K anunu’nun 11. Maddesine Göre Yapılan Başvuruya Zımni Retten
3- Zımni Retten Sonra Gelen Cevabın Dava Açma Süresine Etkisi
Geralmente, a principal causa atribuída aos problemas apresentados no capítulo anterior é o uso inadequado dos agrotóxicos, ou seja, argumenta-se que a origem dos problemas está na não observação dos cuidados necessários para o manuseio e aplicação do produto, por parte do aplicador, o não uso dos equipamentos de proteção individual necessários para o trabalho com os agrotóxicos, e o fato dele não seguir as orientações e instruções transmitidas pelo seu empregador, ou aquelas contidas nos rótulos dos produtos, ou em folhetos e cartilhas de orientação distribuídos pelos fabricantes e órgãos públicos que atuam no setor. Frente a essa situação, a "educação" é
freqüentemente preconizada como a solução para o problema.
Esta é a analise usual e a opinião dominante entre os profissionais e as instituições que atuam na área, freqüentemente expressas através da mídia (TV e jornais), de boletins oficiais de órgãos públicos e privados, de revistas especializadas, e até mesmo de eventos e artigos técnicos e científicos. São diversos os exemplos onde se conclui que os problemas decorrentes do mau uso dos agrotóxicos são conseqüência de uma deficiência de educação, cuja solução principal seria a realização de treinamentos para os aplicadores e o uso de equipamentos de proteção individual. Esse enfoque simplista e maniqueísta reduz a complexa questão que envolve os agrotóxicos a uma dicotomia: o problema é o "uso inadequado" e a solução é a "educação".
Ao tratar essa complexa questão que envolve o uso de agrotóxicos como sendo basicamente um problema de educação, transfere-se ao aplicador. seja ele o próprio produtor rural ou o trabalhador, praticamente toda a responsabilidade pela contaminação ambiental e dos alimentos, e por sua própria intoxicação provocada pelos agrotóxicos.
Essa linha de argumentação começou a ganhar maior destaque a partir da segunda metade da década de 70 quando, coincidindo com a rápida expansão da utilização de agrotóxicos em nossa agricultura, os casos de intoxicação aguda provocados por esses produtos começaram a ser divulgados. Em conseqüência disso, ampliaram-se as discussões, em revistas especializadas e outros meios de divulgação, sobre as causas dessas intoxicações e as ações necessárias para combatê-las. O foco principal dessas discussões acabou se concentrando na questão do chamado "uso adequado dos defensivos agrícolas".
Segundo a edição extra do periódico "Defesa Vegetal", intitulada "Uso Adequado dos Defensivos Agrícolas"1 !, o uso adequado "deve objetivar
primordialmente os melhores resultados agronômicos no aumento da produtividade, melhoria e proteção das colheitas e, ao mesmo tempo, evitar os possíveis problemas de intoxicação, a poluição ambiental e a contaminação
dos alimentos com resíduos não permitidos. "
Sem dúvida são objetivos que, se atingidos, trariam enormes benefícios. Porém, estes objetivos deveriam ser entendidos muito mais como um balizador para indicar linhas de atuação a serem seguidas do que propriamente como metas concretas a serem atingidas. Principalmente porque, para atingi-los em sua plenitude, seriam necessárias ações que vão muito além daquelas relacionadas com a aplicação dos agrotóxicos na agricultura. Neste sentido, centralizar as discussões sobre a "educação" do aplicador como sendo o único ou o principal caminho para atingir estes objetivos ou se trata realmente de
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uma visão estreita do problema, ou é uma forma de se evitar diseussões sobre outras medidas complementares que deveriam estar também sendo discutidas. pois. em que pesem todos os esforços que possam ser empreendidos para a '"educação" do usuário dos agrotóxicos. atacar apenas este aspecto do problema nunca será suficiente para chegar aos objetivos propostos. No entanto, como comentamos anteriormente, esta é a visão que prevalece. conforme mostram alguns exemplos a seguir.
Em matéria intitulada "Acidentes no Brasil vêm da falta de cuidado". publicada na revista "Agricultura de Hoje" , em 1981, o então Secretário de Defesa Vegetal, do Ministério da Agricultura, sugeria que "acidentes com
defensivos são normais, embora não sejam uma coisa desejável, porque eles acontecem em qualquer setor da atividade humana". A afirmativa.
primeiramente, apresenta um total desconhecimento sobre o significado da prevenção de acidentes e da segurança no trabalho ao dizer que "acidentes são normais" e, em segundo lugar, mostra o descaso com que o assunto era tratado por aquele órgão. Ainda segundo o Secretário "a percentagem de acidentes em
construção civil ou no trânsito é muito maior do que a que ocorre com os defensivos agrícolas", outra afirmativa sem fundamento, pois não havia dados
sobre acidentes com agrotóxicos que permitissem qualquer comparação. E segue em sua análise dizendo que no registro dos produtos "já é prevista uma
série de precauções para a utilização de defensivos agrícolas, visando a eliminar a possibilidade de acidentes ou diminuí-los", como se-a existência, por si mesma, de determinadas informações sobre "precauções para a utilização" pudesse garantir o seu uso seguro, e conclui afirmando que
"grande parte dos acidentes não é devido aos defensivos agrícolas, mas a outros fatores, como e principalmente à sua má aplicação, à não observância do uso devido do equipamento e à falta de cuidado ao se manusear diretamente com o produto, entre outros itens".
Essas opiniões mostram a pouca importância c a falta de conhecimento com que a questão dos acidentes com agrotóxicos era tratada pelo principal órgão disciplinador do uso desses produtos, e exemplifica claramente a transferência aos usuários dos agrotóxicos de toda a responsabilidade pelos problemas que essas substâncias pudessem provocar. Dez anos depois, em 1991. o então diretor do mesmo órgão, continua centralizando a discussão sob a ótica do mau uso. Segundo artigo comentando reunião de representantes das
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indústrias de agrotóxicos instaladas na América Latina . ocorrida em Brasília, DF, disse o diretor: "O Ministério da Agricultura, órgão que tem poderes para
registrar ou não os produtos agroquímicos, participa dessa reunião trazendo sua visão sobre a matéria... Nossa maior preocupação é com a educação básica quanto ao uso desses produtos, de modo a garantir maior produtividade e menor risco de intoxicação na zona rural". Ao nosso ver,
como órgão responsável pelo registro dos agrotóxicos, sua maior preocupação deveria ser com o rigor técnico e a eficiência do processo de registro, para garantir o disciplinamento sobre a disponibilidade e o controle do uso dos agrotóxicos.
O mesmo enfoque pode ser observado pelos órgãos oficiais de Assistência Técnica e Extensão Rural, conforme é manifestado em artigo
intitulado "A EMATER-DF faz campanha pelo uso adequado"1, pelo então presidente daquele órgão: "Os defensivos agrícolas não podem ser
responsabilizados pela contaminação de alimentos e poluição do meio ambiente. Quando ocorrem problemas desse tipo, a culpa é do manuseio inadequado do produto...A solução para os problemas eventuais provocados pelo uso dos defensivos é uma só (o grifo é nosso): esclarecimento e
orientação quanto ao uso adequado ".
Em 1979. Regis Nei Rahal, presidente da então Associação Nacional de Defensivos Agrícolas - ANDEF, dizia que114: "a grande preocupação do
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agricultor, do governo, das escolas superiores voltadas para agricultura e da indústria de defensivos, deve ser com o melhor uso desses produtos. Isso significa usá-los com vistas à obtenção dos resultados econômicos esperados. sem esquecer os cuidados com a segurança do trabalho." Essas declarações
mostram bem a tendência em considerar a questão do uso adequado como o fundamental da discussão e para a qual. segundo a indústria, os principais segmentos envolvidos deveriam estar dirigindo suas atividades e recursos; a declaração também exemplifica bem a visão restrita da segurança do trabalho: "os cuidados" que não podem ser esquecidos. Dizia ainda o presidente da ANDEF que "o uso adequado dos defensivos agrícolas é uma tarefa do
governo. Mas, hoje, no Brasil, estamos vivendo uma situação muito interessante. A situação do proíba-se. Nunca do evite-se. Precisamos passar para a situação do eduque-se, levar uma mensagem educativa e o governo
deve assumir esse papel."
A mesma posição foi também defendida por ele em debate entre técnicos, empresários e jornalistas promovido pela revista "Agricultura de Hoje" . A referência à "situação do proíba-se" devia-se a que, naquele período, respondendo às pressões de alguns segmentos sociais, o governo começava a restringir e proibir o uso de alguns agrotóxicos organoclorados considerados mais problemáticos. A proposta apresentada pela ANDEF sugeria que o governo, abrindo mão do seu papel de regulamentador, devesse apenas cumprir o papel de garantir a difusão de informações sobre "o uso adequado" desses produtos tóxicos, ou, quando muito, utilizar o seu poder de governo e a sua estrutura apenas para viabilizar as campanhas de uso adequado, como pode ser identificado em outras declarações, do presidente da
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ANDEF : "O governo deve participar efetivamente do processo de levar ao
agricultor uma mensagem de uso adequado. A responsabilidade é sua. pois estão em suas mãos todos os instrumentos, meios e recursos para sua institucionalização: a rede de assistência técnica, a rede de atendimento
sanitário, os dispositivos operacionais a sobretudo a força coercitiva propiciada pelas leis, regulamentos e pela própria estrutura estatal".
Procedendo como sugeria a indústria, o governo arcaria com o maior custo para o esclarecimento quanto ao uso do produto, enquanto. provavelmente, bastaria à indústria apenas ser mais um dos participantes das campanhas de "uso adequado", dispondo eventualmente de alguns recursos humanos, materiais e financeiros, mas continuando a distribuir e vender os produtos sem qualquer restrição. Não se questionavam algumas causas evidentes dos problemas, como o acesso fácil à qualquer tipo de agrotóxicos pelos usuários e a farta oferta de produtos altamente tóxicos, por exemplo. É evidente que o governo tem os dois papéis a cumprir, o de garantir as condições de acesso a informação pelo agricultor e o de legislar sobre as questões relacionadas aos agrotóxicos, porém, não se pode admitir que o poder público deixe de cumprir o seu dever de regulamentar sobre a disponibilidade e condições de uso de substâncias tóxicas para utilização na agricultura, restringindo suas ações apenas a "ensinar" ao usuário a maneira "segura" de empregá-las, como sugeria a ANDEF.
Algum tempo depois, em 1985, a posição oficial da indústria, apresentada pelo então presidente da ANDEF , continuava colocando o "uso adequado" como o principal caminho para a solução dos problemas decorrentes dos agrotóxicos, apesar de apresentar uma ótica um pouco menos determinista: "Evidentemente, o uso adequado desses produtos não é a
solução para todos os problemas, mas é a condição básica para a proteção do homem, das lavouras, dos animais e do meio ambiente como um todo". Na
mesma época a indústria começava a incorporar o Manejo Integrado de Pragas ao seu discurso, mas sempre enfatizando o mau uso como o problema, como dizia o vice-presidente da entidade : "E necessário termos o bom senso de
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agroquímicos, culpando-os por acidentes que nada têm a haver com o produto, mas tão somente com o seu uso inadequado. Não é o agroquímico que deve ser combatido, c o seu mau uso que deve ser colocado em discussão". Mais recentemente, cm 1991. a mesma visão ainda prevalece.
conforme pode ser notado pela opinião do diretor técnico da ANDEF, manifestada em artigo intitulado "Evolução na história dos agrotóxicos", publicado no jornal "O Estado de São Paulo" e reproduzido pelo informativo da entidade ': "Sabemos que os riscos com os defensivos agrícolas começam
realmente no momento em que o agricultor abre a embalagem e passa a usar o produto". O fundamental nas visões apresentadas é que a idéia central
permanece limitando o problema ao mau uso e a solução ao uso adequado dos produtos, ficando as questões estruturais sobre os determinantes dos problemas sem qualquer análise.
Esse enfoque restrito sobre a questão da segurança do trabalho com agrotóxicos também é comum entre técnicos especializados em defesa agropecuária e professores universitários, entre outros profissionais ' '
Trabalhos científicos publicados ou apresentados em congressos técnicos, sobre ocorrências de intoxicações ou com objetivos de investigar aspectos relacionados aos riscos de exposição aos agrotóxicos, avaliam as possíveis causas dos problemas de saúde e das exposições excessivas quase sempre analisando apenas os aspectos estritamente relacionados ao uso de equipamentos de proteção individual, hábitos de higiene e imperícia ou negligência do aplicador, o que está correto, do ponto de vista de quem pretende avaliar apenas as causas e conseqüências diretas da exposição. Mas as conclusões, freqüentemente, extrapolam a análise sobre a influência do mau uso na exposição dos aplicadores e, sem haver estudado o assunto no trabalho relatado, acabam sugerindo que o problema é de "educação" e que o aplicador precisava ser treinado '
Porém, raramente há trabalhos que se proponham também a estudar outros fatores que possam estar influenciando as condições que determinam os riscos de contaminação a que estão sujeitos esses aplicadores. como responsabilidades sobre fornecimento, manutenção e uso dos E.P.I.'s, locais e/ou condições adequadas para a alimentação e higiene dos trabalhadores. condições de e para a manutenção de máquinas, substituição dos produtos mais tóxicos por menos tóxicos, emprego de tecnologia e de técnicas de aplicação adequadas e seguras, emprego de técnicas agronômicas de produção que busquem evitar desequilíbrios e condições propícias para o estabelecimento de pragas e doenças nas culturas, existência de orientação técnica em todas as fases da produção, entre outros elementos que poderiam ser citados. Isto considerando apenas aqueles elementos que podem afetar diretamente a exposição aos agrotóxicos nas atividades de trabalho, pois algumas linhas de pesquisa deveriam procurar considerar também os determinantes socioeconômicos presentes e que interferem decisivamente sobre o contexto.
Em debate promovido pelo jornal "O Estado de São Paulo" o depoimento de um produtor rural representante do setor de soja e trigo ilustra bem o contexto a que nos referimos: "Na minha propriedade a gente dá o
mínimo de orientação de que dispomos. O problema é mesmo de educação e
isso vai mais longe. Eu mantenho na fazenda uma escola até o 4o ano,
gratuita. A gente dá merenda porque a prefeitura não tem condições nem de pagar a professora. E mesmo assim, os pais, quando chega a idade do filho poder trabalhar, tiram a criança da escola, porque é mais uma enxada na família. Não adianta. Cansei de dar máscaras ao operário (se der aquela roupa de astronauta o empregado não quer; ele pede as contas) e óculos protetores também. Equipamentos simples - tudo jogado no chão. Luvas, nem se fala. Com todo cuidado que a gente toma, tive casos de intoxicação
constantemente. Não adianta! O camarada vai. passa o dia no hospital, toma soro. Na outra safra, o que ele vai Jazer? A mesma coisa. Estamos muito longe do que seja educar. Se temos dificuldades na cidade imagine no campo, é um trabalho a longuíssimo prazo, começando pelo primário. Não adianta muito, agora, dar treinamento para um camarada que tem condições subumanas de vida, come comida fria. Dizer para ele: põe essa máscara, essa luva. Ele não tem nem talher para comer, às vezes nem o que comer". Apesar de diversos
problemas e sugestões terem sido discutidos, segundo o jornal que promoveu o debate, a essência da conclusão para a resolução dos problemas relacionados aos agrotóxicos a que chegaram os participantes do evento (jornalistas, deputados, professores universitários, produtores rurais, representantes da indústria e do governo) foi limitada a um aspecto: a necessidade de se investir maciçamente em educação.