II. KURAMSAL ÇERÇEVE VE ĠLGĠLĠ ARAġTIRMALAR
2.7. Ġlgili AraĢtırmalar
2.7.1. Yurtiçinde Yapılan AraĢtırmalar
É fácil confundir a Vila de Pescadores com a Colônia de Pescadores Z-7. Embora tenham trajetórias em comum, uma constitui um espaço e a outra, uma instituição. Essa confusão é causada pelo entendimento comum de que a “colônia” refere-se a um espaço ocupado e administrado por um governo. Nesse caso, o equívoco é compreensível uma vez que o projeto de criação das colônias de pescadores no litoral brasileiro, entre 1919 e 1923, também tinha por função a ocupação e o controle dos espaços.
A Colônia Z-7 é hoje uma das representações políticas dos pescadores. Criada em 192172, essa instituição é fruto de uma missão da Marinha de Guerra do Brasil que percorreu o litoral brasileiro estabelecendo a organização da pesca com o objetivo de promover a indústria pesqueira, fiscalizar o exercício da pesca e defender a costa do país (COSTA, 2011, p.66). A gestão da Colônia, especialmente do ponto de vista da representação político-trabalhista dos pescadores, é motivo de divergências e disputas que se acirraram com a criação da Associação Livre de Pescadores e Amigos da Praia de Itaipu – ALPAPI em 1988 e que têm continuidade nos conflitos atuais.
Já a Vila de Pescadores, segundo Roberto Kant de Lima (1997, p.51) é uma área que, em 1978, se constituía e era caracterizado por algumas construções localizadas próximas ao Recolhimento de Santa Teresa e ao pé do Morro das Andorinhas, onde moravam os pescadores e eram erguidos seus barracões de pescaria, abrigando não
72 Na sua criação era Colônia Z-10, mas o reordenamento pela Marinha do Brasil alterou sua nomenclatura. A sede da Colônia Z-7 está localizada no Município de Maricá e realiza a capatazia nas seguintes localidades: Costão de Santa Cruz, Itaipu, Maricá, Camboinhas, Barra de Maricá, São José, Itacoatiara, Itaipuaçu, Ponta Negra e as lagoas de Piratininga, Itaipu e Maricá.
105 apenas as canoas e os petrechos de pesca como também algumas moradias. A compreensão espacial da Vila pode ser somada ainda à faixa de areia da Praia de Itaipu, e claro, ao mar.
A Vila e seus, moradores mais antigos foram os que mais perceberam as mudanças causadas pela abertura das estradas, o aumento populacional e as construções desenfreadas. Hoje quase não é mais possível identificar as primeiras casas em meio à profusão de moradias. Além disso, a especulação imobiliária, o avanço da pesca industrial e a diminuição da piscosidade foram fortes incentivos para a saída de muitos pescadores.
A exploração imobiliária teve um papel fundamental na configuração da Vila. A empresa imobiliária indenizou aqueles moradores que tiveram que ser retirados de suas casas para abertura das estradas ou com a demarcação dos loteamentos. Por sua vez, alguns pescadores viram nas propostas da Veplan bons negócios e venderam seus imóveis e terrenos, abandonando a pesca e a localidade. Essa é uma das situações explicadas em depoimento pelo pescador Manuel Lagarto em 1996:
(...) sobre aqui a praia, pescador só tem uns 3 ou 4 morador, os outros saíram por conveniência. Eu principalmente, morava do outro lado do canal, aqui tinha umas 50 famílias, então veio a Companhia – a Veplan – e chamaram nós, a cada um eles falaram: “ não vamos tirar ninguém, sai quem quiser”. Então eu achei a conveniência pra mim, eu sair como todo mundo saíram. Quem quis dinheiro ela deu, quem não quis...eu não quis, quis outra casa, mas é um pouco longe, é em Terra Nova (LIMA, 1997, p. 305. Manoel Lagarto, 15 de fevereiro de 1996, em depoimento concedido à pesquisadora Luciana Freitas Pereira.)
Embora afastados da praia, muitos pescadores, como o Sr. Manoel Lagarto, ainda continuaram trabalhando com a pesca em Itaipu, a partir das condições possíveis. É preciso considerar os desafios impostos pela distância, uma vez que os meios de transporte ainda hoje não atendem todos os bairros da Região Oceânica de forma eficaz, pela diminuição da piscosidade e que ainda são frequentes as situações de conflitos entre pescadores, moradores, turistas e comerciantes.
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Figura 7 - Trecho da faixa de areia utilizado pelos pescadores para secagem e reparo das redes
Fonte: Museu de Arqueologia de Itaipu. Autor: Ruy Lopes, sem data.
Seu Chico conta que a expulsão não se deu de forma pacífica e que a diminuição do território pesqueiro - da Praia de Ponta Negra, passando por Piratininga, Itaipu e chegando até Itaipuaçu - bem como a saída dos pescadores de Itaipu acabou por determinar que alguns descendentes de pescadores se envolvessem com o tráfico e com os “vícios”, desestabilizando o poder que eles tinham sobre o espaço bem como o “respeito” pelos antigos modos de vida:
Então a gente tinha assim uma relação...Era mais respeitado porque o território era nosso, né? A gente era dono desse espaço de Piratininga a Itaipu e era uma relação muito boa, inclusive com as pessoas que vinham morar aqui, né? Porque existia uma coisa chamada respeito até aí, né? Aí depois, com a chegada da Veplan na década de 70, no meio da década de 70, ela começou a ...até desmoralizar os pescadores...por que, botou fogo em casa de pescador, expulsou pescador, então isso aí... tirou os pescadores das discussões...Os pescadores foram morar no Cantagalo, foram morar no Rio do Ouro..lugar de baixa renda. Não é por que é um lugar de baixa renda, mas é um lugar que hoje está em conflito com a polícia. Há bastante tempo já está em conflito. Nós temos pescadores que perderam filhos pro trafico e com isso...perdemos pra bala perdida da polícia. Perdemos pra bala perdida também de fogo...podemos chamar de fogo amigo, né? Que é o fogo pobre traficante também...Que tinha uns que virou traficante, filho, neto de pescador... (SOUZA, Jorge Nunes de. Seu Chico. Depoimento [junho 2015] entrevistadora: Mirela Leite de Araujo. Niterói, 2015)
107 Seu Chico, Jairo e Cambuci, contam que começaram a pescar com seus pais por volta dos 5 anos. Aos 8 anos já possuíam uma função específica e “sonhos”de se tornar “dono da pescaria”- aquele que possui seu próprio barco, ponto de pesca e autonomia. Cambuci afirma que aos 17 anos já tinha todo o conhecimento formado sobre o mar e a pesca: Comecei a fazer o jardim da infância na pesca com a idade de 6 anos. Com 14
anos, com 17 anos, terminei a faculdade, entendeu? Eu com 17 anos eu era o mesmo pescador que eu sou agora, sabia tudo da pesca. (SOUZA, Aureliano Matos de. Cambuci. Depoimento [Fevereiro 2011] entrevistadores: Pedro Colares da Silva
Heringer e Daniel Martinez. Niterói, 2011)
Seu Chico lembra como as escolhas eram feitas ainda na infância e fala sobre a realização da sua:
Cada garoto aí, de 8 anos, cada um procurava sua função, né? Proeiro, remar na proa, ré, largador de rede, mestre, vigia...aí cada um tinha uma vocação e tinha assim... um sonho.Uma vocação, não...tinha um sonho, né? E cada um ia pro seu sonho, aí...mas era tudo voltado pra pesca. O outro queria ser mergulhador, pescar de linha, né? O meu era ser mergulhador, meu sonho profissionalmente ele tá realizado e tá sendo realizado até hoje. (SOUZA, Jorge Nunes de. Seu Chico. Depoimento [junho 2015] entrevistadora: Mirela Leite de Araujo. Niterói, 2015)
De forma geral, podemos afirmar que os pescadores, diante da transformação do território, das condições de vida, do desgaste e riscos físicos e da pouca rentabilidade do seu trabalho, acabam por incentivar seus descendentes às novas atividades que não a pesca. Situação que, de alguma forma, torna cada vez mais fluidos os laços das famílias com o mar e a praia e com a Vila de Pescadores. Em depoimento colhido em 1996 pela pesquisadora Luciana Freitas Pereira, o pescador Jairo afirma que as crianças são desestimuladas a trabalhar com a pesca:
Hoje em dia, incentivam a não pescarem, a procurarem uma coisa melhor. Mas aí se tem interesse que de repente tá no sangue da pessoa... de repente começa a se envolver, gosta....mas todo mundo aí procura não se envolver com a pescaria. Porque hoje em dia tem mais opções. (Jairo, em depoimento à LIMA, 1997, p.302)
A demanda do turismo também foi importante para a reconfiguração da Vila e da pesca em Itaipu. Foram construídas novas casas, pousadas, restaurantes e quiosques. Muitos pescadores e seus familiares passaram a prestar serviços na construção civil do bairro, em serviços domésticos nas casas de veraneio ou no comércio local. Por fim, os barracões de pesca e algumas moradias mais antigas foram substituídos por bares e restaurantes à beira da praia.
A Colônia de Pescadores Z-7, em 1996, por intermédio do presidente à época, explicita como essas mudanças na Vila de Pescadores são percebidas pelos moradores
108 locais, em especial sob a ótica dos pescadores, em carta enviada ao Ministério da Agricultura em 1996:
“Este processo é fruto de total abandono a que está relegado um dos mais belos e produtivos recantos da cidade de Niterói, pois não tem merecido a devida atenção das autoridades competentes. Estas invasões vêm descaracterizando de forma irreversível o modelo tradicional de ocupação da comunidade de pescadores que já centenas de anos desenvolve neste espaço vital sua atividade e nele imprimiu sua feição especial.
Estes novos invasores do século XX não tem permissão da Colônia Z-7 para construir, ocupar benfeitorias e colocar “barquinhos” em frente às casas para caracterizá-las como “de pescador” num evidente atitude de falsidade ideológica. Mas a Colônia não dispõe de poder para embargar obras, por isso vem denunciando à Secretaria de Urbanismo e Meio Ambiente e à Secretaria de Desenvolvimento Social da Região Oceânica, sem que nenhuma providência tenha sido tomada. (...) (LIMA, 1997, p.313. Carta ao Ministério da Agricultura envida em 1996.)
No mesmo documento podemos perceber ainda que não faltam aos pescadores, representados nesse momento pela Colônia Z-7, discernimento quanto aos sentidos patrimonial, político e social da pesca artesanal frente aos avanços e modificações do território:
O Canto Sul de Itaipu não é importante apenas por seu belo pôr-do-sol ou por seu significativo patrimônio arquitetônico e histórico. A pesca artesanal ajudou a preservar essa paisagem física e também cultural, projetando ao mesmo tempo, seu próprio estilo de viver que ainda hoje encanta os visitantes. Estilo de viver que, num país que conta seus famintos em milhões, tem na produção da alimentação seu eixo principal. Preservar o espaço vital da pesca em Itaipu é proteger uma região produtora de alimentos. (LIMA, 1997, p.313. Carta ao Ministério da Agricultura envida em 1996.)
Dentre os moradores atuais poucos são os que descendem das antigas famílias de pescadores. O processo desordenado de ocupação da Vila configurou construções de dois ou três pavimentos, que escalam as encostas do Morro das Andorinhas por becos e vielas. Os conflitos entre pescadores, comerciantes, turistas, moradores fixos e veranistas são pouco percebidos pelos órgãos governamentais, mas são evidentes para quem frequenta cotidianamente a área. Assim, as disputas relacionadas ao uso do espaço da Praia para fins incompatíveis entre esses diversos agentes configuram ainda hoje uma das principais tônicas da Vila.
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Figura 8 - Reconstituição histórica da Vila de Pescadores (1980/ 1990/2001/2012)
Fonte: SEDRAP, 2011 p. 235
O aumento da produção de lixo e de resíduos provocados pela quantidade de residentes e turistas é uma das situações enfrentadas diariamente pelos pescadores, tanto na faixa de areia quanto no mar. As redes de pesca não têm mais espaço para a secagem, os barcos não são mais guardados sob os barracões, ficam sobre pilares ou diretamente na areia e poucos são os pescadores que trabalham aos domingos, especialmente no verão, quando a praia fica lotada de mesas, cadeiras e banhistas. O mar, território físico e cultural da Vila de Pescadores, também é disputado entre jet-skys, rebocadores, lanchas, stand-ups, surfistas, banhistas e pescadores diários e eventuais.
Atualmente, o aumento de pessoas e a falta de planejamento no sistema de reservação e distribuição de água, principalmente nos meses de verão, favorece que os moradores abram clandestinamente poços artesianos e semi-artesianos e realizem ligações domiciliares de água fora dos padrões. Essas situações são mais recorrentes nas ocupações irregulares que crescem nas encostas do Morro das Andorinhas e as soluções
110 encontradas pelos residentes implicam na possibilidade de contaminação da água que chega às casas e na degradação ambiental.
O ciclo da água também foi alterado devido à impermeabilização do solo e a falta de estrutura para o escoamento e drenagem das águas pluviais. A região, abundante em águas naturais, permeada por riachos e nascentes especialmente nas áreas mais próximas ao PESET, apresenta frequentes inundações, alagamentos e transbordamentos da rede de esgoto e pluvial.
A urbanização acelerada e desordenada nas cidades é marcada pela devastação ambiental e pela intensificação das desigualdades sociais. Não bastasse o desrespeito ao cotidiano, a degradação ambiental e a falta de serviços básicos como saneamento, transporte coletivo, coleta de lixo, atendimento médico-hospitalar (BENEVIDES, 2009, p.101), são impostas ainda outras dificuldades para o desenvolvimento da pesca artesanal, como veremos a seguir.