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BÖLÜM IV: BULGULAR VE YORUMLAR

4.1 DANĠMARKA EĞĠTĠM SĠSTEMĠ

4.1.4 Öğretmen Eğitimi

Neste capítulo abordo o itinerário terapêutico dos ribeirinhos do baixo Tapajós, salientando a “descoberta” da doença através da oração e a concepção de que a fé é condição para a cura; os primeiros cuidados em nível familiar e local; o deslocamento fluvial como um momento da trajetória; e a noção de remédio. Também descrevo algumas formas de tratamento e alguns testemunhos de cura divina e, finalmente, faço uma reflexão sobre a idéia de que a biomedicina é o último recurso que eles têm.

Entre os ribeirinhos, o traçado do itinerário terapêutico começa com o “descobrimento do paciente”, expressão que significa que o diagnóstico é realizado inicialmente por um especialista de cura; em sendo constatado que a doença não lhe pertence, ou se não pode ser tratada pelo ACS, o doente é encaminhado para o médico. Consideram ser fundamental a “descoberta da doença”; é preciso descobrir qual é a “doença que afeta a pessoa” para atenuar o seu sofrimento, como se o desconhecimento daquilo que a incomoda causasse maior incômodo e perturbação.

O percurso realizado pela pessoa “atacada pela doença”, bem como o de seus familiares, em busca da cura, ocorre após a percepção, a partir dos sintomas que se manifestam isolada ou conjuntamente, de que a doença está se “apoderando” dela. Segundo Langdon (2003), a identificação dos significados dos sinais corporais decorrentes das afetações provocadas pela “entrada da doença”, como dizem os ribeirinhos, já constitui um momento desse itinerário. Ao longo da trajetória seguida em busca de tratamento, dependendo

da avaliação dos resultados deste, o doente retoma sua vida cotidiana ou desloca-se em busca de novas alternativas, articulando diferentes saberes e procedimentos oriundos de distintos sistemas terapêuticos, inclusive religiosos.

Tal atitude revela que os ribeirinhos recorrem a uma pluralidade de opções terapêuticas, uma vez que “parece não haver incongruência entre sistemas terapêuticos” (CARDOSO, 2005, s.p.), diferentemente dos profissionais de saúde, que os vêem como mutuamente exclusivos. Num sentido mais amplo, os itinerários seguidos evidenciam que “os limites entre a biomedicina e as medicinas tradicionais são bastante permeáveis, tornando o itinerário terapêutico muito mais complexo e resultante de diversos fatores, e não só da percepção da eficácia” (LANGDON, 2004, p.45). É ilustrativo desse contexto o itinerário terapêutico de dona Madalena, uma mulher de aproximadamente sessenta anos, residente na Prainha do Tapajós, até o seu falecimento. Além do que presenciei, posteriormente busquei outras informações sobre seu itinerário, inclusive com a médica que a atendeu no Posto de Saúde de Belterra, de onde foi encaminhada para o pronto-socorro de Santarém.

Em maio de 2007, logo que cheguei nessa cidade, fui informado da sua internação. Dias depois, na noite anterior ao meu embarque para Prainha do Tapajós, estive no barco para combinar a viagem e perguntar sobre o seu estado de saúde, e fiquei sabendo que continuava grave. Na manhã seguinte, quando cheguei ao cais para embarcar, alguns moradores da Prainha do Tapajós me contaram, consternados, que ela havia falecido durante a madrugada1. Seu corpo seria levado até a comunidade no Golfinho do Tapajós, um grande barco a motor que começou a fazer a linha Santarém–Paraíso no final de 2006. Decidi viajar nele, embora a maioria das pessoas conhecidas estivesse no Xavier Colares. Por volta do meio-dia, horário da partida, o comandante informou que a família havia decido levá-la de carro até Pini, pois de Santarém é possível chegar a essa comunidade pela estrada recentemente aberta, e de lá um barco menor a conduziria até Prainha, para ser velada. Quando pensei em também viajar no Xavier Colares, já não era possível, pois, àquela altura, ele já estava lotado.

O agravamento da sua doença deve ter ocorrido entre dezembro de 2006, quando estive na Prainha do Tapajós, e abril de 2007, quando retornei, pois, antes disso, as referências a ela consistiam no fato de ser uma das duas mulheres de Moreno Patrocínio. Embora eu tivesse permanecido nessa comunidade por quase dois meses no ano anterior, a primeira vez que a vi foi quando estava sendo velada, na varanda da casa da mulher “legítima” de Moreno.

1 Posteriormente, soube que praticamente todos os moradores da Prainha do Tapajós, Prainha, Taquara e

Dona Madalena residia numa casa localizada no “centro”, onde Moreno passava alguns dias da semana. Foi congregada da Igreja da Paz até ser “expulsa por viver em pecado”, segundo alguns comentários. No seu velório, além dos moradores de Prainha, compareceram moradores do Martanxim, Prainha do Tapajós e Itapaiuna, entre os quais Arino Farias, ministro da Eucaristia da capela católica da Prainha do Tapajós, e Clóvis, que também é pastor da Igreja da Paz nessa comunidade. Enquanto estava sendo velada, os dois leram alternadamente trechos da bíblia, “puxaram” orações e cantos religiosos, encomendando sua alma. Lembro de Arino Farias ter falado que ninguém ali tinha o direito de condená-la, que isso só “cabia a Deus”.

Ela vinha sentindo fortes dores abdominais havia muito tempo. Buscou tratamento com curadores e, em algumas ocasiões, procurou pelos médicos, mas interrompia o tratamento quando as dores amenizavam. Quando se tornavam insuportáveis, ela voltava a procurar “recurso na medicina”. Um dia, voltou “desenganada” pelos médicos, porque a “doença embrabecida já estava muito alcançada”, como explicou dona Dalgisa, sua comadre. Após esse diagnóstico, ela procurou tratamento com diferentes especialistas de cura, inclusive, segundo alguns, com um curador de Óbidos, cidade situada na margem esquerda do rio Amazonas — essa é uma informação controversa, uma vez que membros de sua família negam que ela tenha procurado uma alternativa terapêutica condenada pelos congregados. Em nenhum momento as pessoas a condenaram por procurar outros “recursos”, apenas chamaram a atenção para a sua demora em tomar “providência” — procurou pelo médico somente quando a doença já estava “alcançada”, quando “não teve mais jeito”. Devido a sua idade, procurou se valer dos “recursos” terapêuticos que lhe eram familiares e nos quais depositava confiança.

No Posto de Saúde de Belterra, diagnosticaram o seu problema: câncer. Como o Posto não dispunha de condições para realizar o tratamento, ela foi encaminhada a Santarém, onde há melhor infra-estrutura médico-hospitalar em serviços de saúde de alta complexidade. Nessa cidade, segundo informes, os médicos, considerando seu quadro clínico extremamente grave, decidiram encaminhá-la para Belém.

Deslocar-se para buscar tratamento em lugares cada vez mais distantes, por recomendação médica, parece ser sinal da gravidade da doença e a confirmação de que a pessoa está “desenganada pelos médicos”. Assim, a indicação, pelo médico, da necessidade de internação em um hospital da cidade, quando se trata de “doença de médico” ou de uma “doença ruim descoberta pelo curador”, integra o diagnóstico. Dependendo do modo como o médico prescreve essa viagem, ela pode agravar o estado de ânimo do paciente e aumentar ou

prolongar seu sofrimento. Diante dessa prescrição, a pessoa, em conformidade com sua família, opta por aderir ou não ao tratamento.

Ouvi, recorrentemente, os comunitários falarem sobre o temor de morrer longe do lugar onde nasceram e onde residem irmãos, filhos e netos. Eu havia observado o medo de ir para o hospital durante as horas em que permaneci na casa de Catarino, no Martanxim, enquanto acompanhava Jocenita, quando ela foi acionada pelo PSA para preparar a sua remoção, de lancha, até a comunidade de Aramanaí, de onde seria transportado por uma ambulância até o Posto de Saúde de Belterra. Esse velhinho entrou em desespero ao ser informado sobre a necessidade de ser removido para o hospital a fim de colocar uma sonda e tratar de uma infecção urinária (identificada no exame clínico realizado por ocasião da passagem do Abaré na comunidade). Ele se recusava a se afastar de casa, pois temia não voltar vivo. Chorando, abraçava sua “filha de criação” (filha de uma das suas enteadas), ainda pequena, dizendo que não queria deixá-la.

Por que distanciar-se se o quadro da doença é considerado irreversível? Entre correr o risco de morrer solitário num hospital distante e terminar a vida entre os cuidados dos parentes, esta parece ser a melhor opção. Exemplo disso é a determinação de uma mulher já idosa, então residente em Manaus, que interrompeu o tratamento médico nessa cidade e retornou para Prainha do Tapajós, “lugar onde nasceu”, a fim de morrer entre seus parentes2 — decisão que suscita, entre os profissionais de saúde, atitude preconceituosa, pois a consideram sinal de ignorância do caboclo ribeirinho, que acredita em “tabus” ou pauta suas decisões seguindo valores conflitantes com a orientação biomédica.

Como já apontei, aos primeiros sinais do “ataque” de uma doença, a pessoa busca, na esfera doméstica, identificar de que “tipo ela é”, recorrendo aos cuidados disponíveis nessa esfera, especialmente aos mais velhos. Dependendo da reação ao tratamento caseiro, a pessoa vai sendo encaminhada a outros agentes, cada vez mais especializados e com maior poder para tratar doenças “complicadas”. Na casa da dona Lira, quando alguém fica doente ela trata com “remédio caseiro” e algum “comprimido”, dependendo da queixa da pessoa. Segundo ela, quando não se pode “dar jeito em casa” então procura outro “recurso”: um benzedor, um curador ou “médico mesmo”.

2 Durante a pesquisa de campo na Prainha do Tapajós, verifiquei que muitas pessoas residentes em Santarém

ou em outras cidades planejam retornar a ela depois de se aposentar. Algumas delas estiveram lá na Iluminação, em 2006, e me disseram que, em alguns anos, as comunidades da Flona serão constituídas por velhos e crianças. Caso isso ocorra, é de se supor que as concepções tradicionais se mantenham, uma vez que caberá aos avós cuidar das crianças, na categoria de “filhos de criação”, tendo, assim, oportunidade de transmitir-lhes muitos dos conhecimentos, valores e concepções dos “antigos”.

É comum, em caso de emergência, mobilizar, simultaneamente, mais de um especialista de cura. Isso porque, como explicou Jocenita, “o que um não conhece, outro conhece; o que um faz, outro não faz”. Cada um contribui “do seu jeito”, inclusive o ACS, para restaurar a saúde do doente. Verifica-se, nessa mobilização de especialistas, a complementaridade de saberes, que ocorre mesmo quando eles não atuam em concomitância. Assim, durante os cuidados de uma pessoa doente, cria-se uma zona de contato entre esses diferentes sistemas. Nessas circunstâncias, há permeabilidade das fronteiras entre modelos terapêuticos (FOLLÉR, 2004).

A relação entre os ACS e os especialistas locais de cura apresenta-se como complementar, mesmo havendo tensão em algumas ocasiões, quando divergem quanto ao diagnóstico e ao tratamento. Embora se verifique o que parece ser um sistema articulado, as “parcerias” entre eles não são tranqüilas, porque cada um possui um estilo pessoal. Chagas, por exemplo, não trabalha em “parceria” com o ACS de Taquara; segundo ele, cada um tem seu próprio “jeito de trabalhar”. Entretanto, há uma negociação na qual o ACS depende da orientação dada pelo curador quando este identifica se a doença lhe pertence ou não, mas aquele também quer fazer valer os conhecimentos que adquiriu nos cursos de capacitação.

O ACS é mobilizado para “tirar febre” e para “tirar pressão”, e, caso a temperatura e a pressão estejam normais, a pessoa é encaminhada para os especialistas de cura, mas, geralmente, eles são procurados diretamente pelas pessoas. Se eles dizem que a doença pertence ao médico, o ACS é procurado para fornecer a “guia de encaminhamento” para a pessoa ser atendida no Posto de Saúde de Belterra (acreditam que o atendimento no Posto é rápido quando se vai com o “encaminhamento”, porque, lá, os enfermeiros “têm certeza que a pessoa é assistida pelo ACS da comunidade”). Recorrem aos médicos quando, em nível local, o tratamento não surte efeito, pois o ribeirinho não depende “muito do doutor médico; só quando o caso é muito grave o jeito é correr atrás de médico”.

Assim, aos primeiros sinais da “entrada” ou “ataque” da doença, o ACS parece ser quem menos interfere nas decisões que são tomadas então. Isso porque antes de procurá-lo as pessoas seguem suas próprias orientações: procuram os mais velhos no âmbito doméstico, depois recorrem aos benzedores, curadores ou puxadores. A ida ao médico, como vimos, é uma orientação do curador, quando verifica que a “doença não lhe pertence” ou quando, em nível local, “não tem mais recurso”.