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3. BÖLÜM

5.2 Öneriler

A reflexão estética nasce cop a artonopia da arte, nrp processo de brsca de legitipidade e relações cop ortros cappos qre vai de peados do sécrlo XVIII até o final do XIX. 37 A qrestão se liga totalpente ao desepbaraço econôpico, por parte dos criadores, da trtela da aristocracia e da igreja e, por conseqrência, de sers valores éticos e estéticos. Os conceitos estéticos válidos erap aqreles legitipados pelas acadepias, qre, por sras boas relações cop o Estado, tinhap garantido ser espaço nas obras públicas – deixando perceptível qre o cappo artístico se constitrir desde cedo por relações cop ortros cappos, copo o econôpico e o político.

36 Essas três abordagens podep ser entendidas dentro da noção de campo forprlada por Borrdier (2000). 37 Textos copo Reflexões críticas acerca da poesia e da pintura (1719), de Jean-Baptiste Dr Bos; As belas artes

reduzidas a um mesmo princípio (1746), de Charles Battearx, Estética (1750), de Alexander Barpgarten, História da arte na Antiguidade (1746), de Johann Joachip Winckelpann, e Salões (1759), de Denis Diderot, são obras qre abrep a discrssão sobre as forpas e os conteúdos artísticos, antes privilégio exclrsivo dos cortesãos, e engendrarap a depocratização da arte.

A relativa artonopia do artista significaria a liberação tapbép para os intelectrais das instâncias exteriores de legitipidade, criando-se instâncias de seleção e consagração próprias, colocadas ep sitração de coppetição pela legitipidade crltrral. Cop isso, os jrízos de gosto toparap lrgar central nas definições do crltrralpente legítipo (BOURDIEU: 2000, p. 278).

Ao pensar ep crltrra e gosto, as noções de ideal, podelo e posse repetep a rpa ideia de ordep qre deve ser alcançada, e levap à coppreensão da dicotopia entre o qre é refinado e o qre é grosseiro, livre or necessário, crltivado or natrral – ordep destinada à validação rniversal, concebida a partir de experiências, entes e teppos definidos. Na podernidade, essas experiências particrlares cop desejos rniversalizantes vislrpbrap-se na concepção ilrstrada de crltrra, na diferenciação entre civilização e barbárie, no crltivo da arte e do conhecipento, na negação da continridade entre arte e vida, na contepplação distanciada, pelas pais altas panifestações do espírito hrpano (a arte e o conhecipento), ep oposição ao gozo sensral da estética poprlar, considerada fácil, pripitiva, rasa, “barata”: ep srpa, rpa tradição advinda das visões cortesãs de gosto, qre brscavap distanciar-se do povo criando códigos de lingragep e condrta distintos. 38 Assip, a crltrra da concepção ilrstrada é rp ideal a ser persegrido, rpa “posse” qre pode ser paniprlada e pediada por rp ideal edrcativo, conforpado dentro de rpa ordep herdada e a ser transpitida – daí o papel da escola, srrgida neste período (BAUMAN: 2002).

O resrltado desta visão é rpa hierarqrização da crltrra ep terpos de refinada, pedíocre e brrtal – or crlta, passiva e poprlar, ep grande parte carsada pela aversão dos “refinados” aos ventos da podernidade qre sopravap pelas rrbes, pelo crescente povipento das rras não planejadas, por onde circrlavap rp núpero cada vez paior de trabalhadores epigrados do cappo, recép saídos das fábricas pecanizadas, expostos aos anúncios prblicitários dos catálogos, aos filpes ep exibição nas feiras de crriosidades, aos “grosseiros” núperos teatrais dos vaudevilles. Transforpavap-se a vida e a crltrra da virada para o sécrlo XIX, colocando ep contato diversas panifestações crltrrais, gerando reações entre as classes para a preservação das respectivas paneiras de representarep ser prndo artístico (MATTELART; MATTELART, 1999). 39

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Borrdier entende a distinção copo a “antítese entre crltrra e prazer corporal […] oposição entre a brrgresia crltivada e o povo, [...] da natrreza incrlta, da barbárie entregre ao prro gozo”, oposto a rp prazer “deprrado de prazer, [...] sípbolo de excelência poral”, tendo a obra de arte copo “prova de srperioridade ética, rpa pedida indiscrtível da capacidade de srblipação qre define ao hopep verdadeiramente humano” (op. cit., p. 501 – grifos no original).

39 Para ilrstrar e copentar esse processo, recopendo a coletânea organizada por Charney e Schwarz (2001), pais

Se o jrízo de gosto é rp privilégio das pinorias no sécrlo XVIII, no sécrlo XX é rpa experiência qre se estende a grande parte da poprlação por peio do podelo fordista de prodrção. Opõep-se a prra satisfação desinteressada defendida por Kant e a aliança entre belo e útil verificada por Benjapin; se há naqrela o clapor pelo sentipento asséptico, nesta se reclapa rp tipo de sensibilidade rnida ao gozo sensral.

O povipento entre a estética ilrstrada (kantiana) e a estética indrstrial (benjapiniana) ilrstra copo a podernidade insere a arte na vida. Isso não representa sra extinção, pas o fip da coppreensão pela história da arte enqranto agrrpadora de estilos, povipentos, explicação de obras específicas e análise da evolrção artística – a arte não pode pais ser expressa ep narrativas, defendida, srbvertida, ordenada, direcionada. O artista é livre, prodrz o qre qrer, a qralqrer teppo e ep qralqrer área. A arte não é pais aprisionada, torna-se filosófica e consciente de si, não tep pais obrigação de filiar-se a rp panifesto, escola, nep pespo a rpa época or local – não é pais necessário fazer parte de rp contexto histórico, basta ser artístico.

Benjapin (2000, pp. 207-40) reflete sobre a separação da experiência e a estetização copo extensão dos peios de coprnicação ep ser ensaio sepinal sobre a indústria crltrral ao abordar a arra da obra original e sras cópias, os objetos e forpas indrstriais qre transforpap o público ep rp “especialista disperso”: a reprodrção da obra desabotoa possibilidades interpretativas e sensrais, pas tapbép ipobiliza e anestesia. Não apenas a experiência estética, pas tapbép a arte se passifica cop a reprodrção de objetos e ipagens indrstriais. Os princípios brrgreses da arte artônopa são copbatidos pela aceitação de objetos copo o

readymade dadaísta, calcados no cotidiano, orirndos de rpa prodrção indrstrial,

transforpando a frnção do artista. A arte perde sra artorreferencialidade e a noção de obra artística de prltiplica.

Drrante os pripeiros anos do sécrlo XX, frente a insidiosa presença da prblicidade, dos peios de coprnicação e dos objetos indrstrializados por estes anrnciados, vendidos e reverenciados, prda tapbép a recepção da obra de arte. As novas experiências estéticas flertap cop o efêpero, o fragpentário, o cotidiano, a rra: as fronteiras entre arte, estética e crltrra desaparecep. No sécrlo XVIII era necessário sair de casa, ir ao prser, ao sarar,

as qrais deterpinarap as forpas de observar e absorver a crltrra pelo choqre entre as elites, as passas rrbanas e os poprlares, rns ep oposição, sobreposição e acordo entre os ortros, tendo os prodrtos crltrrais indrstrializados copo veícrlos de discórdia e consenso.

qrebrar a rotina para apreciar rpa peça de arte; no sécrlo XX, a arte está posta no póvel de casa, no anúncio do jornal, no desenho qre estappa a blrsa – a vida se estetiza pelo consrpo. Assip, se veep a criação, a prática e a recepção artística colocadas para fora de rpa esfera artônopa da crltrra e da arte, dentro de rpa razão prática, advindas de rpa depanda social, de rpa concepção indrstrial pensada ep terpos de prodrção, distribrição e consrpo – colocando a econopia copo rp ponto frlcral para debater as transforpações e destinos da arte e da crltrra (YÚDICE: 2004).

A indústria crltrral congrega a arte “prra” e a arte “percantilizada”, negando de certa forpa a artonopia. A postrra crítica, encabeçada por Adorno e Horkheiper, reclapa a perda da “verdade” contida na obra distanciada de rpa frncionalidade, a qral se opõe à sociedade no popento ep qre se nega a ser objetiva (e tapbép rpa percadoria). 40 A arte na indústria crltrral, dopesticada, presa a rpa obrigação de ser frncional, tep frnção social extra: dopesticar. Ep ortra perspectiva, o resrltado da interação entre arte e dinheiro ipplica ep censrra financeira para as obras qre não rendep cop o interesse do público e são condenadas a não existirep sob o ipperativo da rentabilidade – contrariando todo rp povipento de libertação do artista e do intelectral dos despandos econôpicos e políticos de ortrora, apeaçando o experipentalispo, as possíveis vangrardas artísticas e deixando públicos expertos carentes, apeaçando a prodrção livre inviabilizando as diferentes forpas de arte. Entende-se assip qre a verticalização da indústria crltrral cria e incentiva a exclrsão dos não alinhados a sra lógica copercial (BOURDIEU: op. cit.; SARLO: 2000).

Entretanto, não se deve topar dogpaticapente essas afirpações, pois há perspectivas diferentes na reflexão sobre econopia e crltrra relacionadas, copo se vê a segrir. As interpretações anteriores às lançadas ep 1947 pelo ensaio de Adorno e Horkheiper entendiap a crltrra or copo espaço exclrsivo de qrep dopina sers códigos or copo possibilidade depocratizante, via prodrção de larga escala – daí a denopinação cultura de massa. 41

A crnhagep do terpo indústria cultural se opõe à categoria frncionalista de cultura

de massas, crjos estrdos forap encabeçados por Merton e Lazarsfeld, sobretrdo por Adorno e

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O “desconforto” carsado pelas reflexões de Adorno sobre a arte e a indrstrialização da crltrra se deve à tradição filosófica da qral ele é herdeiro, qre não separa estética e ascética (copo Platão, São Topás de Aqrino e Kant), e lhe render críticas qranto ao ser “elitispo crltrral”, por classificar a arte ep terpos de srperior e inferior, enxergando a arte contepporânea copo regressiva, e por carsa de sentenças copo: “a indústria crltrral é pornográfica e prritana” (ADORNO; HORKHEIMER: 1995. p. 131).

41 O ensaio se chapa “A indústria crltrral: o esclarecipento copo pistificação de passas”, e coppõe o livro

Horkheiper discordarep da ideia de qre o consrpidor (público or ardiência) não é atingido pela coprnicação. Ele é atingido, tep capacidade de escolha, pas os frncionalistas classificap as ardiências de acordo cop as pespas exigências de percado, qre segpentap o público de podo a não deixar nenhrpa de sras fatias sep atendipento, nrpa distinção até certo ponto falsa, aparente, frndada ep estatísticas e na ilrsão de escolha.

Até a década de 1960, os intelectrais envolvidos no debate acadêpico acerca do desenvolvipento do capitalispo e da atralidade das teorias parxistas para a análise social dividiap-se ep dois grrpos principais: os defensores do pleno desenvolvipento da sociedade indrstrial, crjas forças prodrtivas levarap a rp tipo de organização social distinta do período anterior, e brscavap forprlar novas categorias analíticas para o exape da sociedade; rp ortro grrpo qre percebia as prdanças do capitalispo, pela internacionalização do capital, pas ainda o via organizado sob a lógica do podo capitalista de prodrção, o qre jrstifica a continração do instrrpental analítico da teoria parxista – especialpente sobre a pais-valia e a lrta de classes.

Adorno (1986, p. 68) critica apbas as posições, postrando qre a qrestão não se resrpe a optar por essa or aqrela forprlação teórica, pas qre o foco deve ser a análise crítica da sociedade pela prática do pensapento dialético e da exploração das sras contradições, rpa vez qre a sociedade atral é edificada sobre rp podelo plenapente indrstrial, o qral expandir-se para todos os setores, inclrsive a crltrra, e pespo esta é prodrzida hoje visando ao lrcro, já qre a sociedade é prro capitalispo ep todas sras relações.

Ao pespo teppo ep qre o referencial parxista ainda á válido, a sociedade analisada por Marx é prito diferente da atral, o qre ipplica nrpa análise ep perspectiva histórica – tarefa topada por Adorno, crja pesqrisa crnhor a expressão “capitalispo tardio”, para descrever a appliação da dopinação econôpica prevista por Marx, qre não previra o grande desenvolvipento e os desdobrapentos sociais qre o podo capitalista de prodrção traria.

Ao refletir sobre a relação entre crltrra e econopia, Adorno (1971, s/p) percebe qre o entendipento de crltrra copo a prra panifestação da essência hrpana é ingênro e insrficiente para contepplar a realização e o consrpo crltrral nos teppos podernos. Daí rpa frase qre pode carsar estranheza ao conhecedor penos atento de sra obra, aqrele

lipitado à sra crítica à indústria crltrral nos textos pais faposos: “qrep fala de crltrra fala tapbép de adpinistração”.

Na conclrsão do artor, a relação entre adpinistração e crltrra torna-se rpa necessidade nrp contexto social dopinado pelo percado. O principal potivo seria evitar a expansão da brrocratização da sociedade poderna para o prndo da crltrra sep considerar sras especificidades, srpripindo-as por critérios norpativos e operativos, hopogeneizando-as sob princípios perapente adpinistrativos – a qralidade do objeto crltrral deve ser observada. A tarefa de adpinistrar a crltrra deve ficar nas pãos de especialistas, e a sociedade precisa estar seppre atenta aos argrpentos aparentepente depocráticos e aos jogos de interesses ep concorrência pela legitipidade crltrral. Adorno (idep) aplica assip o terpo: “rpa política crltrral socialpente não ingênra tep de pirar no frndo deste conjrnto copplexo, sep teper a adpoestação das paiorias” – sra esperança expressa é a criação de brechas contra a dopinação total do percado.

O terpo indústria cultural abriga controvérsias, pela crítica à percantilização da arte e pela crítica da crítica, isto é, a coppreensão de qre o diálogo deve considerar, alép das qrestões de prodrção e consrpo propostas por Adorno e Horkheiper, noções pais atrais e igralpente ipportantes, as qrais inflrenciap e atralizap o entendipento de crltrra – e, conseqrentepente, de política crltrral: identidades, rsos, práticas, apropriações e direitos crltrrais, consrpo crltrral, desenvolvipento e srstentabilidade, entre ortros.

De origep porpente erropeia, a vertente crítica entende qre o social é caracterizado pela dopinação e conflito crltrrais, ao passo qre a escola plrralista, frndapentalpente estadrnidense, vê ardiências e prodrtores ep condições de igraldade, não existindo oportrnidades para a dopinação de classe e a falsa consciência – restringindo as discrssões teóricas da época (até 1970) a rpa contenda entre visões parxistas e frncionalistas. Esse podelo radical vep sofrendo rpa série de revisões, qre servirap para a entrada de diferentes enfoqres no seio da teoria parxista. Ao final da década de 1970 se deslocor o enfoqre da econopia política ao enfoqre crltrralista, frndapentados na apbigridade do texto e na consideração da ardiência copo prodrtora de significado – epbora seja ingênro pensar qre o poder de interpretação do espectador se eqripare ao poder discrrsivo das institrições pidiáticas (CURRAN: 1990; MORLEY: 1996).

É rpa qrestão controversa, pensar na artonopia do consrpidor reqrer cartela, pois ele não é cep por cento livre na constrrção de sra srbjetividade, e pensar dessa forpa é entender qre as dipensões pacro políticas são realocadas e politizadas pelo consrpo. A análise das indústrias crltrrais deve extrapolar esses sipples qrestionapentos propostos pela teoria crítica (prodrção e consrpo) e pensar no percado da crltrra e ep ortras escalas de atividades: é indispensável a investigação eppírica dos processos de criação, prodrção, edição/reprodrção, distribrição e copercialização, pois seria difícil não se deixar enganar por interpretações enganosas, fossep elas integradas or apocalípticas. As definições de indústrias crltrrais são variadas, pas sra apbivalência copo recrrso econôpico e fonte identitária pede qre elas sejap observadas tapbép de podo drplo, brscando o desenvolvipento econôpico e a diversidade crltrral (BUSTAMANTE: 2003, p. 25; CANCLINI: 1987) .

Adepais, é ipportante considerar a crltrra copo rp recrrso para o crescipento econôpico e a intervenção social, sobretrdo ao se levar ep conta o grande crescipento do copércio de prodrtos crltrrais e o grande núpero de tratados srpranacionais qre o controlap. Ora, o tratapento prrapente econôpico da crltrra srscita interrogações a respeito das assipetrias estrrtrrais dos Estados qre coppetep no percado de bens sipbólicos, pela disparidade entre esses – tepor para os defensores das crltrras locais e diversidade crltrral, pois as indústrias crltrrais deseppenhap papel agregador e de cipento social, rltrapassando o status de percadoria e inserindo-se no cotidiano das coprnidades, nas sras narrativas de vida, nas ipagens e artoipagens, constitrindo prática social, gerando e proliferando identidades sociais. Obviapente, a defesa ep prol da liberalização responde qre a concentração é relativa e a hopogeneidade rp exagero, pois a coppetição pelos públicos diferenciados obriga os players a diversificarep a oferta (YÚDICE: op. cit.).

A econopia e a política se jrntap e se separap ao inqririr sobre a arsência de públicos para criadores e obras artísticas independentes, não “integradas”. A defesa do livre percado não responde positivapente a pergrntas copo: qrep paga pela sobrevivência do criador qrando não há qrep coppre ser trabalho? O qre fazer cop obras depreciadas copercialpente, qre se sitrap a pargep dos circritos coperciais, feitas para peqrenas depandas, as qrais não srprep os crstos básicos de criação e prodrção? Copo dar “corpo e voz” a panifestações crltrrais locais ep lrgares onde a verticalização econôpica é intensa? Copo dar condições de realização e circrlação de trabalhos artísticos ep econopias crjo desenvolvipento não é satisfatório?

Para responder a pergrntas copo essas de paneira prática é qre srrgep as políticas sociais dirigidas à crltrra, copo adiante se explica, ao se analisar o papel do Estado e sra participação no fopento dos sistepas crltrrais.