PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Este trabalho é uma pesquisa que tem por base empírica leis e portarias emitidas pelo Governo Federal e documentos elaborados pelo Ministério da Administração e Reforma do Estado (MARE). O caminho a ser percorrido será o da análise desses documentos.
LÜDKE; ANDRÉ (1986, p.38), citando CAULLEY, caracterizam a análise documental como aquela que “busca identificar informações factuais nos documentos a partir de questões ou hipóteses de interesse”. Esses autores também apontam as vantagens desse procedimento a partir de Guba e Lincoln (p. 39). São elas: a) sua natureza de fonte “estável e rica”; b) fornecem “evidências que fundamentam afirmações e declarações do pesquisador”; c) os documentos além de se constituírem em fonte “natural”, são uma fonte de informação ‘contextualizada’ pois, além de emergirem num determinado contexto, também “fornecem informações sobre esse mesmo contexto”; d) é uma “fonte não-reativa”, o que no caso deste estudo contribui significativamente para evitar um possível viés do pesquisador. No mesmo trabalho, desta vez apropriando-se da contribuição de Holsti, apresentam três situações em que a análise documental é adequada, vindo uma delas ao encontro da natureza deste estudo (p. 39):
“Quando o interesse do pesquisador é estudar o problema a partir da própria expressão dos indivíduos [ou das instituições], ou seja, quando a linguagem dos sujeitos é crucial para a investigação (...)” .
Como desvantagem, os autores apontam (p. 40): a) “que os documentos são amostras não representativas dos fenômenos estudados”; b) “sua falta de objetividade e sua objetividade questionável”; e, c) “representar escolhas arbitrárias, por parte de seus autores”. Como o material básico da pesquisa constituí-se de leis e portarias em vigor, e, em princípio, enquanto leis e
portarias devem se caracterizar por clareza e objetividade em suas redações, essas objeções não são pertinentes neste caso.
2.1 Fontes documentais
Os documentos a serem utilizados são a legislação da saúde e aquelas que tratam da reforma do Estado brasileiro. São eles:
1) Constituição Federal da República do Brasil.
2) Lei Orgânica da Saúde: lei n. 8.080/90. E Lei n. 8.142/90.
3) Portaria n. 2.203 de 5 de novembro de 1996. (Norma Operacional Básica do Sistema Único de Saúde 01/96).
4) Lei n. 9.637, de 15 de maio de 1998, que dispõe sobre a qualificação de entidades como organizações sociais, a criação do Programa Nacional de Publicização, a extinção de órgãos e entidades que menciona e a absorção de suas atividades por organizações sociais, e dá outras providências.
5) Portaria n. 3.925, de 13 de novembro de 1998, que aprova o Manual para Organização da Atenção Básica no Sistema Único de Saúde.
6) Portaria n.1.886/GM de 18 de dezembro de 1997, que aprova as normas e diretrizes do Programa de Agentes Comunitários de Saúde e do Programa de Saúde da Família.
7) Cadernos do Ministério da Administração Federal e Reforma do Estado (Cadernos MARE).
2. 2 Análise do material e categorias de análise
Segundo LÜDKE, ANDRÉ (1986) e MINAYO (1994), existem diferentes modos de se proceder à análise de documentos, embora os primeiros alertem que enquanto componente da abordagem qualitativa “não existe uma forma melhor ou correta. O que exige é sistematização e coerência do esquema escolhido com o que pretende o estudo” (p. 42).
Aqui se procederá à análise de temas que, de acordo com MINAYO (p. 209): “consiste em descobrir os núcleos de sentido que compõe uma comunicação cuja presença ou frequência signifiquem alguma coisa para o objetivo
analítico visado” (destaques da autora). Como exemplo da utilização do método analítico no campo da filosofia política, há o estudo de BOBBIO; BOVERO (1987, p.7) sobre o jusnaturalismo. Eles ensinam:
“No estudo dos autores do passado, jamais fui particularmente atraído pela miragem do chamado enquadramento histórico, que eleva as fontes a precedentes, as ocasiões a condições, detém-se por vezes nos detalhes até perder de vista o todo: dediquei-me, ao contrário, com particular interesse, ao delineamento de temas fundamentais, ao esclarecimento dos conceitos, à análise dos argumentos, à reconstrução do sistema’ (grifo dessa autora).
Feita a pré-análise, o segundo passo consiste na codificação dos temas levantados e na interpretação dos dados à vista das categorias de análise. LUDKE, ANDRÉ (1986, p. 42) e MINAYO (1994, p.210) orientam que a elaboração dessas categorias de análise seja realizada a partir do “arcabouço teórico em que se apoia a pesquisa”. Nesse sentido, os conceitos de espaço público e espaço privado de CHAUÍ (1992) constituirão as categorias de análise deste estudo.
Com o objetivo de clarear o significado e a herança deixada para a cultura ocidental e, construir as categorias analíticas pertinentes a este trabalho, será seguido livremente um roteiro visando ”interrogar” os dois termos em suas origens e em seus diferentes aspectos, de modo que ao final do processo, eles apareçam em suas inteirezas. FOLCHEID e WUNEMBURGER (1997, p.192) explicitam:
“Interrogar-se, aqui, não é outra coisa senão ter o senso da necessidade: que perguntas fazer para chegar lá, se estou aqui? Por onde (isto é, por meio de que perguntas) é preciso passar para descobrir ou isolar um ou vários problemas? Vê- se, portanto, que as perguntas têm por função apresentar uma forma de de- composição do tema, de redução do tema a seus elementos problemáticos: do complexo ao simples” (destaque dos autores).
ROTEIRO PARA CONSTRUÇÃO DAS CATEGORIAS ETIMOLOGIA dos termos público e privado.
DEFINIR o sentido de esfera pública e privada.
DISTINGUIR esfera privada da esfera pública. Verificar se a diferença é de natureza ou de grau.
LOCALIZAR ou determinar em que domínio do saber as expressões pertencem. PRINCÍPIO DE RAZÃO, ou seja, qual é razão da distinção, ou da existência da esfera pública e da esfera privada.
CONDIÇÕES DE POSSIBILIDADE ou DO FUNDAMENTO que tornam possíveis a existência da esfera pública e da esfera privada.
ORIGEM, isto é, quais são os “autores” dos conceitos esfera pública e esfera privada.
GÊNESE diz respeito ao modo como os autores prensaram ou “contruíram” as esferas pública e privada.
FINALIDADE, isto é, o objetivo visado quando da criação das distinções entre as esferas pública e privada.
EFEITOS ou as consequências (materiais, teóricas, práticas) desta criação ou distinção. A distinção entre esfera pública e privada pode ser causa ou origem do que?
(Adaptado de FOLSCHEID; WULNEMBURGER, 1997)
2.3 Pesquisa bibliográfica
É necessário justificar a ausência de uma pesquisa bibliográfica, integrando o corpo do trabalho. Os temas abordados aqui – público, privado, direito,
ética – vêm sendo recentemente objetos de trabalhos acadêmicos,
reportagens da imprensa e mesmo de comunicação de políticos. No entanto, não foi encontrado qualquer texto que tenha como fundamentação teórica a leitura da política sob a perspectiva dada por CHAUÍ, ou seja, como ação intermediadora e mesmo fundante de uma ordem social.