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Çocukluk Çağı Travmalarının Stresle Başa Çıkma Tarzları Üzerindek

BÖLÜM 4: BULGULAR

4.3. Çocukluk Çağı Travmalarının Stresle Başa Çıkma Tarzları Üzerindek

A obra que celebrizou BECCARIA – Dos delitos e das penas – é frequentemente lembrada pela sua contribuição na concepção das garantias penais e processuais penais limitadoras da pretensão punitiva da sociedade. No entanto, nesta mesma obra, BECCARIA também se mostrou ferrenho defensor do exercício da pretensão punitiva como ato potencialmente protetor dos direitos das pessoas, por ser capaz de refrear os espíritos inclinados a práticas criminosas.

A menção a BECCARIA nesta altura deste trabalho – quando já visitadas doutrina e jurisprudência recentes – dá-se propositalmente, para que se perceba com nitidez que os aspectos ligados à efetividade do exercício da pretensão punitiva por ele abordados encontram perfeita consonância com os posicionamentos mais atuais acerca da sua importância como instrumento de salvaguarda dos direitos fundamentais, alguns dos quais citados acima.

Ele, por exemplo, ao mesmo tempo em que apregoou a moderação das penas, foi enfático em asseverar a necessidade de garantia da punibilidade, ou seja, a certeza de que seriam aplicadas todas as vezes que o infrator violasse o preceito que as trazia como consequência. Noutras palavras, advogou que a aplicação das sanções pelo Estado – ainda que fossem brandas – teria que se dar sempre, havendo uma certeza no apenamento – evitando-se a todo custo a impunidade –, para que permanecesse na consciência de todos que a pena sempre acompanhará o crime de perto, como sua consequência certa e inevitável.369

Assim o sendo, seria altíssima a eficácia do sistema criminal na missão de desestimular, inclusive a priori, os comportamentos delituosos, por serem poucos os homem que ousariam cometê-los se tivessem a certeza de que seus atos seriam punidos criminalmente. Do contrário, se o exercício da pretensão punitiva for falho e o sancionamento dos autores dos delitos for apenas eventual ou diminuto, nutre-se nos homens a esperança da impunidade, gera-se nos seus espíritos a cogitação de que os bônus prováveis do crime desejado talvez valham a pena a assunção dos riscos da improvável punição.370

Proclamou ainda BECCARIA que “Os efeitos do castigo que se segue ao crime devem ser em geral impressionantes e sensíveis para os que o testemunharam”371. Naturalmente, não

defendeu ele o retorno dos suplícios e das penas cruéis, senão apenas pregou que a reprimenda deve ser apta a causar no homem um temor suficiente para demovê-lo da ideia de levar ao plano executivo a empreitada criminosa que mentalmente arquitetou.

Logo, conclui-se que moderação da pena não é sinônimo de pena desprovida de eficácia intimidatória ou de pena de eficácia intimidatória incapaz de desencorajar a prática ilícita (pelo caráter demasiadamente diminuto do mal prometido, inferior até mesmo aos benefícios que do crime podem advir). Até mesmo porque, tal como frisado por LUIZ LUISI, “através da pena a sociedade responde às agressões que sofre com o cometimento de um delito”, daí porque “não se pode deixar de enfatizar que o indeclinável respeito ao princípio

sofrimento, como correspondente do sofrimento por ele infligido a outros com a ação delituosa, sacode uma alma talvez já endurecida no vício, desperta o sentimento da dignidade humana. Ela é a expressão mais típica e vincada daquela exigência de que ao mal deve seguir-se outro mal, como ao bem deve seguir-se o bem, a qual está, realmente, gravada no coração dos homens […]. O homem tem direito à pena, assim como tem direito ao reconhecimento da sua dignidade de pessoa. O grito angustioso dos acusados que se reconhecem culpados e pedem aos juízes a pena pelos delitos cometidos é o reconhecimento de uma realidade moral, que nenhuma lógica intelectual poderá jamais negar ou ocultar nas profundezas do coração humano.” (O problema penal... p. 144-145).

370 “Não é o rigor dos castigos que previne os crimes com maior segurança, mas a certeza do castigo, o zelo vigilante do

magistrado e essa severidade inflexível que só é uma virtude no juiz quando as leis são brandas. A perspectiva de um castigo moderado, mas inevitável causará sempre uma impressão mais forte do que o vago temor de um suplício terrível, em relação ao qual se apresente alguma esperança de impunidade. O homem treme à ideia dos menores males, quando vê a impossibilidade de evitá-los; ao passo que a esperança, doce filha do céu, que tantas vezes nos proporciona todos os bens, afasta sempre a ideia dos tormentos mais cruéis, por pouco que ela seja sustentada pelo exemplo da impunidade, que a fraqueza ou o amor do ouro tão frequentemente concede. […] se se deixar ver aos homens que o crime pode ser perdoado e que o castigo nem sempre é sua consequência necessária, nutre-se neles a esperança da impunidade; faz-se com que aceitem os suplícios não como atos de justiça, mas como atos de violência. […] Sejam, pois, as leis inexoráveis, sejam os executores das leis inflexíveis; seja, porém, o legislador indulgente e humano. […]” (Ibid. p. 113 e 115)

371

da humanidade não deve obscurecer a natureza aflitiva da sanção penal”.372 É dizer, a

necessidade de inibir os potenciais infratores e de a sociedade reagir à violação sofrida em si já justificam o conteúdo aflitivo da sanção, a qual, não sendo vedada pela Constituição e sendo moderada, não atenta contra o princípio da dignidade da pessoa humana. Afinal, na precisa lição de HANS HEIRICH JESCHECK:

O direito penal não pode se identificar com o direito relativo à assistência social. Serve em primeiro lugar à Justiça distributiva, e deve por em relevo a responsabilidade do delinquente por haver violentado o direito, fazendo com que receba a resposta merecida da Comunidade. E isto não pode ser atingido sem dano e sem dor principalmente nas penas privativas de liberdade, a não ser que se pretenda subverter a hierarquia dos valores morais, e fazer do crime uma ocasião de prêmio, o que nos conduziria ao reino da utopia.373

Volvendo a BECCARIA, noutras passagens de sua obra, ele sustentou a necessidade da máxima celeridade na aplicação da pena, ou seja, o tempo que medeia o crime e o castigo deve ser mínimo, a fim de que, no espírito tanto do criminoso quanto no do restante da população, fique patente a ideia de que a pena é a consequência inexorável do delito.374

Por óbvio, ao pedir celeridade, BECCARIA não descurou da observância das garantias processuais daquele a quem se acusa de delito, cujo exercício, naturalmente, demanda um certo tempo no curso do processo. Entretanto, é interessante ressaltar que, paralelamente ao reconhecimento de que, entre o crime e a pena, deve necessariamente haver espaço para a tramitação do devido processo legal, garantindo-se ao acusado o contraditório e a ampla defesa, BECCARIA defendeu que o tempo destinado ao desenvolvimento desses atos defensivos não pode se estender exageradamente (como se fossem um fim em si mesmos), para evitar que a pena não passe a ser vislumbrada como consequência remota do delito, 372 Op. Cit. p. 50.

373

Apud LUISI, Luiz. Ibid. p. 50-51.

374 “Quanto mais pronta for a pena e mais de perto seguir o delito, tanto mais justa e útil ela será. […] quanto menos tempo

decorrer entre o delito e a pena, tanto mais os espíritos ficarão compenetrados da ideia de que não há crimes sem castigo; tanto mais se habituarão a considerar o crime como a causa da qual o castigo é o efeito necessário e inseparável. […] É, pois, da maior importância punir prontamente um crime cometido, se se quiser que, no espírito grosseiro do vulgo, a pintura sedutora das vantagens de uma ação criminosa desperte imediatamente a ideia de um castigo inevitável. Uma pena por demais retardada torna menos estreita a união dessas duas ideias: crime e castigo.” (Op. Cit. p. 109-111)

aplicada quando este já tenha caído no esquecimento – isto para não mencionar o risco de o fato cair na impunidade pela ocorrência da prescrição.375

Enfim, o contributo de BECCARIA não se deu unicamente na construção das garantias penais e processuais penais limitadoras da pretensão punitiva da sociedade. Da leitura mais atenta, integral e imparcial de sua obra, constata-se sem dificuldade que a defesa dessas garantias não foi ao ponto de retirar toda a legitimidade jurídica do exercício da pretensão punitiva, ou seja, não se deu em prejuízo da continuidade desse exercício, nem teve por escopo torná-la uma ferramenta impotente diante do réu. Com efeito, não olvidou ele para a importância desse ato no seio de qualquer Estado – mesmo daquele que então os revolucionários liberais pretendiam inaugurar –, para cuja eficácia não se poderia prescindir, pelo menos, do caráter suficientemente intimidatório da pena (sem que deixasse de ser moderada), da certeza do apenamento e da prontidão deste em relação ao crime (sem que, para tanto, fosse suprimida a observância do contraditório e da ampla defesa, por exemplo).

375

“Quando o delito é constatado e as provas são certas, é justo conceder ao acusado o tempo e os meios de justificar-se, se lhe for possível; é preciso, porém, que esse tempo seja bastante curto para não retardar demais o castigo que deve seguir de perto o crime, se se quiser que o mesmo seja um freio útil contra os celerados.” (Ibid. p. 74)

5. UMA CONFORMAÇÃO CONSTITUCIONAL POSSÍVEL ENTRE A EFICÁCIA DA PRETENSÃO PUNITIVA E AS GARANTIAS PENAIS E PROCESSUAIS QUE A LIMITAM E CONDICIONAM SUA VALIDADE

Viu-se no curso do presente trabalho que tanto os bens jurídicos mais importantes dos indivíduos e da coletividade (bloco indutor da pretensão punitiva), que legitimam e impulsionam o exercício da pretensão punitiva, quanto aquelas regras penais e processuais limitadoras do exercício dessa pretensão (bloco limitador da pretensão punitiva), como forma de conter eventuais abuso e arbitrariedades que os agentes estatais possam querer praticar, foram insculpidos nas cartas constitucionais, sob a forma de direitos fundamentais. A necessidade de observância das Constituições democráticas, desse modo, impõe o respeito a ambas as ordens de direitos fundamentais. Seria inconstitucional, assim, tanto o exercício da pretensão punitiva que ignorasse aquelas garantias inafastáveis, erigidas em favor de quem é acusado de crime, quanto a defesa dessas garantias como um fim em si mesmo, com indiferença à necessidade de efetividade daquela pretensão.

O exercício da pretensão punitiva, assim, não é ato que se opõe àquelas garantias, tampouco a observância destas importa na anulação daquela pretensão. Na realidade, as garantias penais e processuais penais insculpidas nas constituições democráticas são apenas requisitos, pressupostos ou condições de validade do exercício da pretensão punitiva; é dizer, esse exercício só será válido se atendidas rigorosamente essas garantias/requisitos. “Mutatis mutandis”, uma vez observadas, a pretensão punitiva pode e deve ser exercitada pelo Estado do modo mais efetivo e célere possível, de modo a alcançar, tanto quanto possível, a tutela dos direitos diretamente atingidos e do direito coletivo ao sancionamento do infrator.

Há, portanto, que se buscar um equilíbrio entre essas duas forças normativas em cada uma das etapas de materialização da pretensão punitiva da sociedade – edição de leis penais e

processuais penais e aplicação concreta das mesmas. Bece-se, a seguir, considerações sobre cada uma delas.

Benzer Belgeler