio e de que a sua tendência é a debilidade e a doença. Encarcerado em tal corpo, a esperança do homem é evitar essas condições pelo uso das poderosas influências do ritual e da