OSMANLI’DAN GÜNÜMÜZE TÜRK KÜLTÜRÜNDE AZINLIKLARIN KONUMU
3.1. Osmanlı Devletinde Gayrimüslimlerin Hukuki Durumu
No início deste capítulo, colocou-se a pergunta sobre a especificidade de narradores “defuntos” em relação a narradores autodiegéticos “comuns”. A proximidade obtida junto ao leitor real por um narrador que conta sua própria história dirigindo-se a seus narratários de forma direta é comum aos dois e provoca, tendencialmente, a adesão do leitor às opiniões e posicionamentos da voz enunciadora e, eventualmente, também aos do autor implícito. Some- se a isso o fato de que, por terem atravessado ou estarem atravessando a fronteira entre a vida e a morte, tais narradores possuem uma experiência que os torna muito mais autorizados a falar sobre a vida e a dar conselhos. No caso de narradores como Edgar Wibeau e Thomas Linde, a costumeira proximidade emocional entre leitor e narrador aumenta ainda mais, tendo em vista a circunstância da morte, pela compaixão que ela naturalmente provoca: “o que arrasta o leitor para o romance é a esperança de aquecer sua vida enregelada numa morte que
ele vivencia através da leitura”,1 escreve Walter Benjamin. O filósofo também observa que o sentido da vida de uma personagem romanesca só é decifrado a partir de sua morte. Para Os
novos sofrimentos do jovem W. e Vermelho vale a constatação de Hans-Georg Gadamer,
segundo a qual a compreensão só ocorre de forma satisfatória a partir do distanciamento temporal: Wibeau e Linde estão aptos a compreender melhor sua vida, no momento em que seu círculo se fechou, em que nada mais pode ser acrescentado ou mudado, quando a vida já se tornou um texto que se abre para diferentes interpretações. Em Os novos sofrimentos do
jovem W. temos acesso a outras interpretações do texto da vida de Edgar, através das vozes de
outras personagens; em Vermelho, dispomos apenas da perspectiva do próprio Linde.
Walter Benjamin descreve o narrador como alguém que, a partir da transmissão das próprias experiências, compartilha informações importantes, aconselhando a comunidade. Para Benjamin, “a vida vivida [é] a matéria de onde surgem as histórias”. Essa matéria, contudo, “assume forma transmissível primeiro naquele que morre”, a cujos “gestos e olhares incorpora-se de repente o inesquecível e transmite, a tudo que lhe disse respeito, a autoridade de que até o mais miserável pé-de-chinelo dispõe diante dos vivos, na hora de morrer. Esta autoridade está na origem da narrativa”.2 Portanto, a narração que ocorre no momento da morte possui, além do costumeiro compartilhar da experiência, uma autoridade muito maior do que qualquer outra forma de transmissão.
Com isso, é possível não apenas dar continuidade à tradição, mas também, como atestam Os novos sofrimentos do jovem W. e Vermelho, evitar a repetição dos erros cometidos no passado pelas gerações futuras. Essa é a causa do tom autocrítico do discurso de Edgar Wibeau. Após sua morte, a personagem reconhece seus erros – entre eles, nunca querer desagradar sua mãe e não dar importância ao fato de que um dia iria morrer – e exorta os ouvintes a não cometê-los. A incerteza e o arrependimento são ainda mais patentes no discurso de Thomas Linde. Se, por um lado, sente-se culpado por ter se afastado dos ideais de sua geração, é certo que se desiludiu deles por causa de seus efeitos errôneos, presentes tanto em atentados terroristas quanto no Socialismo Real. Contudo, ele considera a postura a- política e indiferente da maioria da geração seguinte negativa também e, por meio de seu último discurso, procura contrapor a essa postura valores positivos da geração de 68. Se o
1 BENJAMIN, 1983, p. 69. Citação no original alemão: „Das was den Leser zum Roman zieht, ist die Hoffnung, sein fröstelndes Leben an einem Tod, von dem er liest, zu wärmen“. (BENJAMIN, 1977, p. 457)
2 BENJAMIN, 1983, p. 64. Trecho no original: „Nun ist es aber an dem, daß nicht etwa nur das Wissen oder die Weisheit des Menschen sondern vor allem sein gelebtes Leben – und das ist der Stoff, aus dem die Geschichten werden – tradierbare Form am ersten am Sterbenden annimmt. [...] so geht mit einem Mal in seinen Mienen und Blicken das Unvergeßliche auf und teilt allem, was ihn betraf, die Autorität mit, die auch der ärmste Schächer im Sterben für die Lebenden um ihn her besitzt. Am Ursprung des Erzählten steht diese Autorität“. (BENJAMIN, 1977, p. 449-450)
narrador apresenta, principalmente, exemplos de sua vida a não serem seguidos, como a resignação, o ceticismo e o medo de ser rejeitado, de seu discurso também aflora a defesa de sua visão de mundo relativista, que rejeita verdades absolutas tanto marxistas como do liberalismo, de seu gesto humanista, pois se sensibiliza com sofrimento alheio, e estético, pois ama o belo. Essa visão de mundo torna-se exemplar e, mesmo indiretamente, o texto exorta a segui-la. Evidentemente, Linde não possui uma visão simples e homogênea dos sonhos cultivados pela juventude em 68, nem crê que todos eles continuem válidos. Não há, por parte do narrador, o desejo de que a geração seguinte assimile seus valores e dê continuidade a eles, mas ele quer uma avaliação menos negativa de sua geração nos discursos atuais, espera pelo reconhecimento de sua contribuição. Se o passado não fica impune ao presente, este tampouco se revela superação definitiva daquele, daí os constantes e conflitantes auto-questionamentos da personagem.
Constata-se, além disso, que retomar os eventos vividos, como fazem nossos narradores – um deles já “do outro lado” (aus dem Jenseits); o outro ainda “do lado de cá” (im
Diesseits) – e realizar uma avaliação, um balanço de vida, possibilita uma espécie de reconciliação, fundamental no momento da morte. Os textos de Plenzdorf e de Timm nos mostram, dessa maneira, que a ficção reflete a necessidade que o ser humano sempre teve de morrer em paz consigo, com a família, com a sociedade e com Deus. Esta se evidencia no sacramento da extrema-unção e na frequência com que rancores familiares são anulados pelo perdão concedido ou obtido no leito de morte. Por isso, Edgar Wibeau precisa explicar que sua fuga e sua “rebeldia” não foram gratuitas, enumerando razões que o levaram a romper com família e sociedade. Isso também explica sua necessidade de deixar claro a todo o instante que “não tem nada contra...” isso ou aquilo: não é o momento de acirrar desavenças, mas de perdoar e ser perdoado. Embora advogue a favor de si, Edgar reconhece sua parcela de culpa. Por sua vez, Thomas Linde não teve tempo de se preparar para sua morte e precisa realizar seu balanço de vida para si mesmo, dentro da própria consciência. Na falta de interlocutores, ele projeta seu discurso sobre a geração mais jovem, interpelando-a como “comunidade enlutada”. Em outros momentos, fala para si mesmo e ainda dá voz a outras instâncias, como o Anjo da Vitória e Aschenberger, evidenciando uma cisão interna. Também Linde busca reconciliação, tanto consigo mesmo como com os valores de sua geração e com a sociedade atual. Com seu balanço de vida, ele quer se certificar de que sua vida foi singular, que teve sentido, que valeu a pena.
Em sua análise de Vermelho, Hans-Peter Ecker afirma que literatura e retórica funerária possuem funções correlatas, quais sejam, conservar e reter a vida, além de lidar com
a experiência da perda. Oliver Jahraus, apoiando-se em pesquisas egiptológicas, chama a atenção para a ligação da escrita com a morte. Para os antigos egípcios, gravar palavras em pedras demandaria esforço, mas, em troca, forneceria durabilidade, talvez eternidade. Assim, transferir-se-ia uma vida passageira, medialmente, para uma história escrita. A literatura nasceria a partir desse gesto, que, tendo em vista o fim da vida, seria um meio de fornecer lembranças. Jahraus caracteriza, assim, a literatura como medium da morte. Por sua vez, a palavra falada, o discurso oral, seria um meio de presentificar-se algo. A conexão entre morte e narrativa é, portanto, incontestável. Plenzdorf e Timm aproximam-se, com seus narradores mortos, da essência mesma da narrativa, que existe em função da finitude humana. Ela salva da morte, supera-a. Se estamos condenados a perecer, nossas histórias são a única maneira de garantir que não desapareçamos totalmente. Nesse sentido, a narrativa dá durabilidade ao conteúdo da vida e, por extensão, a ela mesma: conferindo-lhe formato discursivo, o narrar a eterniza e possibilita uma recorrência, impedindo que seja esquecida.
Em um de seus discursos Thomas Linde afirma: “O status da morte é paradoxal. Ele encarna justamente a presença da ausência. Isso é o inconcebível, o choque para todos nós, ela ainda está lá, a pessoa habitual, amada, o morto, e também já não está”.1 Com essa presença do ausente se confrontam os enlutados quando sofrem uma perda, sentindo na lembrança a presença insistente do ente querido que, contra o habitual, está ausente. O mesmo tipo de presença ausente é aquela do tempo passado que permanece no presente. Aquilo que não é
mais permanece como “vida vivida” dentro daqueles que ainda são.2 Isso vale para a história nacional, vivenciada por gerações marcadas por eventos ocorridos no passado. E também vale para Edgar Wibeau, que apesar de ter morrido jovem, espera continuar existindo na memória dos que ficam, e para Thomas Linde, que experimenta a transição entre estar e não estar mais no mundo.
Ambos os textos estão assentados num paradoxo, pois a morte caracteriza ausência e a faculdade de narrar, presença. Mas esse paradoxo não os torna de forma alguma inviáveis: assim como o ser, conforme Heidegger, é um ser para morte, também o narrar é para a morte, servindo para conservar a memória daquilo que foi, dar-lhe durabilidade. Assim, embora a transitoriedade seja a única certeza na vida, a permanência é a esperança daquele que narra.
1 „Der Status des Todes ist paradox. Er verkörpert eben das, die Anwesenheit der Abwesenheit. Das ist das Unbegreifliche, der Schock für uns, noch ist er da, der vertraute, geliebte Mensch, der Tote, und doch nicht mehr“. (TIMM, 2001, p. 24)