Por mais que diversos autores e pesquisadores da psicanálise critiquem a hipótese filogenética de Freud, tratando-a inclusive como uma ingenuidade científica, ou atitude pseudocientífica (Laplanche & Pontalis, 1988), o fato é que ele se utiliza dessa explicação para tentar resolver o enigma da origem da fantasia. Questões difíceis de ser solucionadas, mas que devem ser pontuadas com a complexidade que tinham para Freud.
Os apontamentos de Monzani (1991), no artigo “A ‘fantasia’ freudiana”, ajudam a ressaltar que o caráter fantasioso dessa explicação filogenética tem uma importância que sobrepuja a dicotomia extravagância-seriedade, na medida em que considera que a
imaginação criativa e especulativa se faz presente durante todo o percurso do criador da psicanálise, seja ele teórico, seja clínico. Dessa maneira, é interessante salientar o fato de que Freud envereda a explicação das origens pelo caminho da filogênese, mesmo hesitando em lhe
dar crédito científico, chegando a dar mais espaço para a fantasia imaginativa na construção das hipóteses psicanalíticas do que alguns de seus herdeiros julgariam adequado. Assim, retomando o início de nossa discussão a respeito do fenômeno em questão, vemos mais uma vez ser corroborada sua importância para a construção do saber e da ars psicanalítica, na medida em que a fantasia se destaca como fundamental no tratamento, na transmissão do conhecimento (relato de caso) e também na pesquisa e na construção teórica dessa disciplina. De acordo com Monzani:
Se repassarmos os seus grandes textos teóricos, seremos obrigados a constatar que quase todos eles são fantasias teóricas. O Projeto está inteiramente baseado numa neurologia fantástica. A metapsicologia, Freud mesmo a classifica como “bruxa”. Além do Princípio do Prazer abre declaradamente espaço para a fantasia. Sobre Totem e Tabu, Moises ou sobre o texto que acabamos de discutir, qualquer comentário é supérfluo. (p. 104).
A última referência de Monzani é o caso conhecido como “homem dos lobos”, onde fica evidente a importância que Freud (1918[1914]/2010) conferia para as origens, seja “como cena primária ou como fantasia primária” (p. 158). A posição de Freud é verdadeiramente muito pouco unilateral, conferindo a devida complexidade aos fenômenos que observava. Pois, se havia uma necessidade de descobrir as origens, ele também sabia que tal processo beirava o impossível. Laplanche e Pontalis(1988) destacam que, por parte de Freud, nunca houve o abandono completo da intenção de buscar a origem do sintoma e do funcionamento psíquico e, além disso, qual o fator ou dado da realidade no qual se esteia essa origem. Disposição ou espírito investigativo também reflexos do espírito positivista do seu contexto social, mas que o levou, no limite, a abandonar a “seriedade” do método científico, a ponto de refletir sobre o início ou a origem das ocorrências e do funcionamento psíquico numa fantasia, seja ela biológica, seja ela antropológica. Tais cenas primitivas da filogênese,
(...) cuja trama Totem e tabu pretende reconstituir, e atribuídas ao homem originário (Urmensch), ao pai originário (Urvater), seriam invocadas por Freud menos para reencontrar uma realidade que lhe escapa ao nível da história individual do que para limitar um imaginário que não poderia compreender em si mesmo o seu princípio de organização e, portanto, não constituiria o “núcleo do inconsciente”. (p. 55)
Nesse mesmo livro citado, Laplanche e Pontalis também compreendem que as fantasias originárias refletem sempre uma tentativa de se explicar a origem – da sexualidade,
do nascimento, da diferença dos sexos82. Assim, as fantasias originárias tentam solucionar o problema das origens da fantasia, mas são, elas também, fantasias a respeito das origens do indivíduo, daquilo que permanece como inaugural, irredutível e, até certo ponto, irrepresentável ou inacessível. A tentativa de Freud de, como propõe Loffredo (1999) no artigo “Em busca do referente, às voltas com a polissemia dos sonhos”, buscar incansavelmente pelo “referente”, “da necessidade de que as palavras se remetam a objetos e a estados de coisa”, o faz enveredar pela criação de uma explicação quase mitológica para a origem do psiquismo, como deixa transparecer claramente no famoso ensaio Totem e Tabu (1912-1913/2012)83. Mas é uma posição bastante complexa e que não se destaca da investigação, em primeiro lugar clínica, do inconsciente. Complexa o bastante para inserir essa disciplina no debate científico e iluminista de seu tempo, e para ultrapassá-los na medida em que executa um corte epistemológico, criando não apenas um novo método terapêutico e de investigação do psiquismo, mas um método capaz também de apreender de maneira diferente a história, a antropologia e, potencialmente, qualquer outro reduto ou aspecto do homem ocidental – tal como aponta Certeau em A Escrita da história (1975/1982).
Seja como for, tudo isso vai salientando cada vez mais a importância do fantasiar criativo na armação teórica e nessa nova mirada (metodologia) operada pela disciplina psicanalítica. Não apenas a fantasia possui importância como conceito, mas também é interessante notar como ela afeta a própria investigação clínica e metapsicológica. Assim
82 Katz(1995), em “Comunicação: Conjunção-disjunção”, pontua que, além das fantasias originárias, a
saber, da cena primária, da castração e da sedução, descritas por Freud – envolvendo respectivamente a origem do indivíduo, a origem da diferença dos sexos e a origem da sexualidade –, haveria uma quarta fantasia originária, descrita por Sándor Ferenczi (1924/2011) em “Thalassa: ensaio sobre a teoria da genitalidade”, que é o retorno ao útero como precipitado filogenético de uma tendência ao retorno para o mar primordial, denominado pelo autor húngaro de Thalassa.
83 A conceituação da pulsão de morte, exigida por conta das observações clínicas (repetições de cenas
traumáticas aquém do princípio de prazer), postulada também como a pulsão sem representação, traz problemas de ordem estrutural para o pensamento freudiano, obrigando-o a abandonar definitivamente o ideário cientificista e iluminista do seu tempo. Problemas já enfrentados no início das teorizações de Freud a respeito do aparelho psíquico, mas que ganham corpo e poder de enunciação com valor de “ruptura” apenas em um período mais avançado de seu trabalho. O que surge como dissonante é a presença da morte no seio da organização pulsional e da linguagem, como afirma Loffredo(1999), no artigo “Em busca do referente, às voltas com a polissemia dos sonhos”: “Com a enunciação da pulsão de morte, a construção teórica freudiana sofre um abalo constrangedor em um de seus pilares básicos: a noção de representação. Desde que, nesse ponto, circunscreve-se o campo do não-representável. A busca do referente, que pretendia promover uma garantia de cientificidade, culminou no auge do impasse, isto é, não se pode mais dizer que o nome remete a objetos e a estados de coisa. A pretensão à ciência, pelo menos no sentido em que a entendia Freud, é posta em questão.”. A esse respeito sugerimos também os estudos de Joel Birman(2003), em O Mal-estar na atualidade, e o livro de Monzani (1989), Freud, o movimento de um pensamento.
sendo, a psicanálise se alimenta nutritivamente do fantasiar balizado pela criatividade do analista, devendo o valor de seu método não exclusivamente à suposta seriedade e objetividade da ciência, mas sobretudo à capacidade do analista conseguir fantasiar, seja de modo a participar da transferência e assim conduzir o tratamento (Lagache, 1993a, 1993b), seja de modo a especular teoricamente sobre o que foi observado na clínica (Fédida, 1991, 1996).
Dessa forma, é coerente afirmar que toda a situação analítica está envolta em fantasia, das mais diferentes espécies, e que estas formam uma espécie de condição para a análise, sobretudo como parte das defesas e dos anseios do analisando. No entanto, na condição de quem conduz o tratamento e o caminho da cura, espera-se que o analista consiga examinar conscientemente as suas próprias fantasias e devaneios, tal como reforça Otto Fenichel, no livro Problems of psychoanalytic technique (1939/1941), e no artigo “Theoretical implications of the didactic analysis” (1938[1980]); assim como Sándor Ferenczi (1932a/1990), na nota “O relaxamento do analista” do Diário clínico, já desde a década de 30. Outros autores cronologicamente mais contemporâneos84 apontam para a mesma necessidade, de maneira a esclarecer as vicissitudes do fantasiar propício à atenção flutuante e à participação na transferência.
Com Ferenczi (1932a/1990) observamos que a postura do analista, de se permitir o trabalho da fantasia, é assimilada a um relaxamento, em uma disposição de espírito bem próxima daquela explicitada por Freud (1900/2001) em A Interpretação dos sonhos como sendo “a atitude de espírito necessária perante ideias que parecem surgir por livre e espontânea vontade” (p. 117); com o psicanalista húngaro lemos:
Do paciente, espera-se que ele se abandone, até nova ordem, à conduta ditada pelo inconsciente, mas o médico também deve deixar a fantasia obrar em todas as direções, mesmo nas mais absurdas; entretanto, ele tem a obrigação, ou o dever, de não se afastar demais da superfície da consciência e, em nenhum momento, por assim dizer, desprezar a sua tarefa de observar os pacientes, avaliar o material produzido e tomar as decisões quanto a eventuais comunicações, etc. (1932a/1990, p. 121)
Ferenczi ainda aponta que o próprio Freud recomendava tal relaxamento por parte do analista, denominando tal atitude em 1912, no artigo “Recomendações ao médico que pratica psicanálise”, de “atenção flutuante” (gleichschwebende Aufmerksamkeit) (Freud, 1912/2010,
84Referimo-nos aqui à Lagache (1993a), em “Fantasy, reality and Truth”; Ogden (1996), em Os
p. 149). Condição ou estado de espírito necessário para que o analista não selecione ou priorize um material em detrimento de outro, o que inevitavelmente deturparia sua escuta e sua capacidade para a interpretação. Nesse artigo técnico Freud (1912/2010) considera que tal atitude é a contrapartida, no analista, da “regra fundamental da psicanálise” que o analisando deve seguir, a saber, a associação livre (p. 150). Certamente, trata-se aqui de um fantasiar que não impede que o analista fique atento ao que diz o paciente, sendo, pelo contrário, uma atividade que possibilita a escuta e a atenção no estado livremente flutuante, ideal para o ofício clínico da psicanálise. O analista não se deve deixar levar indefinidamente pelo fluxo da própria imaginação, nem regredir demasiadamente para longe da consciência pois, assim, poderia se afastar demais do paciente em direção exclusiva para o seu narcisismo, até o ponto de abandonar por completo a situação analítica e a dimensão do cuidado e da escuta em anamnese. Nesse caso, a compulsão do analista em fantasiar poderia ser até mesmo reflexo de uma resistência por parte do mesmo, utilizada com o fim de evitar um conflito inconsciente despertado pelo contato com certos materiais trazidos ou suscitados pelo paciente.
Dessa maneira, no analista deve se misturar a tendência à forma e à falta de forma; ou seja, uma disposição ao devaneio não intencional, como uma das tecnicas que permitem o jogo com as possibilidades e a seleção inconsciente dos materiais significativos do dizer do paciente. Uma escuta que podemos arriscar denominar também de uma escuta preguiçosa, operada no intervalo do cotidiano, além do universo do trabalho forçado (labuta), mas que não é oposta ao trabalho da escuta e da memória inconsciente. Vejamos isso com mais atenção!
Para Freud (1900/2001), como vimos, o modelo do devaneio e da imaginação é aquele do sonho. Nesse sentido, a imaginação também é sinônimo da capacidade de recordação e de tolerância em relação aos conteúdos que vão brotando na porta da consciência, devido ao “relaxamento da vigilância nos portais da Razão”, tal qual escreve em A Interpretação dos
sonhos (p. 118). Como afirma em “Recomendações ao médico que pratica psicanálise” (1912/2010), a adoção de uma postura inicialmente acrítica, de “escutar e não se preocupar em notar alguma coisa”, torna-o capaz de vislumbrar os elementos “cujo significado será conhecido apenas posteriormente.”, (p. 150). Devido a essa postura, (que se revela no processo como estando a meio caminho da Razão e da imaginação), o analista adquire uma memória inconsciente da fala do analisando, trazendo para a interpretação um detalhe que o paciente deve se recordar e, “que provavelmente teria contrariado a intenção consciente de fixá-lo na memória.” (Freud,1912/2010, p. 151). Ou seja, é a atitude adequada para enfrentar
as resistências inconscientes do paciente. Este, por sua vez, pode até chegar a elogiar a memória do analista, deslumbrando-se com sua capacidade extraordinária; mas esse potencial mnêmico, ou de anamnese, ocorre somente porque o analista não tenta fixar a atenção em nenhum lugar, ou em nenhum assunto, seja para hipervalorizá-lo, seja para tratá-lo como algo já conhecido. Ao invés disso, a disposição do analista que as vezes pode sugerir até um devaneio distraído, ou até um distanciamento do paciente, é o que lhe permite instaurar a situação analítica e o consequente reconhecimento das ideias que, no cotidiano da labuta e da vida, seriam esquecidas.
Essencialmente, a postura do analista rompe com a comunicação habitual e puramente informativa (Fédida, 1991); ali, as técnicas de memorização e de “atenção proposital” não funcionam (Freud, 1912/2010, p. 149). Em outras palavras, são esforços inúteis! Não há necessidade de – e é até mesmo prejudicial para a análise – se adotar um posicionamento produtivista, centrado, por exemplo, na promoção da catarse das emoções, ou com um afã enlouquecido para se aprofundar no material misterioso do Inconsciente. Poder “oferecer a tudo o que se ouve a mesma ‘atenção flutuante’” (idem), é ficar na superfície, transitando na fina camada que delimita e dá forma ao que é falado. Uma imagem que não está distante de algumas figuras possíveis da preguiça, tal como o tédio, a respeito do qual Phillips (1993) afirma: “Que o tédio é na verdade um processo precário no qual a criança está, assim como esteve, tanto esperando por alguma coisa, como procurando por algo, um processo no qual a esperança está sendo secretamente negociada; e, nesse sentido, o tédio é semelhante a atenção livremente flutuante.” (p. 69).
Uma postura ativamente distraída, ou indiferentemente criativa, que até pode lembrar o tédio e a preguiça no sentido da hesitação, capaz de restaurar a potência mito-poiética das palavras, o seu grau de estranhamento e de figurabilidade, tal como aponta Fédida, tanto nos artigos reunidos no livro O Sítio do estrangeiro (1996), como nos textos que compõem os livros Nome, figura e memória (1991) e Clínica psicanalítica (1988).
Segundo o exemplo do poeta-herói utilizado por Freud (1921/2011) em “Psicologia das massas e análise do Eu”, o mito – para recuperar aqui o argumento da fantasia originária – é o recurso utilizado pelo poeta para falar do acontecimento inaugural da cultura, capaz de surgir somente enquanto esquecido e transformado; a saber, o assassinato do pai da horda primeva. A palavra, quando poiética, permite ao locutor falar desse esquecimento que,
segundo Freud (1912-1913/2012), em “Totem e tabu”, seria o sucedâneo direto do ato criminoso, do ato tornado proibido de ser lembrado e, que na mito-poética freudiana, funcionaria como o recalque originário (Fédida, 1996), a partir do qual os outros recalques, propriamente ditos, irão se organizar. Não apenas isso, mas articulando a fantasia do assassinato do “monstro totêmico” (Freud, 1921/2011, p. 102), o poeta-herói possibilita também que o indivíduo emerja da “psicologia da massa” e da alienação correspondente a esse aglomerado em grupo (p. 103), através da imaginação e do efeito estético (prazer preliminar) que provoca nos seus ouvintes. A massa seria por sua vez a loucura fusionada, da qual a hipnose seria espécie. À ela cabe a linguagem puramente comunicativa, a ideologia, com a qual se elimina o um e o estranho, na esperança de encontrar exatamente aquilo que se busca: a dominação ou aniquilamento da dimensão do inconsciente e do diferente (julgado como inimigo ou inumano), isto é, a conquista da totalidade indivisível. Uma apropriação da linguagem que despreza completamente a dimensão do esquecimento do recalcado, assim como a consequente divisão do aparelho psíquico e o descentramento da consciência. De acordo com Fédida (1991):
O que sem dúvida deve ser nomeado desumano não reside tanto na representação de um anonimato da multidão (o pânico não é desumano). Mas nessa fuga do ser em direção à sua aglomeração compacta, que se chama massa. Nesse caso, ainda que a fala possa falar plenamente, ela se encontra exilada da linguagem e é impotente para relembrar-se. (pp. 17- 18).
O poeta, como sendo aquele que encena o assassinato do pai, ergue-se ativando subliminarmente a nossa capacidade de se “relembrar” e de, portanto, também imaginar, ou de brincar, no pré-consciente, com a nossa própria realidade psíquica. Para Fédida (1996), o poeta-herói seria esse indivíduo mais capacitado para observar e falar a respeito dos começos, da origem da linguagem, fundamentalmente pois ele consegue reinstalar, a partir do seu talento, a capacidade para a recordação nos seus ouvintes, refletida em um ganho de imaginação; em termos metapsicológicos, em instaurar uma queda na energia necessária para a manutenção do recalque, por conta do prazer preliminar que oferece, tal como afirma Freud em “Escritores criativos e devaneios” (1908ª[1907]/1976). Fédida entende esse fenômeno justamente como a capacidade de restaurar o esquecimento, ou o infantil, no seio da
linguagem.
Fédida (1991) resume essa capacidade do poeta da seguinte maneira: “(...) o poeta é sempre aquele que deixa o desenho das coisas recolher-se na escritura das palavras ao sair do
sono em que a fala cotidiana da língua as mantém.” (p. 16). Ele é, destacadamente, capaz de
não se esquecer de que há um esquecimento na origem, entendido por Freud como a pré- condição para a criação dos tabus, da cultura e da civilização. Um esquecimento que para Fédida (1996) está no âmbito do recalque originário e que pode muito bem ser da ordem do impossível, (quando no âmbito factual da História), mas que não deve ser esquecido em si
enquanto esquecimento. Se acaso pode-se tomar a figura mitológica do pai despótico e eloquente da horda para encenar o mito psicológico (uma entre muitas figuras capazes de se explicar as origens), isso não deve ser tomado como um desatino, ou como um capricho extravagante do psicanalista ou do poeta-herói. Trata-se aqui de observar como a capacidade criativa e elucidativa do poeta, para derivar os seus “começos” em direção à linguagem, é capaz de evocar a imaginação criativa do expectador. A fantasia aí, habita a origem (inconsciente) e o final do processo (consciente e pré-consciente) de engendramento da poesia, tal qual acontece no sonho, tal qual acontece no mito. Ela é a condição sine qua non para o processo, que deve ser então completado pela capacidade sublimatória do poeta em traduzir seus impulsos e fantasias inconscientes e pré-conscientes em uma forma com atributos estéticos, isto é, em produtos belos (Marcuse, 1968)85. Já para o expectador, tal fantasia o lança para fora da massa e da linguagem-multidão, possibilitando-o entrar em contato com os seus próprios desejos e com a força revigorante que a complexificação dos mesmos oferece ao seu psiquismo.
Os paralelos da arte com a situação analítica – traçados inicialmente por Freud desde as suas trocas de carta com o colega e confidente Wilhelm Fliess – sugerem inclusive que o recurso ao mito, ou à tradição mitopoética presente na psicanálise de Freud, é da ordem do método e que não deveria ser negligenciado (Monzani, 1991; Loffredo, 2010). O analista que ocupa a posição de ausência em presença – que lhe é outorgada pelo estatuto de desconhecido e de estrangeiro86 - também é capaz, tal qual o herói que desafoga o indivíduo da massa, de
85 Marcuse (1968), em Eros e civilização, aponta que a estética, como disciplina do conhecimento da
sensualidade (Sinnlichkeit), surge apenas no século XVIII como “uma nova disciplina filosófica, como a Teoria do Belo e da Arte”, sendo Alexander Baumgarten o responsável pelo estabelecimento de seu sentido moderno (p. 162).
86A questão da ausência em presença é largamente desenvolvida por Fédida, no livro O Sítio do
estrangeiro (1996) e em Nome, figura e memória (1991), como sendo a condição de neutralidade do analista, que propicia ao neurótico o fenômeno da transferência.A esse respeito, nos remetemos a pontuação precisa de Cromberg (2004), no texto “Fédida e o erotismo da palavra dos começos: uma homenagem afetiva”: “Criar o sítio do estrangeiro, pela ausência na presença e não ser uma presença ausente. Nem sempre isso é possível. Daí ele encontrar um sentido para a presença corporal do analista nos momentos psicoterápicos de uma análise ou na própria psicoterapia exercida por um analista. Mas
fazer as palavras retomarem o seu potencial poiético. Em outras palavras, no diálogo
oferecido por esse estranho que é o analista, a linguagem do paciente ganha a capacidade de figuração e, assim, de tornar possível uma imagem que é, em si, impossível de ser recordada. Loffredo (2010), no trabalho “Interpretação e Ficção I”, reflete sobre essa vizinhança entre psicanálise e poesia exatamente nessa mesma chave de interlocução: a capacidade para nomear: “A analogia da produção poética com o que se cria no setting analítico não é, portanto, nem trivial nem artefato ilustrativo, pois não é a poesia a arte da criação de realidades amorfas e submersas que carecem de existência, a menos que sejam nomeadas?” (p. 145).
O analista propõe e insiste para que o paciente se “relembre” de que há algo esquecido