Dos trinta entrevistados, dezenove moram em repúblicas gays na cidade de Viçosa. Os homossexuais do grupo da “Roda” tiveram na identidade homossexual e na identidade dada pelo curso de Ciências Sociais elementos agregadores que os levaram a morarem juntos, a partir da constituição de repúblicas. Além destas, o grupo associou outras repúblicas gays na cidade como também promotoras de festas gays. As mais lembradas nas entrevistas foram às festas nas repúblicas do Flat Center, prédio localizado no centro da cidade.
Na pesquisa de Bissaco (2009) a identidade gay era um elemento que levava os estudantes a se agregarem. À época o estudo apontou dois apartamentos no alojamento
“Novíssimo” da UFV que se constituíam em territórios gays, cuja lógica interna e regras
eram orientadas pelos homossexuais residentes. Constatou-se também que o principal motivo para estes sujeitos irem morar num apartamento com outros gays era o sentimento de proteção e companheirismo que ali poderiam encontrar, mesmo podendo sofrer algum tipo de retaliação por parte de outros moradores vizinhos.
Na minha atual pesquisa, entrevistei outros moradores destes apartamentos, que continuam sendo ocupados por estudantes homossexuais. A dificuldade deles serem aceitos pelo restante da comunidade universitária, por residirem num apartamento declaradamente homossexual, também continuaram. A fala de César, morador de um dos apartamentos é reveladora disso: “tem só um pessoal aqui do lado que tenta ofender a gente, mas nós não consideramos”. Ainda segundo ele:
Consegui entrar num quarto também sabendo que era um quarto homossexual. A princípio eu não queria. Queria ir para um quarto hétero, aprender a viver com hétero, mas nas entrevistas eu estava com dificuldade de achar quarto, eu precisava logo, não conseguia mais ficar naquelas condições precárias do Hilton, aí eu acabei procurando vaga aqui nesse quarto e no outro aqui do alojamento que
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também é gay pra ter mais chance. [...] O Pós é homofóbico. Lá os gays são obrigados a se esconderem. Lá eles não podem se assumir, levantar, pegar a bandeira por que lá eles são recriminados. Eu tive amigo gay que saiu de lá por lá ser homofóbico. [...] No momento que fui aceito nesse quarto, fui aceito em dois outros quartos héteros também, aí eu pude escolher, aí eu já pensei em qual eu me sentiria mais a vontade e em qual eu teria uma qualidade de vida melhor. [...] Descobri que embora tivesse pouco quarto gay aqui, a gente estava circundado de homossexuais. (César, 20 anos)
Este relato mostra ainda outro problema enfrentado pelos homossexuais nos alojamentos. Para ser aceito em um apartamento é necessário, na maioria das vezes se submeter a uma entrevista com os veteranos antes de os calouros terem garantida a sua
“admissão”. Nesta entrevista o candidato à vaga é questionado sobre sua sexualidade.
Ai se cria um impasse, porque se se falar a verdade, acaba-se não sendo aceito, e se se omitir a verdade, tem-se que arcar com as consequências, que neste caso é uma vida
“dentro do armário”. Este foi o caso de Tomás, que mora no alojamento Pós e precisou
omitir sua sexualidade para ser aceito.
Estas entrevistas são mais comuns nos alojamentos Pós e Posinho. Sendo assim, se um homossexual objetivar entrar num apartamento destes dois prédios de alojamentos, seria, em tese, necessário que ele mentisse e, por consequência, negasse sua orientação sexual. A pressão social feita pelos heterossexuais nos alojamentos se faz perceber em demasia, o que poderia explicar o fato de que, dos sete moradores de alojamento na UFV que participaram da pesquisa, apenas um (Tomás) não ser do Novíssimo. Se assumir enquanto homossexual pode resultar numa expulsão do apartamento. Esta opressão realizada pelos heterossexuais é o que Bourdieu (1995) discute como forças da
estrutura social na “normalidade” da vivência coletiva.
Contudo, para aqueles que assumiram sua identidade sem problemas, o único lugar mais tolerante é o Novíssimo, onde existem apartamentos gays e a aplicação de entrevista não é uma regra. Os moradores homossexuais deste alojamento são amigos entre si, saem juntos, vão a festas juntos e muitos até “se pegam”. Por isso, constituem o grupo do “Alojamento”, já descrito anteriormente.
A gente foi se juntando, se descobrindo, se conhecendo e agora eu só ando, na maior parte do tempo com os homossexuais daqui, que é minha rede fixa de amigos mesmo, que eu posso contar todas as coisas, a gente se apoia bastante. (César, 20 anos)
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Esses aspectos reforçam o que Santos (2007) apontou: de que a identidade se fortalece no grupo. Segundo esse autor, os sujeitos buscam afirmação de si e de sua identidade, além da construção de diálogo e sociabilidade através das experiências cotidianas que se apresentam em grande variedade, e que dependem de fatores como a classe social, escolaridade, entre outros.
Em relação aos demais alojamentos (Velho e Feminino), não houve nenhuma outra menção dos entrevistados de outro apartamento ocupado, de forma exclusiva, por homossexuais. No passado, segundo os relatos havia um apartamento no alojamento Velho que era de formação lésbica, mas foi se desfazendo e hoje moram duas lésbicas e duas heterossexuais. Não encontramos nas entrevistas indícios para esta quase ausência de quartos com moradoras exclusivamente lésbicas nos alojamentos.
As figuras 03 e 04 abaixo localizam alguns espaços na cidade de Viçosa e no campus da UFV que são frequentados pelos homossexuais universitários. Contudo, estes não são os únicos. Os territórios mais fluidos, como as festas que acontecem em alguns sítios nos arredores da cidade, como na Chácara das Palmeiras, não estão presentes. As repúblicas também não estão referenciadas, exceto as que estão no Flat Center.
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Figura 04: Alguns espaços frequentados por gays e lésbicas no campus da UFV.