KURAMSAL ÇERÇEVE VE İLGİLİ ARAŞTIRMALAR
2.1. Kuramsal Çerçeve
2.1.1. Çocuklara Yabancı Dil Öğretiminin Önem
V.7.3.1. Uma lógica do contabilizável
A partir do Paradoxo de Russell pode-se retomar, em uma analogia grosseira, um caminho possível para se situar as diferenças entre as Estruturas. Pode-se dizer que o sujeito de estrutura perversa se recusa a crer, nega ou desmente o paradoxo lógico-estrutural do Outro simbólico, para reafirmar sua crença em uma identidade que seja indivisível e somente sua. Ele se “auto-afirma” enquanto um ser não-dividido, ao se incluir na ordem simbólica como estrita e exclusivamente incluído - dentro do conjunto do sentido fálico do “Um” indivisível da lógica matemática, jogando a contradição e a divisão para o lado do outro.
O sujeito perverso afirma ou reassegura-se de sua identidade como pretensamente inviolável (do ponto-de-vista paranóico do conhecimento), expulsando a castração simbólica para um Outro que ele localiza “fora” dele, imputando a “culpa” e a responsabilidade a um erro alheio, que ele localiza no mundo externo. Ele pretende já saber de antemão as respostas, e pode prescindir de formular perguntas ao Outro, para não se descompletar. Assim, ele se defende da “curiosidade paranoica” do conhecimento, sob alegações e argumentos dentro de uma lógica irretorquível, irredarguível, porém tautológica.
Ao denunciar a castração imputando-a e encarnando-a em um outro “semelhante”, ele se abstém, na posição de objeto, de “tomar partido” quanto ao risco de seu desejo enquanto sujeito, atribuindo a culpa e a responsabilidade a um Outro dividido, cujo lugar ele localiza como sendo apenas fora dele. Como se ele se colocasse na posição de uma falsa “ingenuidade” - considerada apenas na vertente de “vítima inocente”. Por isso, o sujeito perverso não demanda nada, ele se diz demandado. Assim, não acha que precisa de ajuda, acusando via de regra o pequeno outro seu semelhante ou o outro na dialética do social. Como então ele faz algum “laço social”?
V.7.3.2. Ilustrações literárias sobre a Perversão
De modo geral o sujeito de estrutura Perversa não demanda ajuda, o que não o impede de procurar uma análise como mais uma forma de exercer sua vontade de gozo através da imposição de um saber mentiroso. Lacan advertiu contra se admitir um perverso em análise, porque de lá ele sairá perverso.
Como o sujeito Perverso não demanda ajuda, porque ele não tem conflitos com a sua pretensa identidade, torna-se necessário recorrer a exemplos da literatura.
Sob a perspectiva da não-ficção, pode-se recorrer a Hanna Arendt em “Eichman em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal” (2008). Eichman, o nazista, foi levado ao tribunal por ter sido acusado de “ajudar e assistir” à aniquilação dos judeus. É absolutamente curioso recuperar fragmentos dos depoimentos deste acusado, que se declarou: “Inocente, no sentido da acusação
.”
Arendt interroga:
“
Em que sentido então ele se considerava culpado?” A resposta foi dada numa entrevista à imprensa: “
Eichman se considera culpado perante Deus, não perante a lei.” (p.32) Donde se pode vislumbrar a grande confusão instalada no julgamento, por um argumento racional que aparentemente era um atestado da “sanidade mental” do acusado. Quando Eichman alegava que“era seu dever obedecer”, Arendt questiona:
Por que tantas pessoas se calaram?... ‘Por que essas pessoas também se sentiam incriminadas’... essa acusação evitava cuidadosamente tocar na questão altamente explosiva: a cumplicidade quase ubíqua... (ARENDT, 2008, p. 29, grifo nosso)
O acusado alegara: “Nunca dei uma ordem para matar” e ainda: “jamais abrigara no peito nenhum mau sentimento por suas vítimas”. “Repetia os mesmos clichês envergonhados sobre o Tratado de Versalhes e o desemprego”. Até que escancarou sua posição de objeto:
Segundo seu próprio relato, só numa coisa ele se distinguiu durante esses catorze meses, no treino punitivo, em que se empenhava com grande obstinação, no espírito odioso de ‘se meu pai não quer que minha mão congele, ele que me compre luvas’ (ARENDT, 2008, p. 46, grifo nosso) Onde ele se declara claramente como um objeto que estivesse a serviço de completar um Outro que seria pretensamente onipotente, único detentor do poder de legislar. Mais, ainda:
Quando disse no interrogatório da polícia que teria mandado seu próprio pai para a morte se isso tivesse sido exigido, não queria simplesmente frisar até que ponto se achava cumprindo ordens e pronto para executá-las; queria também mostrar o ‘idealista’ que sempre fora. (ARENDT, 2008, p. 54, grifo nosso)
Era bazófia pura quando ele disse aos seus homens nos últimos cinco dias da guerra: ‘Eu vou dançar no meu túmulo, rindo, porque a morte de cinco milhões de judeus (...) na consciência me dá enorme satisfação.’... Mas vangloriar-se é um vício comum, e uma falha mais específica, e também mais decisiva, no caráter de Eichman era sua quase total incapacidade de olhar qualquer coisa do ponto de vista do outro. (...) Os judeus ‘desejavam’ emigrar, e ele, Eichman, estava ali para ajudá-los, porque aconteceu de, ao mesmo tempo as autoridades nazistas terem expressado o desejo de ver o Reich ‘judenrein’. Os dois desejos coincidiam, e ele, Eichman, podia fazer justiça a ambas as partes. (ARENDT, 2008, p. 60, grifo nosso)
Arendt continua sua descrição de Eichman, que era reconhecido não só como um perito na “questão judaica”, mas também como “autoridade”, “como um ‘senhor’ que sabia fazer como as pessoas se mexerem” (ARENDT, 2008, p. 79). Com relação explicitamente à cooperação das vítimas, relata especificamente “a ajuda judaica no trabalho administrativo e policial” (ARENDT, 2008, p. 133).
A dificuldade para se examinar esta questão reside no paradoxo intrínseco à própria lei moral kantiana, que implica a necessidade de um imperativo categórico. É curioso observar que Eichman “se comportava como se fosse senhor da vida e da morte” (ARENDT, 2008, p. 78), mas se contradizia a tal ponto que não lhe competia nem sequer a questão de sua própria morte.
Empregou a definição kantiana do dever – enquanto ligada à faculdade de juízo – para justificar a sua obediência cega:
E explicou que, a partir do momento em que fora encarregado de efetivar a Solução Final, deixara de viver segundo os princípios kantianos, que sabia disso e que se consolava com a ideia de que não era mais ‘senhor de seus próprios atos’, de que era ‘incapaz de mudar qualquer coisa’. O que não referiu à corte foi que ‘nesse período de crime legalizado pelo Estado’, como ele mesmo disse, descartara a fórmula kantiana como algo não mais aplicável. Ele distorcera seu teor para: aja como se o princípio de suas ações fosse o mesmo do legislador ou da legislação local – ou, na formulação de Hans Frank para o ‘imperativo categórico do Terceiro Reich' (ARENDT, 2008, p. 153, grifo nosso)
E Arendt (2008, p. 154) conclui: “Uma lei era uma lei, não havia exceções”. Uma necessidade de absolutização do relativo, portanto, ocupa lugar central enquanto lógica simbólica “característico do perfeito burocrata” (ARENDT, 2008, p. 154), se configurando como uma tautologia ordenatória.
O brilhante Saramago explicita magistralmente a insensibilidade anonimizante, impessoal e destruidora dos sujeitos, sob o pretexto da burocracia:
A inquietação tinha voltado a mordê-lo, mas agora era ele próprio que não deixaria sair a pergunta da boca, iria dali como se levasse no bolso uma caixa de prego para ser aberta no alto mar e em que o seu destino já havia sido apontado, traçado, escrito, hoje, amanhã, depois de amanhã. O subchefe tinha perguntado, O que o traz por cá hoje, depois dissera, Amanhã mesmo, depois concluíra, Então seja depois de amanhã, é certo que as palavras são assim mesmo, vão e voltam, e vão, e voltam, e voltam, e vão, mas por quê estavam estas aqui à minha espera, por quê saíram de casa e não me largaram em todo o caminho, não amanhã, não depois de amanhã, mas hoje, agora mesmo. De súbito, Cipriano Algor detestou o homem que se encontrava na sua frente, este subchefe simpático e cordial, quase afectuoso, com quem no outro dia tinha podido conversar praticamente de igual para igual, salvadas, claro está, as óbvias distâncias e diferenças de idade e condição social, nenhuma delas, porém, ao que havia parecido então, impedientes de uma relação fundada no respeito mútuo. Se te espetam uma faca na barriga, ao menos que tenham a decência moral de te mostrarem uma cara que seja conforme com a acção assassina, uma cara que ressumbre ódio e ferocidade, uma cara de furor demente, até mesmo de frieza humana, mas, por amor de Deus, que não te sorriam enquanto te estiverem a rasgar as tripas, que não te desprezem a este ponto extremo, que não te deem esperanças falsas, dizendo, por exemplo, Não se preocupe, isto não é nada, com meia dúzia de pontos ficará fino como antes, ou então, Desejo sinceramente que o resultado do inquérito lhe seja favorável, poucas coisas me dariam maior satisfação, creia-me. (SARAMAGO, 2000, p. 256)
Assim, pode-se concordar com Barthes em “La Leçon”, em que os detentores do conhecimento podem fazer uso do segredo como uma ameaça latente de exclusão, que não tem rosto.