2. ÇİN’İN SERBEST PAZAR SOSYALİZMİNE GEÇİŞİ VE YÜKSELİŞİ
2.2. Çin Halk Cumhuriyeti’nin Kurulması (1949-1976): İdeoloji Dönemi
A necessidade geral de comunicação social nas situações ordinárias da vida se liga a um princípio de economia cognitiva que é proporcionado pelos gêneros discursivos. Os discursos se organizam em uma multiplicidade de gêneros, mais ou menos fixos, mais ou menos inovadores, mais ou menos rotineiros. Essa organização permite uma forma de economia comunicativa em forma de recepção ou de produção. Trata-se de um funcionamento fluido e econômico nas trocas verbais. Os enunciados são marcados pela especificidade de uma esfera de atividades por meio do seu conteúdo temático, seu estilo verbal e por sua construção composicional. Cada esfera de utilização da língua elabora tipos relativamente estáveis de enunciados, orais ou escritos, os chamados gêneros do discurso – formas pré-existentes de dizer -, que se singularizam a cada enunciação (Bakhtin, 2003).
A noção de gênero do discurso atesta a dupla vida das palavras. Por um lado, pertencem a funcionamentos sociais pré-dizíveis e esperados aos quais o sujeito pode se ater – utiliza-se a língua sob a forma de gêneros do discurso de modo tão incorporado aos próprios
atos, que só se reconhece sua existência quando uma falha acontece, quando um uso se destaca por oposição ao esperado. Por outro lado, e ao mesmo tempo, as palavras vivem no curso do inesperado e do impredizível do desenvolvimento das trocas verbais (Clot, 1999).
Definir o enunciado, sob a perspectiva de suas características essenciais, permite situar em um mesmo conjunto tanto o romance literário quanto a réplica do cotidiano, o que evidencia a heterogeneidade de gêneros que participam da vida humana, mas ao mesmo tempo, surge o problema de uma definição genérica do enunciado.
Por essa razão, Bakhtin recomenda aos estudiosos do enunciado a consideração de uma importante diferença entre os gêneros do discurso, que permite distingui-los em dois grupos: os do tipo primário –– aqueles que têm uma relação imediata com a realidade existente e com a realidade dos discursos alheios -, e os do tipo secundário - que aparecem em circunstâncias de uma comunicação cultural mais complexa, como é o caso do romance, do teatro, do discurso político ou do discurso científico.
Bakhtin privilegiou, em seus estudos, o romance que é um gênero secundário do discurso. Nesta tese, trabalhamos com duas variantes discursivas como objeto de análise: o discurso constituído no Tribunal do Júri e o constituído na autoconfrontação simples. O primeiro deles é constituído pelo protagonista do trabalho, em sua atividade concreta e real de trabalho, poderia desta forma, ser classificado, segundo orientação bakhtiniana, como gênero primário do discurso. Contudo, o gênero do discurso argumentativo utilizado por nosso protagonista apresenta características de uma comunicação cultural complexa. Assim, acreditamos que esse gênero por ser complexo e ser constituído por vários gêneros não poderia ser classificado nem como discurso primário nem como secundário.
O conceito de gênero permite compreender por que, ao se lançar na cadeia verbal, não se procede a escolhas de grupos de enunciados, de palavras, aleatoriamente combinadas ou escolhidas ao acaso. Em razão de uma economia verbal, não se pode dar continuidade a um enunciado que não faça referência a outro, do mesmo gênero: “se nos fosse necessário criar pela primeira vez na troca cada um dos nossos enunciados, essa troca seria impossível” Bakhtin (2003: 279).
De fato, quando enunciamos, lançamos mão de formas de discurso constitutivas de gêneros previamente existentes, formas de discursos disponíveis para uma determinada situação, segundo princípios de natureza social. Esses gêneros fixam, em um dado meio, o
regime social de funcionamento da língua. Trata-se de um estoque de enunciados esperados, protótipos de maneiras de dizer ou de não dizer em um espaço sócio-histórico discursivo.
Com base na constatação da existência dos gêneros, enfatizando a essência do caráter social da fala, Bakhtin opõe, ao conceito de sistema lingüístico (produto de uma reflexão sobre a língua), o conceito de sistema de normas que a consciência subjetiva do locutor sente como coercitiva.
Essa consciência coercitiva e subjetiva do locutor é capaz de mobilizar o gênero adequado à situação sócio-histórica em que o discurso circula. Pensando dessa forma, o Defensor Público constrói seu discurso argumentativo dentro de um quadro genérico que possa ser condizente com seus propósitos no Tribunal do Júri. Trata-se de um gênero regulamentado por lei63 e que deve obedecer a um procedimento formal64.
O gênero discursivo utilizado pelo defensor no Tribunal do Júri constitui-se para atender aos prescritos do métier sem, contudo, se descuidar do seu auditório (corpo de jurados, Juiz, Promotor, público). Trata-se do discurso de defesa pronunciado no Tribunal. Esse discurso, normalmente é introduzido por uma saudação aos presentes seguida de elogios ao trabalho do Promotor e do Juiz. Em seguida, discorre sobre a dificuldade de seu posicionamento perante a sociedade, por ser ele também solidário à vítima. Entretanto, seu papel é construir um discurso de defesa e esse papel lhe foi confiado pelo Estado e como tal procura se vincular aos acontecimentos e provas que estão registrados nos autos (processo).
63 Sendo o processo promovido pela parte ofendida, o Promotor falará depois do acusador particular, tanto na
acusação como na réplica (art.471). Após a acusação, o defensor terá a palavra para defesa (art.472). O acusador poderá replicar e a defesa treplicar, sendo admitida a reinquirição de qualquer das testemunhas já ouvidas em plenário. O tempo destinado à acusação e à defesa será de duas horas para cada um, e de meia hora para a réplica e para a tréplica. Havendo mais de um acusador ou mais de um defensor, combinarão entre si a distribuição do tempo, na falta de entendimento, será determinado pelo Juiz, para que não seja ultrapassado o tempo fixado na lei. Se houver mais de um réu, o tempo para a acusação e para a defesa será, em relação a todos, acrescido de uma hora e elevado ao dobro o da réplica e da tréplica (art.474) Código de Processo Penal Brasileiro.
64 Aristóteles classificou os gêneros discursivos em três: judiciário, deliberativo e epidíctico. O judiciário é
aquele que dispõe de leis e se dirige a um auditório especializado, utiliza de preferência raciocínios silogísticos (entimemas), próprio a esclarecer a causa dos atos. O deliberativo, dirigindo-se a um público mais móvel e menos culto, prefere argumentar pelo exemplo que permite conjecturar o futuro a partir dos fatos passados. Quanto ao epidíctico, recorre, sobretudo, à amplificação, pois os fatos são conhecidos pelo público, e cumpre ao orador dar-lhes valor, mostrando sua importância e sua nobreza. Essa teórica dos três gêneros de Aristóteles é muito restritiva para os dias atuais. O mérito de Aristóteles foi mostrar que os discursos podem ser classificados segundo a finalidade (Reboul, 2000).
Após a introdução de construção discursiva de defesa, o Defensor relata a história de vida do acusado. Dentro do seu relato, introduz outras histórias: reais, bíblicas ou mitológicas, procurando construir uma analogia entre o acusado e o personagem bíblico ou da mitologia. Às vezes, o personagem bíblico ou mitológico é parte de uma história “real” da humanidade, tendo se notabilizado e se tornado conhecido. As analogias são construídas entre figuras que fazem parte do conhecimento de um homem comum para que o seu discurso possa sensibilizar seu público. Caso contrário, o público poderia não entender a analogia construída ali e o discurso defensivo não construir um efeito de sentido positivo.
Depois da sensibilização pela construção analógica, o Defensor procura se respaldar na lei para contradizer o discurso de acusação. Nesse momento, ele cita artigos de lei, decisões de outros tribunais, comentários e explicações de juristas de renome. Como na maioria das vezes, as pessoas que são levadas ao Tribunal do Júri possuem uma história de vida complexa, muitas vezes são réus confessos, o Defensor Público trabalha para que não haja abuso em uma provável condenação.
O Defensor, em sua prática, lê no processo os discursos relatados das pessoas envolvidas no crime, para exemplificar os argumentos construídos e defender o acusado. O vocabulário utilizado costuma ser muito técnico e às vezes incompreensível para o leigo. A forma de se expressar e o vocabulário utilizado pelo Defensor poderão contribuir para a constituição de um discurso eficaz.
Como os discursos são históricos e submetidos a um sistema de restrições - uma espécie de grade que vai se aplicar a um determinado corpus, então o falante teria uma competência discursiva para produzir enunciados compatíveis com essa grade - de tudo que pode ser dito, cada discurso só pode dizer uma parte. Isso ocorre porque há um sistema de restrições, uma espécie de filtro que fixa os critérios, segundo os quais, certos textos se distinguem de outros. Os discursos citados no Tribunal do Júri por nosso protagonista do trabalho funcionam como uma uma espécie de "tradução" do discurso bíblico, do discurso jurídico, do discurso mitológico etc. feita a partir do seu posicionamento. Geralmente, essa tradução nunca é de fato o que o Outro disse, mas um simulacro do que ele disse. O nosso protagonista toma o discurso do Outro a partir dele mesmo (Um) e estabelece uma relação entre eles numa interincompreensão regrada, conforme a teoria desenvolvida por Maingueneau (2005b).
A seguir trabalharemos com a noção de gênero da atividade para analisarmos como se constitui a prática discursiva/atividade no Tribunal do Júri por nosso protagonista do trabalho.