AVRUPA BİRLİĞİ’NDE AZINLIK KAVRAMI 2.1 AB’de Azınlıklara İlişkin Çalışmaların Genel Çerçeves
2.3. AB’DE AZINLIKLAR KONUSUNDA SON DÖNEM GELİŞMELER
2.3.3. Üye Ülkelerden Mevzuat ve Uygulama Örnekler
2.3.3.6. Yunanistan Örneğ
Toda a narrativa, como todo ato de comunicação, pressupõe um destinatário da mensagem do emissor. Gerald Prince afirma que o narratário é a entidade a quem o narrador se dirige e, assim como este, também é fictícia. Morten Nøjgaard destaca a correlação existente entre os conceitos de narrador e narratário, peculiarmente distinta dos conceitos, também correlativos, de autor e leitor. Segundo Nøjgaard, o narratário é o receptor primário do texto na comunicação literária, pois este não chega sem intermediário do narrador ao leitor real, passando por essa “função receptiva que é o paralelo exato da função do emissor do texto”.4 Como o narratário nem sempre é interpelado diretamente pelo narrador, o leitor às vezes nem tomaria conhecimento de sua presença.
Também se faz necessária, para a análise subsequente, uma distinção entre os conceitos de receptor e destinatário. A mensagem sempre é endereçada, implícita ou
1“O que ele fazia, bem, ele, ela hesitou, o morto ela não queria dizer, também o tempo gramatical não estava certo, como aliás quase nunca, quando se fala de recém-falecidos, é – em termos gramaticais – uma espécie de limbo temporal, no qual os que ficaram se movimentam, até o enterro do falecido.”
(TIMM, 2001, p. 57)
2A tradução é, igualmente, “o que ele fazia?”
3 „Sie lachte, nahm meine Hand, was sie in der letzten Zeit immer häufiger tut und was mich immer wieder rührt, küßt die Knöchel, und ich freue mich jedesmal, daß ich noch keine Altersflecken habe“. (grifos meus) (TIMM, 2001, p. 58)
4“[…] the communicative situation suggested by the literary text presupposes also the implicit presence of a receptive function which is the exact parallel of the function of the sender of the text”. (NOJGAARD, 1979. p. 59)
explicitamente, ao destinatário. O receptor, por sua vez, é todo aquele que tem acesso à mensagem, bem como condições de decodificá-la. Entretanto, o destinatário pode não vir a ser, necessariamente, receptor da mensagem que a ele se destina, assim como o receptor pode receber uma mensagem que não se destinava, originalmente, a ele. Segundo Vítor Manuel de Aguiar e Silva, o texto literário pode apresentar destinatários extratextuais, como ocorria nas dedicatórias comuns em textos até o século XVIII, ou intratextuais, categoria na qual se encaixa “esse destinatário interno ao texto narrativo, instância interlocutora do narrador, que Gerald Prince designa como narratário”.1
Edgar Wibeau se dirige a seus destinatários como “pessoal”: “Eu não sei se alguém entende, pessoal”2 ou “Eu aconselho a vocês totalmente, pessoal, [...]”.3 Thomas Linde, em consonância com a estrutura do discurso fúnebre e com os ouvintes com quem lida em sua profissão, endereça seu discurso a uma “comunidade enlutada” imaginária: “[...] respeitável comunidade enlutada, vocês perceberam isso?”,4 ou “[...] talvez vocês tiveram uma falsa impressão”.5
A partir do que lhes é dito, é possível delinear um perfil desses destinatários intratextuais e definir quem são. Assim, pela forma de Edgar se comunicar com o “pessoal”, é fácil de perceber que se trata de jovens de sua idade. A cumplicidade, o uso de expressões e de gíria típica dos adolescentes da RDA no início da década de setenta, presentes no discurso do narrador, não deixam dúvidas de que ele está a se dirigir a jovens de sua própria geração. Por isso, parece haver uma continuidade em relação ao que ocorria em vida, quando o principal interlocutor de Edgar era o parceiro Willi, a quem mandava fitas gravadas com trechos de Werther e que melhor o compreendia: a comunicação entre os dois rapazes, membros da mesma geração jovem, não requeria mais que meias palavras para ser bem sucedida.6
No caso de Vermelho, também é possível traçar um perfil da “respeitável comunidade enlutada” a que Linde se dirige: trata-se da sociedade alemã pós-Reunificação, especialmente a geração mais jovem, a quem o narrador conta sobre o passado de 1968. É possível constatar que os destinatários ou não são membros da »geração de 68« ou não foram ativos no Movimento Estudantil, porque a presença de determinadas informações e esclarecimentos
1 SILVA, 1990, p. 307.
2 „Ich weiß nicht, ob es einer begreift, Leute“. (PLENZDORF, 1976, p. 116) 3 „Ich kann euch nur raten, Leute [...]“. (PLENZDORF, 1976, p. 77)
4 „[...] sehr verehrte Trauergemeinde, ist Ihnen das aufgefallen?“ (TIMM, 2001, p. 168) 5„[...] vielleicht haben Sie einen falschen Eindruck bekommen“. (TIMM, 2001, p. 359)
6 “[...] nós nos entendíamos até com meias palavras”: „[wir] verstanden [...] uns aufs Stichwort“ (PLENZDORF, 1976, p. 65)
seria desnecessária para quem participou dos acontecimentos. Portanto, conclui-se que os supostos ouvintes são de uma geração posterior ou, pelo menos, não compartilham a visão de mundo da geração do narrador. Em Os novos sofrimentos do jovem W., o “pessoal” assume o papel de destinatário que Willi ocupava durante a vida de Edgar. Em Vermelho, de forma semelhante, o narrador transfere a função de interlocutora que Iris ocupava enquanto ele estava vivo para a “comunidade enlutada”, também formada, predominantemente, pela nova geração, a quem dirige seu último discurso.
Quando digo que a “comunidade enlutada” constitui-se nessa nova geração, não pretendo excluir ouvintes eventualmente mais velhos do auditório mental de Thomas Linde, mas mostrar que esse discurso funerário realizado para si mesmo e para a geração de 68 é endereçado à geração seguinte, àqueles que representam uma nova visão de mundo, um novo modelo de leitura da realidade sócio-política que vem substituir aquele cunhado pela geração do Movimento Estudantil, segundo Aleida Assmann, na década de noventa (Post-Wende-
Deutschland). Também em Os novos sofrimentos do jovem W. o todo da obra ultrapassa a
comunicação entre narrador e narratários. Fora do texto, outras instâncias deveriam sentir-se interpeladas pelo discurso de Edgar Wibeau, além daquelas a que ele se dirige: os adultos – pais, professores, autoridades –, que, de fato, teriam podido atuar no sentido de uma mudança das condições e de uma integração melhor sucedida de jovens “outsiders” na RDA.
Entretanto, embora Linde se dirija a essa “comunidade enlutada”, lembro que sua narrativa é um monólogo interior, de maneira que não poderiam existir outros receptores além do próprio narrador. Coloca-se, então, a pergunta sobre a identidade dos destinatários e dos
receptores de Linde. Se o narratário é aquele a quem o narrador se dirige, então os narratários
de Vermelho são os “respeitáveis enlutados”. Entretanto, como um monólogo interior não possui destinatários externos, o narrador-protagonista é o receptor do próprio discurso, à semelhança de um diário. O balanço de vida que Linde realiza nesses últimos instantes pode ser entendido como uma prestação de contas exigida pela morte e necessária para morrer em paz consigo mesmo: com isso, o romance se apóia na ideia de que o “filme” e o “balanço” de vida são ocorrências típicas de situações liminares como aquela em que o protagonista se encontra.
A continuação da análise exige a conceituação do leitor implícito. Wolfgang Iser dá esse nome à imagem de leitor construída pelo autor. O leitor implícito é uma construção textual que “não tem existência real; pois ele materializa o conjunto das pré-orientações que
um texto ficcional oferece, como condição de recepção, a seus leitores possíveis”,1 antecipando a presença do receptor, que, por sua vez, atualizará o texto através do ato da leitura. O conceito de leitor implícito de Iser é semelhante ao de narratário, mas, enquanto este assume o papel de destinatário, representado ou não na narrativa, o leitor implícito, através dos procedimentos e técnicas discursivas utilizadas, configura-se em um modelo para o leitor real, esclarecendo o que o autor espera dele. Enquanto o destinatário ou narratário está no mesmo nível que o narrador, o leitor implícito é uma função paralela do autor implícito. Ou seja, o narrador estabelece contato com o narratário, mas o leitor implícito foge à sua esfera de controle, pois é uma estrutura textual decorrente das expectativas depositadas pelo autor em seus leitores empíricos, cujo perfil pode coincidir ou não com o do narratário.
Dentro da ficção de Vermelho, os destinatários ou narratários não chegam a ser receptores da mensagem do narrador. Mas, embora no nível intratextual os “respeitáveis enlutados” não passem de uma projeção, já que a narrativa não ultrapassa os limites da consciência de Thomas Linde, eles se tornam uma dimensão correlata do leitor implícito, fazendo com que, no nível extratextual, os leitores empíricos possam identificar-se prontamente com eles, sintam-se interpelados. Por representarem, dentro do texto, as expectativas do narrador em relação a um suposto auditório, eles correspondem à estrutura do leitor implícito, que consiste nas projeções do narrador a respeito do público leitor.
De forma análoga ao leitor implícito, o autor implícito, descrito por Wayne Booth, é uma versão implícita que o autor cria de si próprio quando escreve, um “alter ego” de quem o leitor construirá uma imagem. Ele não é, para Booth, o mesmo que narrador, que seria, como as personagens, apenas mais um elemento criado: o “eu” da obra (narrador) não é igual à imagem implícita do artista. O sentido do autor implícito pode ser apreendido através de significados, conteúdos, ações das personagens; da percepção intuitiva de um todo artístico completo; ou da percepção do principal valor com que ele se comprometeu, o que a forma total, a obra como um todo exprime. O estilo, o tom e a técnica também auxiliariam na definição do autor implícito, uma vez que podem nos fazer perceber a diferença existente entre ele e o narrador dentro do texto.2 Logo, o autor implícito é “voz que paira na superfície do texto”, cuja intencionalidade pode coincidir ou não com a do narrador e se constitui nas projeções feitas pelos leitores empíricos sobre a figura do autor empírico. Ligia Chiappini esclarece que aquilo que o narrador vê ou deixa de ver se subordina a uma visão mais ampla e que o domina, que é o autor implícito. É inútil analisar exaustivamente as técnicas narrativas
1 ISER, 1996, p. 73. 2 Cf. BOOTH, 1980.
utilizadas em um texto sem ter em vista a existência do autor implícito, cuja compreensão leva “à visão de mundo que transpira da obra, aos valores que ela veicula, à sua ideologia”.1
Por isso, quando se considera o discurso de Thomas Linde como uma ficção, materializada em texto e acessível a leitores empíricos, abre-se mais um nível de interlocução, além daquele entre narrador e seu próprio eu: entre autor implícito e leitor implícito. Entre duas estruturas que estão além da esfera de controle do narrador, geradas pelo texto e percebidas pelo leitor empírico, respectivamente, como a voz que “paira acima” (ou, que está “por trás”) do discurso do narrador e como a imagem de leitor que o autor projetou no texto. A voz do autor implícito e sua “verdadeira” intenção serão reconstituídas pelo leitor a partir do contraponto da obra com os conhecimentos que possui a respeito do contexto de surgimento desta e sobre o autor. O perfil do leitor implícito será apreendido pelo leitor empírico através das informações que o texto (não apenas o narrador, mas outros elementos quiçá existentes, como editor, títulos, epígrafe, dedicatória, notas de rodapé e demais paratextos adicionados pelo autor) fornece ou não fornece, bem como através da atribuição de determinados valores e visões de mundo ao narratário.2 Assim, sabendo quais são as coisas que o leitor implícito ignora (o que lhe é informado) e quais as que ele já sabe (o que o texto não considera necessário lhe informar) o leitor empírico consegue acessá-lo.
Em Vermelho, a figura do autor implícito é especialmente importante e exerce um papel ativo na compreensão do texto, uma vez que este não possui narrador heterodiegético onisciente.3 Se em textos com narrador heterodiegético e extratextual, narrador e autor implícito são instâncias difíceis de serem separadas, sendo que normalmente o leitor projetará sua imagem do autor sobre o narrador, a diferença entre narrador e autor implícito chama mais atenção em textos de narrador homo ou autodiegético, como Vermelho e Os novos
sofrimentos do jovem W.. Neles, a transmissão do ponto de vista subjetivo do narrador,
somada à inexistência da perspectiva autorial faz com que os leitores recorram ao autor implícito, a fim de elucidar o texto a partir da suposta intenção do autor.4
1 MORAES LEITE, 1997, p. 19.
2 De acordo com Morten Nøjgaard, uma série de valores e avaliações acompanha a narrativa de uma maneira indireta, podendo causar, no leitor real, a ilusão de que ele mesmo reage aos fatos, quando, na verdade, tal reação é determinada pelos juízos de valor fornecidos pelo próprio texto, através das reações do narratário.
3 Vale lembrar que narradores autodiegéticos, como Linde e Edgar, não são oniscientes; eles conhecem apenas os próprios pensamentos, mas não têm acesso ao que se passa na consciência de outras personagens, enquanto narradores heterodiegéticos podem descrever os estados psíquicos de todos os atores, caracterizando-se como oniscientes.
4 Não há dúvida de que os leitores empíricos se apóiam em uma determinada imagem de autor e se perguntam: “O que Plenzdorf/Timm quis dizer com isso?” Sem uma contextualização a respeito de Ulrich Plenzdorf e Uwe Timm, bem como sobre a antiga RDA e a geração de 68, a compreensão dos trechos literários citados e, inclusive, do presente texto por parte dos leitores que não possuíssem tais pré-requisitos seria bastante limitada.
Além do diálogo estabelecido entre narradores e narratários, de que falei acima, quero ressaltar novamente outras interlocuções, provenientes de diálogos entre personagens, entabuladas dentro da diegese. Estas contribuem para uma multiplicação das vozes, característica tanto de Os novos sofrimentos do jovem W. como de Vermelho e atestam que a função de emissor e destinatário alterna-se e desloca-se, ao longo dos textos, entre o narrador, os narratários e as personagens.
Willi, Charlie e Addi são destinatários de Edgar, pois ele os interpela, embora não se tornem receptores, pois não ouvem o que ele diz. O pai se destaca como destinatário de narrativas curtas a respeito da vida de seu filho, que formam, juntas, uma narrativa fragmentada acessível também a Edgar e a seus narratários, o “pessoal”. Como já mencionamos acima, Willi recebe as mensagens cifradas que Edgar envia a Mittenberg, o que o torna também a ele um interlocutor importante. Além disso, Edgar reproduz diálogos que manteve, em vida, com Flemming, com o professor da Academia de Belas Artes, com Charlie, Dieter, Addi, Zaremba e com o próprio pai, que não o reconheceu durante sua visita. A presença de vários diálogos entre diferentes personagens aporta perspectivas variadas dentro do grande diálogo que Edgar estabelece com os narratários. Ainda é trazida para dentro do texto, através das citações, a voz de Werther, por meio da qual também temos acesso às vozes de Wilhelm e da mãe de Werther, nos momentos em que este reage quanto a algo que o amigo supostamente lhe escreveu: “A culpa é de todos vocês, que, por meio de belas palavras, me fizeram aceitar este jugo, pregando-me constantemente a necessidade de uma vida ativa! Vida ativa!...”.1 Tudo isso caracteriza um discurso altamente polifônico.
Em Vermelho, o monólogo interior de Thomas Linde também é composto, em grande parte, por diálogos mantidos com outras pessoas, ao longo de sua vida, o que contribui para a alternância das funções de emissores e destinatários. As lembranças do narrador revelam e reproduzem suas constantes conversas com Iris, Ben, Nilgün, Edmond, Krause, a mãe, Lena, Sylvilie e outros mais, cujas vozes são transportadas para dentro de seu discurso, instituindo intensa polifonia. Os discursos fúnebres elaborados para várias pessoas, a reprodução de suas histórias de vida e de trechos de alguns discursos realizados anteriormente contribuem, ainda, para enriquecer essa “orquestra”. Entretanto, trata-se sempre de “lembranças de interlocuções”, que ocorrem exclusivamente dentro da consciência do narrador em um espaço de tempo impossível de ser precisado, entre o atropelamento e a morte. Destaco novamente as conversas de Thomas com Iris: as perguntas da moça sobre o passado são ensejo para o
1 „Und daran seid ihr alle schuld, die ihr mich in das Joch geschwatzt und mir so viel von Aktivität vorgesungen habt. Aktivität!...“. (PLENZDORF, 1976, p. 100) Referência da citação em português: GOETHE, 2003, p. 282.
narrar, além de ter o poder de despertar outras lembranças. Embora sempre mediadas pela voz de Linde, a presença de tantas vozes diferentes sinaliza a interação e o imbricamento de discursos, constitutivos e característicos da linguagem viva.