Há a possibilidade de trilhar vários caminhos para realizar a análise de material qualitativo cujo objetivo geral é buscar sentidos e compreensão, implicando na imersão do próprio pesquisador no corpus do texto. Geralmente esta análise inclui a identificação de similaridades e diferenças, comparando casos, construindo tipologias e realizando a análise do conteúdo em questão, demandando leitura exaustiva, anotações, a utilização de intuições criativas, tendo sempre em mente as finalidades e os objetivos da pesquisa (ESTERBERG, 2002; MINAYO, 2007). As estratégias que habitualmente vêm sendo mais abordadas na literatura, e conseqüentemente mais adotadas, constituem a Análise de Conteúdo (AC) e a Análise do Discurso (AD) e suas derivações (MACHADO, 2002; FLICK, 2004; MINAYO, 2007).
Bardin (1988) expõe que a análise do material qualitativo possui três finalidades complementares dentro da proposta de investigação social: a primeira é heurística; ou seja, insere-se no contexto de descoberta sobre a que se propõe a pesquisa; a segunda é a de “administração de provas”, realizada por meio do balizamento entre os achados, as hipóteses ou os pressupostos; a terceira é a de ampliar a compreensão de contextos culturais, ultrapassando-se o nível espontâneo das mensagens.
Flick (2004) ressalta que a interpretação de dados é o cerne da pesquisa qualitativa, podendo buscar duas metas opostas. Uma destas metas fundamenta-se na revelação, exposição ou contextualização de enunciados no texto, a qual normalmente resulta em um aumento do material textual. A outra visa à redução do texto original através de paráfrase, resumo ou categorização. Segundo o autor, estas duas estratégias são aplicadas tanto alternativa quanto sucessivamente. Em resumo, distingue duas estratégias básicas no modo de lidar com os textos: por um lado, a codificação do material como o objetivo da categorização e/ou do desenvolvimento da teoria; e, por outro lado, a análise de certa forma estritamente seqüencial do texto, que visa à reconstrução da estrutura do texto e do caso.
A AC é, em si, um método de pesquisa qualitativa, que pode ser utilizado isoladamente para a análise de documentos e outros tipos de material que não foram obtidos pelo investigador. Contudo, tem sido comumente adotado como ferramenta para a análise de material qualitativo oriundo de entrevistas. A AC tem sido foco de polêmica entre seus defensores e críticos e a estratégia com a qual vem sendo mais fortemente contraposta é a AD (CAPELLE, MELO e GONÇALVES, 2003; ROCHA e DEUSDARÁ, 2006; CAREGNATO e MUTTI, 2006;
63 A AC surgiu no início do século XX nos Estados Unidos com o interesse de cientistas por símbolos políticos, o que os levou a analisar o material jornalístico, ocorrendo um impulso do emprego desta técnica entre 1940 e 1950. Este fato contribuiu para o desenvolvimento da análise de conteúdo que, entre 1950 e 1960, estendeu-se para várias áreas (CAREGNATO e MUTTI, 2006).
É importante salientar que a AC não é simplesmente o exercício de contar, por exemplo, qualidades, palavras ou atributos; nem tampouco significa somente a extração de conteúdo dos dados, como se conteúdo fosse objetivamente contido nos dados. É uma técnica de pesquisa que permite, a partir de informações essencialmente verbais, simbólicas ou da comunicação, fazer inferências replicáveis e válidas dos dados com relação ao seu contexto (COAST, 2003; KRIPPENDORFF, 1980).
Bardin (1988, p. 81), uma das principais teóricas da AC, a define como “um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos, sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/percepção (variáveis inferidas) destas mensagens”. A autora destaca que, entre as possíveis técnicas utilizadas na AC, a análise categorial é a mais antiga, e na prática, a mais utilizada, funcionando por operações de desmembramento do texto em unidades, em categorias segundo reagrupamentos analógicos. Aborda também que a análise categorial pode ser temática, construindo-se categorias conforme os temas que emergem do texto.
Existem duas abordagens referentes à AC: a quantitativa e a qualitativa. A diferença entre estas abordagens é que na quantitativa traça-se uma freqüência das características que se repetem no conteúdo do texto, enquanto na qualitativa se considera a presença ou a ausência de uma dada característica de conteúdo ou conjunto de características num determinado fragmento da mensagem (CAREGNATO e MUTTI, 2006).
A conceituação da AD encontra-se envolvida em certa problemática, com ausência de consenso entre autores. É descrita como um conceito situado no campo de interseção entre as Ciências Sociais e a Lingüística (MINAYO, 2007), tendo como objetivo a reflexão sobre as condições de produção e apreensão da significação de textos, buscando compreender o modo de funcionamento, os princípios de organização e as formas de produção social do sentido (CAPELLE, MELO e GONÇALVES, 2003).
Bardin (1988), como defensora da AC, sustenta que a AD pertence ao campo da AC, argumentando que consiste em uma técnica cujos procedimentos têm como objetivo a inferência acerca de uma estrutura profunda (processos de produção) a partir de efeitos de superfície discursiva (manifestações semântico-sintáticas).
Há muitas explanações acerca dos objetivos da AD, contudo, segundo Capelle, Melo e Gonçalves (2003, p. 77), “com menor freqüência encontra-se uma definição precisa sobre o que ela é, provavelmente devido ao fato de que quando se trata de pensar os sentidos implícitos na linguagem, há mais espaço para incertezas do que para afirmações ou definições categóricas”.
De acordo com os adeptos da AD, nesta análise trabalha-se com o sentido e não com o conteúdo do texto – um sentido que não é traduzido, mas produzido –, sendo necessário buscar a compreensão do processo produtivo do texto, em contraposição à AC, cujo objetivo seria basicamente realizar uma interpretação exteriorizada do texto. Os defensores da AD colocam-se contra a noção realista de que a linguagem é simplesmente um meio neutro de refletir, ou descrever o mundo, – que julgam serem as bases da AC – e são convictos da importância central do discurso na construção da vida social (CAREGNATO e MUTTI, 2006; MINAYO, 2007).
Como diferença básica entra a AD e a AC, Caregnato e Mutti (2006, p. 683), citando Pêcheux (1993), apontam o modo de acesso ao objeto e expõem o seguinte:
A interpretação na AC poderá ser tanto quantitativa quanto qualitativa, já na AD ela será somente qualitativa. A maior diferença entre as duas formas de análises é que a AD busca os efeitos do sentido relacionados ao discurso; enquanto a AC fixa-se apenas no conteúdo do texto – ou seja, na materialidade lingüística através das condições empíricas do texto –, sem fazer relações além deste. A AD preocupa-se em compreender os sentidos que o sujeito manifesta através do seu discurso; já a AC espera compreender o pensamento do sujeito através do conteúdo expresso no texto, numa concepção transparente de linguagem.
Verificam-se ainda muitas ambigüidades na diferenciação entre AC e AD, em suas definições e na sua utilização. O investigador que pretenda lançar mão de uma destas técnicas deve ter em mente que o desenvolvimento de ambas envolve conhecimentos mais específicos e exigirá dele uma capacidade para sugerir e elaborar suas próprias propostas de análise, dentro das possibilidades que esses dois campos do conhecimento oferecem (CAPELLE, MELO e GONÇALVES, 2003)
65 Uma das propostas para análise do material qualitativo consiste em uma estratégia denominada redes de temas. Esta estratégia propõe uma forma de organizar a análise temática dos dados qualitativos categorizando os temas que surgem nos textos em diferentes níveis incluindo seis passos básicos: 1) a codificação do material: este é o primeiro passo para reduzir o material e encontrar os segmentos de textos que possuem significado relevante para a análise; 2) identificação dos temas: uma vez que o texto foi codificado, os temas são extraídos dos segmentos codificados; 3) construção de redes temáticas, ou seja, os temas semelhantes são colocados num mesmo grupo e os grandes grupos são identificados e nomeados; 4) descrição e exploração das redes temáticas: esta é a primeira arte da análise, pois, quando as redes são construídas, várias leituras devem ser feitas para melhorar a compreensão e significado dos temas; 5) sumário dos temas: depois que a rede de temas foi descrita e explorada, é feito um sumário dos principais temas e padrões que a caracterizam e; 6) interpretação dos padrões encontrados (ATTRIDE-STIRLING, 2001; SIMÃO, 2005). Como modalidades de análise de material qualitativo, Minayo (2007) destaca (i) a AC, designada como “técnicas de pesquisa que permitem tornar replicáveis e válidas inferências sobre dados de um determinado contexto, por meio de procedimentos especializados e científicos”; (ii) a AD, cujo “objetivo básico consiste em uma reflexão geral sobre as condições de produção e apreensão da significação de textos produzidos”; e (iii) a Análise Hermenêutica-Dialética12, “alternativa que superaria o formalismo das análises de conteúdo e
de discurso, indicando ‘um caminho do pensamento’”. Esta autora argumenta que a AC e a AD têm como fundamento a consideração de que a “verdade” dos significados localiza-se nos “meandros profundos dos sentidos dos textos”, expondo que se esta consideração é adotada como absoluta, “deixa em segundo plano os aspectos extra-discursivos que constituem o espaço sócio-político-econômico, cultural e relacional onde o discurso circula”. A autora defende, então, que a proposta da Hermenêutica-Dialética é a que oferece um conjunto referencial mais completo para análise do material qualitativo, pois a considera como uma estratégia de análise com a qual se interpreta o conteúdo ou o discurso dentro de um quadro
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Hermenêutica é a arte de interpretar os textos sagrados ou misteriosos (BARDIN, 1979 apud CAPELLE, MELO e GONÇALVES, 2003, p. 70); é a busca de compreensão de sentido que se dá na comunicação entre seres humanos, tendo na linguagem seu núcleo central (GADAMER, 1999 apud MINAYO, 2007, p. 166). Esta abordagem trabalha com a comunicação da vida cotidiana e do senso comum, dentro dos seguintes pressupostos: o ser humano como ser histórico e finito complementa-se por meio da comunicação; sua linguagem também é limitada, ocupando um ponto no tempo e no espaço; por isso, é preciso compreender também seu contexto e sua cultura (MINAYO, 2007, p. 166).
Dialética é a ciência e a arte do diálogo, da pergunta e da controvérsia. Diferentemente da Hermenêutica, ela busca nos fatos, na linguagem, nos símbolos e na cultura, os núcleos obscuros e contraditórios para realizar uma crítica informada sobre eles (MINAYO, 2007, p. 167).
de referências que permite ultrapassar a mensagem manifesta e atingir os significados encobertos.
Como forma de operacionalizar a análise de material qualitativo Minayo (2007, p. 301) propõe a execução da ordenação e da classificação dos dados. A etapa de ordenação dos
dados inclui: (a) transcrição das gravações; (b) releitura do material; (c) organização dos
relatos em determinada ordem, o que já supõe um início de classificação; (d) organização dos dados de observação. Para a etapa de classificação dos dados é sugerida a divisão em duas fases: uma leitura horizontal e exaustiva dos textos e uma leitura transversal. Com a leitura horizontal e exaustiva tenciona-se um prolongamento de uma relação interrogativa com o texto. É necessário que o material escrito seja cuidadosamente analisado: frases, palavras, adjetivos, concatenação de idéias, sentido geral do texto, de forma a permitir a apreensão das estruturas de relevância dos atores sociais, das idéias centrais que tentam transmitir e dos momentos-chave e suas posturas sobre o tema em foco. Na leitura transversal o pesquisador realiza um processo classificatório, por meio de um recorte de cada entrevista ou documento em “unidade de sentido”, por “estruturas de relevância”, por “tópicos de informação” ou por “temas”, colocando as partes semelhantes juntas, buscando perceber conexões entre elas, e guardando-as em códigos ou gavetas.
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4. MATERIAL E MÉTODOS
Tendo em vista as motivações e os objetivos da pesquisa, ficou clara a necessidade da utilização de métodos qualitativos. De posse de informações relativas aos principais métodos qualitativos existentes e utilizados, optou-se pelos grupos focais, cujas características, descritas na revisão da literatura, permitiram verificar a viabilidade de adotá-los para captar a percepção de segmentos populacionais com perfis distintos. Um teste sugerido por Morgan (1997), visando averiguar se a adoção deste método adéqua-se ao estudo pretendido, consiste em questionar quão ativa e facilmente os participantes discutiriam o tópico de interesse da pesquisa. Identificou-se o tema como de fácil abordagem junto à população, com a ressalva de que seria necessária a elaboração de um roteiro apropriado que motivasse as pessoas a expor as informações de interesse.
No que se refere à apreensão de como o saneamento vem sendo abordado pelo poder público, pelos meios técnico e acadêmico e pela mídia, no Brasil, e ao cotejamento com abordagens adotadas em outros países – foco do primeiro objetivo específico deste estudo –, os trabalhos para aquisição de dados coincidiram com a realização da revisão bibliográfica. As informações que demonstram o que foi apreendido a respeito das referidas abordagens encontram-se apresentadas na revisão da literatura e o cotejamento, assim como comentários a respeito dos achados, são expostos posteriormente na apresentação dos resultados.
Com vistas à captação da percepção da população acerca do saneamento, poder-se-ia pensar na adoção de outros métodos que não o de grupos focais, como a observação participante e a entrevista individual. Contudo, ao realizar uma comparação entre os métodos e suas características, abordada na revisão da literatura, reafirmou-se a opção escolhida, tendo em vista a viabilidade de obtenção de opiniões de várias pessoas pertencentes a um tipo de segmento populacional, simultaneamente.
Como primeira etapa para o desenvolvimento do presente trabalho, efetuaram-se estudos com relação aos métodos qualitativos de pesquisa e, em especial, à prática do procedimento do grupo focal, de forma a definir o que seria necessário para dar inicio à pesquisa. Nesta etapa, também foi realizada uma análise relativa à abordagem do saneamento que permitisse identificar os recortes adotados pelos profissionais das áreas técnica e acadêmica, assim como pelo poder público e pela mídia.
Realizou-se uma investigação bibliográfica buscando estudos voltados ao tema do saneamento com a aplicação de métodos qualitativos de pesquisa os quais não foram encontrados em quantidade significativa. Com o desenvolvimento da pesquisa, o contato com outros pesquisadores e a constante procura por novas referências, identificaram-se vários trabalhos com o perfil citado. Aventa-se que, provavelmente, isto ocorreu em função da busca inicial ter sido efetuada, na Internet, por meio das palavras-chave metodologia qualitativa,
métodos qualitativos de pesquisa e saneamento, pois muitos dos trabalhos que foram
identificados com abordagem sobre saneamento e adoção de métodos qualitativos não faziam referência a esta metodologia. Observou-se que alguns abordavam corretamente a metodologia adotada, mas, outros empregavam procedimentos sem sequer saber que se estava utilizando um método qualitativo existente e que possui critérios a serem seguidos. Há, por exemplo, trabalhos nos quais se realizou a análise de conteúdo, sem que os autores explicitassem – e quiçá soubessem – que estavam adotando esta técnica, ou seja, a mesma não foi citada como metodologia utilizada. Encontraram-se também alguns trabalhos com a abordagem de percepção, sem a adequada utilização, ou explicitação, da metodologia qualitativa que permite identificá-la, assim como trabalhos que assumiram a adoção de técnicas qualitativas de pesquisa sem, entretanto, explanar, adequada e suficientemente, o embasamento teórico e sua efetiva aplicação.
De forma simultânea, conforme determinado pela Resolução 196, de 10 de outubro de 1996, do Conselho Nacional de Saúde, por se tratar de uma pesquisa envolvendo seres humanos, elaborou-se um projeto de pesquisa para ser submetido à apreciação pelos membros do Conselho de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (COEP-UFMG). Juntamente com o projeto de pesquisa, encaminharam-se ao COEP-UFMG documentos contendo informações sobre a pesquisa e os procedimentos a serem desenvolvidos, visando à aquisição de dados pretendida, incluindo o roteiro elaborado para ser utilizado nos grupos focais e a definição dos segmentos da sociedade que seriam selecionados para participar como informantes. Submeteram-se os seguintes documentos à apreciação: Termo de Consentimento Oral para Participar de um Grupo Focal (APÊNDICE A); Roteiro para Grupos Focais (APÊNDICE B); Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (APÊNDICE C); documentação referente à descrição da pesquisa e sua aprovação junto ao Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental e à Escola de Engenharia da UFMG.
O projeto submetido à avaliação pelos membros do COEP-UFMG, cujo registro na Comissão Nacional de Ética em Pesquisa - CONEP é CAAE-0285.0.203.000-07 (ANEXO A), foi
69 aprovado em 27 de junho de 2007 sob o Parecer nº 285/07, cuja cópia encontra-se no ANEXO B.
Na preparação do referido projeto, aspectos éticos foram considerados no sentido de: obter adesão voluntária; preservar a identidade dos participantes, garantindo-lhes anonimato; e não expô-los a riscos (físico, emocional, ou de qualquer outro tipo). Essas preocupações éticas, presentes no momento do planejamento, foram explicitadas aos integrantes de cada grupo focal, durante o processo de recrutamento e no momento inicial do encontro.
Visando identificar com maior detalhes as características dos participantes, elaborou-se uma ficha individual de caracterização (APÊNDICE D), cujo preenchimento seria solicitado no início de cada sessão, juntamente com a assinatura do TCLE. Por meio destes dados autodeclarados pelos participantes – idade, cor, naturalidade, estado civil, sexo e escolaridade – pretendia-se ampliar a qualidade da análise com possíveis identificações de vieses em função destas características.
No decorrer das atividades, alguns questionamentos que surgiram e a constatação do tempo que seria demandado para a realização dos grupos focais e, principalmente, para a transcrição e análise dos dados obtidos, determinaram certas opções e adaptações adotadas pela pesquisadora. Todas as adequações necessárias encontram-se explicitadas e justificadas nos itens a seguir. A configuração final da pesquisa e dos procedimentos utilizados, com todas as alterações que se fizeram necessárias, é apresentada de forma completa no item Resultados e
Discussão.