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2.2. ÖRGÜT SAĞLIĞI

3.1.2. Yurt İçinde Yapılan Araştırmalar

A resolução do PCdoB de deslocar militantes qualificados para a área de Cotaxé resultava de um projeto que previa, num primeiro momento, dar prosseguimento à atividade política e organizativa na área, mesmo nas novas condições políticas do país, no sentido de, num segundo momento, ter aquela região relativamente isolada e acidentada como suporte de movimentos que, supunha o PCdoB, eclodiriam no país contra o regime dos militares.

A propósito desse projeto do PCdoB, Dias (1984), reproduzindo declarações de um, por ele não identificado, ex-dirigente daquele partido, assim registrou:

Embora inexpressivo, o Partido Comunista do Brasil e seus militantes [...] começaram a pensar que, no futuro, por sua tradição de briga, de luta, Cotaxé poderia se transformar num bastião de defesa e de combate à ditadura. [...] Cotaxé era uma região propícia à guerra. [...] Então, o negócio era começar um trabalho político com os posseiros, devagar, deslocando pessoal. E isso começou a ser feito. Dois companheiros do PC do Brasil, de outros estados, o “Velho” e o “Parangaba”, foram mandados pra Cotaxé. O Partido Comunista do Brasil pensou, por um certo tempo, em montar um dispositivo, uma base de apoio, de resistência (DIAS, 1984, p. 128).

O PCdoB no Espírito Santo, no entanto, percebe certo cansaço e desgaste após todos aquele anos de lutas. Leva em consideração, inclusive, que os órgãos de repressão da ditadura militar já focavam Cotaxé. Dias (1984) assevera que

As perseguições promovidas pelo regime se estendem a Ecoporanga. Os irmãos Benício e Zé Genuíno são intimados a prestar depoimento no Departamento de Polícia Federal, em Vitória. Ninguém, em Ecoporanga, acredita que eles retornem vivos (DIAS, 1984, p. 127).

Assim, o PCdoB passa a orientar as lideranças remanescentes e os posseiros no sentido de que fosse, em conjunto, fechado um acordo com o novo proprietário e que considerassem a possibilidade de uma transferência para o Mato Grosso, no centro-oeste do país. Paz (2014a) resume a situação:

Eu analisava a situação local, a vontade de muitos em vender suas posses, e era difícil persuadi-los. Existia facilidade de terra em Mato Grosso e Rondônia, era terra ainda de ninguém. Fizemos uma reunião com a coordenação, avaliamos o cenário, vivíamos no regime de ditadura, os fazendeiros estavam com vez e com a voz, o desmonte seria desastroso para a liderança que ficava fragilizada, consequentemente isolada e derrotada. Foi então que resolvemos sair todo mundo. Nós víamos famílias irem embora e logo as casas eram demolidas. Muito triste, não tínhamos condições de resistir, era ditadura militar (PAZ, 2014a, não paginado).

Esta declaração de Lima Paz confirma inteiramente a informação contida no livro Massacre em Ecoporanga, baseada na entrevista de Benício Jacinto da Silva a Luzimar Nogueira Dias, o autor do livro, em 1982, registrando-se, aqui, o fato de que Lima Paz só recentemente, e através do autor deste trabalho, tomou conhecimento da existência do livro, do qual a ele foram enviadas a transcrição das páginas 132 e 133, nas quais são feitas referências ao Parangaba e ao Eelho. Sobre a decisão final de abandonar a região de Cotaxé, Dias (1984) assim registrou:

Inutilmente os líderes tentam manter os posseiros na região. Zé Genuíno, Romualdo da Silva e Jurandir Pereira Pinto também decidem sair. Os sonhos sobre as terras virgens de Mato Grosso, Rondônia e Paraná são mais fortes e significam um rompimento com o passado de violências (DIAS, 1984, p. 131).

Confirmando Dias (1984), acrescenta Paz (2014a):

Apesar das tentativas para sustar as vendas, com assembleias, reuniões, pactos assinados etc. As [sic] vendas continuaram e percebemos que assim fragilizava o movimento e que as lideranças que eram visadas pela repressão policial e política local, ficariam expostas, em minoria, tornando- se presa fácil para derrota no campo político e no enfrentamento armado (PAZ, 2014a, não paginado).

O recente depoimento de Paz (2014a, não paginado) vem confirmar a avaliação enunciada por um também não identificado dirigente secundarista, o qual assim considerava a situação na qual se encontravam os posseiros de Cotaxé, no período posterior ao golpe de abril, conforme assinalou Dias (1984):

Neste contexto estava o pessoal de Cotaxé, sem qualquer perspectiva. Fazer o quê? As opções eram poucas: dando tiro, matando um policial ou um jagunço e perdendo um ou dois companheiros, ou sair para Goiás, Paraná, Rondônia ou Mato Grosso? O recurso para aquele pessoal era mudar de região, como o recurso para o movimento operário, estudantil, foi a clandestinidade (DIAS, 1984, p. 129).

Este foi o desfecho do Movimento de Cotaxé em conformidade com a orientação do PCdoB: um acordo pelo qual os posseiros seriam indenizados pelas posses e benfeitorias, com a posterior transferência para o centro-oeste do país. No início da década de 1980, o jornalista Luzimar Nogueira Dias esteve em Rondônia buscando material informativo para o livro Massacre em Ecoporanga, tendo entrevistado Benício Jacinto, conforme fez constar naquele texto.

O movimento camponês de Cotaxé, em seus dois momentos, o da resistência, por vezes armada, descendente em linha direta e sucedâneo do momento jeovense, em função da impossibilidade de sua posterior existência e permanência, recua e enrola suas bandeiras, por imposição das drásticas mudanças na conjuntura política daqueles anos, ou seja, após a implantação da ditadura militar. Seu descenso e posterior desfecho acompanharam, necessariamente, o descenso das lutas do povo brasileiro naquele contexto de recuo geral dos movimentos populares, em função da eclosão do golpe civil-militar de 1964 e da implantação da ditadura militar, um recuo para acumulação de forças. Desse recuo temporário, os movimentos populares somente cobrariam certo ânimo no ano de 1968.

Luzimar Nogueira Dias estudou a resistência protagonizada pelos novos migrantes e pelos camponeses remanescentes do chamado movimento jeovense tendo como fonte fundamental os registros jornalísticos da época, bem como algumas entrevistas, como consta no seu livro Massacre em Ecoporanga. Adilson Vilaça, herdeiro dos arquivos de Dias, em quem reconhece e destaca os méritos – “Além da amizade, in memoriam, haja mérito! (VILAÇA, 2002, não paginado)” – estudou mais aprofundadamente o período jeovense. No seu estudo, Vilaça parte, segundo ele próprio, primeiramente do enfoque da terra e, posteriormente, mudando o foco e abordando e enfatizando a questão do messianismo e sua importância naquele e em outros movimentos assim ditos messiânicos. Afirma Vilaça (2007), em relação à sua nova leitura, que o mais importante, “[...] o que importou, verdadeiramente, foi a mudança do foco. Foi o novo olhar (VILAÇA, 2007, p. 12)”.

Permanecia, e continua permanecendo, a necessidade de estudar a singularidade mais importante do Movimento de Cotaxé, a transição dos seus dois subsequentes e interligados momentos, como resultado da mediação exercida pelo Partido Comunista. Isto ocorre inicialmente pela atividade do PCB, o antigo Partido Comunista do Brasil, e, posteriormente, pela do PCdoB, os quais, cada qual a seu tempo e articulando as duas fases, conferem a Cotaxé uma característica ímpar entre os movimentos de gênese sociorreligiosa, qual seja a da transição de movimento sociorreligioso para movimento de natureza política, consciente e organizada, além de articulado com outros movimentos sociais.

Foram 18 anos, considerando-se o seu início quando Udelino começa a sua pregação, em 1948, até o seu desfecho, em 1966, tempo de marchas e contramarchas, de avanços e recuos, perpassando parte do período do governo Eurico Dutra (1946-1951) até o período do governo João Goulart (1961-1964), adentrando, ainda, por quase três anos do ciclo militar.

Acrescente-se, também como fator distintivo, a atuação do Partido Comunista, bipartido e com duas orientações ideológicas e organizativas em dois períodos bastante distintos da história, o período compreendido entre a redemocratização após o Estado Novo, em 1945, até o golpe de abril de 1964, e o período subsequente, a partir da implantação da ditadura militar até seu desfecho em outubro 1966, o definitivo dobre dos sinos para o denominado Movimento de Cotaxé.

Sobre as duas diferentes orientações ideológicas e organizativas, inicialmente, a atuação do Partido Comunista do Brasil, o PCB, que abarca os períodos de Vargas até o golpe militar, caracterizado principalmente, não obstante a organização da autodefesa armada, pela atuação nas associações legais, movimentos de natureza pacifica e nos marcos da legalidade, não armado ou violento - como no movimento jeovense sob a direção de Udelino, este sim, um real período de revolta camponesa. Em seguida, a atuação do Partido Comunista do Brasil, o PCdoB: num primeiro momento, a visão estratégica da resistência à ditadura no cenário rural, da guerra prolongada a ser travada principalmente no interior do país, com o deslocamento de militantes qualificados conforme já havia definido o PCdoB e conforme colocou em prática, iniciando a organização, por essa mesma época, da Guerrilha do Araguaia. Num segundo momento, o PCdoB, dada a impossibilidade de permanência dos posseiros na região de Cotaxé e a continuidade das suas lutas, trata de orientá-los para aceitar o acordo com o novo proprietário e empreender o deslocamento para o Centro-Oeste e Noroeste, mais especificamente para o Mato Grosso ou para Rondônia.

Confirmou-se recentemente, através das informações de Paz (2014a), uma circunstância dada apenas como provável em relação ao deslocamento na direção do Centro-Oeste do país. O PCdoB, com base nessas lideranças e nos posseiros deslocados para o Mato Grosso, a exemplo do que fazia, naquela mesma quadra,

na região do chamado Bico do Papagaio68 e em outras áreas rurais do país, também

pretendia preparar aquela área no Mato Grosso visando eventuais operações militares de resistência à ditadura. Paz (2014b, não paginado69) afirma que “[...] a

nossa ideia era, estando aqui, irradiar as lutas nesta área, o que não aconteceu [...]”, por razões outras, as quais não cabe aqui discutir.

A respeito da permanência em Cotaxé ou o deslocamento dos posseiros para a Região Centro-Oeste ou para o Noroeste, aqui também se manifestou uma diferença de orientação entre o PC Brasileiro (PCB) e o PC do Brasil (PCdoB). O primeiro, conforme declaração de Perly Cipriano, naquela quadra um combativo e qualificado militante, um quadro ligado ao PC Brasileiro, orientava, equivocadamente, ainda segundo Cipriano, no sentido da permanência dos posseiros em Cotaxé (informação verbal).70Seguramente que, nas condições de existência de uma ditadura militar, os

dirigentes posseiros, desde há muito ligados ao Partido Comunista, fato conhecido e sabido pelos organismos de repressão, seriam perseguidos e caçados, sendo impossível determinar os desdobramentos de tal e aventureira orientação, caso adotada.

A recapitulação, nas considerações finais, das características do Movimento de Cotaxé torna-se necessária para a compreensão do conjunto deste trabalho, com a questão e o problema fundamental a ser elucidado por este estudo e para estabelecer suas notáveis singularidades. A absolutamente incomum e única transição de movimento sociorreligioso a movimento político ocorre exclusivamente em Cotaxé. Além disso, o seu longo tempo de duração, cerca de 18 anos, o mais longo na História do Brasil, são as especificidades mais notáveis deste movimento, suas duas singularíssimas características, ímpares mesmo, deste que foi um dos mais belos momentos das lutas sociais do povo capixaba.

68Área na divisa entre os estados do Pará, Tocantins e Maranhão na qual o PCdoB organizou a

denominada Guerrilha do Araguaia.

69Citação de parte das declarações de Lima Paz contidas no APÊNDICE D.

70Perly Cipriano, em declaração ao Professor Paulo César Scarim, da Ufes, e a este pesquisador,

CONSIDERAÇÕES FINAIS

No período jeovense do Movimento de Cotaxé constatou-se, inicialmente, a ocorrência de um difuso discurso de fundo religioso, após a chegada de Udelino Alves de Matos, com a prática diária de orações. Isso, de alguma forma, nos remete às práticas religiosas de Antônio Conselheiro, em Canudos, não se apresentando, aqui, no entanto, os traços típicos do milenarismo, a iminência do apocalipse, a proximidade do final dos tempos e do juízo final e, tampouco, a presença de elementos do sebastianismo. O cerne da proposição jeovense é a defesa das posses já ocupadas e a distribuição de glebas a migrantes recém-chegados, uma proposta de reforma agrária para a qual Udelino buscava mediação através dos canais da política e contatos nessa área. Paralelamente, ocorre a apenas esboçada e frustrada tentativa de construção de um Estado de camponeses, o Estado União de Jeovah, no qual todos teriam acesso à terra, no sentido de, garantindo a sua posse, materializar a utopia edênica, a de que Deus nos agraciou com o paraíso, e que este estaria situado naqueles ermos da Serra dos Aimorés. Este período inicial do assim chamado movimento jeovense foi considerado, neste trabalho, como sendo de natureza sociorreligiosa.

Ainda durante o período jeovense foi possível constatar que, introduzida a proposta, de natureza cristalinamente política, da construção de mais um ente federativo, um estado-tampão localizado na região do contencioso Espírito Santo- Minas Gerais, o denominado Contestado, ocorreu a intensificação das incursões de Udelino no espaço específico da política. O discurso da terra foi oportunamente agregado ao discurso religioso, enquanto Udelino buscava legitimar-se perante seus seguidores mediante a busca de apoiamentos de algumas autoridades políticas, desde um prefeito até o presidente da República, passando, muito provavelmente, pelos governadores do Espírito Santo e de Minas Gerais. Para suas andanças na área do poder executivo, Udelino buscou o concurso de dois deputados federais pelo Espírito Santo, um deles de forma mais amiúde, o deputado federal Wilson Neves da Cunha, do Partido Social Progressista (PSP), e outro, em apenas uma oportunidade, pelo que conseguimos averiguar, o deputado federal e padre Ponciano Stenzel dos Santos, do Partido de Representação Popular (PRP).

Além de agendamentos para audiências com o governador do Espírito Santo e com o presidente da República, tais contatos no campo da política deram origem a pronunciamentos daqueles dos dois deputados no plenário da Câmara Federal a respeito das questões de terras no extremo-noroeste do Estado. Como se tratava da proposta política de construção de um novo ente federado e da busca da mediação, também pela política, em relação a problemas de natureza social, passamos, neste estudo, a considerar tal arranjo como sendo de natureza sociopolítica. Destarte, ainda no período jeovense, teria ocorrido, desde o nosso ponto de vista, uma alteração quanto à natureza daquele período, uma transição de movimento sociorreligioso a movimento sociopolítico, no decorrer do próprio período jeovense.

Num segundo momento, após a debacle do movimento jeovense, o Movimento de Cotaxé, em razão da fundação da União dos Posseiros de Cotaxé, por iniciativa do Partido Comunista do Brasil (PCB), vai adquirindo contornos cada vez mais nítidos de movimento consciente, a posse da terra como bandeira e proposição central, de movimento organizado, com atuação de grupos de mobilização, de

discussão política e de orientação para a autodefesa, além das atividades laborais, e de movimento articulado com o incipiente movimento camponês e também com o movimento sindical urbano do Espírito Santo.

O período de articulação com o movimento camponês, em âmbito estadual e nacional, e com o movimento sindical urbano do Espírito Santo, inicia-se com a participação na fundação da Associação dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Espírito Santo (ALTAES) quando da realização do I Congresso Estadual dos Lavradores, em novembro de 1957, fortemente apoiada pelos sindicatos de trabalhadores da capital, Vitória. A articulação com o movimento camponês alcança um patamar mais elevado quando da fundação da Federação dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Espírito Santo (FLATAES), em junho de 1962, no decorrer do II Congresso Estadual dos Lavradores e tem sequência com a fundação formal, em 1963, do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Ecoporanga, juntamente com a de diversos outros sindicatos de trabalhadores rurais no Espírito Santo. A importância do II Congresso é expressa pelo fato de que, como informa Dias (1984, p. 105), “[...] o Congresso foi aberto com a presença do presidente da União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil (ULTAB), Lindolpho Silva”.

Realizado no auditório do Sindicato dos Arrumadores de Cargas, um dos sindicatos da orla portuária na capital do Estado, o II Congresso contou, para a sua preparação e realização, com o decisivo apoio de uma comissão de sindicalistas e dos sindicatos filiados ao Conselho Sindical dos Trabalhadores do Espírito Santo (CONSINTRA-ES), uma minicentral sindical local que funcionou em Vitória até o golpe militar de 1964. A esse respeito, afirma Dias (1984, 104) que “[...] a presença dos sindicatos operários foi fundamental para a organização do congresso [...]”.

No entanto, a articulação com outras entidades sindicais rurais apenas se consolida após a entrada em vigor da legislação sindical rural, aprovada em março de1963, o denominado Estatuto do Trabalhador Rural, o qual permitia a estruturação de organismos sindicais representativos do campesinato. A aplicação de tal legislação, gestada e aprovada durante o governo de João Goulart, foi capitaneada por Almino Afonso, então Ministro do Trabalho de Jango e conduzida, no Espírito Santo, pelo delegado regional da Superintendência da Reforma Agrária (SUPRA), Guilherme Atahualpa de Montezuma Breder, até o dia 31 de março de 1964.

Assim, o movimento camponês de Cotaxé, a par de apresentar no seu primeiro momento, o do movimento jeovense, um período inicial de natureza sóciorreligiosa, também apresenta, em sequência, um segundo, de natureza sociopolítica. Com a derrocada do movimento jeovense e liquidada a sua forma política ainda embrionária, o Estado União de Jeovah, segue-se um período de relativa trégua, quando a violência contra os posseiros retoma o curso habitual da violência informal praticada por jagunços e pistoleiros a serviço de grileiros. No entanto, a partir de 1957, principalmente pelas ações truculentas do tenente Jadyr Rezende, Delegado de Capturas da Zona Norte do Estado, e até 1962, ocorre uma intensa retomada da violência institucional. Este longo período de violência institucional, junto à corriqueira violência informal, tem seu auge no primeiro semestre de 1962.

Neste trabalho consideramos a existência de dois momentos no Movimento de Cotaxé e de nele ter ocorrido, em função das continuidades, uma transição, mediada pela atuação do Partido Comunista, do primeiro ao segundo, que nominamos, neste trabalho, como sendo o da resistência camponesa, abrangendo o período sob a

direção da UPC e dos comunistas, a partir de 1954, até o seu final definitivo, no final do ano de 1966.

Quanto a esse segundo momento, o pesquisador Vilaça (2002) chega a nominá-lo como sendo o período da revolta camponesa, a qual foi estudada, nos seus aspectos fundamentais, pelo jornalista Luzimar Nogueira Dias. Vilaça (2007), que enfocou basicamente, até o presente momento, o movimento jeovense, o período da atuação de Udelino Alves de Matos e a tentativa de construção de União de Jeovah, assim define a grande importância do livro de Dias (1984), bem como o próprio encontro com o seu tema de pesquisa:

Somente em 1984, em livro-reportagem de Luzimar Nogueira Dias, que investigava e reportava a revolta camponesa ocorrida naquela região entre 1959 e 1962, é que foi encontrado o fio da memória do movimento

jeovense (VILAÇA, 2007, p. 8, grifo nosso).

Após o colapso de União de Jeovah, como conclui este estudo, as permanências indicam que, ao momento jeovense, seguiu-se o momento da resistência, configurando-se, assim, uma segunda etapa do Movimento de Cotaxé, sendo a transição entre ambos interfaceada pela atuação deliberada e subjetiva do Partido Comunista. Assim, consideramos tratar-se de um primeiro e de um subsequente segundo momento, não se tratando, portanto, de dois movimentos, ainda que quase de mãos dadas no tempo.

Os dois momentos ocorrem na mesma área geográfica, com a participação e presença de atores sociais e de personagens comuns aos dois, e têm a questão da propriedade da terra e da violência institucional e informal presentes no transcorrer de todo o episódio, desde a sua gênese até o seu ocaso.

A transição ocorrida no Movimento de Cotaxé e seus dois momentos com fatores constitutivos bastante diversos, foi o objeto original central deste estudo, sua questão central a ser elucidada. Tratava-se de determinar os fatores presentes em cada um dos momentos, suas possíveis diferenças e as nuances, e que fundamentaram a referida transição, além de identificar quais os fatores que transitaram de um a outro e que se constituíram como elementos de conexão e, ao mesmo tempo, examinar a sua longevidade.

Tudo indica que o Estado União de Jeovah e seus desdobramentos, a posterior resistência camponesa, acabaram por tornar-se o movimento de gênese sociorreligiosa de maior duração no tempo, o mais longo da nossa história. Esta afirmativa decorre do fato de que, mesmo considerando-se a presença de Udelino já na meação da década de 1940, mas com o início efetivo de suas atividades de