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3.1. Demografik ve Sosyo-ekonomik Analiz

3.1.2. Çırak Ailelerinin Sosyo-ekonomik Özellikleri

É importante frisar a questão da sacrossantificação do trabalho no capitalismo, pois tal constatação abre a possibilidade de vislumbrar a preguiça enquanto um “pecado virtuoso”, justamente por atentar contra a religião do deus Progresso “filho mais velho do Trabalho” (Lafargue, 1880/2003, p. 29): um “dogma desastroso” que seria a causa princeps do sofrimento e da miséria que assolava o operariado francês do século XIX.

Pois, afinal, se o esforço e a dor associados ao trabalho são considerados como uma maldição ou punição pela Igreja Católica, o que aconteceu para que ele passasse a ser valorizado enquanto virtude? O que pode ter acontecido para que o ócio, tão valorizado antigamente – na “época em que se pisava o mesmo chão e se respirava o mesmo ar que Aristóteles, Fídias, Aristófanes” (p. 21) –, pudesse ser visto como falha e vício, sendo necessário negá-lo e transformá-lo em seu contrário, em neg-ócio? (Albornoz, 2008; Chauí, 2012; Giacóia, 2012; Matos, 2012; Novaes, 2012). Desde quando as “palavras honestus e

honestiores deixaram de significar os homens livres e passaram a significar o negociante que paga suas dívidas?” (Chauí, 2012, p. 79). Porque, afinal, a estranha glorificação e idolatria do labor, daquilo que era símbolo da penitência no Cristianismo?

Weber (1920/2004)48, em um famoso escrito sociológico, A ética protestante e o

espírito do capitalismo, tenta responder a algumas dessas perguntas, atentando para as “afinidades eletivas” que haveriam entre a ética da religião protestante e o espírito do capitalismo. Nessa obra, que é um clássico da sociologia alemã, o autor argumenta, dentre outras coisas, que o capitalismo sempre existiu, mas que foi impulsionado e alavancado pelo pensamento religioso fruto das reformas religiosas iniciadas por Lutero. De acordo com o entendimento de Chauí (2012), nesse livro Weber explora a racionalidade específica do capitalismo, conseguindo relacionar diversos elementos da religião protestante, principalmente do calvinismo, com o espírito que guia e faz proliferar o referido sistema econômico, a saber, uma hipervalorização do trabalho e do ascetismo intramundano condensados na “ideia nova” de vocação (beruf) – da profissão como dever e sinal de salvação (Weber, 1920/2004, p. 47). O trabalhador, e aquele que não desperdiçar o tempo com ociosidade, luxos e prazeres carnais, sabe-se eleito para advir ao paraíso. Caricaturalmente, do lado oposto, os gastadores, preguiçosos e libertinos estavam condenados a serem párias da sociedade: “Ócio e prazer, não; só serve a ação, o agir conforme a vontade de Deus inequivocadamente revelada a fim de aumentar sua glória. A perda de tempo é, assim, o primeiro e em princípio o mais grave de todos os pecados.” (p. 143).

Ainda na esteira das reflexões de Chauí (2012), observamos que, para Weber, “tornou- se regra moral o dito ‘mãos desocupadas, oficina do diabo’” (p. 79). Por intermédio cada vez mais especializado da sistematização e do controle sobre a espontaneidade e a gratuidade da ação e da fruição do tempo, o trabalho transformava-se em princípio ético a ordenar a razão e, consequentemente, os ideais de conduta e de vida em sociedade. Nesse contexto, aquele que se dedicar a sua vocação (beruf) – entendida como atividade profissional –, que souber acumular dinheiro, honrar suas dívidas, e disfarçar os seus erros, terá o sucesso na terra: espelho de sua predestinação. Dessa forma, o trabalho, entendido como postura e atitude

profissional,é alçado à categoria de virtude; através dele, e somente dele, o homem pode se identificar como um dos eleitos à salvação. Tal princípio é transformado gradativamente em um modo operante a guiar toda a vida, que passa a ter no trabalho profissional o apogeu do seu modelo de funcionamento. Uma valorização do dever operada por uma doutrina religiosa

48Escolhemos a data da última revisão; segundo a Apresentação de Antônio Flávio Pierucci (2004)

para a edição consultada: “Chamemos então de versão original aquela publicada na revista Archiv [Archiv für Sozialwissenchaft], em duas partes e em dois momentos consecutivos, 1904 e 1905. E chamemos de versão final a edição de 1920 (ano também final da vida de Weber), aquela que se permite dizer as coisas numa linguagem mais precisa na forma e mais segura na atitude (...).” (p. 9).

que, nas palavras de Weber (1920/2004), conseguiu “eliminar a espontaneidade do gozo impulsivo da vida” (p.108). Nessa nova ética e racionalidade, um único erro bastaria como sinal de danação:

A práxis ética do comum dos mortais foi assim despida de sua falta de plano de conjunto e sistematicidade e convertida num método coerente de condução da vida como um todo (...). Pois só com uma transformação radical no sentido de toda a vida, a cada hora e a cada ação, o efeito da graça podia se comprovar como um arranque do status naturae rumo ao status gratiae. (p. 107).

Uma doutrina que, tomando de assalto a vida tradicional e o usufruto do tempo – também utilizado para o ócio, para a ociosidade, e para a “conversa espontânea” –, prega uma racionalidade segundo a qual o trabalho deve permear todo o contexto das atividades humanas, de maneira a gerar mais trabalho e mais lucro. Uma concepção da dedicação profissional como dever ético e como sinal de virtude: “a valorização do cumprimento do dever no seio das profissões mundanas como o mais excelso conteúdo que a autorrealização é capaz de assumir” (p.72). Em outras palavras, todo o conjunto das atividades é transformado em trabalho. Uma vez que é por sua prática contínua e pela ascese que se comprova a predestinação, perder tempo, ou agir de maneira inútil, espontânea, improdutiva ou gratuita, é condenar ao purgatório toda uma vida de sobriedade. Nesse cenário, além da diminuição dos feriados santos (e dos festejos populares) e do aumento das jornadas de trabalho assalariado, a

preguiça ficava condenada aos mais baixos dos círculos do Inferno. Segundo o sociólogo alemão, “Sloth {preguiça} e idleness {vadiagem} são pecados assim eminentemente graves (...). Chegam a ser considerados por Baxter como ‘destruidores do estado de graça’. Eles são exatamente a antítese da vida metódica.” (p. 254). Eliminado os prazeres da vida em nome de uma sobriedade rígida e intolerante, a nova ética impulsionou a empresa capitalista a um outro patamar, nunca antes visto.

Em tal contexto de hipervalorização do trabalho e da ascese – dessa nova racionalidade burguesa e puritana –, qualquer atitude que não estivesse direcionada à vocação profissional, era vista como um vício, uma fraqueza moral, que traria a peste e a desgraça não somente ao indivíduo – que sucumbirá na miséria ou na prisão –, mas também para toda a sociedade. Tal concepção fica evidente na análise empreendida por Weber sobre um escrito de Benjamin Franklin, chamado Advice to a young tradesman (1748 citado por Weber, 1920/2004): uma ótima expressão desse novo ethos, no qual o trabalho surge como um “poderoso racionalizador da atividade econômica geradora de lucro” (Chauí, 2012, p. 80).

Nessa perspectiva, perder tempo é trabalho subtraído em direção à glória de Deus, um atentado que se reflete como desatino para a racionalidade puritana e para a racionalidade capitalista. Nessa referência a Benjamin Franklin, tal postura ética da condenação da “antiga cadência de vida pacata” (Weber, 1920/2014, p. 60), surge fundida com o espírito capitalista de acumulação e reinvestimento de renda, nas palavras de Franklin:

Lembra-te que tempo é dinheiro; aquele que com seu trabalho pode ganhar dez xelins ao dia e vagabundeia metade do dia, ou fica deitado em seu quarto, não deve, mesmo que gaste apenas seis pence para se divertir, contabilizar só essas despesas; na verdade gastou, ou melhor, jogou fora, cinco xelins a mais. (citado porWeber, 1920/2004,p. 43).

O espírito capitalista se funde aqui com a ética protestante da ascese intramundana. Romper, ou não seguir com essa ética, é uma falta não apenas religiosa, como passa também a ser condenada socialmente e racionalmente. O trabalho profissional ganha um estatuto de

virtú e de ordenador da economia que jamais havia possuído e que, infelizmente, manteve muito depois das mudanças que seguiram as novas transformações do capitalismo. Segundo Weber:

Ora, esse processo de racionalização no plano da técnica e da economia sem dúvida condiciona também uma parcela importante dos “ideais de vida” da moderna sociedade burguesa: o trabalho como objetivo de dar forma racional ao provimento dos bens materiais necessários à humanidade é também, não há dúvida, um dos sonhos dos representantes do “espírito capitalista”, uma das balizas orientadoras de seu trabalho na vida. (p. 67).

Assim, como ressalta Chauí (2012), a percepção do trabalho metódico como operador da vontade divina foi importante não apenas para o desenvolvimento vertiginoso do capitalismo – para Weber, enquanto coincidência histórica –, como também, “teria sido decisiva para a construção da racionalidade capitalista ocidental moderna, dando ao ócio um aspecto mais terrível do que tivera até então.” (p. 80). E o que dizer do pecado capital da preguiça?! Sabe-se, por exemplo, ao menos desde os escritos de Marx e Engels, que a associação entre a preguiça (ociosidade) e a mendicância levou muitas pessoas para a prisão e para a morte nos trabalhos forçados49. A exaltação do trabalho não inclui somente o sucesso na vida privada do novo indivíduo burguês, ele passa também a regular a sociedade como um índice moral e legislativo, como padrão de conduta, de sobrevivência, e posteriormente de saúde, sendo a sua negação condenada com a pena capital.

49Também é de conhecimento geral que nos portões de ferro de Auschwitz, durante a época da

Bem, a questão é que Weber se recusa a aceitar a ideia do determinismo econômico e da luta de classes enquanto motor da história. Segundo Chauí, isso talvez o tenha impedido de vislumbrar que, se essa doutrina já era “esquisita” para o empresário médio, imagine como era absurda e aviltante para os camponeses recém-emigrados dos campos para os burgos e para os milhares de operários – crianças e mulheres inclusos – que trabalhavam de 12 a 15 horas por dia por um salário de fome, que mal supria as suas necessidades50. É como se houvessem trocado a miséria e a garantia de uma vida futura de prazeres no paraíso pela labuta na fábrica e pela incerteza do futuro. Portanto, a dúvida inquietante é saber: como tal ética e racionalidade se tornaram aceitáveis para o exército de operários explorados, levando-os até mesmo a lutar pelo direito ao trabalho? De acordo com a autora brasileira, é justamente disso que se trata o manifesto de Lafargue.