Dando prosseguimento às providências no sentido de materializar o projeto de criação de União de Jeovah, Udelino, em lance típico da atividade política, elaborou um Memorial, o qual deveria ser levado ao presidente da República, Getúlio Vargas, a quem prodigalizava elogios, buscando reforçar sua influência e autoridade sobre aquelas pessoas simples e crédulas. Nessa iniciativa, Udelino saiu-se tão bem que conseguiu levantar contribuições para fazer a viagem ao Rio de Janeiro, naquele período a capital federal, da qual retornou afirmando ter sido nomeado Delegado de Terras, ainda que não tenha conseguido sequer entrevistar-se com o presidente.
Mesmo sem ser recebido pelo presidente Vargas, o qual estava, por aqueles dias, em viagem para a Bahia, a ida de Udelino ao Rio de Janeiro ficou registrada nos órgãos de imprensa da época. Chegando àquela cidade e
Hospedado no Albergue da Boa Vontade e munido de um memorial com 866 assinaturas de pioneiros da Zona do Contestado, o posseiro Udelino Alves de Matos pretende uma audiência com o presidente Getúlio Vargas. Antes, ele concede uma entrevista a O JORNAL do Rio de Janeiro, e denuncia arbitrariedades contra os posseiros da região (DIAS, 1984, p. 51).
Udelino retorna da sua segunda viagem ao Rio de Janeiro e ao Palácio do Catete tendo conseguido somente protocolizar um requerimento dirigido ao presidente Vargas, que estava novamente no poder desde 1951, desta feita pela via do voto, eleito que fora nas eleições de 1950. Apesar de ter sua vitória contestada pela UDN, Vargas havia tomado, mais uma vez, o controle da Nação brasileira, enquanto Udelino se dizia sempre bem acolhido por ele e garantia contar com seu total apoio. No entanto, ao retornar, Udelino estava, aparentemente, convencido de que era mesmo delegado de terras do presidente Vargas.
O título a Getúlio atribuído de ‘pai dos pobres’ foi incorporado ao seu discurso e Udelino, sempre que mencionava o Presidente, fazia uso de tal expressão. Homem
simples, Udelino, revelando uma já demonstrada percepção política, ratifica a opinião de Winock (2003, p. 278), segundo o qual “[...] as ideias políticas não são apenas as dos filósofos e dos teóricos, mas também as do homem comum”.
Após esta segunda, e novamente mal sucedida, tentativa de entrevistar-se com o presidente da República, Udelino retorna a Cotaxé. Quando do retorno, portava e apresentava folhas de papel timbrado com as armas da República, afirmando que ali estava a sua nomeação como Delegado Federal de Terras. Dedicou-se, então, a exercer as funções, que ele mesmo se atribuiu, decorrentes do cargo para o qual, afirmava, havia sido nomeado. Em seguida, já atuando como Delegado Federal dos lavradores (DIAS, 1984, p. 64), desmandou-se na ação contra grileiros e outros proprietários, em ações truculentas e apoiado pelo seu destacamento armado.
Os jeovenses, a partir de então, passam a ser chefiados pelo agora Delegado de Terras Udelino Alves de Matos, nomeação que comprovava, apresentando os tais papéis com as armas da República impressas. Tomava forma e contornos mais definidos, então, o movimento jeovense, “[...] uma luta que as autoridades da época compararam a uma ‘nova Canudos’ (DIAS, 1984, p. 13)”, conforme mencionado em fragmentos já citados anteriormente.
O movimento crescia a olhos vistos e Udelino tomou providências, junto aos seus seguidores mais próximos, no sentido de estabelecer uma organização estatal, ainda que rudimentar, conseguindo mesmo estabelecer um simulacro deste tipo de organização, incluindo sede de governo, autoridades e dignitários, chegando até mesmo a nomear um chamado diretório e, também, um governo provisório. União de Jeovah já contava com seus símbolos e paramentava seus dignitários com ostensores funcionais. Ao nomear seus auxiliares e designar suas funções, Udelino lhes pendurava um crucifixo ao pescoço, como símbolo de alta posição na hierarquia do nascente Estado. Além da Casa de Tábua, local destinado às orações e que era utilizado como sede administrativa, uma grosseira imitação de palácio de governo, também a bandeira e o hino oficial, os símbolos do novo Estado, como dissemos, já haviam sido instituídos e, inclusive, União de Jeovah já contava com destacamentos armados, a força de segurança do novo Estado.
Em relação aos destacamentos armados, Udelino havia organizado, com seus seguidores mais corajosos e determinados, um numeroso grupo que, comandado pelo índio Pojichá de nome, segundo Loiola (2008, p. 74), Deroci Laurindo da Silva, mais conhecido como Jorge Come-Cru, invadia sedes de fazendas de latifundiários, grileiros na verdade, ameaçava-os e praticava alguns atos de violência, não raro colocando-os em fuga. Uma dessas ações armadas resultou, inclusive, como informa Dias (1984, p. 54), na morte de Izaías Conceição, administrador da propriedade do fazendeiro Gustavo de Oliveira.
Udelino havia desenhado, em 1952, a bandeira de União de Jeovah, atribuindo-lhe determinados significados. Dos seus pendores criativos resultou, segundo Vilaça (2014, não paginado), o símbolo, “[...] a bandeira do estado de ‘União de Jeovah’, com seu campo retangular verde e faixa diagonal branca a sinalizar a colonização daqueles confins ainda tomados por matarias [...]”.
Uma bandeira do novo Estado era hasteada em cada lugarejo ou fazenda que a aceitasse. A sede do governo, o barracão de madeira, como informa Dias (1984, p. 56) com base no relatório Djalma Borges, era “[...] uma construção rústica de 11 metros de comprimento por 8,70 de largura [...]”, também conhecida como Casa de Tábua, e estava situada no Patrimônio de União de Jeovah, nas proximidades da Vila de Cotaxé, a qual, segundo Udelino, seria a capital de União de Jeovah. Assim, como informa Vilaça (2014, não paginado), “[...] o efêmero estado de ‘União de Jeovah’, datado na primeira metade daquela década, instalou seu governo provisório em Cotaxé, distrito do município capixaba de Ecoporanga”. Ressalve-se que, à época de Udelino, Cotaxé era apenas uma vila no distrito de Ecoporanga, distrito do então município capixaba de Joeirana, considerando-se que Ecoporanga só seria emancipado e efetivamente transformado em município em 1955.
O hino de União de Jeovah, cuja letra é composta por alguns versos de um poema denominado A Canção do Lavrador, letra de autoria do poeta camponês José das Virgens22, foi designado como o hino oficial do novo Estado. Os versos
22José das Virgens, agricultor e cooperativista baiano, havia chegado a Cotaxé, coincidentemente, na
mesma época da viagem de Udelino ao Rio de Janaeiro, em maio de 1952. Nada se sabe sobre as circunstâncias sob as quais ocorreu contato entre os dois para o aproveitamento do poema como letra do hino de União de Jeovah.
fortes, nos quais eram cantadas as esperanças do campesinato, propunham a união e louvavam a determinação dos camponeses. A transcrição parcial explica-se por si:
É segredo revelado / O poder da união / Para tê-lo confirmado, / Basta o encontro das mãos. / Se dois unidos são fortes, / Um milhão detém a morte / Na garganta do canhão. Os lavradores unidos, / No ideal e na ação, / Breve verão resolvidos / Os problemas da Nação. / Tornando mecanizada / Esta lavoura atrasada / Que recebemos de Adão / Temos varrido o desgosto/ De só com o suor do rosto / Amassar o nosso pão (VILAÇA, 2007, p. 108-109).
O hino arrancava aplausos, até mesmo lágrimas, onde fosse cantado. Para aquela gente simples, tudo estava aparentemente se encaminhando para tornar real a existência do Estado União de Jeovah. A estrutura estatal estava sendo organizada e a população aumentava a cada dia. Crescia também a certeza da efetivação dos seus sonhos de se tornarem proprietários rurais. União de Jeovah, aos poucos, se configurava na mente e nos corações dos posseiros como a materialização do sonho de garantir a regularização das posses, a titulação oficial da terra, enquanto Udelino aparecia como o seu grande e incontestável líder.
Udelino representava, devido a sua religiosidade, a imagem de um santo, de um homem enviado por Deus para fazer justiça aos seus, mesmo que essa justiça viesse com o uso de armas. Este pai protetor era respeitado e amado pelo povo da região e, por sua simplicidade e carisma, conquistava e manipulava a todos sem maiores dificuldades. Corrêa (1997), em reportagem publicada na revista Veja, em outubro, define com razoável precisão a personalidade do protetor, santo e justiceiro: “[...] Udelino pregava como místico e combatia como jagunço. Tinha o costume de degolar adversários, mas ensaiou ali uma versão primitiva de reforma agrária (CORRÊA, 1997, p. 97)”. Contudo, pelas pesquisas efetuadas, a referência à degola de adversários deve ser tomada com extrema reserva, ainda que também apareça em outros textos.
Mesmo com a estreita relação de Udelino com políticos locais, teria peso significativamente negativo no desfecho do movimento jeovense o seu evidente isolamento físico-geográfico, o fato de abranger uma área, além de reduzida, distante e praticamente desconhecida. Além disso, é notório, também, o isolamento social do movimento jeovense, pelo fato de não estar articulado com qualquer
entidade de natureza institucional, conforme ocorria com outros movimentos organizados existentes no país naquele mesmo período e, tampouco, com outros movimentos sociais ou políticos com linhas programáticas razoavelmente definidas.